Cap 02 – Constatando a realidade
Bow havia terminado de carregar as coisas de Catra, que nem eram muitas, para o quarto de Adora, Glimmer tomou a decisão sem nem consultar a felina, já que não fazia sentido algum mantê-las em quartos separados. Adora dormiu por três dias direto e a gata simplesmente se recusou a sair de seu lado, o que acabou fazendo com que os funcionários do palácio trouxessem as refeições no aposento. Bow e Glimmer se revezavam para fazer companhia para elas em algumas horas do dia, enquanto também trabalhavam na reconstrução do estrago causado pela guerra. Vez por outra a loira roncava alto o que provocava certo alivio em todos. Entrapta checava os maquinários junto com os médicos do palácio para confirmar, ela dormia e o corpo estava regenerando, mas a vaga noção de que aquilo era causado pela exaustão não deixava Catra menos aflita.
Eventualmente a felina acabou contando para as duas princesas e o arqueiro o que aconteceu no Coração. Eles queriam entender como ela fora capaz de trazer a She-ra de volta e como começou aquela explosão de poder mágico que varreu a presença de Hordak Prime do planeta.
- Isso explica muita coisa. – Constatou o arqueiro com uma mão no queixo.
- As altas doses de ocitocina no organismo com certeza são por isso - Concordou Entrapta recebendo olhares confusos dos outros três e vendo que eles não estavam acompanhando seu raciocínio tentou facilitar – É um hormônio, chamam de hormônio do amor.
- Aaaaahhh, faz mais sentido agora. – falou Glimmer com certeza percebendo um certo desconforto na gata que esfregava nervosamente o braço direito com a mão esquerda com um rubor visível no rosto. Falar de sentimentos não era exatamente algo natural para alguém criado na Zona do Medo, e já tinham passado por isso com Adora anos antes.
Todos estavam exaustos e ainda não conseguiam de fato descansar, mas a tensão se aliviou quando na madrugada do quarto dia, Adora acordou, encontrando Catra aninhada do seu lado segurando sua mão enquanto dormia numa posição que seria muito desconfortável pra qualquer pessoa. A loira ainda dolorida e cansada observou a gata afagando-lhe os cabelos e ficou ali em silêncio esperando o sol nascer.
Glimmer entrou no quarto logo cedo trazendo um café da manhã reforçado em uma bandeja, a rainha fez questão dela mesma fazer isso depois que viu pelos monitores que a amiga estava finalmente acordada.
-Que saudade de você, dorminhoca! – Disse aliviada assim que a porta lhe foi aberta por um guarda que fazia plantão de vigia na porta da princesa.
- Shhhhhhhhhh fala baixo, não quero acordar a Catra. – respondeu Adora, já parcialmente sentada na cama com um sorriso no rosto enquanto acariciava a orelha da gata.
- Sua namorada não saiu daí nos últimos dias. – Constatou a rainha cintilante – tanto que falei pro Bow trazer logo as coisas dela para cá, já que dar um quarto só dela parecia sem sentido.
- Dias? – Inquiriu Adora confusa erguendo uma sobrancelha.
- Você dormiu por pouco mais de três dias Adora. – Assentiu Glimmer enquanto se sentava na cadeira ao lado da cama arrumando os pés da bandeja para que a loira pudesse comer na cama. – Você desmaiou de exaustão e quase matou a gente de medo.
- Desculpe, não queria preocupar ninguém, nem sabia que estava tão cansada. – respondeu a loira envergonhada. – Não tem um músculo do meu corpo que não esteja dolorido.
- Quanto a isso... – Glimmer pensou um pouco escolhendo as palavras e mantendo o tom de voz baixo para não acordar Catra adormecida – Aparentemente você usou tanta magia quando venceu o Hordak Prime e restaurou o Coração que seu corpo quase não suportou. Entrapta e os médicos do palácio não encontraram uma resposta científica para isso ainda, então só pode ser por magia que você sobreviveu ao esforço.
- Melhor pegar leve os próximos dias então e deixar a She-ra descansar. – Constatou Adora, com a boca cheia, falando mais para si do que para Glimmer, enquanto atacava um sanduíche e bebia um copo generoso de suco.
- E eu já estou sabendo do que aconteceu no Coração, senhora beijoqueira. – Provocou a rainha púrpura enquanto roubava uma uva do prato da amiga, que engasgou sem graça.
- Não acredito que a Catra contou pra você! – a surpresa da loira era genuína, tanto que mal sentiu a felina erguendo levemente a cabeça debaixo de sua mão esquerda, desperta pelo falatório.
- Claro que contei, ninguém sabia explicar o que você tinha, eu era a única que viu o que aconteceu lá no Coração e conseguia explicar mais ou menos. – disse a gata sonolenta entre um bocejo conforme se ajeitava ao lado da loira. – Além do que você quase me matou de preocupação.
- Você entre todas as pessoas de Ethéria deveria saber que eu não morro fácil – Respondeu Adora com um sorriso bobo.
- Só por que eu sempre estou lá pra garantir isso – rebateu a gata.
- Se bem me lembro você tentou isso algumas vezes também. – Provocou a de olhos azuis.
-Se eu tivesse tentado com vontade você já estaria morta faz tempo! – disse a gata com deboche.
