Capítulo 08: O que ele me ensinou

Narração do ponto de vista do Naruto.

As duas semanas seguintes se passaram rapidamente e logo o dia havia chegado. Eu e mamãe, assim como os demais participantes e seus acompanhantes, fomos todos levados de helicóptero até uma floresta... Uma sombria floresta que trazia a mim um ar de nostalgia.

Após todos estarem reunidos, cada um teve seus pertences revelados e avaliados. Cada um de nós trouxe o que achava ser necessário para completar a prova, os pertences variavam desde barracas até suprimentos e kits médicos, o que fazia a minha pequena adaga, garrafa de água e um cobertor se destacarem.

— Tem certeza de que só vai levar isso? — perguntou o avaliador pelo terceira vez, não conseguindo acreditar no que estava vendo em cima da mesa.

— Sim. Tenho certeza — confirmei com um sorriso, atraindo olhares idiotas e sussurros incompreensíveis que não me afetavam.

— Tudo bem, os pertences foram avaliados. Vocês podem entrar na floresta, mas estejam preparados, ninguém irá ao seu resgate se precisar de ajuda. Dito isso, boa sorte e não morra — informou um homem alto com expressão fria e séria, enquanto todos ao meu redor seguiam suas ordens como um bando de cachorrinhos.

Dei uma rápida olhada para o sol que já começava a se pôr e comecei a andar na direção oposta que os outros seguiam, indo até as cabanas ao invés de ir para a floresta.

— Uzumaki, aonde está indo? — perguntou um dos responsáveis por montar e monitorar aquele teste.

— Vou dormir e irei amanhã de manhã. Acredito que não há nem um problema, já que nas regras não dizia quando eu tinha que entrar na floresta, só está especificado quando devo sair — respondi com um sorriso debochado, fazendo-os me olhar com fúria.

Eu acabara de arruinar seus planos. Pois provavelmente esperavam que eu entrasse agora e que ao cair da noite morresse ou ficasse gravemente ferido, como a maioria estaria amanhã pela manhã. Mas, não contavam com o fato de que eu conhecia os verdadeiros perigos existentes em uma floresta e que jamais agiria de modo tão tolo.

— Então... Que horas iremos amanhã?— perguntou minha mãe. Ela que não havia se pronunciava nem sequer uma vez desde que chegamos e que apenas seguia atrás de mim o tempo todo.

— Oito horas, quando o sol já estiver alto o suficiente, até lá pode ficar com o papai. Eu vou ficar sozinho, quero pensar um pouco — esclareci antes de andar em outra direção, indo até um penhasco que havia ali perto e me sentando em sua borda, enquanto aproveitava o vento e deixava meus pensamentos voltarem ao passado, para todas as lições que ele me ensinou.

Rapidamente o sol se pôs e o tempo se tornou escuro, para os infelizes que se encontravam na floresta naquele momento a situação estava prestes a piorar, pois iria chover. Mais de duas horas se passaram até que Minato veio e sentou-se ao meu lado, encarando o nada assim como eu, enquanto parecia pensar em algo sério. Vários minutos se passaram até que ele resolveu se pronunciar.

— Por que não quis entrar na floresta hoje? — questionou em um tom curioso, fazendo-me parar e pensar sobre se devia dizer a ele a verdade ou não. Depois de muito pensar decidi dizer-lhe a verdade, já que não havia motivo para esconder aquela informação.

— Nunca entre na floresta a noite, a floresta é um inimigo e não podemos lutar contra um inimigo que não podemos ver. Essa é a quinta regra da floresta, se eu prosseguisse, estaria quebrando-a.

— Nunca ouvi falar dessas regras — continuou parecendo ainda mais interessado. Voltei a encarar as nuvens que se aproximavam e sem desviar o olhar expliquei-lhe:

— Kakashi as criou... Depois de brigar comigo e me mandar ir embora dezenas de vezes, ele percebeu que eu não deixaria de ir até a floresta, então criou as regras para me manter em segurança — O silêncio começou assim que encerrei a minha explicação e permaneceu por alguns segundos até que ele o quebrou e me surpreendeu.

