O Anão estava enlouquecido de raiva:
- Recuso-me a crer que vocês acreditaram nesta história! Eu sabia deveria ter estado lá. Por que não me avisaram? Teria arrancado a verdade daquela mulher a qualquer custo!
- Não havia mentira nem nos olhos nem na voz dela – argumentou Aragorn.
- Uma escrava matadora de wargs que escapou de Mordor com cadáveres? Um cavalo misterioso que surge não sei de onde e a salva? Perderam a sanidade! Pode algo bom vir de Mordor? Quem aquela mulher pensa que é?
- Uma matadora de wargs! - Legolas não resistira em provocar o amigo com um ligeiro sorriso.
- E ainda por cima o senhor resolveu compará-la a uma tempestade, Capitão!
- Creio que ela se agradou disso – respondeu Haldir, escorado na parede e de braços cruzados, se divertindo com a revolta do anão.
- Claro que gostou! Deve estar acreditando ser capaz de derrotar toda a horda de Isengard sozinha!
- Ela lhe deixou no chão e você mesmo admitiu que a jovem luta muito bem – dessa vez fora Aragorn quem sorrira.
- Por minha honra, vou provar que aquela criada não é digna de confiança.
- Não temos tempo para isso – Aragorn falou firmemente. – Precisamos organizar as defesas. O inimigo não tardará a chegar. Por enquanto ela não é motivo de preocupação para nós. Além disso, Eowyn confirmou a história.
- Com todo respeito, a Senhora de Rohan é boa e ingênua.
- Engano seu, mestre anão! – Eowyn, adentrara a sala, deixando o anão constrangido por causa do inoportuno comentário. – Já tive decepções suficientes na vida para saber que a maldade sempre rasteja a espreita de alguém a quem aprisionar. E sei discernir entre verdades e mentiras.
- O que deseja, minha senhora? – indagou Aragorn.
- Trago uma mensagem do rei: ele deseja conversar com vocês.
Éowyn acompanhou os guerreiros até a sala onde o Théoden os receberia.
- Meu senhor, ei-los aqui – disse a sobrinha do rei se dirigindo ao tio.
O grupo adentrou a sala real e seus membros inclinaram-se respeitosamente diante de Théoden. Após fazerem mais alguns acertos sobre como iriam coordenar as forças humanas e élficas, o rei decidiu abordar um último assunto e não se deteve em rodeios:
- Amigos, pois assim os considero, soube do incidente que ocorreu entre o senhor Gimli e a estrangeira que abrigamos dentro destes muros. Quando o permiti não imaginei que fosse algo tão sério – o rei olhou para Eowyn, não com reprimenda, pois confiava na sobrinha, mas com um certo tom de preocupação – e que talvez viesse a nos trazer algum perigo. O que acham?
- Concordo com o senhor, majestade – apressou-se o anão em defender seu ponto de vista.
- Entretanto, gostaria de saber a opinião de todos.
- Não creio que se trate de um ameaça, meu senhor. Pelo menos não uma ameaça imediata ou de proporções significativas – disse Aragorn.
- De qualquer forma, preciso que ela assuma um compromisso formal. Apesar de seu passado de sofrimento, não admitirei em minhas fileiras nada nem ninguém que possa colocar em risco a vida de nossos homens. Eles já têm preocupações demais. Vá chamá-la, Eowyn.
- Sim, meu senhor.
A mulher não demorou muito a se apresentar na sala do rei. Logo que chegou à porta, declinou respeitosamente.
- Meu senhor.
O anão, que se encontrava próximo à porta, não se conteve em provocá-la com uma falsa reverência:
- A matadora de wargs!
A guerreira parou e olhou-o fixamente, prometendo a si mesma que não cometeria o mesmo erro duas vezes. Iria ignorá-lo. Os presentes se entreolharam, sentindo a atmosfera pesada que tomou conta do ambiente.
- Matadora de wargs e orcs! - Gimli persistia.
'Está realmente determinado a provocar minha ira'. Mirou o centro da sala, de onde o senhor de Rohan observava tudo com interesse, e continuou a caminhar.
- Que título ambiciona agora, minha senhora? Matadora de Uruk-hais?
Ela não parou. Uma troca de olhares com a Senhora de Rohan a impediu de olhar para trás. O filho de Glóin, percebendo que seu plano não estava funcionando, lançou mão de um ardil que ele mesmo repudiava, entretanto, para desmascarar a mulher que julgava ser uma assassina, estava disposto a tudo.
- Ah! Eu havia me esquecido! Quantos homens precisou matar em Mordor, minha senhora?
