Passamos as próximas horas conversando. Escutei mais do que falei. Ela era, realmente, uma alma antiga. E cada memória que ela trazia fazia minhas memórias retornarem. Eu a atualizei como estavam as coisas, agora que o Charlie sabia que eu estava com ela, teoricamente, ele iria acelerar o plano...
- Ele comentou que amanhã tem palestra na ONU. Vai levar todos os X-Men maiores, além dos vilões a quem se aliou para lá e ameaçou fazer algo com as crianças. Nem sei mais se isso será necessário?
- Crianças? Logan, tem certeza de que ele levará todos os vilões?
- Claro, Moira, não vai ficar ninguém na Ilha. Não! Peraí! O Creed 'tá num castigo eterno nas entranhas da Krakoa, ele foi punido por ter matado sem necessidade... humpft, como se isso fosse novidade...
- Você quer dizer que ele foi retirado das vistas, como eu?
- Mas o que ele ganha matando as crianças, ruiva?
- Alguém para culpar? Krakoa pode matar Creed depois do ataque, simular que ele foi feito por seres humanos e, aí, está armado o golpe!
- Toda a cúpula diz que nós não seremos os primeiros a atacar. Mas acho que todos estão de acordo se o ataque for pra defender um massacre de crianças mutantes! A gente tem que sair daqui!
- Achei que nunca fosse pedir, Logan...
"O quê?" – eu penso, com cara de incredulidade total.
Caminhamos até o quintal de trás, havia uma casinha de ferramentas, entramos nela e não vi nada de diferente, até que ela se aproximou da bancada de ferramentas e me disse:
- Me dá uma ajuda aqui, Wolvie?
Vou até a mesa e nós a arrastamos, ela retira algumas ferramentas maiores, imito ela e coloco no chão. Com um pé de cabra, ela começa a retirar algumas tábuas da parede e é então que eu percebo que a casinha era maior por fora e saco as garras para ajudar *snikt* Ela sorri e ambos sorrimos ao ver um portal vicejante do lado de trás daquela parede falsa.
- Por acaso, isso vai dar perto do litoral?
Ela levanta uma sobrancelha:
- Tem alguma coisa que você não saiba?
- Meu instinto me levou até teu cheiro, mas eu não vi nenhum portal por lá, Moira. Nem eu, nem a tripulação do navio da Kitty.
- Essa é a intenção, meu querido. Se fosse fácil ver, não seria uma rota de fuga, não é? Você vem?
- Peraí, qual o plano mesmo? Você não teria um sinalizador por aqui, teria?
- O plano é salvarmos as crianças, Logan! Pra isso, você vai precisar lutar contra o Dentes-de-Sabre! – enquanto dizia isso, ela apontou para uma parte da bancada com dois sinalizadores – Pegue os dois, sim?
- Tem certeza? Eu 'tô achando clichê demais... – e nos jogamos no portal, aparecendo numa encosta próxima da praia, onde um fio de cachoeira caia, convenientemente escondendo nossa chegada. Moira precisou me segurar pela gola da camiseta para que eu não caísse pela encosta.
- Pra quê o sinalizador? Um eu quero usar pra destruir esse portal. Não tem mais volta...
Passo o sinalizador pra ela enquanto começo a descer a encosta.
- Estou pensando, de repente um milagre em forma de um pequeno reforço não faria mal, Moira.
Faço o sinalizador funcionar, vejo o barco da Kitty longe, espero que ela veja o sinal e, acima de tudo, espero que ela opte por ajudar. Isso seria muito bom, exatamente, porque é inesperado!
Vejo a Moira descendo com duas backpacks nas costas.
- 'Cê pensou em tudo? Eu 'tava aqui imaginando a distância entre o próximo portal.
- Eu tive muito tempo pra planejar minha vida, Logan... Isso não deixa de ser hilário, né?
- Não se culpa, guria. O que importa, na maioria dos casos, é a intenção... Senão, imagina o que seria da minha consciência, né?