- Que graça o namorico de vocês! – provocou divertidamente a moça púrpura mal contendo o riso observando as duas amigas completamente sem graça.
Apesar dos protestos Catra não conseguiu dissuadir Adora de participar da reunião da Aliança das Princesas, estava tão atenta na loira que mal se deu conta de seu próprio nervosismo por estar cercada de suas antigas inimigas, o incômodo causado por alguns olhares de desconfiança parecia pequeno perto do que sentiu nos dias em que sua amada passou dormindo.
Scorpia por outro lado parecia bem mais à vontade no meio das princesas, e abraçou a todos antes de começar a reunião de fato. E para a surpresa da felina foi a primeira a falar após receber a palavra da rainha.
- Nossos mapas foram atualizados pela manhã, trinta minutos antes da reunião e as áreas menos afetadas já estão sob controle. – Falou a escorpiniana apontando com suas garras as regiões de Pluméria e Salíneas. – Os danos de estruturas subaquáticas eram mínimos e as vilas e cidades costeiras de Salíneas estão com a reconstrução a contento.
Catra não pode deixar de notar o olhar que Scorpia deu para Perfuma antes de respirar fundo e continuar.
- Já em Pluméria a Princesa Perfuma... – um sorriso involuntário no rosto da mulher musculosa insistia em se fazer presente. – usou seus poderes para fortalecer as estruturas que estavam em risco de desabamento com árvores e trepadeiras. O que nos dá tempo para agir. Nosso problema maior está nas regiões de Dryl, Lua Clara e na Zona do Medo, além de algumas questões delicadas ligadas a Floresta do Sussurro.
- Na Zona do Medo? – a felina inquiriu com uma de suas sobrancelhas erguidas e seus braços cruzados – O que tem de tão urgente naquela terra de ninguém?
Desta vez foi Entrapta que tomou a palavra toda animada e com os olhos brilhantes.
- As fábricas, e os laboratórios que tinham na Zona do medo foram construídas de maneira completamente improvisada anos atrás quando os pais de Scorpia se aliaram a Horda, e cresceram desenfreadamente conforme ganharam poder. Os danos causados naquela região acabaram por espalhar substâncias químicas que estão comprometendo as cidades e vilas já tinham uma infraestrutura bem frágil. Além dos arsenais e toda aquela tecnologia de guerra e vários projetos lindos que nem mesmo foram terminados ainda!
Mermista precisou tocar o ombro da colega para que ela voltasse o foco, o que não foi exatamente o que aconteceu, já que a moça de cabelos vivos passou a rascunhar fervorosamente anotações e desenhos em um bloco de papel a sua frente ignorando o restante da reunião dali para frente, embora seus ouvidos captassem todas as informações meticulosamente.
Vendo que Entrapta não falaria mais, a Princesa das águas tomou a palavra.
- Sobre isso, esperávamos que você e Adora pudessem lidar com este assunto. – Mermista apontou para Catra séria. – Temos muitos cadetes da Horda que desejam se unir a nós, e aquele território é por direito da Scorpia, que já está sobrecarregada. Vocês conhecem a geografia e estão familiarizadas com a "cultura" local. Por mais que deteste admitir, são as mais indicadas para coordenar nossas ações naquele buraco.
Catra ia responder alguma coisa, mas sentiu a mão de adora em seu braço e se calou.
- Pode deixar conosco. Vou me inteirar da situação e apresento alguma ideia para vocês o mais rápido possível, - Disse Adora séria.
O restante da reunião se seguiu sem muitos contratempos. Por mais algumas horas discutiram sobre mobilização de pessoas, verbas e construção e reconstrução. Era a primeira vez que Catra via uma reunião como aquela, aonde todos que tinham lugar na mesa tinham liberdade de falar e ninguém disputava poder com ninguém, sem ameaças veladas e sem demonstrações de autoridade, aquilo a intrigou, mas pensou que poderia se acostumar.
No banho adora tocou o peito no local aonde até pouco tempo estava a chave para o Coração, sentindo a região ainda dolorida embora não houvesse mais a marca luminosa visível. Notou que quase não havia mais hematomas, mas as cicatrizes que já tinham ali permaneciam, o que não a incomodou, mas a intrigou pois esperava algumas cicatrizes novas. Enquanto a água lhe caia na cabeça e escorria por seu corpo se permitiu organizar seus pensamentos, ainda não havia feito isso, na realidade evitava fazer isso durante os últimos meses pois tinha medo do que poderia concluir se de fato pensasse em tudo que estava sentindo e fazendo.
Sempre soube que se pensasse demais talvez lhe faltasse a coragem de fazer o que era preciso, mas agora se forçava a pensar simplesmente por que sequer sabia o que estava fazendo. Ela era um soldado, uma guerreira, e sem uma guerra para lutar não sabia exatamente qual seu papel dali para frente. Apesar de desejar por anos que a guerra acabasse, não imaginava o quanto ainda teria de trabalhar após o fim do conflito para que de fato houvesse paz.
Além disso havia outra coisa em sua mente, um pensamento insistente que lhe causava inquietação. Ela havia beijado Catra, havia dito que lhe amava, e ela estava neste momento deitada em sua cama.