Gimli queria testá-la. Todos sabiam disso. Contudo parecia estar exagerando. E seu ardil funcionou. A mulher foi em direção a ele e desembainhou a espada, apontando para o anão.
Tentara resistir, contudo as palavras do filho de Glóin despertaram a sombra que habitava sua alma e o orgulho da ex-escrava de Mordor suplantou sua resolução inicial:
- Não, mestre anão. O título que ambiciono agora é o de matadora de anões. Quer ser o primeiro?
- Estão vendo? Essa mulher é uma assassina! Como podem confiar nessa...
- Vou cortar sua cabeça fora. Não agora – abaixou a espada, tentando retomar seu autocontrole –, mas se a batalha que se aproxima não o matar, juro pelo fogo de Mordor que eu mesma o matarei! – Ela queria apenas assustá-lo e impor respeito. Tinha mais em que pensar e queria dar um basta às provocações do anão. Entretanto seu gesto não alcançou o efeito desejado.
Todos ficaram parados e confusos novamente. O rei tentou organizar a bagunça que tinha se tornado sua sala:
- Acalme-se, minha jovem. Sei que você tem muitos motivos para se irritar, entretanto, todos também os temos. Além disso, como pode agir com tamanha ingratidão para com alguém que está disposto a lutar e a morrer por Rohan?
- E por acaso eu também não estou disposta a isso? Por que devo permitir que ele me insulte?
- Vai pedir desculpas a Gimli agora.
- Como?
- Não permitirei rixas inúteis em minhas fileiras – Théoden estava apostando no bem que Eowyn jurava haver no coração daquela mulher. Se a estrangeira fosse realmente digna de confiança e se importasse com o bem de Rohan, ouviria a voz da razão.
- Isso é ridículo! – Retrucou ela, sem querer se dobrar.
- Recusa-se a obedecer ao rei? Desculpe-se agora! – O senhor de Rohan levantou-se. Estava perdendo a paciência.
- Não tenho por que obedecê-lo! O senhor não é o meu rei! – A ex-escrava de Mordor aprendera somente o idioma da intolerância da Terra Negra. Quando contrariada, lhe custava muito reagir de outra forma que não a violência.
- Não? Então quem é o seu rei? Seria Sauron? Já que você fala dele e de Mordor com tanta familiaridade?
- Se tivesse que chamar alguém de rei com certeza seria ele, pois o servi durante muito tempo, mesmo que forçada. Pelo menos o senhor do escuro não é um fraco que deixou sua mente ser tomada por feitiços, permitindo que seu reino fosse devastado! – Ela extravasara sua indignação por Théoden havê-la preterido em favor do anão. No arsenal, se mostrara gentil, todavia agora... os homens não eram mesmo dignos de confiança.
Gimli exultava. Seu plano havia funcionado. Éowyn não sabia o que fazer. Aragorn, Legolas e Haldir cobriram o rosto com uma das mãos. Já haviam entendido que aquilo fazia parte do temperamento dela, mas o rei não deixaria que essa afronta ficasse sem resposta.
- Você vai pedir perdão agora, diante de mim e admitir que esta errada. Nunca vi tanta ingratidão!
A mulher deu as costas e foi embora. Todo aquele estresse havia forçado demais seu corpo e sua mente. As dores se intensificaram e ela só queria sair dali. Mas quando já estava perto da porta ouviu a voz firme do rei:
- Se cruzar essa porta deverá cruzar também os portões da fortaleza, pois não permitirei que permaneça entre nós.
Théoden realmente tinha muita fibra. Ela não deveria ter dito nada daquilo. Errara ao desafiá-lo. Entretanto, não poderia ir embora daquele lugar. Havia algo que precisava fazer. Então, engolindo seu orgulho, retornou para diante do rei e desembainhou a espada ao se aproximar dele. As mãos dos soldados presentes também desembainharam as suas, pois não estavam certos sobre o que esperar da estrangeira. Ela cravou sua espada no chão, ajoelhou-se com uma das pernas e baixou a cabeça:
- Sinto muito, meu senhor, se o ofendi. Fui ingrata e atrevida. Seu zelo por seu povo e por seu reino é inquestionável. O senhor é um verdadeiro rei. Retrato-me agora e renego cada palavra que proferi. Por favor, perdoe-me.
O Senhor de Rohan nada disse, apenas assentiu com a cabeça fazendo com que a mulher desse um suspiro de alívio. Ela já se retirava quando ouviu mais uma vez a voz do rei:
- Falta o pedido de desculpas ao mestre anão.
A jovem deu um sobressalto. Aquilo não poderia estar acontecendo! Que se ajoelhasse diante de um rei, isso a criada poderia admitir. Contudo ajoelhar-se diante daquele anão que tanto a ofendera!
