O sol já se punha no horizonte quando Tempestade retornava ao abismo de Helm. Sem pressa, a mulher cavalgava em direção aos imponentes portões da fortaleza que se abriram para que ela pudesse entrar.
- Vejo que se livrou do corpo – comentou um dos soldados que guardavam a entrada.
- Exatamente como disse que faria – ela retorquiu.
O rohirim mirou a espada que Tempestade trazia à cintura.
- Neste caso vou reportar ao rei que você parece ser tão eficiente em se livrar dos corpos como é em produzi-los.
Ela não apreciou o comentário, porém nada respondeu. Naquele momento tinha preocupações maiores. Enquanto o soldado se retirava, a atenção dela foi atraída pela conversa que ocorria entre os outros responsáveis pelos portões.
- Seria melhor que parassem de entrar e sair o tempo todo – disse o primeiro. - O inimigo está a espreita!
- Em apenas uma tarde, além de abrirmos esse portão para aquele refugiado, tivemos que abri-lo mais de uma vez para essa estrangeira e depois para aquele elfo.
- Não sei o que tanto há para se fazer fora destes muros!
'Elfo? Que elfo?'
Tempestade apeou do cavalo, deixando-o junto a um monte de feno, enquanto se indagava. 'Quem teria sido? Haldir? Legolas? Por Mordor! Eu realmente não precisava disso agora!'
Seu braço doía tanto que latejava. Sentia seu estômago embrulhado. Não conseguira comer nada desde cedo. Um pedaço de pão havia sido sua única refeição, contudo isso não era problema para alguém que se acostumara a viver do que sobrava das refeições de orcs.
Ao dobrar uma esquina, encontrou um grupo de soldados fazendo uma refeição. Gimli, junto a eles, saboreavam uma sopa rala.
- Ainda em busca de mais alguma vítima, minha 'senhora'? – Provocou o filho de Glóin. – Soube que sua espada bebeu sangue humano recentemente. Nunca consegue se saciar?
- Pelo que vejo, é mais fácil saciar minha sede de sangue do que seu apetite desmedido, mestre anão – retorquiu a mulher.
A provocação mútua não teve maiores consequências. Tempestade não se sentia disposta a iniciar qualquer embate. Sua atenção estava voltada para outros assuntos. As palavras dos orcs faziam eco em sua mente. 'Tempo, tempo, preciso que me deem mais tempo.'
A mulher se retirou sob o olhar de Gimli. O anão se sentia incapaz de ignorar as trevas que via naqueles olhos edain. Ele abandonou o prato de sopa e foi em busca de Legolas e Aragorn. A assassina estava de volta àqueles muros. Ele não poderia se descuidar.
Tempestade seguiu seu caminho sem perceber que estava sendo observada cuidadosamente por um par de olhos élficos. Legolas aguardara seu retorno, acompanhando a distância suas breves interações com os soldados e Gimli.
Não queria perdê-la de vista. A mulher subiu a escada que levava a muralha no que foi seguida pelo elfo.
Enquanto subia os degraus, levou a mão ao braço direito mais uma vez. 'Pelas chamas de Mordor! Isso está ficando insuportável! Espero que Éowyn ainda tenha um pouco daquele unguento...'
Um ruído fez com que parasse. Seus ouvidos haviam sido bem treinados durante os anos vividos na presença dos servos do senhor do escuro. A mulher olhou ao redor, aguçando a audição. 'Será que estou imaginando coisas?', pensou, redobrando seu estado de alerta, posto que havia a possibilidade de alguém havê-la seguido até a floresta.
Alcançou um canto isolado da muralha e aguardou. Da escada, uma certa distância dali, Legolas a observava.
- O que você está fazendo aqui, elfo? – indagou o anão.
O eldar fez um sinal para que Gimli se mantivesse em silêncio e apontou para o local onde Tempestade estava.
Gimli voltou seu olhar para a muralha e observou novamente a mulher, com o olhar fixo no Leste. Ela olhou de soslaio em direção à porta que levava à escada. 'Parece que ouvi uma voz'. Iniciou a caminhada rumo aos seus observadores, decidida a descobrir quem a seguia. Elfo e anão ficaram tensos. Contudo, foram salvos por algo deveras inesperado: uma flecha orc que viera cravar-se na parede da muralha. A jovem desistiu de se dirigir à escada e correu a pegar um pequeno pergaminho preso à flecha. 'Consegui um pouco mais de tempo', constatou após ler o conteúdo da mensagem e começar a rasgar o pergaminho em pequenos pedaços.
