A lenda das Espadas Gêmeas

Cap 01- O fim da guerra não significa paz.

Os quatro amigos ficaram ali, deitados naquele campo florido por longos minutos, estavam rindo e o alívio parecia se instalar. Tudo que se ouvia eram risadas, beijos e sons de alegria, mas também haviam gemidos de dor contidos. Hordak Prime havia sido derrotado, a magia havia voltado a Ethéria, a She-ra havia retornado em toda a sua glória luminosa e exorcizado o mal dali com todo seu poder. Apenas por aquele momento a paz parecia uma realidade.
Para aqueles quatro amigos que haviam vivido todas as suas vidas em guerra, não havia como saber que o fim do conflito ainda não significava a paz que tanto sonhavam.

Glimmer abriu as portas do palácio de Lua Clara para abrigar todas as princesas e quantos sobreviventes fossem possíveis. O salão de festas havia se tornado um albergue improvisado e também uma espécie de hospital de campana. Os jardins do Castelo também abrigavam barracas de acampamento, aonde as pessoas menos fragilizadas poderiam ficar até terem para aonde ir. Ninguém sabia quantificar o tamanho da destruição ainda, e as princesas estavam exaustas após lutarem na linha de frente por tanto tempo, bem como seus aliados.

Catra estava ainda deslocada, esperava dormir em um colchonete junto com o povo, afinal estava acostumada com alojamentos militares e de campana, mas para sua surpresa a rainha lhe ofereceu um quarto. Obviamente que a felina sabia o que era, mas de fato nunca esteve em um, o mais próximo que teve de um quarto era sua cela privativa na zona do medo, aonde ficou por uns meses após assumir o lugar de Hordak como a líder da Horda. Além disso tinha esperança de ficar com Adora, afinal, desde criança dormiam juntas e o único período de suas vidas em que isso não era realidade foi o período de 4 anos em que ambas tentavam se matar lutando em lados opostos daquela guerra estúpida. Mesmo após a felina se unir ao lado das princesas, as duas dividiam uma tenda no acampamento rebelde, foi então que se deu conta de que tudo isso foi antes do que havia acontecido no Coração de Ethéria.

Deixou-se afundar na cama macia, estranhando como era confortável e sentindo os olhos de Melog sobre si. Tudo foi tão rápido. Ela se lembrava de tudo com uma riqueza de detalhes irritante, riqueza esta que a fazia sentir as sensações novamente. Sentia o medo e a angústia de ver Adora caminhando determinada rumo a morte, sentia a impotência de tentar impedi-la com todas as suas forças, lembrava-se dos sons assustadores do Coração ruindo ao seu redor, colapsando conforme todo o planeta agonizava, lembrava-se de sentir que morreria ali, e que pior que isso... veria Adora morrer antes dela. Seu coração já estava disparado e Melog já se aninhava ao seu lado com a cabeça em seu colo encorajando-a a seguir a linha cronológica e se acalmar, por que não foi assim que as coisas terminaram. Então lembrou-se de como implorou para que Adora ficasse com ela, de como disse que a amava, e de como seus olhos se abriram magicamente protegendo-a se um escombro que certamente as teria esmagado, seu coração passou a se aquecer com a lembrança da mão da loira em seu rosto e da constatação obvia que veio em seguida, o amor era recíproco. A Imagem mental daquele beijo, seu primeiro beijo com Adora foi o que acalmou sua mente e seu coração o suficiente para se entregar ao sono. E ali com um sorriso tímido no rosto adormeceu aninhada em Melog.

A gata dormiu profundamente e por tempo demais, não havia se dado conta de o quanto estava exausta, nem de o quanto seu corpo doía, constatou em sua higiene matinal que haviam muitos hematomas e vários ferimentos superficiais, perfeitamente ocultos em sua pelagem alaranjada. Seus músculos doíam como a muito não sentia, mas considerando tudo que passaram acreditava estar com sorte. Ainda sonolenta demorou para perceber a estranha movimentação no corredor e saiu de seu aposento acompanhada por Melog. A porta do quarto de Adora estava aberta e dentro dele Entrapta e Glimmer com semblantes preocupados.

A princesa mais velha escaneava o corpo da loira que parecia dormir, mas tinha seus cabelos grudados na testa suada, um desespero mudo tomou conta da felina imediatamente.

- O que houve com a Adora? – sua voz acabou saindo um pouco mais alto do que esperava.

Glimmer veio em sua direção e colocou a mão em seu ombro. Tentando acalmar Catra.

- Depois que você se recolheu ontem ela resolveu descer mais um pouco para ajudar a instalar alguns refugiados, acabou desmaiando de exaustão e está apagada desde então. – A rainha tentou lhe explicar calmamente, mas seu tom de voz não escondia que ela também estava aflita. – Entrapta está monitorando ela a noite toda, e ela parece bem, mas não dá sinais de que acordará tão cedo.

A princesa mais velha sequer desviou seus olhos dos monitores que estavam montados improvisadamente em uma mesa que claramente não pertencia ao quarto.

- Não sei como ela conseguiu trazer a She-ra de volta, mas obviamente seu corpo está se recobrando do esforço, é impressionante como ela é forte! – Constatava Entrapta falando mais para si do que para as outras - Qualquer um teria morrido com tamanha concentração de energia mágica em um espaço tão curto de tempo. Adora nunca usou tanto poder de uma vez.

Catra foi até a princesa geek e se ajoelhou abaixou para ficar na altura de seu rosto, obrigando-a a olhar em seus olhos heterocromáticos.

- E o que isso significa? Ela vai ficar bem? – perguntou angustiada, e sentindo-se culpada por ter dormido enquanto a loira estava neste estado.

- Ah... sim sim! Ela está se regenerando, suas feridas estão regredindo sozinhas automaticamente, mais rápido que o natural e mais lento do que os poderes de cura dela costumavam fazer. – Ela não pode manter o contato visual por mais do que alguns instantes mas falava animadamente - Meus bebezinhos vão monitorar todos os seus sinais vitais e poderemos acompanhar esse processo fascinante.

- Então saberemos qualquer coisa que acontecer com ela? – questionou Glimmer seriamente

- Ah sim! Eu recebo em tempo real tudo que se passa neste corpo – afirmou Entrapta enquanto uma de suas longas mexas de cabelo ajustava alguns cabos e a outra lhe trazia uma caneca de café forte aos lábios. – Podem ficar tranquilas.