A porta se abriu e Tempestade foi jogada ao chão por Gimli. A raiva que ele sentia por ela era proporcional a sua devoção a Aragorn.
- Terá algumas horas para refletir sobre sua existência miserável, cria de Sauron. Aproveite para impetrar uma mentira melhor do que as que contou há pouco, já que Aragorn lhe concederá mais uma chance – debochou o anão.
A mulher não se erguera após a queda. Jazia no chão com o rosto tocando a pedra fria e o supercílio sangrando.
- Agora chega, Gimli – disse o filho de Thranduil, colocando a mão no ombro do anão – nem a um animal se trata dessa maneira.
- Um animal, meu caro Legolas – o anão retorquiu irritado – tem serventia e não distingue o certo do errado, enquanto essa... ah! Não consigo pensar em uma palavra que possa expressar o que ela é!
- Eu sei – disse o príncipe do reino da floresta buscando acalmar o amigo – mas somos melhores do que isso.
- Ah! Que seja. Não pretendo mesmo tornar a ver essa figura lamentável. Ela que se entenda com os Uruk-hais.
As palavras do filho de Glóin atingiram em cheio o coração de Tempestade. Ela ergueu um pouco a cabeça em direção aos seus carcereiros. A miséria daquele farrapo humano tocou fundo o coração de Legolas. Não era da natureza dele permanecer inerte diante do sofrimento. Sem dizer nada, aproximou-se da mulher e contemplou-a longamente, tentando compreender como Haldir pudera sentir-se atraído por ela. Má, assassina, dissimulada, cruel... eram estas as característica que lhe vinham em mente, contudo havia algo naqueles olhos selvagens.
- Estamos perdendo tempo, Legolas. Temos que nos juntar aos outros agora.
- Você amarrou essas cordas muito fortemente, Gimli – foi a resposta dada pelo elfo antes de abaixar-se até a mortal a fim de lhe desatar as mãos.
- O que está fazendo, seu temerário? Quer levar um bote desta cobra traiçoeira?
- Não vou soltá-la. Vou apenas afrouxar um pouco o nó. Além disso, o que ela pode fazer? Está desarmada – concluiu o filho de Thranduil, enquanto refazia as amarras.
A mulher não se sentiu tentada a escapar. O elfo estava certo. Desarmada, não poderia com o machado e o arco que a vigiavam e mesmo se conseguisse, como sairia da fortaleza? E se saísse? Voltaria para os orcs? Sem a cabeça de Aragorn, seria morta antes que pudesse pensar em fugir. Não lhe restavam muitas alternativas, contudo, a demonstração de piedade do imortal chamara a atenção dela para um destino que parecia melhor do que aguardar pelo Uruk-hais.
- Deveria seguir o conselho de seu amigo, mestre elfo. Não há porque perder tempo comigo.
Legolas permaneceu em silêncio. O rosto impassível.
- Não conseguirá me enredar em sua teia, mulher. O que fiz por você, faria até mesmo por um animal. Terá seu direito de defesa e creio que é mais do que poderia esperar.
- Não pretendo enredá-lo em teia alguma, mas me atrevo a fazer um último pedido – prosseguiu - Algo que, certamente, o senhor também não negaria a um animal moribundo...
- O que quer? – inquiriu secamente o filho de Thranduil.
- Que cumpra a ameaça que me fez há três dias...
- Eu ouvi bem? – O elfo queria certificar-se de que entendera o pedido da mortal.
- O anão está certo, quando os Uruk-hais me encontrarem…
Ela não pode concluir a frase. O orgulho a impedia de mostrar o medo que sentia ao pensar no que poderia acontecer.
Legolas engoliu seco.
- Os anos em Mordor já foram o bastante – ela murmurou.- Paguei por antecipação todos os crimes que poderia cometer.
Ela fitou o elfo.
- Mate-me.
A solicitação da mulher pegou o imortal de surpresa.
- Mesmo que quisesse, não poderia atendê-la.
Ela riu fraco.
- Mesmo que quisesse? Sei que pensa o pior de mim, elfo, e que em seu julgamento seria antes um benefício do que um prejuízo untar sua espada com meu sangue.
Legolas estreitou os olhos.
- Está enganada, Tempestade. Nem todos são como você, que confunde vingança com justiça e julgamento justo com sentimentos de ira incontidos.
