A medida que os guerreiros aproximavam-se da floresta, reduziam o passo a fim de diminuírem as chances de sua presença ser percebida, caso houvesse orcs pelas redondezas.

- Onde fica esta bendita cachoeira, afinal de contas? – indagou o anão.

- Um pouco mais adiante, Gimli. Após aquela colina a vegetação fica mais espessa. Ao adentrarmos a mata, logo deveremos avistá-la – Aragorn respondeu.

- Contudo – interveio Haldir – não podemos descartar a possibilidade de que não estejam mais lá. Ainda que a história do homem seja verdadeira, esses pretensos fugitivos podem já ter sido encontrados pelos orcs ou podem ter encontrado algum refúgio.

- Por isso, devemos olhar ao redor. Se estavam realmente feridos, não podem ter ido muito longe.

- Não devemos nos demorar, Aragorn – a voz de Legolas estava carregada de preocupação – sinto que um grande mal se aproxima e não me refiro apenas ao exército de Isengard.

- Não se preocupe, meu amigo – disse o herdeiro de Isildur – seremos cautelosos, não pretendo arriscar nossas vidas além do razoável.

- Isso não se parece em nada com você, Aragorn – Gimli.

- De fato – Legolas concordou.

- Shiiii, ouviram isso? - Aragorn indagou.

- Parece vir daquela direção – apontou Haldir.

- Orcs – Legolas completou.

- A cachoeira fica para o outro lado – constatou o herdeiro de Isildur.

- É melhor irmos. Permanecer é muito arriscado.

- Iremos até a cachoeira e voltaremos por onde viemos. Essas criaturas detestam a luz do sol. Uma vez fora dessa floresta densa estaremos a salvo – Aragorn determinou.

...

As duas mulheres chegaram ao limiar da floresta. Cada uma cavalgava uma montaria e trazia outro cavalo consigo.

- É melhor pararmos aqui, senhora. É o local onde deixei o corpo daquele assassino.

- Não vamos entrar na floresta?

- Eu irei, mas acredito que seria melhor se a sobrinha do rei aguardasse aqui.

- Mesmo você acha que não tenho capacidade de participar de uma batalha, Tempestade?

- Não se trata disso, senhora – para o que pretendia fazer, seria melhor que a senhora de Rohan ficasse distante – ainda que eles consigam retornar a salvo, é preciso garantir que haja montarias para levá-los de volta á fortaleza. Se os orcs os tiverem encontrado, seus cavalos devem ter sido as primeiras vítimas de suas flechas. Há quatro cavalos aqui. Isso deve bastar – as últimas palavras da mulher foram mais sussurradas do que ditas.

- Está enganada. Somos seis, ao todo. Ainda ficam faltando dois cavalos.

- A senhora se esquece de que aquele anão não sabe cavalgar? Para ele e o elfo basta um cavalo.

- Quanto a você…?

- Não pretendo voltar, minha senhora.

- O que está dizendo?

- Esquece-se de que já estou condenada? Se tiver que morrer, morrerei.

- Eu sei, Tempestade.

Éowyn permaneceu em silêncio por algum tempo, mirando a mulher a sua frente, antes de prosseguir.

- Sempre soube que essa hora chegaria, mas apesar da sombra de desconfiança que surgiu entre nós, não posso deixar de dizer que a admiro. Vá em paz e espero sinceramente poder revê-la.

- Adeus, senhora – foi tudo que a mulher conseguiu dizer e mesmo assim, sem olhar nos olhos de Éowyn.

...

O barulho da cachoeira se intensificava a medida que os guerreiros se aproximavam do pretenso esconderijo. Contudo, quando lá chegaram, nada viram além de plantas, pedras e água.

- Não há ninguém aqui, Aragorn – disse Legolas –, devemos voltar.

- Não devíamos ter vindo – completou Haldir ao perceber por sua audição élfica que os orcs estavam cada vez mais próximos.

- Detesto admitir, Aragorn, mas os elfos estão certos – disse o anão.

Os olhos do guardião do norte percorriam o espaço entre cada árvore, cada pedra. Aragorn não suportava a possibilidade de abandonar alguém que necessitasse de sua ajuda. Sua ânsia de encontrar algum sobrevivente era tanta que o herdeiro de Isildur vislumbrou uma movimentação por trás de algumas rochas mais adiante de onde estavam.

- Vejam! Há alguém ali.

- Deve ser apenas um animal – disse o filho de Thranduil.

- Aragorn! Volte aqui! – Gimli insistiu inutilmente, enquanto o guardião do norte se afastava – por que nunca me dão ouvidos?!

Enquanto a montaria do herdeiro de Isildur vencia a íngreme subida, os seus companheiros aguardavam ansiosos o desfecho daquela atitude temerária. Chegando ao limiar da subida, o barulho da aproximação dos orcs assustou o cavalo que levava o guardião do norte fazendo-o perder o equilíbrio e cair do outro lado das rochas sumindo das vistas dos elfos e do anão, que não tardaram em desmontar de seus cavalos a fim de ver como estaria Aragorn. Quando atingiram o ponto no qual ele havia sido atirado de seu cavalo, viram-no desmaiado abaixo do barranco onde se encontravam.

- É melhor darmos a volta – Legolas comentou.

- Espere – disse Haldir, pondo a mão no ombro do amigo –, olhe!

