A estrangeira subiu as escadas lentamente, tentando vislumbrar o motivo pelo qual o elfo se dera ao trabalho de convencê-la a ficar. Ironicamente, havia sido aos pés daqueles degraus que o primeiro encontro deles havia ocorrido. Não fosse pelo descuido do anão, talvez houvesse passado despercebida, contudo ela já havia se exposto bem mais do que o bom senso recomendaria. A mulher chegou ao topo da torre e se reclinou na janela, onde permaneceu observando sem muito interesse o movimento no interior da fortaleza. Mirou o local onde o elfo havia estado, logo abaixo de onde ela se encontrava naquele momento. Recordou-se de sua chegada. O imponente capitão de Lórien, como ela viera a descobrir posteriormente. Fechou os olhos ao relembrar as circunstâncias tortuosas do seu primeiro contato com ele, quando tentara, em vão, esfaqueá-lo. Meneou a cabeça negativamente. Agira como uma tola e, em troca, o elfo havia se esmerado em assegurar sua permanência na fortaleza. O que poderia haver por trás daquele semblante enigmático que ele ostentava e que ela não conseguia decifrar? Por que ele fora até ela? Por quê?

- Como está, minha senhora?

O coração dela deu um sobressalto. Não foi necessário virar-se em direção a entrada para descobrir de quem era a voz que a cumprimentara. Contudo ela realmente precisou resistir ao impulso de olhar para trás e encontrar os olhos imortais que a examinavam agora a espera de uma resposta:

- Estou bem, meu senhor – disse, tentando disfarçar o que sentia. Não desejava que o elfo percebesse o quanto sua presença a perturbava.

Ele se aproximou, dirigindo-se a ela.

- Estou satisfeito por minhas palavras terem-na convencido a ficar.

A mulher ficou em silêncio por alguns instantes, porém sabia que não conseguiria manter qualquer diálogo com o elfo enquanto aquela dúvida não fosse esclarecida. Ela não sabia transitar entre indiretas e meias palavras, por isso tomou a resolução de externar o que a estava revolvendo por dentro, mirando o elfo e indagando firmemente.

- Não sei por que me ajudou, capitão, ainda mais depois da forma que o tratei pouco após sua chegada...

Haldir esboçou um sorriso diante da forma direta com a qual ela se dirigira a ele.

- Foi uma reação compreensível, senhora. Intrigante – ressaltou o elfo –, porém compreensível – disse, deixando claro que não havia nenhuma mágoa da parte dele.

Haldir havia adentrado a pequena sala decidido a conseguir uma aproximação. Mantivera-se a uma certa distância, pois já havia percebido quão arredia era a mortal. Precisava descobrir mais sobre aquela mulher. Havia antes perguntas que respostas a respeito dela e o comandante do elfos deveria ter paciência e saber usar as palavras e mais 'alguma coisa' caso fosse preciso.

- E então? Eu não tinha razão? O anão foi derrotado mais uma vez – disse o elfo com um sorriso na voz.

- Parece-me que o senhor não nutre muita simpatia pelos anões...

- Não exatamente. Eles têm lá suas virtudes, todavia somos povos muito diferentes e, embora no passado tenhamos nos relacionado melhor, hoje as desavenças são freqüentes por conta da sombra que vem de Mordor e que paira sobre nossas cabeças, reascendendo pequenas rixas.

- Entendo... pessoalmente eu não tenho nem nunca tive nada contra ou a favor deles. Sei apenas que preferiria ter deixado aquele anão deitado no chão outra vez.

- Você é muito passional. É preciso haver estratégia em uma luta, não apenas força... minha cara Tempestade.

Ouvindo-o chamá-la daquela forma, a mulher sentiu algo morno em seu peito. Pela primeira vez em muito tempo alguém se dirigia a ela de forma pessoal, amigável, afetuosa até... porém ela sabia que não poderia se deixar levar por aquele sentimento. Seria um ato de fraqueza e imprudência que poderia prejudicar seus planos. Contudo, a mulher pensou que um nome, simplesmente um nome, não haveria de arruinar sua missão...

- Então insiste em me chamar assim, meu senhor?

- Sim, a não ser que não se importe em me dizer qual é o seu verdadeiro nome, minha senhora. Estou curioso... – as palavras do guerreiro soaram cautelosas.

- Eu não tenho um nome! Por Mordor! Quantas vezes precisarei repetir isso?

Haldir a mirou com cautela, observando a tempestade se formando.

- Não fale assim, seus pais devem ter lhe dado um nome. Como sua família a chamava? – ele insistiu, inacreditavelmente gentil.

A mulher fechou os olhos por um instante, antes de responder. Lembranças confusas de sua infância invadiram sua alma e a encheram de dor e saudade. Haldir podia sentir o sofrimento que vinha dela.

