Cap 04 – Forasteiros

Catra e Adora já estavam impacientes na porta do palácio já prontas.

- Essas princesas não tem a menor disciplina! – Reclamou a felina bufando contrariada, enquanto a loira se encostava na parede e a chamava para um abraço que foi prontamente atendido.

- Você precisa relaxar um pouco. – Adora dizia enterrando seu rosto na nuca de Catra e sentindo seu cheiro enquanto a abraçava por trás carinhosamente. – São só uns minutos e você nunca foi um exemplo disciplinar também.

- Espero que aquela luz não tenha colocado fogo na floresta, por que se depender da purpurina só vai ter cinzas quando chegarmos. – Concluiu a felina com deboche.

Em um brilho furta-cor Glimmer surgiu trazendo Bow, ainda sonolento ajustando sua aljava nas costas.

- Demoramos por que o Bow não achava o scanner dele. – justificou a rainha enquanto os quatro amigos se encaminhavam para a Floresta do Sussurro, seguindo na direção de onde antes estava o feixe de luz.

Caminharam por cerca de duas horas até que Catra pareceu farejar algo no ar, e passou a seguir a trilha guiando os demais mata adentro, Adora conhecia aqueles arredores, era relativamente próximo de onde havia encontrado Esperança da Luz pela primeira vez, pouco mais de cinco anos atrás. Todos estavam atentos e preparados para alguma surpresa. Então Catra virou sua cabeça para trás encarando os três com um olhar sério e com a mão direita fez cinco gestos rápidos, que Adora respondeu com um aceno de cabeça e gesticulou com a mão direita duas vezes. Feito isso a felina sumiu entre as árvores deixando Glimmer e Bow confusos sem entenderem o que se passava. Adora diminuiu o passo deixando os amigos assumirem a frente por alguns metros.

De repente, um enorme tigre verde surgiu da mata em um bote poderoso com sua bocarra aberta na direção do casal, que mal teve tempo de reagir, mas foram salvos por Catra que se lançou violentamente contra o tigre no ar, jogando-o para o lado com força e rolando alguns metros parando sobre as pernas agachada e com as garras expostas, dando para Adora a chance invocar sua arma mágica, desta vez na forma de um bastão dourado que usou para tomar propulsão e atingir o enorme felino com um chute antes que ele se recuperasse o suficiente para atacar sua companheira.

Ambas se olharam e Adora fez novamente um sinal rápido de mão que Catra entendeu perfeitamente, de imediato a felina se ergueu e sumiu entre as árvores outra vez. A esta altura Glimmer já disparou duas bolas luminosas que desorientou o enorme tigre e Bow disparou uma de suas flechas que se abriu em pleno voo revelando uma rede de contenção.

- Adora, o que foi isso entre vocês duas? – Perguntou Bow já com outra flecha preparada, com Glimmer atrás dele assentindo em concordância.

- Ah... é linguagem de sinais para operação de campo, a gente aprende a se comunicar assim quando cresce no meio de uma base militar. – Respondeu Adora meio sem graça coçando nervosamente a nuca. – Nem me ocorreu que vocês não estavam entendendo o plano.

- Tinha um plano? – Exclamou Glimmer atônita, mas sem tirar os olhos do Tigre que se debatia tentando soltar-se da rede.

- Aquilo não vai segurar esse bicho muito tempo. - Concluiu Bow inquieto puxando a corda do arco.

O enorme tigre verde rasgou a rede de contenção sendo atingido logo em seguida por uma flecha de gás no nariz, mas sequer sentiu o efeito do tranquilizante, ainda assim a nuvem formada pela substância permitiu que Glimmer disparasse mais dois projeteis de luz tentando desorientar a fera.

- Adora! Pega! – A voz de Catra se fez ouvir no meio da mata enquanto do alto de uma árvore um corpo despencou na direção da loira que por instinto o interceptou antes de cair no solo. Era um rapaz desacordado.

Assim que viu o rapaz imediatamente a fera mudou de postura, trazendo as orelhas para trás e rosnando em ameaça com suas enormes presas.

- Então é ele que você está protegendo? – Perguntou Adora com uma voz tranquila carregando com cuidado o corpo em seus braços. – Prometo que não faremos nenhum mal a vocês.

Adora passou a mão pelo rosto do rapaz arrumando seus cabelos loiros para que pudesse ver seu rosto, era jovem, bonito até e seus traços pareciam familiares, ela reconheceu aquele sono mágico. Com delicadeza o colocou no chão, ciente de que o tigre observava com muita atenção a tudo aquilo. Então se levantou e deu alguns passos em direção a fera, dando-se conta de que ela não era natural também, emanava dele a mesma energia que sentia em Swift Wind ou em Melog.

- Vê – disse ela lhe estendendo a mão com o brilho sobrenatural em seus olhos e ajoelhando em sua frente ficando com o rosto perigosamente próximo do focinho do animal. – eu também sou mágica!