- E então, Estrangeira?
A mulher parou sem se virar para trás, todavia arriscou olhar por cima do ombro em direção a Théoden, revelando sua hesitação em partir. Com isso, encontrou o rosto do anão e o orgulho fez com que cruzasse a porta, deixando para trás um rei decepcionado. Ele realmente desejara que a jovem se mostrasse digna de confiança. Contudo a criada parecia decidida a ir embora. Eowyn a seguiu.
Não menos decepcionado estava o herdeiro de Isildur. A lista de aliados de Rohan ficara menor.
- Parece que agora não há mais nada que possamos fazer – ele lamentou.
- Ela fez sua escolha – Legolas completou.
Haldir sentiu a confusão que havia na alma daquela mortal e desejou pedir ao rei que reconsiderasse. Sabia que o Senhor de Rohan a estava testando, porém a mulher havia chegado ao seu limite. Entretanto não poderia fazer nada. Estava lá em nome de seu povo e tinha orientações de não se intrometer em nenhum assunto que não lhe dissesse respeito. Contudo vislumbrava uma saída e decidiu arriscar.
- Meus senhores – dirigira-se a Théoden, em primeiro lugar, e depois aos demais –, perdoem-me a intromissão.
- Pode falar, capitão – disse o rei.
- Creio que não podemos nos dar ao luxo de dispensar possíveis aliados. A espada daquela mulher seria muito útil em batalha. Peço permissão para uma última tentativa.
O senhor de Rohan assentiu. Os demais se mostraram favoráveis, exceto, obviamente, um certo anão...
- Vai perder seu tempo, capitão – comentou Gimli –, e desperdiçar seu sindarin com essa filha de Mordor...
- Já que o tempo e a língua a mim pertencem, meu senhor Gimli, não vejo por que não possa gastá-los da maneira que me parece melhor.
Haldir falara calmamente, entretanto o anão compreendeu no olhar do elfo o que havia sido dito sem palavras.
Do lado de fora da sala real, as duas mulheres dialogavam:
- Por favor não insista, senhora, eu não posso pedir desculpas aquele anão!
- O que você fará, então?
- Vou embora.
- E sua promessa?
- Darei um jeito de cumpri-la fora destes muros.
Nenhuma das duas percebeu que Haldir ouvira suas últimas palavras. O guardião de Lórien não compreendeu nada sobre a promessa que fora mencionada, todavia seu objetivo naquele momento era não permitir que aquela mortal se fosse. Não antes do elfo descobrir quem era ela realmente:
- Vai embora, minha senhora? Vai desistir do embate assim tão facilmente?
A voz do imortal a alcançou e a mulher encarou Haldir:
- Capitão, o senhor não entende e nem pode entender como isso é difícil para mim.
- É verdade, eu não entendo.
Ela baixou a cabeça. No fundo de seu coração, desejava que o Elfo fosse capaz de encontrar uma saída para seu impasse.
- Contudo – o guardião prosseguiu – também não consigo compreender como alguém que diz haver sobrevivido a Mordor pode temer um anão – olhos élficos e humanos se encontraram. – Afinal, um warg é muito maior – disse dando um meio sorriso. O elfo estava apostando no orgulho da mulher, que parecia ser uma de suas características mais marcantes.
- Eu não tenho medo dele! Já o derrotei antes e posso derrotá-lo novamente se for necessário!
- Venceu sua força física, mas não está conseguindo vencer sua mente. Glimli a está dominando e a está levando a fazer exatamente o que ele quer que você faça: perder o controle.
- Ultimamente é muito difícil para mim manter o controle.
- Pense assim: basta um minuto. Algumas palavras ditas em apenas um minuto e se livrará dele. Irá mostrar a todos que não é o que aquele anão diz. Apenas um minuto de resistência. Surpreenda-o. Seja a Tempestade que eu disse que seria. Tudo ficará bem, acredite em mim.
- Tempestade?
O Elfo assentiu.
- O senhor cismou mesmo com essa idéia, não foi?
- Cisma, não. Intuição.
A mulher permaneceu em silêncio por um instante, digerindo as palavras do elfo. Só agora se dera conta do empenho dele em fazer com que ela não se fosse. 'O que estaria por trás disso. Eu o ofendi tanto...'. Haldir quase conseguia ler os pensamentos dela através de seus olhos. Sabia que seus argumentos estavam surtindo algum efeito. A mortal resolveu se render.
- Está bem – ela parecia cansada e sem muita esperança –, eu vou tentar...
