Capítulo 04: A verdade é que... sou um assassino
O tempo passou-se rapidamente e em um piscar de olhos um ano já havia se passado desde o dia em que nos conhecemos.
Por insistência de Naruto, eu matei um pequeno javali e preparei a sua carne em uma fogueira. Um pequeno churrasco improvisado para comemorar o dia em que nos conhecemos. Nós aproveitamos a comida e mais tarde fomos relaxar na margem do rio.
Eu apenas sentei em uma pedra e assisti a felicidade dele enquanto corria de pés descalços na beira do rio, algo que apreciava muito fazer, mas que raramente tinha oportunidade. Ao ver o sorriso em seu rosto me lembrei daquele dia em que o encontrei, foi a primeira vez que alguém me agradeceu por algo que fiz.
Somando aquele ano em que o conheço, com o tempo em que vivi na floresta antes de conhecê-lo, daria seis anos que tinha deixado a minha antiga vida para trás.
— Parando para fazer os cálculos, acho que foi nessa semana... — comentei distraidamente, atraindo a atenção de Naruto que curioso perguntou:
— O que foi nessa semana?
— Meu aniversário — respondi sem muito interesse.
— ... O quê!? Isso é verdade? Quantos anos está fazendo? Não, espera... Por que não me disse isso antes!? E agora?... Não preparei nada... Isso é ruim, muito ruim — Ele andava de um lado para o outro com uma expressão preocupada. Expressão essa que me fez dar um sorriso.
— Se acalme Naruto, não é grande coisa, afinal eu nunca comemorei o meu aniversário — expliquei calmamente, tentando tranquilizá-lo.
— Não fale assim... O seu aniversário é muito importante para mim, porque é o dia em que você nasceu. E se você não tivesse nascido, eu nunca teria te conhecido — disse-me com um sorriso no rosto, como se o que acabara de dizer fosse a lógica mais normal do mundo... o que estava longe de ser uma verdade.
— Você parece feliz — observei ao ver aquele brilho alegre em seu olhar.
— É claro que estou feliz, pois finalmente descobri uma coisa sobre você! Pela primeira vez desde que te conheci, você me falou algo sobre si mesmo, estou mais do que feliz — encerrou com um sorriso envergonhado e bochechas levemente coradas.
Eu mal podia acreditar, entretanto mais uma vez ele me surpreendia com suas ações. O simples fato de saber a data do meu aniversário o deixou extremamente feliz, ele não se parecia com ninguém que eu já havia conhecido. A sua capacidade de chorar ou sorrir por coisas tão triviais, era um dos motivos pelo qual tinha tanto interesse naquele garoto.
— Você realmente quer me conhecer melhor, não é? — perguntei já sabendo qual seria a sua resposta, resposta essa que veio logo em seguida com um balançar de cabeça afirmativo. — Tudo bem, nesse caso eu vou te contar... Na verdade você tem o direito de saber — expliquei desviando os meus olhos dos seus e direcionando a minha atenção para a água, enquanto usava alguns minutos para criar a coragem necessária para dizer-lhe tudo aquilo.
— Tenho muito o que falar sobre mim, mas vou falar apenas o principal, isso deve ser o suficiente — comecei, sem conseguir evitar a tristeza em minha voz ao proferir as últimas palavras. "Sim, aquilo seria o suficiente... Porque depois de ouvir o que tenho a dizer, ele nunca mais irá falar comigo novamente." Disse a mim mesmo em pensamentos.
— Hoje estou completando vinte e um anos, tirando os últimos seis anos em que estive nessa floresta, eu morava com meu pai e estava frequentemente trabalhando. A tatuagem no meu braço é a marca das Forças Anbu, um esquadrão de elite especializado em realizar missões extremamente difíceis para pessoas importantes. Dentre as missões, eu era especialista em... assassinato.
Esperei alguns segundos por sua reação, mas ela não apareceu, então decidi continuar. Tinha que dizer tudo de uma única vez, pois se eu parasse, nunca mais voltaria a falar. — Lobo, esse era o meu codinome enquanto estava na Anbu — acrescentei antes de continuar:
— Uma vez você disse que queria ver meu rosto, naquela ocasião lhe respondi que se você o visse não poderíamos mais ser amigos, e o motivo é esse. Por ter matado muitas pessoas tenho muitos inimigos, portanto ver o meu rosto é perigoso, estar próximo de mim é perigoso... eu sou perigoso. Afinal, sou um assassino — encerrei antes de finalmente olhar em seu rosto e encontrar apenas um rosto sem expressão, provavelmente ele estava em choque.