- Confesso que eu, de minha parte, teria um imenso prazer de lhe conceder esse último desejo – disse o anão. - Mas por nada contrariaria a ordem de Aragorn.
- Ela desperta o que há de pior em nós – Legolas comentou, fitando o amigo. - Vamos embora, Gimli.
O anão assentiu, porém não resistiu a um último comentário.
- Diga-me, Tempestade, o que acha que doeria mais? Ser encontrada por seus amigos ou 'untar meu machado com seu sangue'? Ham? Depois de tudo que me fez e disse?
A mulher fitou o anão. Olhos em chamas.
- Seu machado, anão. Eu o prefiro. Ainda que o orgulho me corroa por dentro. Ainda que precisasse morrer tendo seu sorriso como minha última visão…
Ela virou o rosto e fechou os olhos. O peito arfava com a raiva contida.
O coração de Legolas revolveu-se dentro dele. Havia algo fora do lugar em tudo aquilo. Algo que contrariava as evidências, no entanto o elfo não poderia agir contra elas.
- Pedirei à senhora de Rohan que venha ajudá-la, se ela o desejar. É tudo o que posso fazer.
O olhar vazio da mulher foi a única resposta que o filho de Thranduil recebeu.
- Quanto tempo mais vai querer perder com essa mulher, elfo?
O príncipe do reino da floresta deixou o recinto na companhia do filho de Glóin.
- Onde você pretende ir, homem temerário e sem juízo? – Argüiu o anão enquanto Aragorn selava o cavalo, preparando-se para ir à cachoeira onde, de acordo com as palavras do estranho homem que Tempestade matara, pessoas feridas necessitavam de ajuda...
- Não posso me permitir ficar aqui de braços cruzados. Se estiverem vivos, irei encontrá-los e colocá-los na segurança destes muros.
- Perdeu a sanidade, Aragorn? – interveio Legolas – E se aquele homem fosse realmente um assassino que veio realizar o que Tempestade não realizara? Vai arriscar-se a toa?
- Já que não temos certeza disso, não posso correr o risco de condenar pessoas inocentes por causa da minha falha de julgamento. Já me equivoquei demais no que concerne aquela mulher – concluiu fixando o olhar em um ponto qualquer do horizonte.
- Ele estava armado! – insistiu Gimli.
- E se ele estava sendo forçado? E se seus familiares estivessem sendo mantidos como reféns?
- Então iremos com você – decretou o filho de Glóin.
- Isso não tem o menor cabimento! Quem ajudaria o rei a defender a fortaleza?
- Concordo com você, Aragorn – disse Haldir aproximando-se do inseparável trio – não tem o menor cabimento que o principal comandante desta aliança deixe a segurança destes muros, principalmente agora que sabe que Sauron teme seu retorno tanto quanto anseia reencontrar o um anel. Ou vamos com você ou ninguém atravessará esses portões.
O herdeiro de Isildur suspirou, cansado de tentar impor resistência, todavia algo morno em seu peito pela demonstração de lealdade de seus amigos.
- Vamos então. Quanto antes formos, mais chances teremos de retornar.
O rangido da porta trouxe de volta à consciência a matadora de wargs. Já não sabia dizer que parte do seu corpo não era tomada de espasmos. Jamais pensara que poderia sofrer tanto. Ansiava pela morte. Contudo, uma réstia de luz começou a iluminar o recinto frio e escuro. Um reflexo fez com se pusesse de joelhos. Não foi fácil discernir quem atravessava a porta.
- Senhora...? – disse a mulher, tentando abrir os olhos desacostumados à luz. Éowyn trazia em uma mão uma taça e na outra um objeto envolto em um pano.
- Como está, Tempestade? – perguntou a sobrinha do rei sem demonstrar a confusão que havia em seu interior.
- Esperando pela morte – disse a jovem guerreira, contudo não havia lamento e sim resolução em sua voz.
- Talvez a morte ainda tarde em ceifá-la.
- Como, minha senhora? E para quê?
- Para terminar o que começou.
- Não há mais nada a ser feito. O sol já deve estar alto e ao anoitecer os exércitos de Isengard estarão aqui.
- Contudo – prosseguiu a senhora de Rohan – não tenho certeza de que o senhor Aragorn esteja realmente fora de perigo.
