Ela levanta uma sobrancelha e se esvai numa fumaça azulada, passando pelas grades e reaparecendo dentro da minha cela. Não fiquei assustado, não dá pra ficar, depois de ver tantas aparições do Kurt como eu vi e até de ter viajado em vários teleportes dele! Ainda assim, foi uma cena interessante.
- O plano é eu conseguir me livrar do comando do Rei, através do seu sangue e, com sua ajuda e ajuda do russo, finalmente matar o maldito e descansar em paz, depois de tantos séculos!
Eu não consigo segurar o riso, enquanto ela me observa, incrédula:
- Eu sou mutante, mas meu sangue não é sagrado ou algo assim, dona! Por que tu acha que vai conseguir ficar livre bebendo ele? E quem disse que o Ômega Vermelho não vai ser um cachorrinho obediente?
- Ah... Não importa se são humanos ou mutantes, eu sempre me divirto com a incapacidade que vocês têm de ver um palmo diante do nariz! O Conde só aceitou dividir seu sangue com os machucados porque precisa deles para seu plano final de transformar mutantes em vampiros, senão, ele não teria divido essa preciosidade com ninguém. E, veja como ele foi astuto, não deixou que bebessem direto de você, mas sim, depois que seu sangue vivificou e se transmutou nele. Não achou isso estranho? Não se questionou sobre como poderia ser mais vingativo deixar que centenas deles o destroçassem? Ao invés disso, ele se mostra como um mártir diante daquela imensa massa de manobra, seres não pensantes! Vermes! Eles não passam disso...
Quanto ao senhor Arkady, ele só está fingindo ajudar porque colocaram um dispositivo no sintetizador e o avisaram disso. Se ele não ajudar, eles podem matá-lo.
Veja bem, nós, os vampiros, temos uma sociedade muito complexa, senhor Logan. Montada em castas que não terei tempo de explicar. O importante é: poucos possuem raciocínio além da média, a grande maioria somente obedece, cegamente, aos desígnios de seus superiores e, os superiores, respondem aos desejos do Rei. Qualquer semelhança com sua vida, não é mera coincidência.
- É como uma pirâmide, não de dinheiro, mas de sangue? Uma base larga que é burra e cega e, no topo, o Drac, comandando os comandantes da massa? – ela sorri enquanto eu falo.
- Exatamente, eu não teria explicado melhor. Temos, também, uma vasta literatura em nosso meio, escrita por vampiros de castas mais elevadas, alguns magos e feiticeiras, inclusive. Pois quanto mais perto do sangue do Conde estamos em nossa criação, mais capacidades especiais possuímos, entende?
- 'Tô entendendo sim. E pelo que tu falou no começo, então pode fazer muito mais do que só virar fumacinha azul, né?
É a vez dela rir, uma risada de veludo, um som que parecia o próprio canto de uma sereia, me chamando pros seus braços, uma porrada de feromônios me atingem e minha pupila dilata, eu preciso me esforçar pra manter o controle, a besta dentro de mim uiva! Ela sente algo de diferente e dá alguns passos em minha direção, percebo que inspira fundo. E aproveito pra conversar, na tentativa de manter o controle:
- Tu também sente cheiros diferentes, feromônios e outras paradas?
- Eu posso fazer muito mais que isso, Logan... Eu posso modular como as pessoas vão receber meus estímulos, enquanto analiso os hormônios e feromônios que saem delas. Posso afirmar que em todos esses anos, nunca encontrei alguém que aguentasse por tanto tempo minha manipulação. Ainda mais sabendo o quanto você percebe mais do que os humanos normais. Estou impressionada! – ela vai falando isso enquanto se aproxima mais de mim – Segundo nossas lendas, surgiria um sangue capaz de tornar a sociedade menos piramidal e mais horizontal. Onde todos seriam capazes de responder por si mesmos, sem ficar presos às castas, sem serem obediente contra a vontade. Seria o fim de um Reinado e o início de uma sociedade mais justa entre nós...
Eu tive que levantar da cama e andar pela cela, me distanciando dela. Ao perceber que sua manipulação estava fazendo algum efeito, ela para no lugar e sorri, novamente me fazendo ver sua presa.
- Tu não acha que eu vou ajudar a destronar um Rei pra que suba uma espécie de Presidente, né?
