Tive que arrumar uma desculpa esfarrapada que, eu sei, a ruiva não comprou sobre o fato de ela não estar acessando meus pensamentos... Se existe alguém desconfiado aqui, além de mim, é a Jean. Mas eu não podia contar nada pra ela, não sem antes saber qual lado ela gostaria de defender. Porque eu sei de uma coisa: não tem lado errado, tem só o lado que a gente 'tá e que faz sentido pra gente... No final, alguém sempre perde e isso é o que dói mais. Por isso, sempre tentei escolher o lado onde eu poderia sair vencedor e, mesmo aí, perdi tantos amigos e amigas.
Dou um beijo apressado nela, digo que tenho alguma coisa pessoal pra resolver, mas que ia procurar o Charlie depois disso pra entender por que ela não conseguiu ler meus pensamentos. Essa segunda parte dá uma relaxada nela, eu sinto pelo cheiro. Mas sei que não seria suficiente...
Eu precisava pensar! Colocar as informações em uma ordem lógica e só existe um lugar no mundo onde eu consego fazer isso sem ser atrapalhado. Me embrenho na mata mais fechada de Krakoa – a Nação Mutante – e encontro um portal camuflado, quando o atravesso, toda a majestade do que um dia foi o QG dos X-Men se abre diante dos meus olhos.
Não importa quanto tempo eu demore pra voltar, a Mansão da família do Xavier sempre me surpreende com sua grandeza e sobriedade. Como um bom ronin a procura de respostas, eu limpo minha mente e tento não as procurar, preciso criar um campo receptivo para qualquer coisa que o Universo tenha a me dizer. Vou caminhando, maquinalmente, até a Sala de Perigo, sem prestar muita atenção nos Banfs pelo caminho. Eles adotaram o lugar como refúgio e isso mantém os humanos longe, não podia ter uma simbiose melhor.
A tecnologia da Sala lê quem eu sou e me cumprimenta com uma voz feminina metálica: "Bem-vindo, sr. Logan. Em que posso ajudar?"
- Obrigado, vamos de simulação W32, só pra aquecer, ok?
E o ambiente totalmente metálico passa a se alterar em realografias, algo mais avançado do que holografias. As realografias machucam pra valer! E começamos a "dançar", enquanto minha mente começa a receber a intuição de que a Mansão, num passado não tão distante, abrigou alguns mutantes que acreditaram num sonho, um sonho de igualdade entre humanos e mutantes; com alguns percalços e muitas oportunidades, mas sempre tentando proteger os mais fracos da cadeia evolutiva... Charles nunca desacreditou dos humanos e nunca negou ajuda a eles, não é? Qual Charles?! O meu? Ou outro? Mas ele 'tá ajudando os outros com as flores de Krakoa, não 'tá? Curando doenças, aumentando o tempo de vida, ele ainda 'tá com o mesmo sonho...
Nessa hora, recebo um golpe dolorido da realografia do Creed e, olhando pra cena, vejo que ele não 'tá sozinho: Omega Red, Magneto e Blob estão com ele; libero meu lado animal, enquanto o racional consegue focar em outra coisa: todos esses antigos vilões 'tão junto com a gente agora! Ele deu anistia pra caras que nunca deveriam estar do nosso lado... Não tem como servir a todo mundo, não tem como vencer cedendo pra todos! O que o Charlie 'tá aprontando?!
Quando saio dessa espécie de transe a simulação tinha acabado e eu estava em cima de um telhado em Madripoor, com um pôr-do-sol lindo pra cacete, apesar do cheiro forte de podridão e morte que subia até mim.
Não tinha como eu enfrentar o Charlie de primeira. Ficou claro pra mim que o sonho dele estava distorcido, sob uma névoa de verdade; quanto aos outros, não tinha como conversar sobre uma doideira dessas... Eu tinha que ir na fonte, tinha que saber qual o portal pra encontrar a Moira e bater um lero com a irlandesa...
Passo os próximos três dias sem voltar pro meu quarto, mas como eu sou um solitário por natureza, não levantava suspeitas. As missões dos outros mutantes eram, atualmente, mais focadas em assuntos administrativos e em prevenir as facções que tentavam roubar os carregamentos das flores pra vender no mercado clandestino. Nada que necessitasse de uma intervenção da qual eu era especialista: morte.
