Haldir fora ao encontro de seus soldados. Os elfos se articulavam como podiam, tentando ajudar os homens, contudo as dificuldades eram muitas e pouca era a experiência em batalha dos edain que haviam restado para brandir as armas.

O capitão sabia que havia uma grande possibilidade de derrota, contudo não se permitiria ficar inerte contra o mal que se alastrava pela Terra Média e que, após subjugar os reinos dos homens, ameaçaria sua amada Lórien. Após algumas horas, decidiu se afastar a fim de refletir sobre a batalha que se acercava.

Procurou um lugar tranquilo sobre a muralha onde pudesse ficar a sós com seus pensamentos. Recostou-se na parede fria, enquanto recordava sua conversa com o que restou da Sociedade do Anel. Sua mente abandonou as estratégias militares e se dirigiu para o corredor onde o incidente com a estrangeira havia ocorrido. Disse a eles que deveriam tentar descobrir quem era aquela mulher, como se fosse apenas um conselho militar, entretanto, intimamente ele sabia que era mais do que isso.

- Há muito que eu não via alguém causar tamanha tempestade em seus pensamentos... e em seu coração, guardião – o filho de Thranduil aproximara-se sem que Haldir houvesse percebido.

- Sente-se, Legolas, meu irmão. Sei que de você não consigo esconder nada. – Haldir não costumava expor seus pensamentos, contudo sentia-se a vontade com o jovem príncipe élfico.

- Já partilhamos muitas coisas juntos. – O habilidoso arqueiro recostara-se na parede ao lado do guardião.

- É verdade... - o capitão dos elfos permanecia em silêncio, enquanto Legolas aguardava que o amigo se sentisse a vontade.

- O que você achou da criada da senhora Eowyn? – perguntou finalmente o servo de Galadriel.

- Definição mais precisa que a sua eu não poderia dar. Ela é um turbilhão de pensamentos e sentimentos. Luzes e trevas que confundiram meus instintos.

- Algo a está matando – disse Haldir pensativo.

Legolas questionou com o olhar.

- Sim, ela está morrendo, pude ver nos olhos dela. Quando segurei seu braço, senti a presença da morte. Você não notou que ela usava uma espécie de luva que cobria quase todo o braço direito? Lá existe um ferimento pelo qual sua vida está se esvaindo.

- Pelos Poderes! Você prestou mesmo atenção naquela mortal. Mas como poderia ser? Ela segurou a espada com segurança, lutou e venceu.

- Aquela mulher tem muita vontade de viver. Deve ter um motivo muito forte para isso.

- Apesar de gozar da confiança da senhora de Rohan, ela parece trazer um grande mal consigo - partilhou Legolas.

- Eu também senti isso, contudo não deixei de sentir nela algum bem.

O diálogo dos elfos foi interrompido pela chegada da ádan que surgiu em uma parte mais elevada da muralha, um pouco acima de onde os imortais estavam. Uma escada ligava os dois vãos. A mulher não percebeu a presença dos imortais e seus olhos se fixaram no Leste, impassíveis como se ela estivesse hipnotizada. Ficou assim por alguns instantes. Haldir e Legolas a observavam cuidadosamente e não se moviam a fim de não atrair a atenção da criada para si. A humana olhava para o Leste, em direção a Mordor, Lar do Senhor do Escuro, de quem ela havia falado com certa familiaridade, e isso não poderia ser boa coisa.

- Vou avisar Aragorn. Creio que ele ainda não falou com ela. – Legolas avisou a Haldir em um tom de voz perceptível apenas a ouvidos élficos bem treinados. – Não a perca de vista. Embora eu saiba que não preciso dizer isso...

Haldir fitou o amigo, inconformado em saber que ele estava certo:

- Vá logo!

O guardião continuou a observá-la e quando a mulher se virou, buscando um local onde se sentar, o elfo então percebeu que ela segurava um pedaço de pergaminho o qual começou a rasgar em pedaços que levava à boca. 'Pelo Único, por que ela está comendo isso?' refletia o imortal.

Quando concluiu o estranho ritual, a mulher se sentou, abandoando o horizonte e fixando seu olhar nas poucas estrelas que já começavam a aparecer.

Haldir a observou longamente. Claridade e escuridão novamente em luta naquele coração mortal. A vida se esvaindo pela ferida oculta. O que mais poderia haver por trás daquele rosto de pedra? O que ela procurava entre as estrelas?

O elfo se viu obrigado a interromper suas reflexões com a chegada de Aragorn e Legolas.

- Alguma novidade, Haldir?

- Não. Nenhuma. – o imortal achou por bem guardar o fato do pergaminho consigo. Se no futuro julgasse que possuía alguma importância o revelaria. Não gostaria de aumentar as preocupações do já tão sobrecarregado Guardião do Norte.

- Vamos até lá. – disse Aragorn.

Os três subiram a escada calmamente. Aragorn, Legolas e por último, mas não menos interessado, Haldir. Eles concordaram em deixar que Aragorn fizesse todas as perguntas. A mulher voltou o olhar em direção aos guerreiros e se ergueu ao ser chamada por Aragorn:

- Senhora, precisamos lhe falar.