Ela me oferece uma das mochilas a jato, vestimos rapidamente e eu a sigo pelos ares. Vemos que todo o lugar parece vazio de adultos. Algumas crianças conversam em grupos espalhados. Descemos próximo do que seria a Escola para Jovens Superdotados em Krakoa e vejo alguns adolescentes caminhando sem rumo. Paro um deles com a mão no ombro e questiono:
- Cadê os professores?
- Deram o dia de folga pra nós, saíram todos para uma reunião na ONU. O Professor Xavier disse que você estaria aqui pra nos proteger.
- Quando ele disse isso, guri? – não deixo de expressar alguma preocupação na voz.
- Ontem, quando você chegou acompanhado do Ômega Red. Hoje eles saíram sem falar nada, antes de acordarmos.
Agradeço e olho pra Moira, querendo saber se ela tinha alguma ideia em mente.
- Onde levaram o Dentes-de-Sabre? Pode ser um bom lugar pra começar... O que me diz?
- Que isso 'tá melhor do que eu tinha pensado, já que minha caixola resolveu dar tela azul...
Ela ri, gosto do riso dela. Começo a me movimentar na direção de onde estaria o Creed e ela me segue de perto.
- Poderia pedir pra tu ficar com as crianças, mas eu não acho que dividir nossa comitiva seja uma boa ideia... Ah! Peraí!
Vejo um grupo de adolescentes conversando sobre física e saco que esses são alguns dos nerds.
- Bom dia, garotos e garota. Queria saber qual o nível de treinamento de vocês e se poderiam me ajudar?
A garota toma a palavra: Não chegamos ainda ao nível de treinar com o senhor, senhor Logan. Mas passamos por algumas sessões com o prof. Hank. – ela baixa o rosto, como que envergonhada – Na verdade, tivemos duas sessões.
- E como 'cês se saíram?
É a vez de um adolescente muito alto e esguio, com o pescoço mais comprido que o meu, responder:
- Conseguimos ficar por dois minutos sem sofrer baixas... Na segunda vez.
Penso sem externar: "Putz! Seria suicídio pedir qualquer coisa pra eles..."
- Certo! Não tem problema nenhum estar na fase inicial de treinamento, todos já passamos por ela, galera... Não sejam tão autocríticos, ok? Mas... Pro que 'tô precisando, seria necessário ter ficado um pouco mais de dois minutos na Sala de Perigo. Sabem se tem alguém que ficou com esse nível de treinamento?
E é então que eu ouço uma voz conhecida e que, sinceramente, não pensei que ouviria tão cedo! Quentin Quire!
- Serve eu, seu Wolverine? Plantei na cabeça de todos que estou lá com eles, mas na real, tinha mais o que fazer do que participar de uma reunião chata na ONU!
- Quentin! Tão bom te ver, guri! – A camiseta dele estava com a frase "A vida é curta, assim como o Wolverine"
- 'Tá tudo bem? O senhor nunca fica feliz em me ver... Ei! Peraí! Como 'tá conseguindo blindar sua mente? Ninguém consegue se esconder de mim, velhote! Quem é você de verdade?
*snikt* coloco ele contra a parede e digo: Não gostei da sua camiseta, pirralho! – Ao mesmo tempo, abro minha mente pra ele, permitindo que tivesse acesso a tudo que vivi em minhas vidas.
O rosto de Quentin fica abobalhado, ele se vira pra Moira e só consegue dizer: I-RA-DOOO!
- Isso quer dizer que podemos contar contigo, senhor Quire? – Moira pergunta, sorrindo.
- Claro, claro que podem. Vão lá atrás do Dentes-de-Sabre que eu vou dar o toque de reunir pras crianças, estaremos todos na Sala de Perigo.
- Olha, guri, eu não duvido dos seus julgamentos, mas se puder ser um lugar mais neutro e com menos armas, não sabemos o que o Professor preparou para o dia de hoje...
Ele dá de ombros e eu percebo que a camiseta dele não é mais aquela. Agora ela diz: Moira X, será que tem XI? – Sorrio do humor distorcido que ele tem. Mas não deixa de ser um jeito de dizer que se importa.
- Refeitório, então! Esse seria o lugar menos tecnológico que conheço. Concordam?