Ela podia ouvir Bow tencionando a corda de seu arco e sabia que Glimmer estava pronta para atacar, não sabia aonde Catra estava, mas podia sentir seu olhar observando-a oculta, e provavelmente com as garras em riste, mas concentrou-se em permitir que o animal a examinasse. Ele encarou os olhos dela diretamente e um raio de entendimento pareceu cruzar o olhar do felino, embora não soubesse explicar como. Sem aviso ele esfregou sua enorme cabeça em Adora num sinal de afeição e imediatamente ela retribuiu com um afago.

- Acho que você leva jeito com gatos. – Concluiu Glimmer com um riso aliviado vendo o enorme tigre se aninhando nela como se fosse um filhote pequenino.

- Todo tipo de gato – comentou Bow divertido apenas para ser jogado ao chão um instante depois por uma Catra irritadiça que pulou do alto da árvore justamente em suas costas apenas por diversão.

- O cara desmaiado estava numa clareira a alguns metros daqui, e vocês precisam ver isso. – Constatou a felina.

Adora colocou o rapaz inconsciente sobre o torso do Tigre, achou que isso iria estabelecer um vínculo de confiança e então seguiram todos pelo caminho que Catra indicava por uma curta distância até acharem uma clareira pequena e circular. A guerreira não deixou de notar que era um círculo perfeito demais para ser natural e um pequeno acampamento bem no meio dele.

- São três pessoas e o gatinho aí. – Constatou Catra farejando o ar e os pertences no local, observando que algumas coisas claramente não eram comuns. – Dois homens e provavelmente uma mulher.

- Não devem ter ido longe se deixaram o dorminhoco para trás aqui. – Completou o arqueiro sem deixar de se impressionar com os talentos da felina, ainda era muito novo a ideia de tê-la como aliada e não havia se acostumado nem com ela e nem com a dinâmica quase simbiótica que ela tinha com Adora em missão.

- Então acho melhor a gente esperar que voltem. – Sugeriu Glimmer também observando como a gata tinha talentos.

- Por incrível que pareça a brilhinho tem razão. – Concordou Catra sentando-se na clareira e abraçando os joelhos, suas orelhas, porém se moviam, denunciando que estava bem atenta aos sons ao redor.

- De acordo com meu scanner tanto o tigre quanto o Zé soninho ali tem uma assinatura mágica – concluiu Bow embora essa informação já estivesse implícita pra as garotas desde que o tigre e Adora se entenderam.

Adora sentou-se ao lado de Catra, sempre de olho no rapaz adormecido e no tigre verde que se aninhava nele protetivamente. Glimmer e Bow também se sentaram lado a lado com ela aninhando a cabeça no ombro do rapaz com quem conversava baixinho. A guerreira não pode deixar de pensar que havia algo assustadoramente familiar naquele rapaz, e que o sono magico dele era exatamente como o que ela mesma já havia experimentado pouquíssimo tempo atrás.

- Qual é a deles? – Perguntou Catra num sussurro lançando um meneio de cabeça na direção de Bow e Glimmer.

- Acho que estão se entendendo ainda... como a gente, sei lá. – Arriscou Adora com um riso sem graça.

- A gente se entendeu muito bem ontem à noite. – Provocou a gata com um sorriso malicioso.

- Já disse que te amo? – Questionou a loira.

-Sem estar quase morrendo não. – respondeu a morena e riu descontraidamente. Poderia se acostumar com tudo aquilo, definitivamente poderia. Então seu semblante fechou e suas orelhas se alinharam enquanto o nariz farejava o ar. – Parece que nossos anfitriões chegaram.

Um homem mais velho, com um capacete prateado lhe cobrindo a cabeça e um grosso e bem aparado bigode castanho avermelhado em seu semblante duro foi o primeiro a ser avistado, ele trajava uma armadura de metal alaranjado com vestes de um verde escuro, visíveis por baixo das proteções, tinha uma arma nas mãos e se aproximava com cautela. Apenas a alguns passos dele uma mulher mais jovem, talvez poucos anos mais velha do que o quarteto de amigos, ela trajava roupas brancas e cobria seu corpo com uma armadura dourada, trazia em uma mão um escudo e em outra uma espada elegante. Seus cabelos ruivos estavam presos em uma trança e seus olhos muito azuis podiam ser vistos mesmo àquela distancia pelos olhos atentos de Catra.

- Não queremos encrenca! – Bow se fez ouvir assim que percebeu a aproximação, tentando tranquilizar os estranhos. – Só queremos conversar!