A mulher questionou Aragorn com o olhar.

- Precisamos saber como se chama, de onde veio e se devemos considerá-la uma inimiga em potencial e, creio eu, a senhora não pode negar que temos nossos motivos para isso, posto que em nossas primeiras interações você tentou atingir com uma adaga dois de nossos aliados.

A mulher fora pegue desprevenida. Será que ela estaria preparada para responder àquelas perguntas? Sentia que pisava sobre terreno perigoso. Não poderia hesitar ou correria um sério risco. Armou-se como pode com sua máscara de impassibilidade.

-Estou a sua disposição, meu senhor.

Aragorn assentiu.

- Comecemos por uma pergunta simples: poderia nos dizer como se chama?

A jovem virou o rosto.

- Eu já tive um nome, meu senhor, há muito tempo. Hoje, só o que me resta é uma parca lembrança do que fui. E isso não é suficiente para se carregar um nome.

O dunadán suspirou. Definitivamente não se poderia chamar aquilo de um bom começo.

- Que seja. Por hora atenderei sua solicitação, porém, dependendo de suas próximas respostas eu reconsiderarei minha posição. Assumi uma responsabilidade junto ao rei de zelar pela defesa desta fortaleza e não poderei negligenciar nenhum detalhe. Fui claro?

A mulher assentiu e Aragorn continuou.

- Então já sabemos que não adianta perguntar seu nome. Vamos à segunda pergunta: de onde você veio?

A jovem respirou profundamente, pois tentaria falar o mínimo possível:

- De Mordor, meu senhor.

Os guerreiros se entreolharam. De todos os lugares da Terra Média, aquele era o menos provável. Porém ele recordaram as palavras de Haldir: 'É difícil saber de onde vem uma tempestade'. Além de explicar como ela 'conhecia' o senhor do escuro e sabia sua opinião sobre Haldir.

- De Mordor?

- Sim.

- Como alguém pode viver em Mordor ou vir de lá sem ser um orc?

Lembranças cruzaram a mente da mulher. Cenas do tempo em que vivera entre aquelas criaturas abomináveis, nas mãos das quais sua vida estivera e, de certa forma, ainda estava.

- Sendo um escravo, meu senhor. – Ela baixou o olhar, fixando-o em um ponto qualquer do chão entre ela e seus inquisidores, esperando não ter que dar mais nenhuma explicação.

O silêncio fez-se ouvir. Os elfos e o herdeiro de Isildur sabiam de rumores sobre humanos que eram capturados e mantidos como escravos em Mordor, contudo nunca tinham ouvido falar de alguém que tivesse vivido tempo suficiente ou que tivesse tido forças para conseguir escapar, principalmente em se tratando de uma mulher, a quem os orcs direcionavam um tratamento particularmente cruel. Aragorn resolveu não submeter a jovem a um constrangimento desnecessário. Os prováveis 'trabalhos' realizados por uma escrava em Mordor não seriam dignos de nota.

- Como isso aconteceu?

- Fui raptada pelos orcs.

- Você e sua família, eu suponho – o filho de Arathorn pronunciava cuidadosamente as palavras, pois sabia que o assunto deveria ser delicado e trazer lembranças dolorosas.

- Minha família foi morta por tentar reagir. Apenas eu fui poupada.

O herdeiro de Isildur começou a intuir sobre a resistência da jovem em lhe revelar como se chamava. Um nome pressupõe uma família. Família esta que teve um destino nada invejável nas mãos dos orcs. Contudo, ainda havia perguntas a serem respondidas e Argorn não poderia se furtar de fazê-las.

- Onde vocês viviam.

- Nos arredores de Mordor.

- Por quê?

- Há alguns anos, antes do poder do Senhor do Escuro aumentar, ainda era possível viver por lá. Difícil, mas possível.

- Por que alguém escolheria morar lá?

- Eu não sei, meu pai sempre nos disse que não poderíamos morar em outro lugar.

A resposta vaga não agradou muito a Aragorn, contudo, ainda levando em consideração os acontecimentos sobre os quais estavam tratando, decidiu relevar novamente.

- Como você escapou de Mordor?

- Um dia eu estava muito ferida. Quase morta. Os servidores do senhor do escuro costumam jogar os cadáveres em um córrego apodrecido que passa lá perto e para não fazer o percurso muitas vezes, jogavam os moribundos também. Era o meu caso naquele dia. Então eu me apoiei nos cadáveres até me afastar da fortaleza. Saí do rio e caminhei o máximo que pude, tentando me afastar daquela terra amaldiçoada. Não sei dizer exatamente quanto durou essa marcha. Todavia encontrei um cavalo. Montei-o e fui levada por ele em direção à terra dos Senhores dos Cavalos onde a Senhora Eowyn me encontrou, cuidou de mim e me mandou para cá.

- Quando isso aconteceu?

- Há quase um mês.

- É uma história e tanto.

- É a pura verdade.

- Não estou dizendo que não seja. - o herdeiro de Isildur afirmou.

