Tempestade caminhava pelos corredores da fortaleza, considerando as possibilidades da conversa que havia tido com o herdeiro de Isildur e seus companheiros no dia anterior e tentando assimilar o ocorrido. Ela quase lamentava haver se exposto em demasia, chamando para si muito mais atenção do que a prudência recomendaria. E tudo por quê? Por conta dos cabelos loiros de um certo elfo! Ela meneou a cabeça em uma negativa, recriminando a si mesma e tentando mandar para longe a lembrança daqueles olhos claros. Conseguira permanecer em um quase anonimato por tanto tempo... Por respeito à senhora de Rohan, ninguém se atrevia a questioná-la ou abordá-la de forma alguma, apesar dos olhares oblíquos não passarem despercebidos. Eles sabiam o que ela era, ou havia sido... Sentia sobre si a curiosidade dos outros, embora, na maioria das vezes, não passasse disso. Os cavaleiros de Rohan eram honrados demais para se permitirem comentários ou atos que estivessem abaixo de sua dignidade. Todavia, em se tratando de uma guerra como aquela, onde o melhor e o pior de cada um costumam se revelar, era necessária cautela.

E era precisamente nesse ponto que ela se via em falta. Revelara sua origem a Aragorn e a seus companheiros. Graças aos céus que não precisara contar certos detalhes... Certamente leram nas entrelinhas o que ela não tivera coragem de dizer. Contudo não se agradara da piedade que vira nos olhos deles.

...Piedade...

O significado dessa palavra se tornara tão desconhecido para ela como seu nome era para eles. 'Digna de pena.' Não! Por Mordor que não passaria seus últimos dias em tal condição!

...Mordor...

A terra que a fizera esquecer quem era e aquém pertencia. Era isso ou a morte. Fechou os olhos, reprimindo as lembranças teimosas de seu nome sendo pronunciado pelo que amara. Meneou a cabeça negativamente. Nada de nome para ela. Optara por esquecê-lo. Esquecer de quem tinha sido, esquecer sua família, sua casa, esquecer de onde viera. Fora necessário ou não teria conseguido sobreviver. Em Mordor não havia lugar para lembranças...

Seus pensamentos foram interrompidos pelo burburinho que vinha da armaria. Sem perceber, seus pés conduziram ao arsenal. Estava lotado. Dentre meninos e velhos, todos buscavam se armar da melhor maneira possível. Uma parte dos elfos também estava lá, auxiliando no treinamento dos mais inexperientes. A jovem se aproximou. Seus olhos, sem lhe pedirem permissão, buscavam um rosto conhecido, sem conseguir encontrá-lo. 'Maldição', recriminou-se, dando as costas e fugindo dos olhares curiosos e murmúrios que atravessaram o ar, chegando aos seus ouvidos. Permaneceu de cabeça baixa. Sentia-se pouco a vontade.

- Por que a pressa, mulher? – A voz de um dos soldados preencheu o ar. A criada parou por um instante, mas a prudência aconselhava que prosseguisse e foi o que fez.

- Está com medo de alguma coisa? – Outro soldado a interrogou.

- Está triste? Com saudades de seu antigo lar?

- O que está acontecendo aqui? – Gamling percebeu a confusão.

- Nada, meu senhor – respondeu o primeiro soldado.

- Se não é nada, Éthain, voltem aos seus afazeres, não temos tempo a perder. – O capitão de Rohan não via com bons olhos o guerreiro a sua frente. Seu caráter era bastante questionável, assim como o de seus companheiros, e somente em nome de uma grande necessidade, haviam sido aceitos no exército, pois Rohan não poderia prescindir de suas espadas. Contudo, pela vontade da maioria, não teria sido dada a eles a chance de manchar os escudos da Terra dos Cavaleiros.

- Exatamente por isso, meu senhor, pensei que poderíamos proporcionar aos homens alguma diversão.

O coração da criada disparou. Antigos temores começaram a tomar forma. Precisava sair dali.

Gamling olhou de soslaio para a estrangeira que não ousava levantar os olhos.

- Isso está fora de questão! Se temos que enfrentar a morte em breve, o faremos com nossa honra intacta!

- De que nos adianta honra? Estamos condenados, vamos aproveitar o pouco tempo que ainda nos resta!

- Basta, Éthain!

- Ele está certo, capitão. Não há esperança alguma! – Outro soldado se pronunciou.

- Isso mesmo! Que chance temos contra Mordor e Isengard?

- E o que vocês pretendem fazer? Agir como animais? Vão manchar suas almas com tamanha infâmia!

- Calma, capitão. Acho que o senhor está dando muita importância a essa...

- Essa o quê? Continue, Éthain, se tiver coragem para tal!

- Ora, capitão, todos sabemos o que uma mulher se dispõem a fazer para ser mantida viva em Mordor

Ela não se movia. Desejava apenas sair dali.