Fico de olho em Magneto, analiso as conversas dele com a Mística e com as irmãs Stepford, mas não consigo captar nada além de um real comprometimento com o atual estado de coisas. Erik já não estava com o cheiro da Moira tão forte e eu estava perdendo as esperanças de conseguir uma pista, resolvo correr até os limites do lado noroeste da Ilha, sem parar pra pensar, só correr e ver no que dava. Impressionante como meus instintos, os instintos de um clone, ainda funcionam!
Um pouco antes de chegar na praia, uma lufada de ar traz o cheiro dela, quase imperceptível, quase perdido, mas ele estava lá! Sigo a pista confiante, atento aos sons ao redor e focado no odor; preciso parar antes de chegar no foco, porque o som da respiração de alguém e, em seguida, seu cheiro, me fez parar.
- Kitty! Que cê 'tá fazendo aqui, guria?!
E vejo lateralmente seu barco atracado e o bote que ela usou pra chegar até a praia. Ela estava agachada e se surpreende com a minha chegada. Mas a surpresa dura poucos segundos, ela logo se recompõe e me estende a mão, informando:
- Por favor, Logan... Me chame de Kate, sim?
- O quê? O caralho! Vem cá, menina! – e lhe dou um abraço efusivo. Não consigo puxar na memória a última vez que a vi. Aliás, uma parte minha se surpreende por lembrar quem ela é e essa sensação é muito estranha...
A princípio, ela não devolve meu abraço, mas isso dura pouco, sendo vencida pela minha insistência. Eu não pergunto nada, não falo nada, só aspiro profundamente, sinto tantos cheiros diferentes, como do mar, aquela mescla de areia, algas e sal; como de Emma e de Lockheed, além de outros cheiros desconhecidos. Nos desabraçamos e ela me olha desconfiada nos olhos:
- Logan?... É você mesmo?... Eu... eu soube que você morreu, no espaço, Logan...
Eu não entendo muito a desconfiança e nem a dúvida, se eu era eu! Quem mais eu podia ser?
- Guria... Eu também soube que morri numa missão, mas estranhamente, me sinto eu mesmo e não uma bosta de clone, saca?! 'Tô muito feliz em te ver! Nem sei qual foi a última vez que nos vimos...
- Está fazendo o quê por essas bandas? Aqui não tem muito que se ver, não é mesmo?
- Bom, tu eu sei que não foi clonada e se 'tá vestida engraçado assim agora, como uma capitã pirata, deve ter seus motivos. Eu também tenho os meus, mas não dá pra falar aqui... Eu sei que Krakoa tem ouvidos em todo lugar. 'Cê não quer me convidar pra um rum no teu navio, não?
Ela sorri e não se faz de rogada, assobiando, chama mais três mulheres que estavam muito bem escondidas nas proximidades, duas delas armadas com bestas e uma com um florete. Começamos a caminhar em silêncio até o bote e, com a mão na água, depois de termos feito quase metade do percurso, Kitty rompe o silêncio:
- A temperatura da água se alterou, Logan. Aqui não temos mais a influência de Krakoa e você não imagina, amigo, o quanto é bom ouvir que você tem alguma suspeita sobre tudo isso que estamos vivendo!
Eu olho para as outras três mulheres no barco, como que perguntando se elas são mesmo de confiança e se posso me abrir:
- Não tenha receio. Elas são meus braços e pernas. Eu te apresento: Ada, especialista em combates com espadas. E as gêmeas, Tharik e Farik, com excelente mira. Elas sabem das minhas desconfianças e não aceitam um mundo somente de mutantes. Como já foi pregado antes, por aqueles que se lembram...
- ... A coexistência pacífica entre humanos e mutantes. – O olhar de Kate brilha e as outras três mulheres me cumprimentam com um movimento de cabeça respondido por mim. – Bom, pra não ficar cansativo, vou encurtar dizendo que preciso bater um lero com a Moira. Eu acho que a guria 'tá viva e sabe um pouco mais do que 'tá acontecendo do que eu... E acho que perto de onde estávamos, tem algum portal que leva até ela. Intuição mesmo. Agora, tua vez.
- Você não se lembra mesmo da última vez que me viu?... – ao que respondo negativamente. – A gente estava fora de Krakoa, num bar, conversando felizes pela possibilidade de – finalmente – sermos respeitados por sermos mutantes. Você estava cabreiro porque não concordava com a anistia; até aquele momento, eu não te entendia, sabe?