- Não, você não vai tentar, vai conseguir – o guardião falou com voz firme, como se estivesse se dirigindo a um de seus comandados.
A mulher confirmou com a cabeça. Eowyn observava cuidadosa e discretamente como o Capitão dos Elfos fazia bem à sua amiga. Talvez houvesse uma chance para ela, afinal.
Na sala todos aguardavam. O rei pensava que talvez houvesse exagerado, mas precisava saber se aquela estrangeira era digna de sua confiança. Então Eowyn entrou na sala seguida por Tempestade. Haldir vinha atrás e permaneceu parado à porta disposto a impedir que a mortal recuasse. Eowyn se dirigiu ao rei:
- Tudo já está acertado, meu senhor.
Ninguém se atrevia a dizer palavra alguma. Ela olhou para a porta e encontrou os olhos do elfo que a miravam com confiança: 'Basta um minuto'. Repetia mentalmente as palavras do imortal. Foi em direção a Gimli. Seus passos eram lentos. Na verdade, andar nunca havia sido tão difícil. Desembainhou a espada e cravou-a no chão, ajoelhando-se lentamente diante do anão e apertando o cabo da espada para manter-se firme. 'Basta um minuto'. Baixou a cabeça e começou a falar sentindo como se as palavras fossem pedras que passassem por sua garganta:
- Sinto muito se o desrespeitei, mestre anão, sou grata ao senhor por estar aqui para nos ajudar. Por favor, perdoe-me.
Aragorn, Legolas e Théoden observavam atentamente. Qual seria a resposta de Glimli? Como ela reagiria?
- Suas desculpas estão aceitas – disse o anão, estendendo a mão para ajudá-la a se levantar. Gimli se sentia contrariado, a mulher escapara outra vez, todavia faria uma última tentativa provocando-a novamente. Diante da mão estendida do anão a guerreira quase colocara tudo a perder, não fosse a lembrança das palavras de Haldir: 'ele a está dominando'. A mulher decidiu resistir. Contudo contatos físicos não faziam parte de seus planos. Então recusou a mão de Gimli, levantou-se, fez uma respeitosa reverência ao rei e aos demais e começou a se retirar:
- Só mais uma coisa – disse o rei.
A mulher parou e se virou para ouvir o senhor da terra dos cavaleiros:
- Em nome do povo de Rohan, obrigado por ter ficado.
Théoden sabia a hora de ferir e a hora de cuidar. Ela não podia negar isso e, após um cumprimento discreto, caminhou para a porta e encontrou o rosto de Haldir.
'O povo de Rohan', dissera o rei, 'não foi o povo de Rohan que me fez ficar...'
Passou pelo guerreiro élfico lentamente sem encarar aqueles olhos azuis, quase podendo ouvir a voz dele se dirigindo a ela... Tempestade.
A mulher se retirou, enquanto os demais permaneceram na sala do rei.
- O que fez para convencê-la a voltar, Senhora? – perguntou o anão.
- Eu? Nada.
E olhou para Haldir que se sentiu incomodado por se tornar o alvo das atenções. Um comentário de Gimli agravou a situação:
- Ah! Pelo que posso perceber, nenhuma mulher pode resistir ao seu olhar não é capitão? Pretende então estender suas conquistas para além da floresta dourada?
O guardião de Lórien não se agradou das palavras do filho de Glóin. Era reservado demais para apreciar que sua privacidade fosse exposta daquela maneira. E deixou transparecer seu descontentamento em seu rosto e em sua voz.
- O que faço ou deixo de fazer dentro ou fora da floresta dourada não lhe diz respeito, mestre anão. Além do mais não precisei dispor de meus dotes para fazê-la voltar. Isso é mérito seu.
- Como?
- Eu apenas disse que o senhor a estava provocando e que se ela resistisse a suas provocações, você seria derrotado mais uma vez. E foi o que aconteceu.
O rosto do anão ficou vermelho:
- O senhor estragou tudo, capitão! Se não tivesse feito isso, aquela mulher já estaria longe daqui!
- E não estaria mais ao nosso alcance nem debaixo de nossos olhos para que a pudéssemos vigiar.
Compreensão fez morada no coração dos presentes.
- Haldir tem razão, Gimli - disse Théodhen. –Vamos deixar que Aragorn e os elfos cuidem disso, se for realmente necessário. Eles sabem o que estão fazendo. Temos que voltar nossas preocupações agora para a defesa da fortaleza.
Os guerreiros assentiram e se retiraram, enquanto Théoden refletia consigo mesmo.
'Elfos, um anão, um dunadán, uma ex-escrava de Mordor... aliados inesperados o Único tem me enviado...'