A ruiva olhou o tigre que pareceu assentir e em seguida analisou o quarteto. Seu olhar passou frio por Bow, Glimmer e Catra, mas quando encontrou Adora algo mudou. A ruiva encarou intensamente os olhos azuis da loira o que deixou a felina ao seu lado visivelmente incomodada enquanto Adora um pouco sem graça se permitiu ser examinada meticulosamente pela forasteira que já guardava suas armas, bem assim como seu acompanhante. O mais velho se adiantou, um pouco mais relaxado e com um sorriso simpático colocou sua arma em seu coldre, embora não deixasse de notar o movimento apreensivo da mulher felina com olhos bicolores que encarava a ruiva com uma presa exposta. Ele pigarreou interrompendo aquela silenciosa tensão e se apresentou.

- Eu sou Duncan, essa é minha filha Teela. – Com a mão direita apresentou a moça que se colocava ao seu lado agora e em seguida apontou para o tigre – acho que vocês já conheceram o Pacato. Estamos à procura de uma pessoa.

- Eu sou Bow, se levantou o rapaz estendendo a mão que Duncan apertou com firmeza e em seguida fez o mesmo com Teela tentando desesperadamente desfazer o clima estranho – Estas são Adora, Catra e a Rainha Glimmer de Lua Clara.

Teela apertou o olhar em direção a moça púrpura como se estivesse analisando a informação, e Catra notou que nem de longe aquele olhar teve a intensidade daquele que presenciou instantes atrás deixando-a ainda mais irritada.

- O apagadão ali tem nome? – inquiriu Catra com seu deboche natural, mas isso não pareceu incomodar Duncan, embora Teela parecesse bem incomodada.

- Aquele é Adam. – Respondeu o homem com simplicidade sendo logo cortado pelo tom tenso de sua filha.

- O que houve com a Rainha Angela e o Rei Micah? – perguntou a ruiva de forma séria erguendo uma das sobrancelhas.

Glimmer não escondeu o tom triste na voz enquanto se levantava e afrouxava o ombro de suas vestes virando-se de costas e mostrando uma parte de suas pequenas asas ainda por desenvolver.

- A Rainha Angela, minha mãe está morta a pouco mais de dois anos, já meu pai o Rei Micah está com minha tia no Reino de Mistacor. – Enquanto falava Glimmer sentia o olhar de Teela observando de perto sua asa buscando comprovar suas palavras. Encarou a ruiva que lhe abriu um sorriso hospitaleiro provavelmente por que acreditava no que ouvia. – Vocês conheciam minha mãe?

- Na verdade não. – respondeu Duncan se sentando e convidando os outros para fazerem o mesmo enquanto acendia o fogo para aquecer um pouco de água em uma panelinha de acampamento. – Nós só temos uma noção geral de quem ela era e de que poderia ser uma aliada importante. Mas nossos dados estão desatualizados, cerca de vinte anos desatualizados, e nossas fontes não eram exatamente confiáveis.

- O nome She-ra significa algo para vocês? – perguntou Teela de forma direta observando as reações de cada um ao ouvir sua fala, em especial de Adora a quem ficou encarando indisfarçadamente.

- Talvez, depende muito de o que vocês querem com ela – Disparou Catra encarando Teela certa tensão. Mas sentiu a mão de Adora em seu ombro e não pode impedi-la de falar altruisticamente

- Eu sou She-ra. – A loira se deu conta enquanto falava de que a informação poderia ser confusa, pois acabara de ser apresentada com outro nome e foi rápida em se explicar. – Mas prefiro que me chamem de Adora quando estou nesta forma.

Estranhamente os forasteiros pareciam bem confortáveis com essa informação, era como se tivessem acabado de ouvir que o céu era azul.

- A quanto tempo ele está assim? – Adora perguntou apontando com um meneio de cabeça o rapaz adormecido.

-Quase uma semana. -Constatou Duncan – Mas creio que seja questão de tempo agora para ele acordar, da primeira vez levou mais ou menos isso.

- Podemos conversar em um lugar mais confortável? - Sugeriu Bow com toda a sua simpatia. – Qual é? Vocês obviamente vão ter muito o que falar e o morto muito louco ali vai acordar todo dolorido se continuar largado na grama. Podemos esclarecer tudo isso no Palácio de Lua Clara.

Bow olhou para Glimmer que assentiu prontamente já se levantando. Duncan havia terminado de preparar seu chá, mas encheu seu cantil em vez dos copos ao ver que a decisão parecia já estar tomada, ainda assim tomou um generoso gole e ofereceu aos outros logo em seguida. Bow foi o único que aceitou sem pestanejar.

Catra suspirou com irritação "Sério que eles simplesmente convidaram os estranhos pra dentro do palácio? E o arqueiro idiota BEBEU daquele cantil? Como essas princesas sobreviveram tanto tempo?", ela pensava e observando a ruiva percebeu que algo semelhante deveria se passar na mente dela, pois também estava tensa e desconfiada. Duncan se levantou e foi em direção de Adora, olhando-a nos olhos de forma curiosa, a loira pareceu ligeiramente desconfortável, mas não o impediu e sustentou o olhar.

-Teela, levante o acampamento, nós vamos com eles. – Disse o velho guerreiro com um sorriso no rosto.