Ambos concordamos e saímos voando, eu na frente e Moira logo atrás, até onde eu vi Creed da última vez. Abaixo de nós, blocos de mutantes se movimentam em direção ao refeitório, chamados telepaticamente pelo Kid Ômega.
Começo a pensar que não tinha do que reclamar com o cara lá de cima; ele não me mandou o sinal na hora exata que eu pedi, mas me deu tantas outras pistas de como acertar que eu só posso agradecer a seja lá o que exista e que reja o equilíbrio entre as dimensões. Mais uma prova de estar no caminho certo e de que não temos o direito de dispor da vida de outros assim.
Chegamos rápido, graças às mochilas e quando descemos pudemos voltar a conversar:
- Aqui foi a última vez que o vi, Moira. Krakoa abriu um buraco e o jogou lá dentro enquanto ele esbravejava. O Conselho Silencioso decidiu que ele ficaria em êxtase, já que cadeias não são permitidas aqui.
- Nós tínhamos imaginado um mundo tão lindo... Independente dos humanos, sem conflitos! Por que será que não conseguimos? Por que sempre deve ter tanta morte?!
- Eu não tenho as respostas, Moira. Mas eu sei, por experiência, que a gente cresce muito quando tem a morte envolvida. Eu convivo com ela há tanto que nem sei pensar o mundo sem essa resolução... O medo da morte nos dá sempre perspectivas; quando a morte acontece sem querer, mudamos nossas prioridades; quando sabemos que só nos resta ela, somos livres! Não existe, eu acredito, nesse momento da nossa existência, a chance de viver sem conflitos, sem mortes. Essa é a única forma que conhecemos pra evoluir, ruiva... Sua intenção foi boa, em todas as vezes, mas isso não é tudo. A gente não consegue abarcar o todo e conceber como vamos mudar as vidas e, eu acho, que é aí que 'tá o grande lance. A gente não tem direito de mudar as vidas dos outros, sem dar uma chance pra eles, saca? E a felicidade não pode ser uma constante, acho que é pra gente dar valor quando ela aparece, sei lá...
Ela coloca a mão no meu ombro enquanto sorri:
- Em nenhuma dessas dez vidas eu me aliei a você pra tentarmos fazer algo melhor... Eu sempre te contava tudo, mas eu nunca dividia a possibilidade de poder e, ao que me parece, você tem umas ideias mais justas sobre a vida do que o Charles, o Erik e o Apocalipse juntos, Logan!
- Não, gata, 'cê tu lembrar bem, eu nunca quis dividir o poder contigo... Mas eu disse que podia contar sempre, especialmente naquilo que eu fazia melhor...
Ela dá de ombros: "Não custava tentar..." e eu sorrio.
- Chega de papo, vamos tentar encontrar o Creed. Não sinto cheiro nenhum dele por aqui...
Moira coloca a mão direita no chão e fecha os olhos, ela começa a se conectar com Krakoa e pede para ela nos dar passagem até onde o Creed estava. Nada acontece. Ela apoia as duas mãos e força novamente essa comunicação, fazendo a terra ao nosso redor tremer, jogando a irlandesa pra longe e, perto de mim, mostrando uma espécie de buraco sendo feito, de dentro pra fora. A força do impacto desacorda Moira e eu ejeto as trincas, preparado para o que fosse sair daquele buraco. Mas, nenhum treinamento ia me preparar pra isso!
Vários pedaços de ossos começam a surgir da terra, pela arcada dentária e pelas unhas, consigo identificar o Dentes-de-Sabre. Krakoa não o manteve prisioneiro, ela se alimentou dele, até os ossos!...
Olho ao redor, esperando qualquer ataque da Ilha-viva, mas ao invés disso os tremores cessam e eu corro até onde está Moira. Pego-a no colo e ligo a mochila. Se meus pés não tivessem contato com o solo, possivelmente, ela não saberia pra onde estou indo. Ou saberia? E era exatamente isso que ela queria? Subo o mais alto que os jatos permitem e tento vislumbrar se o navio da Kate está atracado na praia. "Sim! Finalmente, uma notícia boa!" Mudo minha trajetória para aquela direção, esperando encontrar asilo pra Moira no barco e encontro com as gêmeas e com Cathy correndo até onde estávamos. Assim que pouso, elas estancam e as gêmeas trocam um olhar de reconhecimento e felicidade.