Ela pausa o discurso quando chegamos à fragata, subimos pelas cordas laterais e eu a vejo cumprimentando com um enorme carinho o dragão Lockheed, não tinha ideia do quanto ele tinha crescido! Isso só podia significar uma coisa: tinham apagado as minhas memórias da Kitty! Minhas memórias devem ser tão complexas que nem o esquema de ressuscitação do Charlie conseguiu tirar de vez o que vivi com ela. Ao que parece, meus neurônios estavam dando um jeito de reencontrar o caminho... Mesmo num corpo clonado como esse!
Fomos para a cabine da capitã e ela me serviu um belo copo de rum, enquanto abria uma garrafa de suco para si. Tirou as armas e a espada, pendurou o sobretudo e sentou-se, relaxada, numa cadeira que devia ser bem antiga. Sento na frente dela, num sofá gigante e bem antigo também, esperando que ela completasse o que começou.
- Eu só comecei a entender que tinha algo de podre quando soube como traíram a Mística – fiz cara de surpresa, ela explicou: Eles pediram pra ela fazer alguma coisa pra eles, mas em troca, a Mística pediu pra ressuscitarem a Irene. Na hora H, eles negaram! Não cumpriram a parte deles e isso deixou a azulona muito ferrada... Faz um tempo que não sei dela e, sinceramente, espero que a Raven não deixe isso barato. Ser usada assim, enquanto espalham pros sete ventos que são tolerantes e que aceitam todos os mutantes?! Isso é a maior hipocrisia da história mutante! Você não acha, Logan?
- Guria, eu não 'tô a par de todas as variáveis envolvidas, mas eu sei duma coisa: não dá pra manter lobos e cordeiros livres, saca? E se os cordeiros começaram a ser os lobos eu não quero estar lá pra saber no que os lobos vão se transformar!... Mas e você? 'Tá fazendo o que aqui e não em Krakoa?
Ela suspira, provavelmente inconformada com minha amnésia e se questionando se devia mesmo confiar em mim. Me encara mais um pouco. Sinto um nervosismo crescente, seja pelo cheiro quanto pela taquicardia.
- Ei! Sou eu! 'Cê sempre pode contar comigo, Kitty... Eu posso não lembrar de tudo ainda, mas sei que meu fator de cura 'tá trabalhando pra consertar isso, saca? Uma palavra tua e eu me mando do seu navio, não esquenta, guria...
Ela levanta, começa a andar em círculos na minha frente. Eu acho que só a vi nervosa assim quando estávamos os dois no Japão e ela ainda tinha dúvidas se Ogun ainda estava possuindo seu corpo. Sabia, instintivamente, que pressão não funciona com ela, então, depois da minha frase, relaxo meu corpo, curto o rum e fico na espera. Percebo que minha mudança de atitude funciona, os batimentos voltam ao normal e ela, ainda exaltada, me diz:
- Eu não sei em quem confiar, Logan! Eu... Aquela maldita ilha, me proibiu de entrar! Eu não tenho acesso ao paraíso mutante de Krakoa através de seus portais. O que isso faz de mim, hein?! Acabei virando uma espécie de guarda de luxo dos carregamentos de flores e, segundo a Emma, sou a nova Rainha Vermelha... Mas eu só quero entender o que aconteceu com todo mundo?! Desde quando deixamos de acreditar no sonho de convivência pacífica e nos transformamos em meros ditadores? Você me encontrou hoje numa missão pra tentar encontrar respostas... Eu não tinha um alvo definido, mas agora que você comentou sobre a Moira, seria bem interessante saber por que eles não querem precogs ou pessoas que possam atravessar toda e qualquer parede, não é?
- Uau! É muita informação e, já que tu se abriu assim, eu também tenho um negócio pra te contar...
Explico sobre a outra Kate, a Grey Howlett e tudo que ela me disse. Katherine volta a sentar, prestando atenção redobrada sobre as vidas da Moira e como ela está encrencada até o pescoço nisso.
- Se Charles fosse levado a repensar seu sonho, Logan, ele bem poderia ter subvertido para o que temos agora, não é? Eu não sei! Já quebrei muito a cabeça, mas nada faz sentido!
