Haldir andava de um lado para o outro, mirando ocasionalmente a porta do aposento onde sabia que Tempestade estava.
Impaciente diante da ansiedade do amigo, Legolas perguntou:
- Não seria melhor irmos descansar um pouco, Haldir?
- Eu não conseguiria dormir mesmo que quisesse – respondeu o guardião.
- Ela já está medicada, meu amigo.
- Éowyn disse Tempestade não resistirá por muito tempo. Eu não consigo me conformar.
- E perder uma noite de sono diante dessa porta ajudará em alguma coisa?
- ...
- Além do mais... - o jovem elfo calou-se ao refletir tardiamente nas palavras que quase pronunciara.
- Além do mais o quê, Legolas?
- A própria senhora de Rohan já está conformada com a situação. Tudo que era possível fazer, já foi feito.
- Nem tudo… - disse, mirando a porta.
- Do que você está falando? Algum novo recurso élfico impetrado pela senhora da luz?
- É um recurso élfico, sem dúvida. Porém não é novo e não seria necessária a presença da senhora da luz para que eu o usasse.
- Tornou-se um curador agora, Haldir?
- O que tenho em mente não requer um curador...
O guardião fitou o príncipe.
Legolas intuiu algo, desejando secretamente que seus pensamentos não correspondessem à verdade:
- Você não pode estar se referindo a...
O olhar determinado de Haldir bastou para que Legolas percebesse que sua suposição estava correta.
- Você perdeu a sanidade, Haldir? – O jovem elfo estava inconformado. - Como pode sequer cogitar em se arriscar dessa maneira por uma...
O filho de Thranduil parou mais uma vez diante do olhar de repreensão do amigo.
- Uma o quê, Legolas?
- Uma estranha, Haldir – o arqueiro remediou. - Alguém que você não conhece e de quem não sabe sequer o nome verdadeiro!
- Sei mais sobre ela do que você imagina, meu amigo.
- Não, Haldir, você não sabe – Legolas afirmou com tamanha convicção que deixou o capitão intrigado.
- O que você sabe que eu não sei?
Legolas voltou-se em direção à parede e permaneceu em silêncio por alguns instantes. Não seria fácil convencer o amigo da maldade daquela criatura infeliz. Ele parecia já estar enredado na teia tecida por ela. A mesma teia na qual a senhora de Rohan estava presa. Então o jovem elfo, ainda sem fitar o rosto de Haldir, cuidadosamente iniciou sua narrativa.
- Após o incidente com aquele estranho, hoje a tarde, resolvi seguir Tempestade. A frieza com a qual ela matou aquele homem me deixou preocupado. Ela parece incapaz de sentir remorso.
- Ela passou por muita coisa, Legolas.
- Não estou negando isso, meu irmão – Legolas encarou o amigo. - Contudo, seja qual for a causa, essa mortal traz dentro de si o mal que a escravizou. Você não pode negar isso.
- Não, não posso – admitiu Haldir, baixando a cabeça e fitando o chão.
- Pois bem – prosseguiu o filho de Tranduil –, eu a segui até o limiar da floresta e a vi depositar o corpo do homem ali.
- E não foi essa a determinação de Théoden?
O príncipe suspirtou.
- Sim, Haldir, porém esperavam por ela.
O guardião franziu o cenho.
-Quem?
-Um grupo de orcs.
Legolas aguardou um momento para que Haldir pudesse digerir essa nova informação. Ele até então imaginara que o discurso do amigo seria baseado em sua intuição – e a intuição de Legolas raramente falhava –, contudo o príncipe élfico lhe trazia um fato concreto.
- Sei como é difícil de acreditar, Haldir – disse Legolas diante do olhar incrédulo do amigo. – Eu também fiquei surpreso, mas resolvi arriscar e me aproximei a tempo de ouvir apenas o final da conversa. Algo sobre uma missão que ela recebera e que estava demorando a cumprir.
- Que missão?
- Não sei. Ouvi apenas que ela precisava de um pouco mais de tempo e aguardaria pela resposta.
- Preciso falar com ela – disse o capitão dos elfos deixando-se levar pelo calor da situação.
- Calma, Haldir. Eu ainda não terminei – afirmou Legolas, surpreendendo o outro imortal. – Os orcs a questionaram sobre o que fariam com aquele homem, já que estava morto, e ela perguntou a eles: 'Não estão com fome?'