- Está satisfeito, meu senhor?

- Ainda não.

A resposta de Aragorn a deixou angustiada. Já tinha dito tudo o que poderia dizer. Algumas eram verdades, outras, nem tanto...

- O que mais deseja saber, meu senhor?

- Onde você aprendeu a lutar?

- Em Mordor.

- Como?

- Os orcs fazem com que os escravos lutem entre si ou com orcs ou com ... wargs. Isso os diverte. Quem vence, vive. Quem perde é castigado ou morre.

'Típico daquelas criaturas abomináveis', refletiu Aragorn. Os pensamentos de Haldir e Legolas não foram diferentes. Ambos também acompanhando aquele diálogo cheio de incertezas. E foi com uma certa reserva que Aragorn se permitiu ir mais a fundo na história da mulher.

- Não deve ter sido muito castigada, a julgar pelas suas habilidades. Você domina bem uma espada.

- Hoje, sim – confirmou com voz rouca – porém, há alguns anos...

- Entendo. – A voz do guardião do norte soou compreensiva.

Aragorn sentia agora por ela uma grande solidariedade, pois havia ficado clara a origem da escuridão que a mulher trazia consigo. Éowyn estava certa. Marcas como aquelas não podiam ser disfarçadas tão facilmente.

- Você disse que foi raptada há alguns anos. Sobreviveu nessas condições todo esse tempo?

- Eu aprendi rápido: sem dor, sem medo, sem pena. Só assim se sobrevive em Mordor.

- Então se conseguiu sobreviver seguindo essas regras, deve ter tido que pagar um preço alto.

A mulher baixou novamente a cabeça.

- Matou muitas pessoas? – Insistiu o dunadán. Ele precisava saber até que ponto podia ir a crueldade que rastejava nela.

'Para que perguntar isso? Não era culpa sua. Estava lutando por sua sobrevivência', a mulher pensou, externando em seus olhos o incômodo que a pergunta lhe havia causado.

- Alguns, infelizmente.

- Muitos orcs?

Ela ergueu a cabeça:

- Muitos, prazerosamente. – ela destilou. O tom latente de vingança na voz da jovem.

- E wargs?

- Mais do que se possa contar.

- Isso é difícil de acreditar. Lutamos contra vários deles no caminho para cá e perdemos muitos homens.

- No começo nos davam uma espada e lutávamos com filhotes, com wargs feridos, só depois enfrentávamos wargs adultos e saudáveis.

- Você consegue matar um Warg adulto usando apenas uma espada?

- Já consegui matar dois em um mesmo combate, meu Senhor, mas apenas uma vez. Na segunda, me feri e... aqui estou.

Os elfos trocaram entre si um olhar de incredulidade diante da afirmação da mortal a sua frente: dois wargs? Uma mulher? Sozinha? Com apenas uma espada?

- Lutou contra Uruk-hais? – prosseguiu Aragorn sem perceber a reação dos elfos, contudo ele também partilhava da dúvida que desceu sobre seus aliados imortais.

- Não, nunca.

- Já os viu?

- Já.

- O que acha? Poderia matar muitos?

A mulher olhou para o céu.

- Tantos quanto as estrelas.

E olhou para eles.

- Tantos quantos forem necessários.

Aragorn considerou a afirmação da criada um tanto pretensiosa, entretanto sentira vontade de rir ao pensar no que seu amigo anão diria se a ouvisse falar daquela forma. Contudo além de pretensão, o herdeiro de Isildur percebeu algo pior:

- Há vingança no tom de sua voz. A vingança e a ira não são boas conselheiras.

- São as únicas que me restam, meu senhor.

- E que tal a gratidão? Gratidão ao povo de Rohan que lhe acolheu e salvou sua vida?

- ...

- Pense nisso e alivie seu coração. Já não a vejo como uma inimiga. Contudo não sei ainda até que ponto podemos confiar em você. Como disse Hadir, continua semelhante a uma tempestade, e embora eu esteja propenso a considerá-la uma aliada e não uma inimiga, você não deixa de ser imprevisível.

A mulher olhou surpresa para o guerreiro élfico. Este confirmou as palavras de Aragorn.

- Algo imprevisível – prosseguiu Haldir – já que muito sobre a senhora permanece oculto e pode se revelar de forma inesperada como uma tempestade.

- Tempestade? – ela indagou intrigada.

- Sim – respondeu o elfo, apercebendo-se de uma possibilidade – esse seria um bom nome...

A mulher parecia confusa. Porém foi Aragorn quem tomou novamente a palavra.

- Nome? É poderíamos considerar essa possibilidade. – O guardião do Norte ponderou.

Haldir apenas assentiu, antes de dar as costas e começar a se retirar, sendo seguido por Legolas e Aragorn.

- Tempestade... – a mulher sussurrou para si mesma, sem se dar conta de que os ouvidos élficos eram capazes de escutá-la.

A jovem considerou que poderia aceitar a oferta do elfo, porém não pelo motivo que ele tinha alegado. Havia nela motivos bem piores do que a imprevisibilidade para que ela fosse considerada uma tempestade.