- O que aconteceu, Logan?! Ficamos sem saber como ajudar, estávamos indo até a praça central atrás de uma pista. – fala a Lince Negra.
Explico brevemente o que aconteceu, vendo as expressões do rosto de Kitty mudarem de surpresa para ódio; assim como ouço a respiração das gêmeas acelerar e seus corações acompanharem o ritmo.
- Ele vai matar as crianças?! Isso é loucura demais, até pra ele!
- Eu 'tô achando que o Charlie não é mais alguém que a gente conhece, saca? Então, não espera alguma atitude baseada nisso, guria...
- Estamos lidando com um megalomaníaco que é o maior telepata do mundo?
Nisso a voz de Quentin aparece em nossas mentes, irritada: "Será que ninguém tem respeito pelos meus dons?"
- Quentin? – Kitty verbaliza – Como é bom ouvir tua voz!
- Hiiii! Eu tenho que acabar com essa fama de "bonzinho", hein? Acho que vou me unir à Krakoa e botar pra fuder!
Olho preocupado pra Kitty, mas depois de uma pausa incômoda, ele começa a rir nas nossas mentes. Eu pergunto:
- Então a culpa é da Krakoa, Quentin?
- Olha, Wolvie, eu diria que juntou a fome com a vontade de comer. Pelo que eu pude analisar, sem levantar suspeitas, Krakoa tem uma grande fome de crescer. Está no ADN dela, é algo instintivo; o Charlie tem uma grande vontade de expandir a nação mutante, pelo que eu vi, isso é exclusivo do nosso Charles, não de todos os outros que Moira teve contato. Ela errou feito dessa vez, hein?
- Quentin, temos alguma chance contra Krakoa? Uma coisa é lutar com um quintal, outra coisa é lutar contra uma Ilha.
- Gatinha, não tem nada que o Quentin aqui não dê jeito... Já devia saber disso!
Eu dou risada da cara de nojo que a Kitty faz quando Quentin a chama de gatinha e percebo que Moira está recobrando os sentidos:
- Ei, Moira, 'cê 'tá legal? Que aconteceu?
- É Krakoa, Logan! Ela se recusou a conversar comigo e ainda me mandou a mensagem gritada de "se afaste!". Ela não é muito prolixa, apenas o Cifra consegue entendê-la. Mas eu não esperava uma quantidade de energia tão alta assim.
- Depois que tu bateu as botas, Krakoa regurgitou os ossos do Dentes-de-Sabre – a irlandesa se espanta – então, acho que vamos ter que lutar contra ela.
- Mas acho mais prudente você levar Moira para o navio, Logan. Minha tripulação vai defendê-la com a vida, se for preciso...
- O que é que a Emma acha de tudo isso? – pergunto pra saber se poderíamos ter alguma ajuda extra nesse momento.
- Ela não responde aos meus chamados desde hoje cedo. Ou Charles os isolou na ONU, ou eu estou destituída do meu cargo de Rainha Vermelha. – E a vejo dar de ombros, como quem se acostumou a perder títulos e posições sem perder a força de viver.
Voo rapidamente até o navio, alguns marujos já me esperavam. Tento confortar a Moira, dizendo que vamos conseguir. Mas, na verdade, falo em voz alta pra ver se convenço a mim mesmo. Enquanto voltava, Quentin diz:
- Olha, Logan, a Ilha poderia ter tomado o planeta terra inteiro, mas não ia deixar de ser ela mesma, com apenas uma consciência, entende? Não importa o tamanho que ela tenha, desde que seja possível acessar e zuar essa consciência, vamos conseguir!
- E 'cê acha que o Charlie não pensou nisso, guri? Ele é um jogador de xadrez. Só espero que esse não seja nosso Xeque-mate... Onde 'tá o Cifra? - E aparece um mapa na minha mente.
- Vai mesmo querer conversar com ela antes de agirmos?
- Eu já disse, Quentin, não sou um assassino a sangue frio. Preciso saber pelo quê ela 'tá lutando e, acima de tudo, se não tem como fazer ela mudar de ideia...