- A garota que chegou a Mordor há alguns anos tinha um nome, uma família, uma vida. Eu já não tenho nada disso – falou entre os dentes.

Haldir baixou os olhos ligeiramente, antes de tornar a erguê-los, fitando a mulher.

- Infelizmente não está em meu poder lhe devolver sua vida ou trazer sua família de volta. Contudo, se a senhora aceitasse o nome que ofereço, talvez o vazio que vejo em seus olhos já não lhe doesse tanto.

A mulher sentiu a respiração acelerar ante a proposta do elfo.

- Creio que um nome tenha pouco poder de cura sobre as feridas que carrego na alma, meu senhor, porém não me custa aceitar sua oferta, até mesmo porque já percebi que não irá deixar tal ideia de lado tão facilmente.

O elfo sorriu irresistivelmente e a mortal estremeceu por dentro, temendo que pudesse transparecer mais do que deveria. Percebendo que o elfo silenciara diante de sua resposta, tentou mudar de assunto:

- Satisfaça minha curiosidade, capitão: o que um imortal, alguém que pode ter uma vida de paz e felicidade eternas vem fazer neste lugar? Por que arriscar sua imortalidade?

A manobra da mulher não passou despercebida por Haldir. Contudo este optou por aceita-la: não poderia perder o pouco terreno que já havia conquistado.

- Não basta que a vida seja longa, minha cara mortal, é preciso que signifique algo, que tenha um propósito. Todos esses soldados que me acompanham, assim como eu mesmo, estão aqui não apenas pela lealdade a seus senhores e sim porque querem que suas vidas tenham um significado. Querem contribuir de alguma forma para que o mal seja derrotado. Uma vida longa e vazia está longe de ser o ideal de felicidade para um elfo.

Nas palavras de Haldir aquela mortal sentiu a força da verdadeira imortalidade. O que realmente é eterno? Nossos atos e todas as suas conseqüências. Ela refletiu sobre o motivo que a trouxera a Rohan... Sua vida sempre consistira em sobreviver a qualquer custo. Seus pensamentos foram interrompidos pela voz do capitão.

- Satisfaça agora você a minha curiosidade. O que mais ouviu falar de mim em Mordor?

- Está querendo alimentar o seu ego, meu senhor? – A mulher finalmente fitou o elfo.

- É sempre bom saber o que os inimigos pensam de nós.

- O que eu sabia já disse. Seu nome é temido pelos orcs como disse o Senhor do escuro.

- Isso é bom. Medo não vence batalhas, contudo pode ajudar de vez em quando, não acha?

- Nada sei sobre suas batalhas e estratégias, capitão, entendo apenas de sobrevivência. Faço apenas o que é preciso para continuar viva.

- Como fazia em Mordor...

- É...- a voz dela parecia cansada, como se lhe custasse admitir essa verdade. E novamente se distanciou voltando a fitar o horizonte através da janela.

O medo de falar sobre si era latente naquele coração mortal. O elfo percebendo isso fez uma pausa, examinado-a com os olhos e buscando por mais alguma coisa que pudesse aproximá-los.

- Diga-me, Tempestade – ele pronunciou cuidadosamente o nome –, o que o seu coração teme?

- Como assim, meu senhor? Não se cansa de questionar minha coragem? A que se refere agora? – A mulher encarou o elfo.

- Não me entenda mal – Haldir sabia que se arriscava em terreno perigoso. – Não questiono sua coragem, e nem poderia diante dos últimos acontecimentos.

- Então diga de uma vez do que está falando! – a impaciência a fez abandonar o mínimo de cortesia que pudesse haver em seus modos.

- Refiro-me ao seu passado: Mordor.

Tempestade estreitou o olhar. O elfo parou, tentando decidir se ela conseguiria escutar o que ele tinha a dizer sem deixar que seu temperamento exaltado jogasse por terra qualquer chance de aproximação. Seu coração lhe disse que sim e o guerreiro élfico prosseguiu:

- Sei que por mais que qualquer um tente, é impossível ter a mais do que uma vaga idéia do seu sofrimento e das feridas que devem ter lhe deixado. Contudo, por que teme falar sobre isso?

- Está equivocado, meu senhor, não temo; apenas, não quero. Acha que essas recordações me agradam?

- Perdoe minha insistência, senhora, contudo acho que toma para si uma culpa que não lhe pertence.

- Só uma vez na vida, Elfo, pare de falar por enigmas e diga o que quer dizer!

- Por que teme ser julgada pelo que aconteceu se está claro que foi uma vítima da crueldade de Mordor?

Ela silenciou. Não sabia o que responder. Ninguém nunca tinha se aproximado tanto assim de seus pensamentos. Nunca permitira. Contudo aquele elfo era diferente. Haldir parecia entender o que se passava com ela. Como conseguiu ir tão fundo assim?