- O que quer dizer? – perguntou Tempestade intrigada com as palavras de Éowyn.
- Legolas contou-me o que aconteceu na muralha – a voz da sobrinha do rei soava grave.
- ...
- Disse-me que você tentou matar Aragorn.
- Contou-lhe todos os detalhes? – a estrangeira mal conseguia disfarçar o nó em sua garganta ao perceber no tom de voz da senhora de Rohan uma frieza incomum.
- Contou-me o suficiente.
- Então suponho que já não acredite em mim – disse a guerreira. De fato, já não esperava que mesmo a sobrinha do rei ainda fosse capaz de confiar nela.
- Isso depende.
Tempestade estreitou os olhos.
- Depende de quê?
- Aragorn foi em busca da suposta família que aquele homem que você matou deixou aguardando ajuda na mencionada cachoeira.
- Isso quer dizer...
- Quer dizer que sua missão, levando em conta que tudo o que me disse é verdade, ainda não está concluída.
- Acredita em mim, então?
- Considerando que você não tenha mentido, sua ida até a floresta servirá para livrar Aragorn de alguma emboscada. Se, ao contrário, você for realmente uma assassina, Aragorn estará escoltado por Legolas, Gimli e Haldir. Sei que é forte, contudo, não tão forte quanto todos eles juntos...
- Concede-me o benefício da dúvida, então? Vai me libertar?
- Exato.
- E o que lhe dá segurança de que ao me desamarrar não a matarei? – Tempestade queria ver até onde a confiança da sobrinha do rei fora abalada pelos recentes acontecimentos. Se iria continuar, deveria saber até onde poderia ir.
- Não está diante de uma simples dama da corte, minha cara. Também sei usar uma espada e sei me defender, embora ninguém acredite nisso.
- De qualquer forma, já não me resta quase nenhuma vida agora. Mesmo que quisesse, não poderia ameaçá-la, assim como não sei com que forças conseguiria chegar a floresta. Estou muito fraca...
- Isso a ajudará – disse Éowyn aproximando o cálice que trazia consigo da boca da mulher.
- O que é isso?
- Uma beberagem feita com as ervas que costumava colocar em seu braço. É forte. Conseguirá conter o efeito do veneno por algum tempo.
Tempestade olhava para a taça tentando se decidir. Deveria ir? Como dissera a sobrinha do rei, o futuro rei dos homens estava bem guardado. Haveria ainda chance de Aragorn ser mortor? A resposta veio da senhora de Rohan.
- Beba, Tempestade e vá encontrar seu destino. Você não atravessou o fogo de Mordor para morrer dentro destas paredes. Se tem que deixar este mundo, que seja lutando, com sempre fez.
A estrangeira entregou-se aos argumentos de Éowyn e bebeu o que lhe era ofertado. Quando terminou, a sobrinha do rei colocou diante da jovem o embrulho que trazia consigo.
- Irá precisar disso – disse a senhora de Rohan antes de começar a desamarrar as mãos da guerreira.
- Saberei usá-la quando chegar o momento...- disse a matadora de wargs, pensativa.
- Então vamos. Não temos tempo a perder.
- Como assim vamos, minha senhora? – arguiu Tempestade enquanto massageava os pulsos e sentia o efeito revigorante da bebida em seu corpo.
- Irei com você até a cachoeira.
- Isso é uma temeridade, senhora, e completamente desnecessário.
- Não irei discutir isso, Tempestade. Conheço as saídas do castelo e as trilhas da floresta melhor do que você. Tenho o direito de lutar por quem amo!
- Ainda que saiba que o coração dele pertence a outra?
- O amor deles é impossível! Ela está voltando para as terras imortais. Que outro fim um amor assim poderia ter?
Tempestade baixou os olhos. A figura de Haldir lhe veio em mente. Éowyn estava certa. Que outro fim poderia ter? Diante da reação da estrangeira, a sobrinha do rei percebera que suas palavras tiveram um alcance maior do que o que ela pretendera.
- Sinto muito, minha cara.
- Não há nada a lamentar, senhora. Como disse, não temos muito tempo. Então vamos.
Servindo-se de seus conhecimentos e influências, Éowyn conduziu a mulher para fora dos muros da fortaleza e conseguiu montaria para ambas. Rumaram em direção à floresta.