Haldir abriu a boca, mas não soube o que dizer. Apenas esperou que Legolas concluísse sua narrativa.
- E eles o devoraram enquanto ela se afastava tranquilamente, retornando à fortaleza.
- Isso não pode ser verdade! – Foi tudo o que Haldir conseguiu dizer.
Mais do que dúvidas em relação a palavra de seu amigo, sua declaração refletia um desejo desesperado.
- Sinto muito, Haldir, mas estou certo do que ouvi. E não é só isso.
- E o que, em nome do Único, pode haver além disso?
- Hoje, no final da tarde, eu a segui novamente até um ponto distante da muralha. Gimli me viu e foi comigo. Ambos a vimos receber uma espécie de mensagem enviada por uma flecha orc.
A cabeça de Haldir começou a rodar, enquanto ele sentia a verdade inconteste se impondo. Aquela mulher estava se fazendo de vítima o tempo todo?
- Nós tentamos extrair a verdade dela. Gimli a segurou com força exatamente no local da ferida. Por isso ela desmaiou.
Haldir pressionou as têmporas.
- A senhora Éowyn sabe de tudo isso?
- Não. Dissemos que a encontramos desmaiada por acaso. Ja que não temos provas, achamos melhor assim, pois seria nossa palavra contra a dela.
- E quanto à mensagem que você mencionou? Ela não serviria como prova? O que dizia?
- Parece cômico, meu amigo, mas a mulher a devorou.
- Ela o quê?
- Ela comeu o pergaminho, Haldir, pedaço por pedaço. Fico imaginando quão terrível deveria ser o conteúdo da mensagem para que ela se sujeitasse a esse papel.
- Agora tudo faz sentido... – Após o choque inicial, o guardião voltava a pensar claramente.
- O que faz sentido?
- No dia em que chegamos, logo após o primeiro incidente com o anão, você deve ser lembrar que nós a vimos sozinha na muralha.
- Sim, você a ficou vigiando enquanto eu procurava por Aragorn.
- Na sua ausência, eu percebi que ela tinha um pedaço de pergaminho na mão. E ela o devorou. No momento eu não compreendi nem dei muita importância ao fato, mas agora...como pude ser tão tolo?
- Não se recrimine, meu amigo. A história dela é muito convincente… Mesmo Éowyn confia nela cegamente...
- Não estou tão certo de que é uma confiança cega que une as duas...
- O que quer dizer com isso, meu irmão?
- Lembra-se de quando a convenci a pedir desculpas ao anão a fim de que ficasse na fortaleza?
- Sim… mas... o que isso tem a ver com o que estamos falando?
- Quando cheguei ao corredor, Tempestade e a sobrinha do rei conversavam sobre uma promessa que a estrangeira deveria cumprir e que seria muito difícil fazê-lo fora destes muros.
- Uma promessa? Qual?
- Não sei. Talvez o conteúdo do pergaminho houvesse podido nos ajudar.
- Então ao que parece os orcs a mandaram até aqui com uma missão específica. Quanto mais penso a respeito dessa mulher, mais chego a conclusão de que ela traz apenas o mal consigo.
- Então é isso? Matar por matar? Sede de sangue? Isso me parece simples demais...
- Não – respondeu o filho de Thranduil – , não acho que essa violência toda seja assim tão gratuita. Ela veio aqui por um motivo. E você já disse qual: cumprir uma promessa. A questão é: qual seria essa promessa e o que ela ganharia em troca, já que está condenada?
- Se ela está a serviço do senhor do escuro, meu amigo, levando em consideração suas habilidades, seria muito mais útil no campo de batalha do que dentro destes muros - ponderou Haldir.
- Mas aqui ela poderia favorecer as forças do escuro com um golpe inesperado – Legolas se esforçava em desvendar o mistério da ex-escrava de Mordor, contudo a resposta parecia escapar por entre seus dedos.
- O que há dentro destes muros que o senhor da Terra Negra tanto teme ou deseja? Pelo que sabemos, o Um Anel está bem longe daqui.
- Isso é o que temos que descobrir, mas não precisa ser agora, talvez ela nem passe dessa noite. Estamos exaustos. Vamos descansar, meu amigo. Amanhã cedo cuidaremos disso.
