Capítulo 06: Ele não vai ser uma criança para sempre

Precisava dizer algo para evitar que aquilo acontecesse, mas as palavras não saíam de minha boca. E antes que eu conseguisse formular algo decente para dizer, sua voz novamente se pronunciou:

— Não sei que tipo de mentiras contou ao meu filho ou o motivo para ter se aproximado dele, porém a sua companhia não lhe trará nada de bom — As suas palavras eram de alguém que acreditava seriamente em tudo o que dizia. — Quando Naruto descobrir quem você é, só vai sofrer, acabe com isso agora para que a dor seja menor. Vá embora e nunca mais volte a vê-lo.

Seu tom agora era de exigência e percebi que ele estava impondo ali não só os direitos de pai, como também a autoridade de um Hokage.

Ao ouvir suas palavras não fiquei com medo, estava furioso, realmente furioso. Sem saber de nada ele assumiu que Naruto não sabia quem eu era, que a nossa amizade não traria nada de bom ao garoto e que eu faria Naruto sofrer. Naquele momento e pela primeira vez em muito tempo, queria realmente matar alguém, e tive que usar todas as minhas forças para não transformar aquela conversa em uma luta.

— O Naruto sabe sobre isso? — questionei sério.

— Sobre o quê? — retrucou parecendo confuso.

— Sobre você querer nos afastar — Lhe expliquei enquanto um olhar mortífero escapava de meu controle e lhe era direcionado, fazendo-o dar meio passo para trás em precaução.

— Ele é uma criança, não tem o direito de opinar. Eu decido o que é bom para ele — Ao ouvir tais palavras perdi o que restava de meu controle e dei um passo a frente, pronto para seguir até ele e dar-lhe um belo soco. Porém fui detido pela presença súbita de Naruto que apareceu com um sorriso no rosto.

Durante aquela conversa estava tão concentrado em Minato que não senti a sua aproximação e era incomum ele vir até o meu acampamento, então a sua presença ali era completamente inesperada. Naruto ficou paralisado enquanto nos encarava, direcionando o seu olhar de um para outro. Mesmo uma criança podia perceber que algo estava errado ali. Ele continuou a alternar o seu olhar sobre nós até que se focou em mim e de repente pareceu se dar conta de algo e rapidamente se agachou no chão enquanto cobria seus olhos.

Por um momento fiquei sem entender nada até ouvir seus soluços e escutar sua voz desesperada... Ele estava chorando enquanto dizia: "Não vi nada, não vi nada".

Foi só então que lembrei que não estava usando a máscara e que ele havia visto meu rosto, este era o motivo de todo aquele desespero. Já não havia mais escolha, mesmo não querendo, era a hora de me afastar. Contudo não cederia aos caprichos de Minato, faria isso do meu jeito e jamais me afastaria por completo.

— Você não deve contar mentiras, Naruto — alertei-o antes de colocar de volta a minha máscara e ir até ele. Me abaixei na sua frente e senti quase que imediatamente ele se levantar e me abraçar enquanto ainda chorava, soluçava e agora tremia. Sem saber o que dizer ou sequer conseguir pronunciar uma palavra, apenas o abraçei tentando conter seu choro.

— Desculpe, desculpe. Foi sem querer... Por favor, não vá embora — ele implorava aos sussurros, se apertando cada vez mais contra mim, como se quisesse me prender com seus braços. Quanto mais tempo se passava, mais meu coração doía. Era a primeira vez que sentia algo como aquilo, nem sequer podia dar um nome para tal sentimento, mas era horrível senti-lo... tão horrível quanto sentir as batidas desesperadas de seu coração e não poder fazer nada para lhe ajudar.

— KakashiHatake, esse é o meu verdadeiro nome — sussurrei em seu ouvido para que só ele escutasse, fazendo-o então se afastar e me encarar, enquanto as lágrimas ainda desciam de seus olhos, se recusando a cessar.

— Nunca se esqueça da nossa promessa. Eu serei seu amigo para sempre, mesmo se tivermos que nos distanciar. Guarde meu nome em sua memória e nunca se esqueça dele, pois um dia eu irei voltar — garanti com confiança.

— Quando? — perguntou esperançoso.

— Quando você tiver idade o suficiente para lutar pelas suas escolhas — respondi antes de me aproximar mais do seu rosto, erguer a máscara alguns centímetro e usar meus lábios agora descobertos para beijar sua testa, imitando o movimento que ele havia feito no meu aniversário.

— Não me esqueça — Sua voz sussurrou para mim, surpreendendo-me com seu pedido.

