Haldir permanecia com seus olhos fixos na mulher. A mortal o mirava naquele instante com o olhar pleno de ódio. Sua alma eldar podia sentir a lâmina daqueles olhos, afiados como a adaga que quase lhe dilacerara o rosto.

O elfo pode então compreender o motivo pelo qual algo nela havia chamado a atenção dele quando, logo após sua chegada a fortaleza, a olhara de relance na janela acima de onde o rei os recebera. Ele não conseguira ficar indiferente àqueles olhos desconhecidos por causa da luta que havia por trás deles. Um combate entre o dia e a noite, entre luzes e trevas, entre claridade e escuridão.

- Em nome do Único, o que aconteceu aqui? – indagou a recém-chegada sobrinha do rei, que havia acabado de descer as escadas.

Eowyn correu até a mulher, estendendo-lhe a mão. A estrangeira, contudo, levantou-se sem responder, transparecendo em seu rosto que as explicações seriam dadas em outro momento que não aquele. Eowyn compreendeu. Entretanto Gimli não possuía a mesma paciência da Senhora de Rohan.

- Senhora, por conta de um incidente fútil sua amiga ofendeu a todos nós, inclusive ao Capitão Haldir! – O anão explicou, desejando que a sobrinha do rei se desse conta do mal que habitava aquela mulher e ao qual todos ali pareciam cegos.

- Gimli... – Aragorn tentou em vão evitar o prolongamento da situação.

- Eu estou confusa... a que incidente o senhor se refere, mestre anão?

- Não foi nada demais, Senhora – Aragorn buscou novamente contornar a situação.

- O quê? Essa assassina ameaçou a mim e ao Capitão e você diz que não aconteceu nada? – O anão externou sua indignação.

- Gimli, já chega. – Legolas interveio. – Aragorn tem razão. Estamos apenas perdendo tempo.

- De jeito nenhum! Se não se importam com a honra de vocês, eu não tenho nada a ver com isso, mas eu me importo com a minha e exijo que seja reparada!

Os olhares se voltaram para a estrangeira e, pela expressão em seu rosto, tiveram a certeza de que nenhuma reparação estava em seus planos. A criada deu as costas e começou a ir embora. A raiva tornando a se insinuar...

- Para onde está fugindo? Seus pais não lhe ensinaram boas maneiras? – Gimli provocou. Não permitiria que ficasse impune, depois de entrever o mal nos olhos dela.

A jovem parou, tornando a fitar o anão.

Gimli ergueu as sobrancelhas em resposta ao olhar recebido e cruzou os braços em desafio.

A mulher fechou a mão em punho. O peito arfando sem conseguir conter a ira. O olhar feminino de pedra e gelo fixou-se nele.

- O que você disse? – ela indagou, destilando veneno em cada palavra.

- ...

- Conheceu meus pais, anão? Como pode achar que tem o direito de se referir a eles dessa maneira?

- Tudo o que tenho a dizer é que não parecem ter feito um bom trabalho. – O anão disparou. A lembrança da lâmina em seu pescoço ainda viva em sua memória.

- Agora é você quem vai se retratar – ela elevou a voz com o dedo em riste – ou vou arrancar seus olhos com minhas próprias mãos. - concluiu, apanhando uma espada do chão.

O anão instintivamente ergueu o machado. A jovem prosseguiu:

- Quer ter sua honra reparada? Que tal lavá-la com sangue? – Ela propôs.

- Uma luta? Fora de questão, não luto com mulheres.

- Mulheres o apavoram tanto assim? – A estrangeira ironizou.

- Como se atreve? – O anão mais rosnou do que falou.

- Não foi uma mulher que quase fez seu pescoço sangrar agora há pouco? – Ela retorquiu.

Éowyn se aproximou e segurou o braço da amiga, dirigindo-lhe um olhar significativo.

A estrangeira pareceu hesitar, diante da advertência muda da sobrinha do rei e baixou a espada.