- Eu posso tentar isso, acessando a matriz mental dela e*
- Não! Ela ia se sentir agredida e a resposta poderia custar algumas vidas. Deixa eu fazer do meu jeito, enquanto isso, pede pra Kitty encontrar contigo. A prioridade de vocês é salvar as crianças e nada melhor do que ter uma mutante intangível e outro que cria campos de energia e voa pra, 'cê sabe, fazer um trabalho incrível, mantendo essas crianças sãs e salvas!
- Ei! Eu faço muito mais do que só criar campos de energia e voar, inclusive com os campos... Mas eu entendi seu ponto, Logan. E sabe que pode contar comigo!
- Eu não sei de nada, Quire! Eu sei que tu faz o que te dá na telha, mas eu também sei que tu é capaz de coisas que nem sabe ainda... Agora pode ser uma dessas chances, saca? De fazer o certo pelo certo, sem colocar teu tremendo ego no meio, muleque!
Ele não responde minhas colocações. Sabia que uma parte delas 'tava certa e, por isso, dirige-se às meninas, indicando onde estava com as crianças e fazendo algum gracejo pra Kitty.
Chego rapidamente ao QG do Cifra, onde ele mantinha contato imediato com Krakoa, compreendendo tudo que ela falava e sendo capaz de enviar mensagem complexas para ela.
Krakoa tinha muito instinto. E eu sei, por experiência, que o instinto pode nos cegar pra todas as outras possibilidades, até praquelas que são mais certas e mais dignas. De repente, a Ilha só precisava de uma direção pra perceber que as ações dela iam repercutir em outros que não tinham nada a ver.
Bato na porta, Cifra ou Douglock, atende:
- Já esperava por você, Logan. Entre. Krakoa está ansiosa demais e só uma conversa com você pode acalmá-la...
- E como a gente faz? Eu falo e você traduz? Não sei bem como isso funciona...
- Está perfeito assim: você fala e eu traduzo.
Então, explico o que posso sobre os sextilhões de vidas que perecerão se continuarmos nessa jornada de supremacia mutante; explico que o Charles que conheci acreditava na convivência pacífica entre humanos e mutantes, nunca querendo a soberania, isso era algo que o Erik sempre quis e muitos outros mutantes se uniram a ele para isso, fazendo com que Charles criasse os X-Men, como uma bandeira de tolerância e convivência.
A resposta é dado num idioma desconhecido, as notas eram agudas demais pra minha audição e muito longas. Fiquei esperando uns cinco minutos até que Cifra depositasse os fones de ouvido no balcão e começasse a ler o que havia anotado:
- Não acredito em você, Wolverine. Você foi manipulado por forças contrárias, provavelmente humanas, para que se voltasse contra sua espécie. Eles não querem viver pacificamente. Eles só entendem a linguagem da guerra e da opressão. Vamos falar a mesma linguagem que eles, em breve! Quando ao voltarem à Nação Mutante, os adultos virem que todas as crianças e adolescentes foram assassinados e, convenientemente, encontrarem vestígios de Sentinelas no local, entenderão o que aconteceu*
- Mas não aconteceu! Os humanos não vão matar essas crianças, você vai! Está sendo manipulada pelo Charles?
- Eu gostaria de terminar de ler, senhor Logan...
- Eu não quero mais ouvir, Cifra! Não se continuar sem fazer sentido!...
O rapaz recoloca os fones, explica o que falei e a pergunta que fiz e escreve brevemente:
- Ela respondeu que não há manipulação mental, que nunca encontrou uma mente tão próxima de seus desejos quanto a de Charles e que não faz diferença quem matou as crianças, contanto que os humanos sejam exterminados do mundo.
- Ah! 'tô sacando! De preferência que eles sejam trazidos pra cá, pra alimentar você, não é, Krakoa?
Cifra hesita em passar a mensagem. Ele me encara, como que esperando uma ordem mais direta pra agir:
- Cifra, se a resposta for sim, eu não preciso que tu mande a mensagem pra ela...
- Já estou com ela tempo suficiente pra entender que a resposta será "sim". Ela tem fome, senhor Logan. E a fome dela não tem limites...