- O que ela está fazendo? - o anão indagou em um sussurro.
- Não faço ideia – o elfo retorquiu.
Um a um, ela os levou à boca, engolindo-os.
Gimli não conseguiu mais continuar observando em silêncio.
- O que é isso em sua mão, mulher? – O filho de Glóin adiantou-se em perguntar.
Tempestade, antes de se voltar em direção ao anão, engoliu o último pedaço de pergaminho.
- Está surda? Responda minha pergunta!
- Do que você está falando? - ela respondeu, fitando seu interlocutor.
- Dessa menagem que está em sua mão – retrucou Gimli.
- Está cego, anão. Não há nada em minhas mãos – disse a mulher, mostrando as mãos vazias.
- E o que significa essa flecha? – Indagou Legolas.
Tempestade cruzou os braços, antes de começar a argumentar.
- Bem, vamos pensar um pouco, mestre elfo – respondeu a guerreira debochadamente –, estamos prestes a sermos atacados por quem mesmo?
Legolas estreitou os olhos diante da provocação.
- Ah, Uruk-hais! – ela prosseguiu. – E que armas ele usam?
Gimli bufou.
- Flechas! Então o que essa flecha poderia significar? Que estão se aproximando? Testando nossas defesas? Tentando encontrar pontos fracos? As possibilidades são muitas. Escolham uma e me deixem em paz!
Ela deu alguns passos em direção a escada a fim de sair dali.
- Sabemos que havia algo naquela flecha, Tempestade – disse o elfo, colocando-se entre ela e a porta. – Vai nos dizer o que era.
- Não me faça perder tempo com desconfianças infundadas, mestre elfo! Não há nada a ser dito aqui!
Tempestade desviou do elfo, porém o anão postou-se à sua frente.
- Não vai sair daqui, mulher, sem responder às nossas perguntas.
- O senhor não se cansa de me irritar, mestre anão? – indagou e aproximou seu rosto do dele. – Assim como não se cansa de ser derrotado?
Diante da provocação, Gimli agarrou o braço de Tempestade, fazendo com que ela caísse de joelhos. Legolas quedou-se intrigado com a cena. Ela havia se rendido muito facilmente.
O anão a analisava. A boca entreaberta, a expressão de dor e os olhos marejados de lágrimas surpreenderam-no. Ele não esperava conseguir subjugá-la sem maiores esforços.
- Diga-me de uma vez por todas quem é você e o que está fazendo aqui!
Ainda que ela estivesse disposta a dizer alguma coisa, não conseguiria. Nem mesmo Gimli fazia ideia da dor que infringia a ela, ao contrário de Legolas.
- Calma, Gimli! Não exagere. Parece que há algo de errado acontecendo aqui.
- Exagerar? Afaste-se, meu rapaz, ou não responderei por mim!
Tempestade não conseguia sequer manter a cabeça erguida. Nem se lembrava mais da última vez que se sentira tão impotente diante de um adversário. Temeu pela missão que poderia não completar e apenas diante de tal possibilidade decidiu se render, mas não da maneira que o anão esperava. Por nada revelaria o que ele queria saber.
- Tenha misericórdia, mestre anão! Solte-me, por piedade... – disse com a voz soando pouco mais do que um sussurro.
Ele hesitou por um instante.
- Basta dizer a verdade – respondeu Gimli com um tom firme, porém menos cruel – e eu a soltarei.
- A verdade? – sussurrou Tempestade
- Sim, a verdade!
- A verdade – prosseguiu a mulher – é que ...eu estou...morrendo...
- Do que você está falando?
- Meu braço... a ferida... o veneno... – estava cada vez mais difícil escutar o que Tempestade tentava dizer. Por fim, o corpo da guerreira não suportou mais e ela desmaiou. O elfo correu a verificar se a mortal ainda respirava e, após um suspiro de alívio, dirigiu-se ao anão.
- Está viva – olhou para a mulher que jazia a seus pés –, pelo menos por enquanto.