- Retire o que disse, anão. É sua última chance. – Ela propôs, falando entre os dentes.

- Nem que Dúrin se erguesse de seu túmulo! – Gimli permanecia irredutível.

Éowyn fechou os olhos e suspirou, rendendo-se à realidade dos fatos.

- Senhores, - disse, dirigindo-se aos demais – creio que é óbvio que nenhum desses dois vai abrir mão de suas convicções. Vamos deixar que resolvam sua contenda.

- Uma luta nunca é o melhor caminho. – Aragorn contemporizou.

- Todavia parecer ser o único a que esses dois estão dispostos a seguir.

O guardião balançou a cabeça e, embora se visse muito pouco a vontade em ceder ao que parecia inevitável, sentenciou.

- Entretanto que seja uma luta justa.

- E nada de lavar a honra com sangue – completou Éowyn.

A estrangeira assentiu, fitando o anão. Este inclinou a cabeça em aceitação, antes de se dirigir a mulher.

- Diga-me o seu nome. – solicitou o filho de Glóin.

- Eu não tenho nome.

- E essa agora, mulher, todo mundo tem um nome. – comentou, Gimli irritado com a arrogância feminina – Você sabe meu nome, tenho o direito de saber o seu.

- Cuspo no seu nome e me recuso a pronunciá-lo. – ela respondeu, utilizando a conhecida expressão que se via amiúde na boca dos orcs.

Éowyn baixou a cabeça, lamentando o descontrole da amiga.

Legolas quedou-se com a boca entreaberta, Aragorn sentiu a escuridão da terra negra na voz dela e os ouvidos do Capitão de Lórien tremeram ante as palavras malignas.

- Por isso se recusa a dizer seu nome? – Gimli compreendeu. – Eu não cuspiria nele. Não me rebaixaria a tanto! Nos acusou de sermos como os orcs. Quem está agindo como eles agora?

A criada se enfureceu e avançou em direção ao amigo de Aragorn e a luta começou. O anão parecia inicialmente pouco a vontade em lutar com uma mulher, mas não demorou muito a superar essa dificuldade, já que, em uma luta, ela realmente não lembrava em nada uma mulher. Ele a derrubou, uma, duas, três vezes. Após o terceiro golpe a criada foi jogada contra a parede e escorregou até o chão. Gimli voltou-se para os amigos e disse:

- Foi mais fácil do que pensei. Queria lhes proporcionar algum divertimento, sinto muito.

Haldir observava com interesse o desenrolar do combate. Para o elfo, experimentado como era nas artes da guerra, ficou claro que a mortal estava apenas se familiarizando com o estilo do anão. Testando sua força.

A jovem se levantou. Estava na hora de ensinar de uma vez por todas aquele ser desprezível a respeitá-la.

- Quer desistir, Anão? É sua última chance.

- Acho que meu golpe rachou sua cabeça... Venha, mulher sem nome, não tenho medo de você.

A luta recomeçou. Entretanto, algo havia mudado. Os movimentos da mulher ficaram mais rápidos. O barulho da espada se encontrado com o machado havia se intensificado, enquanto os demais observavam que os golpes da criada eram de uma brutalidade incomum. Nela, a força subjugava a técnica. Todavia Haldir conseguia entrever um resquício de estilo familiar em seus golpes. Algo de luz em meio as trevas. A mortal lutava como se sua vida estivesse em jogo. Em um determinado momento do embate, ela uniu sua espada ao machado, as armas se prenderam, a jovem girou a espada e o machado voou das mãos do anão. Antes que a mulher o pegasse com a mão livre, derrubou o anão com um golpe de pernas enquanto Gimli, filho de Glóin, olhava para cima tentando entender o que o fizera soltar seu machado. A mulher apoiou o joelho no peito do anão e com a espada e o machado voltados para sua garganta disse:

- Com qual dos dois o senhor deseja que eu o mate, mestre anão?