Abaixo a cabeça. Queria mesmo pensar que ela 'tava sendo manipulada pelo Charlie e aí, teria uma luta épica entre Quentin e Xavier e eu só teria que matar o telepata em algum momento de distração. Mas não... As duas entidades tinham entrado num acordo, um acordo que não seria impedido pelo bom-senso.
- Nenhum de nós vai parar até decidir esse impasse, Cifra. Eu preciso saber de que lado 'cê 'tá?
- Estou do lado que sempre estive, senhor Logan. Do fascinante lado onde posso aprender uma nova língua. Eu e Krakoa ainda temos muito o que aprender um com o outro. Estou do lado que acho ser o certo. Sei que o senhor também está do lado certo, então, estamos num impasse...
- Eu preciso minar os aliados dela, garoto...
- Não tenho medo de morrer pelo que acredito, seu Logan. Eu já morri antes e sei que não tem nada de assustador do lado de lá...
*snikt* as trincas da mão direita golpeiam o coração do mutante, faço um leve momento para que o vazamento de sangue seja rápido e eficaz, levando a uma rápida hipovolemia e à morte. A outra mão segura a cabeça dele, enquanto o abraço e sinto sua vida esvaindo. Parece que ouço Krakoa gritar com a morte dele e, em seguida, ouço o grito do Quire na minha mente:
- Precisamos de você por aqui, Logan!
Destruo toda a sala de controle, acho que com isso seria mais fácil permitir o trânsito de humanos para Krakoa e a faria perder sua capacidade de monitoramento, defesa e observação do que acontece fora dela. Ao menos, quando Cifra explicou pro Conselho o que ele havia criado, parecia que esses consoles ajudavam a centralizar tudo isso. Quem sabe...
- Quentin! Consegue chamar os Vingadores? O Quarteto? Eu acho que destruí a capacidade de restrição dos portais.
- Se eu consigo?! Vocês 'tão de zueira, né? É claro que eu consigo! E já está feito, Logan!
- Valeu, garoto! Estou indo pr'aí!
A mochila dá o seu melhor, mas a energia dela começa a falhar faltando 1/3 do caminho, fico sobrevoando baixo, correndo um pouco e planando outro tanto até esgotar a mochila. Assim que piso com mais assertividade no solo, meus pés são emaranhados por plantas e eu preciso cortá-las com minhas garras pra não ficar preso ao solo. Corro com toda velocidade possível, sem dar tempo de as plantas fixarem e, mesmo me atrasando, ela não consegue impedir minha chegada. Antes tivesse impedido. Chego na construção e vejo um caos, não posso deixar de me mexer, pra não dar tempo das plantas me prenderem, mas para algumas crianças, já era tarde, estavam aprisionadas por plantas; outras empaladas por algumas árvores.
Entro puto na construção, Quentin percebe minhas dúvidas e se defende:
- Elas se assustaram com o que ouviram, parecia um urro, eu não consegui mantê-las aqui dentro e tinha outras coisas pra me preocupar. Eu consigo fazer muito bem minhas tarefas quando as pessoas cooperam, Logan!
- Me poupe, Quentin! Tu tem telecinesia, muleque!
Ele fica mudo, eu vejo atrás dele uma corrente feita pela Kitty com centenas de crianças, todas mantidas intangíveis. Eu não tinha ideia da grandeza da mutação dela. Fazia tempo que não a via em luta. Mando um aceno de cabeça positivo pra ela, mas vejo o quanto ela já está cansada e o fio de sangue saindo de seu nariz me diz que aquilo é o limite.
- Continua fazendo com que ela não consiga entrar, Quentin. Eu vou sair e ver se consigo destruir alguma coisa importante!
- Não! Logan! A consciência da Ilha está a quilômetros de distância daqui! Nada do que você fizer será definitivo... Estava esperando você chegar para dizer que a resposta dos Vingadores e do Quarteto foi: a bagunça é de vocês, se virem pra arrumar... Basicamente...
- Se você localizou onde 'tá a consciência, porque não a coloca pra dormir, garoto?!