- Você se esqueceu do que eu disse no começo? Só quero descansar em paz! Me unir aqueles que amei um dia, há tanto que preciso andar com suas fotos por perto para não esquecer seus rostos! Eu vivo num inferno diário! Fazendo colheitas – fiz cara de quem não entendeu -, transformando pessoas ou até cidades inteiras, só porque naquela noite o Rei estava a fim de aumentar seu reino! Eu tenho o poder de quebrar esse ciclo, Logan! Mas preciso saber se é o seu sangue o das lendas. Estou esperando por algo assim desde o dia que li sobre isso, na Idade Média... – e sua voz foi ficando saudosista, seu semblante foi mudando, como se toda a canseira daqueles séculos chegasse de uma vez. Parei de sentir o domínio dela sobre mim e, nesse momento, tive a certeza de que tudo aquilo era real. Eu a via, mas ela não prestava mais atenção em mim. Abrindo o camafeu do colar, ela passou a acariciar as duas fotos que existiam lá dentro e, com isso, eu pude me aproximar, pela minha vontade, com o desejo de ajudar sim, se fosse possível uma lenda passar a existir. Quando toco seus ombros ela estremece, fecha o porta-fotos rapidamente e fica meio intangível, como a Kitty era capaz de ficar, mas numa nuvem azulada.
- Tu me mostrou tudo que eu precisava pra acreditar na tua história, Ravena. Se tu precisa do meu sangue pra testar a teoria, ele é teu, gata.
Seus grandes olhos castanho-claros se iluminam, ela se solidifica e segura a mão que estendo para ela, pensando que seria ali o local da mordida. Sinto a frieza de sua pele e me arrepio, sem se importar, ela coloca a minha mão em sua cintura e aproxima nossos corpos, percebo que não está manipulando meus hormônios e, ainda assim, ela pode sentir meu desejo por ela, a resposta instintiva de meu corpo. Ela inicia aquele momento com um beijo e eu me perco em seus braços e sorriso.
Depois de algumas horas, deixamos nossos corpos exaustos relaxarem na cama:
- E aí? Dá pra saber se funcionou? Ou tu só vai saber quando ele mandar fazer alguma coisa?
Ela deita a cabeça no meu tronco antes de responder, brincando com alguns pelos do meu tórax:
- É difícil explicar em palavras, Logan... Antes do seu sangue, era como se em minha mente existisse um ruído de fundo, algo sobreposto aos meus pensamentos, algo mais forte que eu, exterior a mim. Depois do primeiro gole eu pude sentir um afrouxamento dessa sensação. Algo aconteceu, sim. Se era aquilo que esperava, só saberei mais tarde...
- E como eu e o Ômega saberemos quando agir?
Ela levanta o rosto, com um olhar de indignação e comenta:
- Ah! Vocês saberão! Eu posso ter sido doce e tranquila aqui, mas não se engane com o tamanho da bagunça que eu posso fazer.
- Nem 'tô questionando isso, gata! É mais pela nossa "cegueira", manja? Já que a gente não consegue ver um "palmo diante do nariz". – e eu tento imitar a voz dela, fazendo-a rir.
- Você quer conhecê-los?
- Quem?
- Eles... – ela movimenta a mão, enquanto seu pingente flutua até nós, fechado.
- Putz! Claro! Seria uma honra, milady.
Ela o abre enquanto flutua e eu posso ver dois desenhos, um com um homem jovem, não mais de 20 anos, feições muito parecidas com a dela e sério, no outro lado, duas meninas, gêmeas idênticas, coradas, sorridentes, felizes.
- Nos casamos quando eu tinha 14 anos, ele tinha 16. Apesar de arranjado, nós éramos almas gêmeas...
- Taí um troço que eu não acredito, Ravena... Tive meus amores nesses mais de 100 anos, amei a cada uma com a maior intensidade que eu podia, mas não sei se chamaria isso de alma gêmea...