- O que vamos fazer agora? – Indagou o anão.
- Precisamos levá-la a Éowyn.
Gimli não gostou nem um pouco da resposta do elfo.
- Urrr! Por pouco não conseguimos extrair a verdade! Então, vamos desmascará-la, contando aos outros o que vimos.
- Não se apresse, Gimli. Não temos provas. Seria nossa palavra contra a dela – Legolas tentava acalmar o amigo. – Vamos apenas ficar de olhos bem abertos por enquanto.
- E se ela contar sobre o que aconteceu aqui?
- Não creio que o faça. Ele tem muito a esconder – ele comentou, reflexivo.
- Então vamos levá-la à senhora de Rohan – disse o anão inconformado com o fato de o elfo estar com a razão mais uma vez.
Momentos depois, elfo e anão atraíam a atenção de todos por onde passaram. Legolas carregava Tempestade nos braços em busca da sobrinha do rei. Especulações a respeito do que poderia ter acontecido corriam de boca em boca.
- O que aconteceu com ela? – Éowyn perguntou ao encontrá-los.
- Nós a achamos na muralha e...
- O corpo dela não deve mais estar conseguindo lutar contra o veneno – constatou Éowyn, retirando de ambos a necessidade de entrar em detalhes.
- Veneno, senhora? – indagou Legolas, dando a entender a Éowyn que sabia muito pouco sobre o ocorrido.
- A saliva de um warg é muito venenosa – explicava a sobrinha do rei enquanto o elfo depositava o corpo da mulher no local indicado por Éowyn.
- Sei disso, minha senhora, contudo, até hoje acreditava que o veneno matasse instantaneamente. Se Tempestade escapou, pensei que com o tempo a ferida cicatrizaria. Pelo menos é isso que ocorre com os elfos – comentou Legolas.
- O Belo Povo tem consigo a bênção dos Valar. Nós somos bem menos resistentes. Um warg quase sempre mata suas vítimas com suas mordidas. O que na maioria das vezes é suficiente, contudo, quando a pessoa escapa apenas com os ferimentos, o seu sofrimento é muito maior. O veneno mata lentamente. É mais de um mês de lenta agonia. Com algumas ervas conseguimos retardar um pouco o efeito e diminuir o incômodo, porém, a morte é inevitável. Tempestade já está condenada – concluiu Éowyn, fitando a amiga, enquanto retirava a luva e as ataduras que cobriam ferida.
O odor fétido que saía da ferida infeccionada fez com que os guerreiros virassem o rosto. A senhora de Rohan, contudo, acostumada como estava a cuidar de tantos naquela situação, não deixou transparecer seu incômodo. Lavou a ferida, tratou-a com um unguento especial e cobriu-a novamente.
- Vamos deixá-la descansar agora e ver se o corpo dela conseguirá reagir – falou a sobrinha do rei com a voz cheia de tristeza.
Haldir ouvira comentários a respeito da estrangeira desmaiada nos braços de Legolas. Supusera acertadamente que deveria estar sendo levada aos cuidados da sobrinha do rei e se dirigiu até lá, interrompendo o diálogo entre Éowyn e Legolas .
- O que aconteceu, minha senhora? – Haldir parecia preocupado.
- Tempestade teve uma recaída, meu senhor, vamos deixar que ela se recupere – disse Éowyn, indicando aos elfos a porta que levava ao corredor.
- Recaída? – indagou o recém chegado, enquanto seguia para fora do recinto.
- Isso mesmo. Ela não tem muito tempo. Mais alguns dias e seu corpo sucumbirá ao efeito do veneno do warg que a feriu – Éowyn não sabia por que, mas seu coração lhe dizia que deveria externar aquilo pra Haldir. O elfo fora uma das poucas coisas boas que aconteceram a sua criada em tantos anos de sofrimento.
O rosto do capitão se encheu de pesar e Éowyn sentia que deveria deixá-los a sós.
- Se me dão licença, meus senhores – disse afastando-se.
- Eu a acompanho, senhora – disse o anão.
- E eu agradeço, Gimli – ela retorquiu.
- Boa noite, senhora – respondeu Legolas.
Haldir não prestava atenção a mais nada desde a declaração fúnebre de Éowyn. Fitava a porta por trás da qual Tempestade lutava contra a morte.