- Porque Charles a capacitou com algum mecanismo que me impede de fazer isso, oras! Eu já tentei de tudo, acho que só estando face a face poderia criar uma arma psíquica que furasse esse escudo, sei lá! Eu sinto que a força dela está crescendo! Não sei por quanto tempo vou conseguir revidar... Ela é muito mais forte do que eu pensava. A subestimei, Logan...
- Ela não é forte sozinha, Quentin. E você 'tá fazendo um milagre, lutando contra uma horda de telepatas sozinho... Charles deve 'tá se divertindo à beça... Tu ainda tem força pra levar a todos nós pra costa? O navio da Kitty pode ser nossa única saída!
- Eu nunca vou negar um bom desafio, Logan!
Bato o olho na camiseta dele e tem uma silhueta do meu uniforme, escrito embaixo "tinha razão". Esse era o jeito dele dizer que confiava em mim e eu não podia deixar de agradecer por ter esse guri do meu lado nessa hora!
- Tu não precisa se preocupar comigo, eu vou correndo, acho que a Kitty não 'tá mais conseguindo se manter intangível, guri. Vai ser só você e as crianças, ok?
Ele acena positivamente pra mim, começando a movimentar toda aquela massa de seres. Kitty desmaia e é ajudada pelas gêmeas. Todo o conjunto começa a alçar voo enquanto eu vou na frente, derrubando algumas árvores e machucando a terra com as trincas para que ela tivesse tanto ódio de mim que desse uma trégua à comitiva. Durante metade do percurso, essa ideia funciona. Até que Quentin tem um momento de fraqueza e faz todo o bloco tocar o solo.
Quando Krakoa percebe a quantidade de seres se movimentando pra costa, solta outro urro e faz uma onda de terra nos acertar em cheio. Quentin continua flutuando, mesmo desmaiado e eu me pergunto como ele consegue fazer isso?
As crianças despencam e começam a correr na minha direção, usando os poderes que tinham para tentar impedir o pior. O cenário é de angústia! O fato delas chegarem até mim não era a salvação... Eu pouco podia fazer para ajudar, eu quase não conseguia ajudar a mim mesmo!
As poucas que chegam estão com desespero no olhar. Percebo rapidamente que os poderes são de fogo, em sua maioria e pergunto se não podem ajudar os colegas, direcionando o fogo para as laterais, queimando a Ilha e fazendo-a sofrer e preocupar-se com ela mesma por um tempo. Eles tentam, mas o estresse sempre afeta nossas mutações, nem sempre para melhor. Alguns não conseguem produzir a quantia que estavam acostumados, outros perdem o controle e produzem mais fogo ou magma do que produziriam e, assim, causamos dano, mas não direcionado como estava, não trazia nada de bom.
A terra sob nossos pés começa a tremer e um terremoto faz com que o restante dos alunos de pé caia. Eu afasto bem as pernas, finco as garras no chão e me mantenho semiereto, analisando as possibilidades. As gêmeas defendiam o corpo desmaiado de Kitty, mas estavam perdendo a batalha. Finalmente, ouço um ruído na mente, como se Quentin estivesse bocejando e solto:
- Já era hora, Kid Ômega!
Ele volta o olhar rapidamente para o cenário e me envia um olhar de pena, misturado com medo. Gritando, ele cria um orbe ao nosso redor, arrancando toda aquela área do contato com Krakoa e, por isso mesmo, fazendo muitas crianças conseguirem sair dos casulos de planta que estavam presas.
- Nós não temos chance contra eles, Quentin!
- Não diz merda, Logan! A gente ainda não deu nosso máximo!
- Não vem com essa pra cima de mim, garoto! Eu vi o que 'cê fez e eu te agradeço muito! Mas eu só quero que mais uma pessoa morra!
Envio pra mente dele a minha ideia e ele sorri de modo sarcástico:
- Por que não fez isso antes?!
- Porque não é certeza que vai funcionar... Mas realidades desesperadoras pedem medidas desesperadas. Tu ainda tem força pra me mandar pra perto do navio?