- Eu não posso falar pelos outros, claro! Mas olha a gente! Tanta coisa aconteceu, eu fui clonado e, ainda assim, a minha essência não se apagou! Eu 'tô aqui, querendo impedir de cometermos uma cagada intergaláctica e, como sempre, vou precisar ficar contra a maioria daqueles que eu amo... É um porre quando isso acontece! Eu entendo que não existem vítimas, mas que somos as escolhas que fazemos. E a escolha do Charlie foi abandonar o sonho pra tentar algo totalmente novo. Como se não tivéssemos mais tempo, sabe? Como se estivéssemos na prorrogação... Acho que nossas duas mentes podem pensar melhor do que separados. Tu se importa se eu ficar uns dias aqui?
- O que você encontrou lá? Estava seguindo uma pista ou um cheiro?
- Um cheiro, gata. Um cheiro de alguém que devia 'tá morto...
- Ótimo, com a ideia de que a Moira está viva e reduzindo os locais de procura, podemos ficar alguns dias aqui, analisando a costa. Infelizmente, eu não tenho muita tecnologia. Mas ainda temos o bom e velho telescópio. – por alguns segundos, eu pude perceber o antigo fogo no olhar da Ninfa e isso me agradou demais. – Fique à vontade pela embarcação, Logan. Pode ser que recebamos alguma ordem de ação e precisemos zarpar, mas eu não vou mais esperar muito para falar com a Moira e, tenho certeza, em breve teremos uma localização melhor. Você pode dormir nesse sofá, se estiver tudo bem pra você – e eu aceno positivamente enquanto ela sai para o convés.
Posso ouvir suas ordens de posicionamento dos telescópios e o pedido de vigilância constante, em turnos. Também a ouço conversar com Lockheed, ouvindo as asas dele baterem para longe em seguida. Poderia ser uma boa ideia ter um "drone" com a inteligência dele ajudando a encontrar o portal. Mas também poderia ser uma burrice que alertaria Krakoa de nossa presença... Só o tempo dirá.
Vou para o convés e vejo umas vinte pessoas se movimentando como um balé, cada um sabendo o que deve fazer. Como o crepúsculo surgia, alguns montam uma grande mesa no convés para o jantar. Usam barris e tábuas de madeira em toda essa construção móvel e foi quando vi Kate na ponte, segurando o timão enquanto alguns liberam as velas.
- Vamos dar uma pequena navegada, amigos, para que não pensem que estamos espionando! – e todos caíram na gargalhada.
Tharik e Farik me pedem para sentar entre elas. As gêmeas não eram só boas de mira! Elas eram boas de copo! Se não fosse meu fator de cura, perderia para elas! A única coisa irritante era que uma completava a frase da outra! Elas disseram que eram minhas fãs e que era uma honra poder ouvir alguma de minhas histórias. Enquanto serviam muitos frutos do mar, de preparos variados, e carnes vermelhas com feijões e massas; tudo regado a muito chopp e vinho, além de um pão caseiro que não provava há décadas, eu fui contando as aventuras que lembrava, especialmente aquelas com a Kitty Pride. Ela me corrigia em algumas partes mas, no geral, as lembranças vinham puras à minha mente e, esse exercício, somado ao exercício posterior na cabine das gêmeas me fez lembrar de muito mais, de coisas que pareciam bloqueadas por telepata habilidoso! Ou habilidosa? Meu Deus! Como a gente 'tava fora do rumo...
Quando eu acordo as gêmeas já não estão mais lá e ouço um burburinho no lado de fora, além do cheiro gostoso de café. Levanto e lavo o rosto no lavabo do quarto, dou um tapa no cabelo e percebo que minhas roupas estão dobradas sobre uma cadeira, sorrio pelo carinho delas. Kitty ri ao me ver sair da cabine enquanto me chama para tomar café:
- Nenhum "pirata" pode passar fome, ainda mais quando gasta tanta energia assim durante a noite, não é?
Rio amarelo, é engraçado ver alguém a quem considero como filha falar das minhas transas assim, pra todos ouvirem, mas o comportamento de todos é bem despojado e eu logo passo a fazer gracejos também. Mas logo foco em Lockheed:
- Ah! Ele voltou?