— Nunca — afirmei enquanto abaixava a máscara e olhava em seus olhos, um último olhar para o azul que tornou-se mais presente em minha vida do que o azul do céu ou da água do rio. Toquei sua cabeça em um carinho de despedida, depois me levantei e sem hesitar comecei a caminhar para longe dele.

Ao passar ao lado de Minato que observava tudo sem dizer nada, fiz questão de dirigir-lhe a palavra e dessa vez sem respeito algum.

— O seu orgulho de Hokage e o ódio que sente pelo meu pai, te fizeram cometer o maior erro da sua vida. Guarde minhas palavras: É verdade que o Naruto e só uma criança, mas não se esqueça que um dia ele vai crescer — encerrei passando ao seu lado e seguindo o meu caminho.

Novamente deixei tudo para trás, porém desta vez senti como se minha vida estivesse desmoronando. Eu havia feito de tudo para não me apegar ao garoto, mas sem perceber aconteceu naturalmente.

Estava triste e mais ainda, estava furioso... Minato Namikaze, jamais o esqueceria, jamais o perdoaria, e tinha a sensação de que Naruto possuia esses mesmos sentimentos.

Não sabia quanto tempo levaria até encontrar Naruto novamente, porém precisava seguir com minha vida até que o dia chegasse. O fato de eu ser um assassino nunca iria mudar e não podia sair desse trabalho tão facilmente, as pessoas desse ramo nunca "saem" dessa vida por completo.

Porém, apesar de não poder deixá-la para trás, também não queria continuar nela. Pensando sobre isso, só havia uma opção e era fazer algo e ao mesmo tempo não fazer. Um trabalho onde eu pudesse usar as minhas habilidades deixando-me "ativo", porém sem precisar matar pessoas desnecessariamente.

Depois de tomar a minha decisão deixei a floresta e voltei para a cidade, entrando em contato com velhos amigos e conseguindo o básico para reiniciar uma vida, como; dinheiro, roupas e antigos contatos.

— Kayne falando — disse uma voz firme e confiante ao atender o telefone.

— Aqui é KakashiHatake. Queria saber se aquela proposta de trabalho ainda está de pé? — perguntei calmamente enquanto me escorava na parede e olhava no relógio de pulso a hora da partida do avião que se aproximava.

— Para você está sempre pronta! Com suas habilidade vai ser um ótimo guarda-costas. Venha ao meu escritório em Los Angeles e iremos acertar os detalhes para o seu treinamento — informou satisfeito.

— Certo, te vejo em algumas horas — encerrei com um sorriso, feliz por já ter preparado a minha partida de antemão. O primeiro passo foi dado, agora eu só precisaria seguir em frente e esperar até o dia em que nossos caminhos iriam se cruzar novamente.

Infelizmente esse dia demorou mais do que eu esperava. Afinal... cinco anos se passaram.

Apesar de estarmos distantes e em países diferentes, fiz o possível para acompanhar seu crescimento enquanto treinava e trabalhava.

Mesmo depois de conseguir uma licença para ser um guarda-costas tive poucos clientes, não que eu não fosse requisitado, mas a maioria deles não merecia viver, por isso não me dei ao trabalho de proteger suas vidas. Então na maior parte do tempo eu ficava na acadêmia de Kayne, um imenso galpão mal localizado onde eram realizados treinamentos de combate.

Devido ao fato de que minha experiência em combate era maior do que a dos outros, eu normalmente os ajudava a treinar e usava isso para passar o tempo. Era isso que fazia naquele dia quando recebi a sua visita inesperada.

— Hatake, você tem visita! — gritou Kayne assim que adentrou o galpão, fazendo todos olharem em sua direção. E claro, o motivo era o simples fato de eu ter uma visita, algo que nunca havia acontecido antes daquele dia.

— Oh! Quem é? Será parente dele? — disse alguém.

— Um conhecido talvez?

— Aposto que é um cliente — diziam os rapazes impacientes. Parei o meu treino no saco de pancadas e andei em meio á multidão que já se formara. Quando cheguei até lá, encontrei um adolescente loiro de olhos azuis, rindo enquanto era cercado por todas aquelas pessoas desconhecidas que lhe faziam dezenas de perguntas.

— Naruto — disse quase não conseguindo acreditar no que estava vendo. Ao proferir seu nome recebi a sua atenção imediata, assim como um sorriso. Era aquele sorriso que eu admirava, isso era uma prova de que ele realmente estava ali e que não era uma miragem.

A sua presença diante de mim depois de tanto tempo só podia significar uma coisa. Ele havia passado no teste e se tornado um aprendiz de Hokage... agora ninguém mais poderia nos separar.