O olhar de Gimli era pura ira.

Após um instante de silêncio, a estrangeira se levantou e declarou a seu oponente:

- Considere sua retratação aceita.

A mulher jogou o machado ao lado do corpo ainda caído de Gimli, deu as costas e foi embora, deixando para trás um anão insano de ódio. Legolas tentara ajudá-lo a se levantar, contudo o filho de Glóin recusou. Seria o golpe de misericórdia em sua dignidade aceitar a mão estendida do elfo. Enquanto isso, outro elfo acompanhava com grande interesse a mortal desaparecer no final do corredor.

Aragorn, refletia sobre tudo o que tinha acabado de ocorrer.

- Afinal de contas, quem é essa mulher, minha senhora? – Ele indagou, quase sussurrando.

Éowyn ficou séria.

- Uma aliada, meu senhor Aragorn e isso deve bastar.

- Como podemos considerar uma aliada alguém que fala de Sauron com tanta familiaridade e que trás na boca as palavras malignas dos orcs?

- São apenas marcas dolorosas de seu passado, meu senhor, não dizem nada sobre sua essência. – Éowyn defendeu a jovem.

- Espero que ela realmente esteja do nosso lado. – o guardião contemporizou. – Alguém com essa capacidade de batalha e tal escuridão a sua volta poderia fazer um grande estrago, principalmente estando dentro destes muros.

- Eu não vi nada além de trevas nessa criatura. - disse o Anão.

- O que você acha, Haldir? – Aragorn se dirigiu ao capitão.

Haldir teve que se conter para não deixar transparecer a forte impressão que a mortal lhe causara:

- Sejam luzes, sejam trevas, muitas coisas podem alterar o curso de uma batalha, Senhor Aragorn, todavia algumas são imprevisíveis como as tempestades. Para mim, aquela jovem é como uma tempestade.

Os demais fitaram o Galadhrim, esperando que este concluísse seu raciocínio:

- Uma tempestade pode ajudar a um ou a outro exército, dependendo de que lado ela virá e de como estarão os soldados e o campo de batalha. Isso não pode ser previsto na maioria das vezes. Por isso é sempre bom estar preparado para o pior.

- Estão vendo? Até o capitão concorda comigo. Não devemos confiar nela – disse o anão satisfeito por ter seu pensamento apoiado pelo imortal. Entretanto, Haldir ainda não tinha concluído seu raciocínio.

- Não, mestre anão, não foi isso que eu disse. Devemos estar preparados para o pior, mas isso não significa que também não possamos esperar pelo melhor. O conhecimento é a estratégia mais eficaz em uma luta. Conhecer os inimigos e conhecer os aliados é o primeiro passo para a vitória. Na maioria das vezes esta é conseguida não durante a batalha e sim antes. Eu vi as trevas, mestre anão, mas também vi luz. Precisamos descobrir mais sobre aquela mulher.

Gimli meneou a cabeça em um lamento mudo.

- Há muitas perguntas a serem respondidas – disse Aragorn.

O anão se dirigiu a Eowyn:

- A Senhora poderia nos responder estas perguntas, não poderia, minha Senhora?

- É melhor que ela mesma o faça.

- Aquela jovem realmente não tem nome? – Perguntou Aragorn.

- Não consegui convencê-la a me contar qual é.

- Então como pode confiar nela se não conseguiu sequer uma informação tão simples? – Quis saber o filho de Thranduil.

- Às vezes, meu senhor Legolas, a informação menos importante que se tem de alguém é o nome. Os senhores entenderão quando falarem com ela.

- Acho que a pessoa mais indicada para fazer isso é o Senhor Aragorn. A jovem pareceu respeitá-lo. - disse Haldir.

- Isso é verdade, assim como todos os soldados, ela o admira. – Éowyn tentou despistar.

- Tenho assuntos pendentes a resolver. Logo que possível, irei procurá-la. - disse Aragorn.