- Não teme ser julgada por haver matado quando isso se fez necessário. E, certamente, ninguém a julga por isso. Contudo teme ser julgada por ter sido...forçada?

Tempestade sentiu o chão sumir sob seus pés. Por que Haldir abordara aquele assunto? Mais do que nunca, sentia vergonha de si mesma. Afinal, diante daquele ser tão perfeito, como não se sentir suja e vazia? O capitão dos elfos percebeu que havia conseguido imobilizar sua adversária e que, querendo ou não, esta teria que ouvir o que ele tinha a dizer. Haldir achou melhor encarar a vista da janela e não mais o rosto dela, liberando-a um pouco do seu olhar a fim de que ela se sentisse mais a vontade. Assim o elfo saberia a extensão da confiança que a mulher nutria por ele.

- Sei o que aconteceu em Mordor – a voz de Haldir soava pensativa. – Ouvi falar sobre o incidente no arsenal. E não consigo compreender por que se culpa.

- Sou eu quem não compreende sua dúvida, capitão – a voz da mortal tentava transmitir uma tranqüilidade que o elfo percebia ser artificial. – Se está tão bem informado, e me parece que está, deve saber o tipo de ... como direi ... práticas... que agradam aquelas criaturas. Não há como não se contaminar com a sujeira deles. O Senhor me considera uma vítima? Eu disse que faço o que é preciso para continuar viva e foi o que fiz em Mordor. Tive uma escolha. Muitas escolheram a morte e mantiveram sua honra intacta. Eu optei por continuar viva, abrindo mão de minha própria honra. Não se iluda. Por que acha que estou aqui? Por Rohan? – a mulher começava a externar a agonia que oprimia seu peito. – O senhor Aragorn estava certo. Sou guiada pela vingança. Dentro de mim queima um fogo que há muito venho procurando aplacar com sangue e agora chegou a hora de aplacá-lo com o sangue dos Uruk-hais que, por ironia, são um misto dos dois seres que mais odeio no mundo. Sua intromissão em minha vida, elfo, me obriga apenas a admitir que, por fim, o anão e aqueles soldados estão certos: sou uma assassina da qual o senhor deveria manter distância para não se contaminar. Será que me fiz entender?

A respiração de Tempestade era rápida e entrecortada. Aguardava pela resposta que ele poderia ter para ela.

Haldir estava satisfeito. A mulher havia conseguido desabafar. Confiou nele e não se fechou, ainda que houvesse proferido palavras duras sobre si mesma. O capitão dos exércitos imortais armou-se de toda ternura de que era capaz e dirigiu à mortal o mais acolhedor de seus olhares.

- Você não conheceu nada além da crueldade e do pior que pode haver nesta terra, Tempestade. Pelo menos uma gota do sangue de Númemor deve estar em suas veias ou você já teria enlouquecido. Sim, vejo um fogo dentro de você, contudo não este ao qual se referiu, e sim o fogo do orgulho e dignidade dos reis.

A mulher permaneceu com a boca entreaberta sem conseguir responder. O que encorajou o elfo a se aproximar:

- Então os Uruk-hais representam os dois seres que você mais odeia: orcs e homens.

O imortal dirigiu seu olhar ao chão:

- Sabe como os orcs surgiram?

Ela não conseguiu responder.

- Eram elfos que foram tomados pelos poderes negros. Torturados e mutilados.

Haldir levantou o olhar, encarando Tempestade.

- Isso quer dizer que, de alguma forma, também eu deveria ser alvo do seu ódio. Diga-me, Tempestade, você seria capaz de me odiar?

Centímetros separavam olhos humanos e élficos. Contudo nenhum toque. O olhar da mulher revelava a batalha que se passava em seu coração. O elfo via que o bem que ainda existia nela lutava contra a sujeira de Mordor. Apesar disso, achou por bem não arriscar tudo o que parecia haver conquistado. Afastou-se lentamente e com o polegar tocou o queixo da mortal tão arredia a contatos físicos. Sorriu ao ver que ela não se esquivou.

- Por baixo dessa capa de violência que ostenta, existe uma beleza que apenas olhos treinados como os meus conseguem vislumbrar... Tempestade – sussurrou. – Por quanto tempo ainda acha que conseguirá se esconder de mim?

A mulher estremeceu.

O Elfo baixou a mão e se afastou um pouco mais. Era tempo de deixar que suas palavras se assentassem naquele coração rebelde.

- Meus pensamentos estarão com você. Fique em paz.

E saiu, sentindo que parte de si ficara com a mulher da qual não sabia sequer o nome verdadeiro. Contudo, tinha certeza, sabia coisas muito mais importantes, como dissera a sobrinha do rei.