— ... Tirar a vida de outras pessoas é algo ruim... então você é mau? — perguntou ainda tentando compreender tudo o que eu havia acabado de dizer.
— Eu acho que sim — respondi honestamente. Embora eu não matasse porgosto ou por diversão, e sim por obrigação, o fato de que tirei muitas vidas humanas não iria mudar.
— Você pode tirar a sua máscara por um momento... não se preocupe, eu não vou olhar — Ele fechou os olhos e deu alguns passos em minha direção, parando em minha frente. Tudo estava mais calmo do que eu esperava e suas ações estavam mais estranhas do que o normal, mas resolvi apostar e ver no que ia resultar. Retirei minha máscara do rosto e disse "pronto", sentindo suas mãos se erguerem e tocarem minha face
Ele acariciou levemente minhas bochechas e depois subiu uma de suas mãos até a minhatesta, de onde retirou alguns fios de cabelo de minha franja e então... mais uma vez naquele dia ele me surpreendeu, aproximando-se e colando seus lábios na parte exposta de minha testa. Foi um movimento tão inesperado quanto uma facada, com a diferença de que o resultado não foi nada ruim.
— Naruto...? — Eu queria perguntar o que foi aquilo, mas ao ver um sorriso em seu rosto quando se afastou, me calei imediatamente e esperei pela sua explicação.
— Obrigado por ter me contado a verdade sobre quem você é e... Feliz aniversário — disse-me antes de se aproximar outra vez e me abraçar por cima dos ombros, aproveitando-se do fato de que eu estar sentado e ao seu alcance.
— Você escutou o que eu disse? — perguntei um pouco confuso. Eu tinha certeza de ter dito tudo o que precisava dizer, mas então por quê?... Por que ele ainda estava ali e ainda por cima... tão perto.
— Eu ouvi. Você fazia coisas ruins antes de me conhecer. Mas, para mim isso não importa, porque você é meu amigo. O lobo que eu conheço é muito inteligente, mandão e bom em caçar animais, eu não conheço o outro e além disso... eu te amo, por isso o passado não importa — explicou apertando-se mais contra mim, era como um pedido mudo que dizia: "Não se afaste. Eu não me importo com o seu passado, apenas não se afaste."
— Você é realmente um garoto estranho — comentei sem conseguir conter o sorriso, enquanto colocava novamente a minha máscara e depois o afastava levemente pelos ombros para poder falar com ele. — Escuta Naruto. Você não pode sair por aí dizendo que ama as pessoas, isso está errado — Tentei adverti-lo, mas ele não pareceu se importar, apenas dando de ombros e dizendo:
— Minha mãe disse que quando gostamos muito de uma pessoa, nós amamos. Então eu te amo — Insistiu sorrindo em minha frente outra vez.
— Acho que o "gostar" de amigos não é o "gostar" ao qual ela estava se referindo — comentei enquanto pensava em voz alta.
— Quem se importa? É gostar igual. Mudando de assunto... E você. Você gosta de mim? — perguntou parecendo curioso para ouvir a resposta.
— Eu gosto de você... mas só um pouquinho — respondi fazendo-o mostrar um bico de desagrado. — Sinta-se honrado, é mais do que eu já senti por qualquer outra pessoa. Agora vá para casa, está ficando tarde — alertei antes de me levantar e ir pegar seus sapatos para que ele os coloca-se.
— Ei Lobo, quanto é "um pouquinho"? Você não me odeia não é?... Hein?.. Ei!? Me responde! — insistia preocupado com minha resposta.
Pensei em dizer-lhe a verdade, algo como: "se gostar muito de uma pessoa, significa amar. Então com certeza eu te amo também"... Porém não sabia se era o certo a se fazer, pois mesmo que ele não percebesse ou se importasse com as diferenças entre gostar, eu era um adulto e estava bem ciente delas. Dizer que amo-o teria um significado diferente do "amor" que ele supostamente sente por mim.