- Homens não acreditam nessas coisas mesmo, não é? Já tínhamos nos conhecido antes do casamento, durante uma festa entre nossos reinos, na época, eu tinha 10 anos e, ao invés de fazer como as outras crianças, correr até suar, brincar de pega-pega, nós nos separamos de tudo e ficamos vendo as estrelas, conversamos sobre coisas que, ainda hoje, eu considero adultas e, em cada uma delas, nossas opiniões eram muito parecidas. Nós nos completávamos, eu... – ela não conseguiu continuar, abraçou meu peito com tanta força que fiquei com falta de ar, fincou suas unhas em meu ombro e, quando senti algo úmido no tórax, pude ver uma grande mancha de sangue que saía de seus olhos. Ela 'tava chorando! Aquele ser tão antigo, aparentemente invulnerável, capaz de dobrar os desejos e mudar as vontades, estava totalmente frágil em meus braços. Não a interrompi, não sabia o que dizer. Retribui o abraço, trazendo-a mais para perto, encostei meu queixo em sua cabeça. Fungando, ela continuou:
- Eu preciso terminar. Preciso reviver pra fortalecer meus motivos, desculpe... – passei a mão no ombro dela, um convite para continuar – As crianças vieram um ano depois do casamento. Éramos felizes e sabíamos, nossas terras eram produtivas, não porque tivéssemos alguma vantagem natural, mas porque tratávamos nossos vassalos como família. Íamos para os campos, junto com os trabalhadores; não deixávamos faltar nada... Antes não tivéssemos chamado tanta atenção; não tivéssemos tanto orgulho de nossa felicidade... O Rei chegou numa madrugada, com alguns asseclas. Pediram refúgio em nosso povoado e nós, ingênuos que fomos, abrimos nossas portas para eles. – eu a beijei na cabeça, ela me faz um carinho no peito – Aos poucos, nossos vassalos foram morrendo, ficando doentes e, enquanto abusava de nossa hospitalidade, ele nos estudava, escolhia qual de nós seria capaz de servi-lo dentro daquilo que ele precisava... Minha mãe tinha algo místico, eu me lembro que ela era capaz de fazer as coisas flutuarem, como eu fiz agora com o medalhão. Centenas de anos depois, ele disse que o fato de eu ser mutante fez com que me escolhesse... Começou minando a saúde de meu esposo e, quando não tínhamos mais como fazer a colheita, pela falta de pessoal, ele pediu uma audiência comigo, disse que tinha a solução para aquele problema, me seduziu... Ou me deixei seduzir? Eu nunca vou saber...
Tive que interromper:
- 'Cê 'tá maluca? Nunca deixe de pensar que se deixou seduzir, Ravena... Tu é a vítima aqui! Ele é um crápula, mentiroso e manipulador. Tu era só uma criança.
Ela fica em silencio por um tempo, antes de retomar:
- Obrigada... Eu não sei mais quem fui. Só sei do ódio que tenho pelo que sou! A fome que eu senti era tanta e ele me fez beber das minhas meninas, dizendo que isso apaziguaria e, depois, do meu esposo... Nós abandonamos o castelo, que ficava numa rota muito comercial, para nos escondermos no que era o castelo dele, nos Cárpatos. Ficamos séculos lá, até que seu ego decidiu expandir ainda mais... Ele me deixou cuidando dos negócios na Europa Oriental. Até que no mês passado me pediu para vir aqui, com planos de expansão mundial que eu nunca tinha ouvido antes. Ele transferiu muitos condes para este local, está transformando essa parte de Krakoa no seu novo castelo e, atacando diretamente esses nobres, a força dele também diminuirá. Você matou vários, Logan, mas ainda temos uma centena deles... Quero que fique com isso, ele não me permite usá-lo em público, diz que isso me faz parecer fraca! – e ela deixa o colar em minha barriga, enquanto se senta na cama.
Pego o colar, sento ao lado dela, nos olhamos e ela me dá o beijo de adeus e vai ficando azul até desaparecer. Eu suspiro fundo. Sempre é uma barra ver alguém que sofreu mais que você. Dá uma sensação de alívio em cima da desgraça alheia. Sei que não é legal, mas não consigo tirar essa sensação de mim, do mesmo jeito que tenho a certeza de que vou colocar aquele colar em cima do cadáver dela, quando acabarmos com aquele maldito!
Visto minhas roupas, deito novamente. Agora, era esperar o sinal que a Ravena daria para que eu e Ômega pudéssemos ajudar. Já tinha gasto bastante energia e precisava deixar meu corpo se recuperar. Logo que deito, sinto um sono incomum e me deixo levar para o mundo dos sonhos.