- Sim, depois que nos recolhemos. Ele não conseguiu muito mais do que nós. Estamos no lugar certo, mas procurando a coisa errada, eu acho... Procuramos um portal típico de Krakoa, mas ela não quer expor a Moira, não é?
- Isso faz sentido, guria... Mas a gente 'tá perto demais do palácio da Rainha Branca, saca... menos de dez quilômetros pra nordeste estamos nos domínios do Rei Preto. Mas o que me intriga é o cheiro forte... Acontece alguma coisa ali, e a Moira tá envolvida. E se esperássemos pra tentar ver o que é?
- Estar perto do palácio da Rainha Branca era minha desculpa, caso eu fosse descoberta por algum sentinela, sei lá... Eu tenho me encontrado mais impaciente do que gostaria, Logan... Mas ainda temos alguns dias antes do próximo carregamento de flores precisar de escolta. Vamos analisar o que temos.
Termino meu café e vamos para a cabine dela. Ao entrar, um cheiro forte de rosas me invade e, na cama da Kitty, vejo Ada entre os lençóis, ainda dormindo. Kitty me olha como quem diz: "essas mulheres!" e vai até a beirada da cama, sem fazer barulho. Toca a outra no ombro com seus lábios enquanto diz baixinho: "Bom dia, princesa... Desculpe, mas vou precisar usar os monitores e não queria que você se assustasse."
Elas se cumprimentam e eu fico estranhamente excitado. Brigo comigo mesmo! Qualé! A Kitty é como uma filha! Enquanto meu cérebro rebate: "como uma não quer dizer que seja filha...". Eu viro pro outro lado, fingindo interesse em alguns mapas de navegação e só volto a olhar pra morena quando a porta bate.
- Se tem uma coisa nessa loucura toda que estamos vivendo aprovada por mim foi que nós mutantes não temos a mesma conduta dos humanos, sabe? Podemos ser o que quisermos, longe dos padrões mesquinhos e egoístas deles... Por isso, se quiser variar das gêmeas, a Ada é outra grande fã sua, viu?
- Katherine! Por favor...
- Há! Não me venha com falsa moral, senhor traço-a-Jean-e-o-Scott!
Não tenho argumentos para rebater aquele... Fico quieto enquanto ela coloca whisky em dois copos com gelo e me oferece um.
- Nossos telescópios são todos interconectados com nosso computador central. Eu fiz umas melhorias depois que mudei pra essa casca de noz. Eles têm visor noturno e de movimento, mas preferi deixar a segunda opção desconectada. Vai que juntos, percebemos alguma coisa nas imagens, não é? Como você quer fazer? Juntos ou cada um no seu monitor?
Demorei um pouco pra me tocar sobre o que ela 'tava falando e, juro que ia responder outra coisa em "como eu queria fazer". Por sorte, ela apertou um botão e dois monitores saíram do console onde já tinham duas cadeiras.
- Cada um no seu, pode ser?
Eram mais de dez horas de filmagens, de cinco equipamentos diferentes ao que eu solto:
- Tem um jeito de sobrepor essas imagens?
- Boa ideia! Tem sim.
Vejo a Kitty fazendo algo que gosta muito: mexendo com tecnologia. Me bate uma saudade de épocas que eu nem sei que vivi... Em poucos minutos nossas telas mostravam os vídeos em camadas e em velocidade 5x.
- Assim sim, guria! Agora, vamos focar!
E assim ficamos até a hora do almoço. Enquanto víamos as gravações, os tripulantes se revezavam para ver as cenas ao vivo.
Infelizmente, nenhum de nós teve sucesso em captar nada além de grama sendo levada pelo vento...
Almoçamos e, dessa vez, eu ajudei a servir alguns dos pratos, já que as gêmeas estavam de cozinheiras naquela tarde. Por isso não as tinha visto a manhã toda! Ajudei a desmontar a mesa e, ao que parece, a maioria dos tripulantes tinha algum tempo livre pra fazer uma sesta. Kitty não parecia querer dormir, foi para a ponte e eu a acompanhei:
- 'Cê tem um mapa de Krakoa, guria? 'Tô pensando numa coisa aqui...
- Claro, venha comigo.
Entramos na cabine e ela lança:
- Quer o mapa oficial ou o caseiro?
Eu sorrio de lado, sabia que a guria já tinha feito seu dever de casa:
- O caseiro, Kate, sempre o caseiro...