— Pode me dizer quais são as outras quatro regras — Virei meu rosto para observar meu pai e vi que ele estava sério. Nunca havia visto ele reagir assim depois de ouvir algo relacionado ao Kakashi. O motivo para ter me feito aquele pedido parecia ser mais do que apenas curiosidade.

— Regra n4: Não levar comida para dentro da floresta. Para animais famintos é como pintar um alvo em suas costas.

—Regra n3: Nunca carregar nada que emita brilho, barulho ou cheiro. Isso perturba os animais e entrega a sua localização.

— Regra n2: Carregue consigo apenas o necessário, de preferência uma adaga. Quando sua vida estiver correndo perigo, a quantidade e utilidade do que carrega determinará se vive ou morre.

— Regra n1: Respeite os animais e não os provoque. Eles estão em seu território natural, você é o invasor.

Quando terminei percebi surpreso que uma expressão preocupada estava em seu rosto, logo em seguida ele se levantou e eu o acompanhei, curioso com suas ações.

— Eu nunca havia pensado sobre isso, mas ouvindo suas regras me dei conta do perigo que cada uma delas evita. Se ele estiver certo... e provavelmente está, muitos voltarão feridos. Como um Hokage devo providenciar assistência médica para aqueles que voltarem com vida — esclareceu sem que fosse preciso perguntar o motivo do seu interesse nas regras de meu amigo e sua preocupação após ouvi-las.

Meu pai se virou e começou a andar em direção aos monitores do teste, porém parou subitamente e se virou para mim, exibindo um sorriso triste.

— Não importa o quanto eu tente ignorar, pois a cada dia que passa seus sentimentos ficam mais visíveis. Você realmente gosta dele, não é?

— É claro que gosto dele... é meu melhor amigo — respondi como se fosse óbvio, não entendendo aonde ele queria chegar me perguntando algo como aquilo.

— Não é a esse tipo de gostar que eu me refiro... Se você ainda não percebeu, logo vai perceber. De qualquer modo, lembre-se que eu vou respeitar suas escolhas, seja elas quais forem — encerrou antes de voltar a andar, me deixando sem entender nada.

Aquela noite foi longa, ainda mais quando podíamos ouvir gritos e pedidos de ajuda vindos da floresta. Não sei o que me surpreendia mais, se era a ansiedade de meu pai por não poder salvá-los ou a expressão fria dos demais que não pareciam dar valor a vida humana. Por fim amanheceu e os felizardos sobreviventes que conseguiram voltar e saíram, receberam o atendimento médico que meu pai havia preparado.

Logo chegou oito horas e eu finalmente comecei o meu teste, sendo acompanhado por minha mãe que corajosamente avançou comigo sem hesitar um único momento, uma mulher extremamente corajosa.

— Mãe, ande sempre atrás de mim e nunca se afaste, não toque em nada e se ver ou ouvir alguma coisa estranha, me avise. Se tiver dúvidas, pergunte, entendeu? — questionei assim que começamos a seguir uma das trilhas de entrada, parando por um momento para olhar para ela que caminhava atrás de mim.

— Sim senhor! — respondeu com um tom brincalhão enquanto batia continência em uma demonstração de obediência, fazendo-me rir.

O dia passou-se tranquilo, comemos frutas e evitamos uma luta com um urso. A noite paramos para descansar no topo de uma árvore, me sentei em um galho grosso e firme e ela deitou-se entre minhas pernas, escorando-se em mim. Usei a coberta para aquecê-la enquanto a abraçava eme mantive alerta a qualquer perigo.

Porém apesar de estar vigiando, não conseguia me concentrar na floresta, pois aquelas palavras ditas mais cedo ainda me incomodavam.