Haldir finalmente concordou em se recolher um pouco. Com certeza não dormiria, todavia, precisava de tempo para colocar seus pensamentos em ordem.
...
Tempestade acordou com os primeiros raios de sol invadindo o quarto e sentido o conforto do leito onde dormira. Em seu braço, no lugar da dor dilacerante do dia anterior, havia uma sensação de dormência, pela qual ela se sentiu grata:
- Éowyn...
Pronunciara o nome da sobrinha do rei, fitando o resto do unguento que jazia ao lado da cama. Cama? Como poderia ter dormido na cama da senhora de Rohan? Tempestade ergueu-se a fim de conseguir raciocinar. A última coisa da qual lembrava era que estava na muralha… Ah! Não!... a mensagem... o anão... o elfo... A essa altura todos na fortaleza já deveriam saber. Como ainda estava viva? Seus pensamentos foram interrompidos pelo ranger da porta.
- Acordou, finalmente! – Éowyn se aproximou, oferecendo um pedaço de pão – coma isso e recupere suas forças minha amiga.
- Senhora, o que está acontecendo? – disse a ex-escrava de Mordor, tomando, sem muito interesse, o pão em suas mãos.
- Pelo que os batedores comentam, os Uruk-hais estão acampados muito próximos daqui. Podem nos atacar a qualquer momento. Talvez a batalha não passe de hoje.
- Era o que a mensagem dizia...
- Que mensagem?
- Recebi mais uma mensagem ontem, senhora, eles estão muito impacientes. Devo cumprir minha missão e me juntar a eles em seguida. Não deixarão que mais um sol se ponha antes de atacarem...
- Estaremos preparados… - Não perca as esperanças – disse Éowyn, segurando a mão da amiga.
- Não é com esperanças que estou preocupada agora, minha senhora. Algo muito grave aconteceu.
- O que houve?
- Legolas e o anão me viram enquanto eu recebia a mensagem.
- Como? Você sempre foi tão cautelosa?
- Eu não sei. Talvez o veneno finalmente esteja afetando meus sentidos. E desconfio que o elfo tenha me seguido até a floresta também.
- Conte-me tudo! – Determinou a sobrinha do rei.
- Como eu desconfiava, os orcs mandaram aquele homem. Consegui convencê-los a me darem um pouco mais de tempo. Eles disseram que eu aguardasse a resposta até o anoitecer. E foi o que fiz. Decidiram que esperariam até hoje, caso contrário agiriam por conta própria e eu perderia minha chance de...
- De continuar viva.
- Isso.
- Acha que eles tentariam mandar mais alguém?
- Não sei se haveria tempo para isso ou se eles tentariam outra coisa.
- E quanto ao anão e ao elfo? Você disse que eles a viram?
- Sim. Legolas e Gimli tentaram saber de mim o que significava o pergaminho enviado por uma flecha orc.
- E o que você disse?
- Eu fingi que não sabia do que eles estavam falando. Inventei qualquer coisa sobre espiões orcs testando nossas defesas, mas les não acreditaram.
- O que fizeram?
- Odeio ter que admitir, mas o anão me pegou desprevenida pelo meu braço ferido e exigiu a verdade. Consegui resistir até que devo ter desmaiado. A essa altura, todo o abismo de Helm deve estar sabendo dessa história...
- Não, não está – disse Éowyn, acalmando Tempestade.
- Como não?
- Eu não sei para quem ou se eles contaram, mas não foi nem para mim, nem para o rei ou para ninguém que eu saiba.
- Por quê? – A mulher sentia-se confusa. – O que pretendem?
- Não tenho resposta para isso, Tempestade, mas é melhor você redobrar seus cuidados de agora em diante. Agora venha, o rei solicitou sua presença.
- O quê?
- Ele me pediu para chamá-la.
- Então o senhor de Rohan já deve saber de alguma coisa, minha senhora.
- Não se preocupe, Tempestade, eu conversei com meu tio e ele não faz ideia do que está acontecendo.
Tempestade assentiu e se levantou. De uma forma ou de outra descobriria o que a aguardava.
...
Enquanto isso, olhos élficos insones contemplavam o nascer do sol. Uma resolução tomando forma em seu coração.