Ambos riem e ela vai até um cofre atrás de um quadro abstrato, girando a combinação e, em seguida, traz um papel super fino enrolado, enquanto pega outro mapa grosso da estante. O grosso ela abre primeiro, colocando o super fino sobre ele e me mostrando uma área pontilhada que estava a noroeste do setor "Clube do Inferno".
- Mas que diabos?...
- Está muito perto disso mesmo, Logan... Até alguns quilômetros do palácio do Rei Preto ainda há vegetação de Krakoa, depois disso, só há rochas. Algo muito diferente e suspeito... Lockheed estava de bobeira alguns meses atrás, quando uma lufada de vento o levou até este local. Eu não me atrevi a ir, porque não tenho permissão dos governantes de Krakoa para navegar nessas coordenadas... Você, meu caro, por outro lado, é cidadão de Krakoa. Deve ter livre acesso, não?
Levanto minha sobrancelha em discordância.
- A única coisa que a gente não é em Krakoa, Kitty, é livre! Eu sei que se for por esse caminho, não vai demorar pra eu ser "persona non grata" em Krakoa. 'Tô achando que tu vai ter que deixar uma cabine pra mim, hein?...
- Imagina, Logan! Nem em seus dias de Madripoor, uma cidade super litorânea, você passou mais de alguns dias numa embarcação. Eu não te vejo como marinheiro, meu amigo! Mas nem por isso não vou deixar sempre um sofá a disposição... Então você acha que existe mesmo um esquema?
- Kitty, eu sempre agradeci ao Charlie por ter me dado uma família, saca? Eu sempre me senti respeitado na Mansão, mas eu não conseguia me sentir amado por quem eu mais queria... Agora, milagrosamente, aqui em Krakoa, eu consigo não só a ruiva, como o Magrão?! 'Cê só pode 'tá de brincadeira, né? É o famoso "cala a boca". A gente te dá tudo que você quer, mas em troca você precisa ser tudo que queremos e se agir em desacordo, sempre podemos te matar e ressuscitar de um jeito que nos convém! Ah! Qualé! Eu fugi a minha vida toda de ser controlado pelos outros... Só dói mais porque é a minha família...
- Bom, se serve de consolo, muitos deles não são mais. Estão tão embevecidos por todas as conquistas que nem param pra pensar no que estão fazendo! E porque estão fazendo!... As flores nada mais são do que subornos aos países amigos para fazerem vista grossa enquanto Krakoa cresce!
Assim que ela termina essa frase, nós dois nos entreolhamos, assustados... E se... Não! Não pode ser! Nosso foco é a Moira! Temos que encontrar e confrontar a ruiva pra ver o que ela tem a nos dizer. A questão é: será que ela estava na parte tracejada daquele mapa?
- Quão perto tu pode me deixar da área "x", Kitty? – ela aponta no mapa de trás, uns quatro quilômetros depois do palácio do Rei Preto. Ainda precisaria de muito combustível para chegar o mais a oeste possível das rochas e, uma vez nas águas de Krakoa, só o Infinito sabe quais desafios vou enfrentar...
- Sei que não vai só com um barco e com as trincas. O que mais posso oferecer a você, meu amigo?
- Uma vigilância aérea? Como funciona sua telepatia com o dragãozinho?
- Se ele estiver no Planeta Terra, posso senti-lo e saber o que está pensando. Mas, mesmo que ele me avise, eu ainda teria que decidir se abandonaria o pouco que tenho e alguma chance de mudar algo, ou se ajudaria você...
- O que aconteceu com o "meu amigo"? – eu pergunto, enquanto ela sorri nervosa, eu entendo a sinuca de bico que a coloquei, mas também entendo o motivo de minha hesitação.
- Kitty! Relaxa! Acho que 'tô manjando um pouco. Eu nunca fui cara de hesitar, né? – ela concorda com a cabeça – E, nesse momento, todo meu ser 'tá gritando pra eu não ir pra esse lugar, ou seja – e ela me interrompe, gritando e me abraçando.
- É um puta implante telepático, Logan! Que calhorda!
- Vou precisar de alguns dias pra me fortalecer, pra varrer essa hesitação de dentro de mim, saca? Eu preciso dar tempo ao meu cérebro pra se curar e eu voltar a ser o Wolverine!