Nele, ao invés de todas as ruivas que já fizeram parte do meu passado, sou agraciado com a lembrança da morena Arnaaluk* e o fato dela ter dito sobre os sonhos anteriores a minha chegada na tribo. Eu posso não ter considerado aquela esquimó como alma gêmea, mas ela me considerava assim. Revi nossa união, as várias auroras boreais que vimos juntos, nossos momentos em meio às peles de urso. Acho que isso foi um presente da Ravena... Um presente revigorante.
(*personagem criada por mim para a fanfic: Logan [Wolverine] entre os Inuítes)
Não sei quanto tempo passei dormindo, mas sou acordado pelos tentáculos do russo, ouvindo ao fundo alguns gritos e sons de lutas:
- Como consegue dormir feito um monte de esterco com todo esse furdunço?! Acorde, canadense! Nossa hora chegou! A hora em que inimigos lutarão lado a lado, contra um inimigo muito maior.
Ele abre a porta sem nenhuma delicadeza, arrancando o portão com os tentáculos e jogando-os pro lado. Eu levanto de pronto, guardo o pingente no bolso da calça e partimos para a direção da briga. Ao chegar, vemos muitas manchas pretas espalhadas pelo teto do salão, logo que chego, não entendo o que podem ser, mas quando consigo ver melhor Ravena lutando com aqueles condes, percebo que cada mancha é um vampiro que ela vaporizou, deixando metade dele pra fora, pegando Sol, enquanto a outra metade ficava pra dentro do salão. Eles se moviam tão rápido que demorei para entender a velocidade da luta.
Drac espumava ordens para os serviçais, enquanto tentava lembrar de tudo que tinha feito pela adolescente e do quanto ela era nada quando ele a encontrou.
- Nós podemos ter tudo, Ravena! Esse é o momento! As pessoas estão preocupadas demais com a questão mutante para lembrarem da nossa existência! Volte, minha rainha!
Foi então que eu entendi o motivo daquela necessidade em falar sobre sua família real. De fazer um desabafo com alguém que a entendesse. Ela era, definitivamente, a mulher mais forte que já conheci! E o fato de ter sido transformada em vampira não a fez menos mulher aos meus olhos... Sua tenacidade e foco me deram uma direção.
- Eles nem tão vendo a gente, Red! O que tu acha de atacar direto no Rei? Eu acho que a Ravena 'tá dando conta dos condes. Onde é o ponto fraco dele?
O russo me olha desconfiado, por todos os nomes que usei e eu dou de ombros, apontando com o braço o motivo da nossa conversa.
- Eu pensei em algo, durante esses meses que fiquei com eles. Não sei se vai funcionar, mas a Ravena disse que eu devo tentar... Mas pra isso eu preciso do dispositivo que transformou o sintetizador em uma bomba!
Na hora eu penso, "tu precisa dele pra dar o fora e nos deixar aqui, com essa piça pra consertar! O cacete!" e aceno pra Ravena, sem sucesso. Se tinha alguém que sabia com quem ou onde estava esse dispositivo só podia ser ela. Eu ia precisar desblindar minha mente pra tentar me conectar com aquela vampira!... Mas ao fazer isso, eu ia soltar um alerta pra todos os telepatas de onde eu estava! E agora?
Foi aí que a voz da Ravena invadiu minha mente e disse: "Nós fomos amantes de sangue, Logan... Eu estou ouvindo seus pensamentos desde então. Concordo que o russo vai querer o dispositivo para fugir. Mas ele está certo em querer alguma segurança. Acontece que você já está com ele desde que eu te dei meu bem mais precioso. O cordão está preso a um sensor dentro do meu pingente. Arraste o cordão com força que o Ômega explode, como fogos de artifício. É meu jeito de agradecer por me ouvir, me aceitar como sou e entender que nem todas as pessoas têm seu preço. Obrigada..."
Meto minha mão no bolso e mostro pro Ômega:
- A Ravena disse que isso é o dispositivo. Então, o que quer que você tenha em mente, pode fazer que eu garanto não te matar até estarmos na parte viva de Krakoa.
- Eu preciso mais do que isso, Logan! Vou arriscar minha vida numa manobra contra o Rei dos vampiros e você ainda assim quer me matar?
- Eu tinha que ver sua cara, Reddie! 'Cê 'tá certo! Quando estivermos diante de todos em Krakoa, eu te entrego o dispositivo, ok?