— Mãe, ainda está acordada? — perguntei em um sussurro, vendo-a se remexer em resposta e levantar a cabeça para me encarar em resposta. — O papai disse que eu gosto do Kakashi de um modo diferente de um amigo, o que você acha que ele quis dizer? — Ao ouvir minha pergunta um sorriso abriu-se em seus lábios e ela disse:

— Naruto, meu filho, você é mais inocente e ingênuo do que pensei — riu enquanto eu não sabia que reação expressar e optava por esperar pela continuidade da sua resposta.

— O "gostar" que você sente por um amigo, é uma espécie de carinho especial, como o que se sente por pais e irmãos. Mas o que você sente por ele é um "gostar" mais profundo, pode-se chamar de amor ou desejo — explicou antes de voltar a se deitar, apoiando a cabeça perto de meu ombro e se ajeitando novamente para manter-se aquecida.

Pensei por alguns minutos e finalmente entendi tudo quando liguei a palavra "desejo" ao que eu sentia. Corei imediatamente e senti meu coração acelerar quando percebi a verdade.

— Parece que você já entendeu — comentou mamãe, não contento o riso e fazendo meu rosto avermelhar ainda mais, felizmente eu estava sendo acobertado pela escuridão da noite.

No dia seguinte matei um coelho e comemos sua carne para ganhar energia. Vi alguns alvoroços de animais e muitos abutres, então fiz vários desvios, não querendo que minha mãe visse cenas desnecessárias. Ao anoitecer alcançamos o nosso destino. Quando saímos da floresta encontrei o Hokage, três dos organizadores e um único competidor e seu acompanhante.

E logo tudo estava encerrado. Quando o prazo terminou, mais da metade dos competidores estavam feridos e tirando quatro de nós que concluímos a missão, o resto estava morto, ferido ou desaparecido. Infelizmente foi preciso aguardar mais algumas semanas para a cerimônia, mas ela enfim chegou e fomos oficializados como aprendizes de Hokage, na manhã seguinte eu estava pronto para ir em sua busca.

Como um presente de comemoração, meu pai me entregou uma passagem de avião para os Estados Unidos, junto com o nome de um velho contato que iria me ajudar a encontrá-lo. Depois de alguns preparativos eu parti e no dia seguinte, no final da tarde, eu estava no mesmo país que ele.

Encontrei no aeroporto um homem chamado Kayne, que se responsabilizou em me levar até ele. Depois de uma hora de carro nós chegamos no local, era um velho galpão que quando teve suas portas abertas revelou-se ser uma espécie de academia de treinamento.

— Hatake, você tem visita! — Gritou Kayne, fazendo-me ser o centro das atenções. Em poucos segundos eu fui rodeado por inúmeros homens que me encaravam curiosos e me faziam muitas perguntas, mas com todos falando ao mesmo tempo quase não conseguia escutá-los. De repente, no meio de todo aquele alvoroço eu escutei sua voz chamar meu nome:

— Naruto — Assim que meu nome foi pronunciado, olhei em sua direção e quando nossos olhos se encontraram, todos os que estavam presentes se calaram.

A surpresa era visível em sua voz e no pouco que podia-se ver de seu rosto, pois novamente ele estava coberto, não era uma máscara inteira como a anterior e essa era feita de pano preto, mas cobria toda a parte inferior de seu rosto, deixando á mostra apenas seus olhos.

— Você parece surpreso — comentei enquanto sentia meu coração acelerar. Até estar ali e em sua frente, nunca havia pensado na possibilidade de que talvez... ele não quisesse mais me ver. Afinal já se passaram cinco anos, aquilo não foi nada além de uma promessa feita para uma criança e talvez não fosse tão importante para ele como era para mim.

—É claro que estou surpreso — disse enquanto caminhava em minha direção e surpreendentemente colocava a mão em minha cabeça.

— Não há como não ficar surpreso. Olha só para você... duplicou de tamanho! — comentou em um tom divertido, fazendo meu coração se acalmar. Ele estava um pouco mais velho, parecia estar mais forte, mas ainda assim era o antigo Kakashi... o meu amigo e o homem por quem descobri estar completamente apaixonado.