- Se você insistir nessa loucura, levarei esse assunto ao rei.

- Que seja, duvido que Théoden rei tenha tempo a perder com uma prostituta de orcs...

Estava dito. A criada sentiu seu corpo estremecer. Não era segredo para ninguém de Rohan a origem da estrangeira que a sobrinha do rei acolhera, porém, até aquele momento, os pensamentos ainda não haviam sido expressados de forma tão clara.

A maioria dos soldados não compartilhava do desejo de Éthain, mas este era um guerreiro temido por sua força e habilidade, então acharam melhor não se intrometerem na disputa entre ele e o capitão de Rohan. Dando as costas á multidão, Gamling saiu, seguido pelos elfos e por boa parte dos soldados. Uma minoria ficou para trás.

- E agora, minha senhora? Quem a defenderá?

A mulher tentava se esquivar. Era uma guerreira habilidosa, mas não poderia lutar contra todos aqueles homens. Éthain finalmente se cansara da intimidação psicológica e partiu para a física. Parou diante dela, tentando intimidá-la com seu tamanho. Com os olhos em fúria, a mulher arfava, buscando por uma saída que não existia.

- Não se preocupe minha cara, tenho certeza de que seremos mais 'gentis' que os orcs.

- Disso eu duvido! – Falou entre os dentes. A jovem não demonstrava seus temores, mas por dentro sentia-se acuada.

- Estão vendo! Está com saudade deles, rameira?

- Vocês são iguais a eles! Animais desprezíveis!

- Cale-se!

Ela sentiu pela primeira vez a força do braço do guerreiro de Rohan. Seu soco a deixou no chão. Outros dois agarraram seus braços enquanto Éthain colocava-se por cima dela. A mulher lutava com todas as forças, mas em resposta aos seus esforços recebia apenas tapas e zombarias. Dolorosas lembranças que há muito haviam sido guardadas no fundo de sua memória afloravam e a jovem já não ouvia apenas as vozes dos homens, mas também os insultos dos orcs. Sua mente ainda lutava, mas seu corpo já não conseguia reagir. Ela não derramava lágrimas, mas seu coração chorava por toda sua miséria.

- O que, em nome do Único, está acontecendo aqui? – A voz do rei Théoden fora suficiente para trazer ao lugar um silêncio mortal. Gamling cumprira o que prometera. Éthain e seus comparsas afastaram-se da criada que permaneceu no chão, quieta, abraçando a si mesma. Os agressores estavam lívidos e de cabeça baixa.

- Pelo que vejo, Sauron já está conseguindo sua maior vitória: está transformando meus soldados em animais!

O silêncio permanecia. Ninguém conseguia dizer nada. Théoden aproximou-se dela. Não sabia exatamente o que fazer. Queria ajudar a mulher, mas ela não se movia. O rei se abaixou, estendendo a mão para tocá-la.

- Não, majestade! – Gritou Éthain. – Essa mulher é uma...

Théoden voltou o olhar para seu súdito. Apenas a expressão de seu rosto teria sido suficiente para silenciar o soldado, mas o rei acrescentou:

- Não me lembro que ter pedido o seu conselho.

Éthain se calou. O rei estava furioso.

Théoden aproximou sua mão da cabeça dela novamente, tocando levemente seus cabelos com os dedos. A criada se encolheu.

- Calma, não precisa ter medo, não vou machucá-la. – A voz do rei soava terna e gentil. A jovem não ousava se mexer. Como poderia encarar aqueles homens? Sentia vergonha de si mesma. Matar para sobreviver não era vergonhoso, embora não fosse nenhum ato de virtude, contudo aquilo... era degradante demais.

O rei estendeu a mão próxima ao rosto da mulher:

- Deixe-me ajudá-la a se levantar. Ninguém lhe fará mal, dou-lhe minha palavra.

Por um instante, ela se recordara de outro homem que a presença do senhor de Rohan evocava. A figura de seu pai tomou forma em sua mente. Há muito deixara de pensar nele. Doía demais. Se estivesse vivo, com certeza morreria de desgosto pelo destino da filha. A mulher ergueu a cabeça o suficiente apenas para olhar o rosto do rei. Não havia condenação em seus olhos. Théoden não a julgava. A jovem sentiu dentro de si uma segurança repentina. O senhor de Rohan tinha o dom de transmitir esperança a seus soldados, embora na maioria das vezes não se apercebesse disso.

- Precisa se levantar agora, minha jovem.

Ela compreendeu o que o rei queria dizer: se não encarasse aqueles homens naquele momento, nunca mais conseguiria olhá-los nos olhos novamente. Voltou-se para a mão estendida do rei, assentiu com a cabeça, mas levantou-se sem aceitar a ajuda de Théoden.