"Muito mais sensato, Logan... Eu não preciso que cumpra sua promessa de colocar esse pingente sobre meu cadáver. Eles estão vivos na minha memória e eu sei que se existe uma vida após a morte, eu terei que percorrer um caminho imenso para chegar até eles. Mas será meu caminho e eu estarei livre!" – um abraço quente tomou conta de mim e eu me voltei pro russo.
- Certo! Qual é sua ideia?
- O carbonádio pode funcionar como uma prata potencializada, aproveitando a capacidade de sugar as energias e sua maleabilidade para criar um casulo.
- Posso dar uma sugestão? Por que tu não faz esse casulo no coração com um dos tentáculos, enquanto o outro prende o corpo dele? E enquanto ele tenta se ver livre de ti, eu decapito o calhorda! Vê se não deixa ele voar por aí, hein?
- Não é uma ciência exata, Logan, estamos lidando com o Rei dos vampiros aqui!... Mas eu vou tentar fazer meu melhor, tovarishch!
Não tinha como não lembrar do Rasputin com essa palavra! Minha mente fica entristecida, lembrando de uma época onde ele se sacrificou para salvar os mutantes do vírus Legado. Mas que droga! Agora ele 'tava feliz, junto com sua irmã Ylliana! De onde eu lembro dessa morte dele? Só tem clones dos mutantes vivendo em Krakoa?! Que droga! Essa confusão estava ficando confusa demais pra mim... Então, eu vejo Ômega Red partindo pra cima do Conde e saio de cena, pra ele pensar que ainda estou preso na cela. O ataque foi mesmo uma surpresa pro vampirão. Ele se acha tão dono do mundo e desdenha os outros a tal ponto que não imaginou ser atacado por alguém que ele tinha ameaçado. Parece até ingenuidade, né?
Não consigo saber as reações deles, porque só vejo as costas dos dois. A ideia começa mesmo a dar certo, mas o russo não 'tá aguentando a força da energia que ele 'tá sugando e começa a gritar de dor! Eu sei o quanto de dor ele conseguia suportar e, só pra sacanear, demoro um pouco mais pra ir cumprir minha parte.
Todos os outros vampiros param de lutar quando Drácula cai de joelhos.
"Rápido, Logan! O momento é agora!" – Ravena assinala na minha mente e eu corro do meu esconderijo *SNIKT* vemos a cabeça do Rei rolar pela rocha escura, parece que até em câmera lenta. Uma névoa escurecida sai pelo pescoço, parecendo um monte de almas encarceradas e aqueles que o obedeciam, contra a Ravena, começam a tremer numa velocidade incrível, virando fumaça em seguida. Foi uma das coisas "top 10" de bizarras que já vi!
Eu olho pro Ômega e ele 'tá desmaiado ao lado de onde antes tinha o corpo do Drac que também se desfez, mas numa coisa mais parecida com necro-chorume. Os tentáculos estavam no formato do que abraçaram, mas já não tinha nada lá.
A Ravena aparece, envolta em azul, com uma cara de sofrimento indizível:
- Quando eu solidificar, vou morrer como os outros... Eu não quero morrer assim! Só queria ouvir tua voz mais uma vez, e que você ouvisse a minha, afirmando da sua capacidade de acertar. Você só precisa encontrar a Moira X, não é?
Arregalo meus olhos. Do que essa mulher não sabia?
Ela sorri, mesmo com dor, e diz:
- Ah! Faz muito tempo que não me chamam assim... Mulher... Ela está onde você menos espera e onde ninguém visita! Pense nisso... Nos vemos no pós vida, Logan! – E sobe com toda velocidade, passando pelo teto e, provavelmente, vendo o sol pela última vez.
Puta sacanagem! Se ela sabia onde a Moira 'tava, custava o que falar?!
Ouço o russo começar a recobrar a consciência. Ele retorna os tentáculos bem devagar para os punhos enquanto pergunta:
- Funcionou? Estou me sentindo como se tivesse morrido e, apesar disso, com energia para viver mil anos! Que estranho!...
- Funcionou sim, Arkady. A gente deu cabo dele e dos cupinchas dele.
- Mas e a Ravena?
- Ela também se foi... Conseguiu a liberdade que tanto queria...