Ele não responde verbalmente, sinto meu corpo ser deslocado com força para o mar e caio a alguns metros do navio. Nado rapidamente até ele e aviso os marujos que seria necessário um resgate aéreo para a Kitty e as gêmeas. Lockheed me entendeu, ou sentiu meu desespero e voou em direção à luta. Eu sei que, pelo menos Kitty, seria resgatada... Suspiro pelas gêmeas, mas volto meu foco, perguntando onde estava Moira. Eles apontam a cabine da capitã e eu corro pra lá. Abro de supetão e a encontro bebendo um uísque. Ela deixa o copo cair com a minha entrada, coloca a mão no peito.
- Que susto, Logan! Vocês venceram?!
- Quem dera, Moira! A Ilha deu um baile em nós. Ela não 'tá sozinha... A ajuda do Charles e, até da Emma e das Cockoos parece evidente. Quentin não conseguiu acessar e desligar a consciência de Krakoa, de tão fortes que eram as barreiras de proteção...
- E então você veio pra fazer o que faz de melhor, né? E se a Irene estiver certa e não houver nada depois disso? Se esta fosse minha última chance?
- Porque seria, Moira! Por um acaso a gente tem uma quantidade de mutação? Você é a maior estudiosa sobre isso que eu conheço, me responde: mutação tem um prazo de duração?
- Não que eu tenha encontrado, Logan... Mas a mutação não deixa de ser algo único em cada mutante. Eu não poderia afirmar nada.
- Mas o que diz a sua consciência? Ela também entende que é possível a Irene ter te manipulado?
- Sim... Isso também me passou pela mente. Ela criou uma memória de medo em mim, me fazendo acreditar que essa seria a última vez, exatamente porque ela precisaria da Mística para revivê-la. Eu não sei!...
Ela segura firme a cabeça com as mãos. Eu me aproximo, sem pressa. Espero esse momento de incerteza passar e questiono:
- Caso dê certo, guria, tu sabe o que deve fazer, né? Ser a melhor geneticista que conseguir, mas deixar o Charles, o Erik e todos os outros que você se envolveu , na ignorância, por favor! Deixa eles viverem as vidas medíocres deles, sem saber o que perderam por vaidade e ego! Eu me lembro da primeira vez que te conhecemos, tivemos muitas décadas de felicidade e de aprendizado. Se lembra?
Ela sacode positivamente a cabeça. Uma lágrima escorre:
- Mesmo assim, seremos temidos e odiados, seremos perseguidos e vamos morrer escravos dos humanos, Logan! É isso que você quer?
- Eu só não quero ser responsável pela morte de tanta gente, de outras dimensões, de tantos futuros que poderiam ser melhores do que o nosso, só porque o nosso é uma merda... Saca? Eu não nego que é uma merda. Mas eu aceito o que esse futuro é, porque esse é o nosso futuro. E, com isso, tudo fica nos eixos, entende? Essa é a maior responsabilidade. O grande poder! Saber como deve ser e aceitar que seja assim, mesmo tendo o poder incrível de mudar isso, gata...
Ela me abraça, chora convulsivamente, enquanto repete pra si mesma que não queria que tivesse sido assim. Que não tinha feito nada daquilo por mal. Sua última frase é: Estou disposta a arcar com as consequências. Eu ainda permaneço abraçando a Moira por algum tempo, a seguro pelos ombros e lanço um ultimato:
- Eu 'tô cansado de te matar, ruiva! Eu só quero conviver com você do jeito que precisa ser, saca? – sorrio, passando confiança pra ele de que tudo vai se repetir e ela vai ter uma chance única de fazer o certo.
- Eu não prometo nada, Logan... Se estou presa num looping, em algum momento, vou tentar fazer alguma besteira pra sair dele. Eu só peço que tenha paciência comigo, meu amigo... – ela então pega minha mão direita e apoia no coração dela – Seja rápido, como sem*
Não deixo ela terminar a frase. Não importa quantas vezes ela tenha passado por isso, dor é dor. Seu corpo enverga, suas pupilas dilatam e o ritmo de seu coração vai diminuindo. Eu a seguro durante todo o processo. A deito no sofá da Kitty e percebo a movimentação lá fora, com o cheiro do Lockheed e dos marujos.