A mulher ergueu o rosto em direção aos expectadores daquela cena lamentável, buscando dentro de si o pouco que ainda lhe restava de sua dignidade. Seus olhos encontraram os rostos de seus agressores. Fixou-se neles demoradamente. Os dois estavam desconcertados diante da presença do rei. A jovem sentia-se vitoriosa, apesar da humilhação sofrida há pouco e encarou seus algozes antes de começar a caminhar em direção à saída. A voz de Éthain preencheu o recinto:

- Volte para Mordor, rameira. Para junto de seus orcs nojentos...

Théoden fez menção de intervir, mas Ela parou e olhando de soslaio, disse:

- Em Mordor pelo menos havia regras – a voz da mulher soava grave.

A declaração da criada chamou a atenção dos presentes que se puseram a pensar no que significaria semelhante afirmação.

- Regras? – Éthain perguntou.

- Sim, regras. – Ela se virou completamente – Para que um orc subjugasse uma escrava – a mulher começou a caminhar na direção do soldado de Rohan – ele precisaria derrotá-la primeiro – e parou, sentido crescer dentro de si o desejo de vingança.

- Derrotá-la?

- Se considera melhor do que os orcs, mas nesse ponto, e acredito que em vários outros, eles lhe são superiores.

O senhor de Rohan estava prestes a intervir, quando ela completou:

- Se quiserem realmente superá-los, pelo que fizeram comigo, vocês me devem uma luta.

- Minha jovem, não há tempo a perder com esse tipo coisa. Estamos na iminência de uma batalha. – o rei de Rohan interrompeu.

- Não se preocupe, meu senhor. Eu garanto que não tomarei muito de seu tempo.

O rei refletiu um pouco. Por que não dar aquela jovem o direito de defender sua honra? Suspirou rendendo-se aos fatos:

- Se é assim, considero um pedido justo. Éthain – Théoden se dirigiu aos dois soldados – você será primeiro – um pouco constrangido o soldado desembainhou sua espada.

- Não, meu senhor – Ela prosseguiu – eu disse que não tomaria muito de seu tempo. Lutarei com os dois. – a mulher pegou duas espadas que lhe estavam próximas e caminhou em direção aos soldados.

- Espere um pouco – disse Éthain – isso não me parece justo.

- Justo? – a criada debochou – se o senhor pensa assim – Ela largou uma das espadas do chão e empunhou a outra em frente ao rosto – e agora?

A provocação da ex-escrava de Mordor fez aflorar a ira de seus agressores. O combate teve início. O rei, a princípio, temia pelo bem estar da jovem, entretanto, após os primeiros golpes, percebeu quão infundados eram seus temores. Gamling observava com grande interesse o embate. Sabia das habilidades dos soldados, porém a história do recente duelo daquela mulher com Gimli, filho de Glóin já havia se espalhado. Presenciara o anão combatendo bravamente os orcs e wargs no caminho para o abismo de Helm e sabia que alguém que o houvesse derrotado não poderia ser negligenciado. Com movimentos fortes e rápidos, ela desarmou o companheiro de Éthain, que ficou se protegendo por trás do amigo. A mulher sorriu debochadamente. A confiança de seu oponente fora abalada ao vê-la ostentando duas espadas.

- Não se preocupe – a jovem declarou – não vou usá-la. – e atirou a espada que tirara do primeiro soldado para longe.

Tomado pela raiva, Éthain tentava desarmar a criada, contudo a ira da primeira em muito superava a dele. Logo foi desarmado e em questão de segundos, sua espada estava nas mãos dela. A mulher derrubou o soldado perplexo com um chute. Seu companheiro o seguiu na queda. A jovem cravou as espadas no meio das pernas de ambos, fazendo com que eles prendessem a respiração, e disse em tom de ameaça:

- Só não os mato agora porque Rohan precisa de suas espadas, entretanto, se escaparem da fúria dos Uruk-hais, garanto que não escaparão da minha.

A mulher se ergueu, dirigindo-se a saída quando, ao passar pelo rei, o senhor de Rohan se pronunciou.

- Então, em Mordor uma escrava só é subjugada se for derrotada?

- Sim, meu senhor – a mulher não estava entendendo onde o rei queria chegar.

- Creio que poucos eram os orcs dispostos a tentar subjugar você.

A mulher assentiu.

- Foi o que pensei – completou Théoden.

Ela pode ver no olhar do rei guerreiro o reconhecimento de suas habilidades.

Enquanto a ex-escrava de Mordor se retirava, o rei se dirigiu a Éthain e ao outro soldado:

- Da próxima vez, escolham oponentes mais de acordo com suas limitadas aptidões para não envergonharem ainda mais os Rohirrim.

O rei de Rohan deixou o recinto com um gosto amargo na boca. Havia algo naquela mulher que merecia ser alvo de sua atenção. Por trás da habilidade demonstrada ele pode entrever a sombra da crueldade de Mordor e temeu que uma ameaça estivesse se ocultando por baixo das formas femininas. Um perigo que ele, Théoden, não se permitiria negligenciar.