- Tu consegue andar? Vamos pra Krakoa. Eu entrego o detonador mas, mesmo assim, fico de olho em você, sacou?
Ele solta um "humpft" enquanto levanta. Resolvemos sair pelo teto, que parecia bem fino, a contar pelas marcas de vampiros chamuscados. O Red me levantou e eu cavei com as trincas. Caminhamos por algumas horas a rocha nua, até entrar nos domínios do Clube do Inferno. Bato na porta do Rei e um mordomo cheio de si atende, me perguntando se eu tenho hora marcada. Ele nem olha pra nós direito. Seu senso de superioridade é tanto que me dá nojo.
- Escuta aqui, xará, eu nem preciso ver o dono da mansão, desde que ele possa nos emprestar algum veículo pra chegarmos até o Carrossel.
- Desculpe, senhores... Mas não posso incomodar o senhor Shaw com isso.
- E que tal com isso, empolado?! - *SNIKT* ejeto uma das trincas, com a mais lateral encostando dentro do nariz do mordomo. Ele não se move e nem se assusta, apenas me olha com um desprezo ainda maior.
- Aguardem aqui fora, por gentileza... – com uma frieza indizível.
- Esse cara é um robô? – o russo pergunta.
- Pior é que não... Tem cheiro de almofadinha e age feito um, mas não passa de um mordomo!
Ouço algumas vozes abafadas vindas de dentro e então Sebastian dá o ar da graça.
- Eu precisava ver com meus próprios olhos! Logan... Logan... Você ameaçou um membro valoroso do nosso clube? Isso é verdade?
Dei de ombros:
- Eu disse pra ele que nem precisava te incomodar, desde que a gente pudesse ter um veículo pra chegar até o Carrossel. Mas ele insistiu em levar esse probleminha pra você, fazer o quê?
- Veículos são quase coisas do passado, Logan! Mas sendo você o selvagem que é, não me espanta!... Venham, sigam-me! Tenho um portal nos fundos da mansão que dá na Arena, pode ser?
- Claro, claro!...
E enquanto caminho por dentro da mansão penso no enigma da Ravena: "Ela está onde você menos espera e onde ninguém visita!". Existem tantos lugares ainda pouco visitados em Krakoa... Eu estava num lugar desses alguns dias atrás, com a Kitty! Mas nenhum sinal de portal algum. Bufo um pouco alto demais e Sebastian comenta:
- Desculpe, sei o quanto a mansão é grande e até eu mesmo me canso de andar nela...
Só pra sacanear, eu comento:
- Por que não coloca portais nos cômodos? Isso ia diminuir bastante o percurso...
- Olha, não é má ideia! Precisaremos reformar o hall para que caibam tantos portais, mas não é de todo má.
Eu nem me arrisco a responder. Reviro os olhos e rio por dentro. Logo eu não ia mais precisar ver a cara desse cretino!
Mais alguns minutos caminhando e damos numa área sem telhado, com um jardim central, onde ainda existem mais construções ao lado. Ali, alguns portais estavam plantados e, depois de passarmos por uns três deles, Sebastian aponta:
- É este aqui, senhores.
Eu nem agradeço, atravesso sem cerimonia e ouço o Ômega Red dizendo alguma babaquice pra ele.
Saímos próximo da Arena, mas ouvi perfeitamente uma comoção ao lado. O Carrossel é o lugar destinado às grandes festanças de Krakoa. Aliás, pensando bem, eu tinha passado mais tempo naquele lugar do que em qualquer outro da Ilha e, agora, isso fazia um sentido gigantesco pra mim... "Circo ao povo"...
Ômega segura meu braço enquanto me cobra:
- Chegamos, canadense. Você vai cumprir sua parte do trato?
- Claro que eu vô, Arkady! 'Tá pensando o quê de mim? A gente só precisa encontrar o Magneto, pra eu entregar o pingente com uma testemunha e, também, explicar o que fizemos, 'tá ok?
- Ele está ali em cima, veja! – e apontou para uma das plataformas que ficam acima do solo e congregam os mutantes. Cada plataforma tem seu próprio estilo musical, como um grande "Cirque du Soleil".
Do lado dele também 'tava o Charlie e seria estranho estar diante dele, sem deixar o maior telepata do mundo entrar na minha mente. E agora?