O Galadhrim apontou para o contingente de orcs que se aproximava. Não eram muitos, contudo, contra dois elfos, um anão e um homem desmaiado, eram uma força considerável.

- Precisamos fazer alguma coisa! – gritou o anão já pronto para atirar-se entre os orcs e o futuro rei de Gondor.

- Abaixe-se ou eles nos ouvirão – disse Legolas puxando o amigo pelo braço – e aí sim, não haverá chance alguma!

- Mesmo amarrada, trancafiada e praticamente moribunda, aquela cria de Mordor ainda nos atrapalha! Não fosse ela, não estaríamos aqui!

- Ela disse a verdade, mestre anão – interveio Haldir, apesar da mágoa que sentia contra Tempestade –, ao que vemos, tratava-se de ardil. Talvez aquele homem pretendesse atrair Aragorn para cá desde o início.

- E por fim, conseguiu – disse o filho de Glóin inconformado.

- O que acha que devemos fazer, Haldir?

- Estamos em franca desvantagem. – disse o servo de Galadriel.

- Bem observado, capitão – debochou o anão ao que foi fulminado por dois pares de olhos élficos.

- Talvez – prosseguiu o guardião de Lórien buscando conter o ímpeto de atravessar o anão com sua espada – seja melhor aguardarmos que o façam prisioneiro e tentemos resgatá-lo às escondidas.

- E se o matarem? – indagou Legolas preocupado.

- Não creio. Irão reservar este prazer ao seu negro mestre. Agora que o risco de que Aragorn escape é muito pequeno.

- Isso é muito arriscado – discordou Gimli – vamos atacá-los! Podemos com eles.

- Não seja pretensioso, mestre anão – respondeu Haldir – vamos esperar! Além disso, pior do que está não pode ficar.

- Não? – perguntou o anão apontado em direção ao filho de Arathorn. – E que o senhor me diz disso?

Quando os imortais dirigiram o olhar ao herdeiro de Isildur, seus olhos élficos mal podiam acreditar no que viam. Tempestade colocava-se entre o bando e sua presa. Havia visto a queda do guardião do norte e sabia exatamente onde seus amigos estavam. Deveria agir com cuidado. Nenhum dos dois lados lhe era muito favorável.

- Ora, ora, ora – disse o comandante da falange inimiga. – Vejam quem resolveu aparecer!

- Sentiu minha falta, capitão?

- Sentimos falta da missão que você falhou em cumprir, rameira!

- Falhei? Aparentemente – disse a mulher levando a ponta de sua espada à garganta de Aragorn - ainda posso cumpri-la.

Os elfos sentiram a garganta secar e o anão tinha o estômago embrulhado.

- Pela Senhora da Luz! – sussurrou, Haldir. – Você estava certo, anão.

- Detesto estar sempre certo quanto se trata dela! – respondeu Gimli.

O capitão dos orcs aproximou-se de Tempestade e a espada dela foi erguida em direção a ele.

- Mantenha distância, capitão.

O orc, embora visivelmente contrariado, não se aproximou mais.

- Eles a temem – comentou Legolas.

- É grotesco vê-la chamar aquele verme de 'capitão' - Gimli completou.

Tempestade fitou o bando e baixou a espada por um momento.

- Quão difícil foi fugir daquela fortaleza, mulher? Ou eles a deixaram sair? - indagou o líder do contingente.

- Duvido que a tenham deixado escapar – um dos orcs comentou. - Não depois de ter atrapalhado meus planos! Eles a prenderam.

- Então era você na muralha? - Tempestade constatou.

- Você é uma incompetente – disse o líder.

Ela sorriu com o canto dos lábios.

- Por que está rindo, rameira?

- Porque por caminhos inesperados, consegui exatamente o que pretendia.

- Então termine de uma vez com isso, prostituta.

- Não tenha tanta pressa, capitão – respondeu a matadora de wargs. – É minha vida que está em jogo, aqui. Sou eu quem deveria estar com pressa.

- Urrr! É claro. Sua vida pela dele. O grande olho é piedoso – disse o comandante dos orcs ao som das debochadas risadas de seus subalternos – aqui está. – Concluiu, atirando um pequeno frasco que Tempestade habilmente segurou em uma das mãos enquanto a outra não soltava a espada – beba o antídoto, mate o rei dos homens e leve a cabeça dele ao nosso mestre.

Tempestade mirou longamente o frasco em suas mãos, antes de apertá-lo entre seus dedos.

- O olho muito se agradará do presente que você levará a ele – o orc comentou.

Ela ergueu os olhos e fitou-o.

- Já tem em suas mãos o que queria, mulher! O que está esperando?

- Não levarei cabeça alguma a presença do Inominável.

- Qualquer um aqui pode levá-la, desde que você cumpra sua parte no acordo e corte-a fora!

Os orcs riram.

Tempestade olhou de soslaio para o homem que jazia sob seus pés.

- Nenhuma cabeça será cortada, capitão.

O orc impacientou-se.

- Está brincando comigo, prostituta! Que diferença faz levar a cabeça dele ou levá-lo inteiro? Sua missão era matá-lo. Cumpra-a!

A mulher meneou a cabeça negativamente.

O bando começou a agitar-se e o líder deles atirava fogo pelos olhos.

- O que significa isso, Haldir? - Legolas indagou. - Por que ela está hesitando?

- Será que ela realmente se afeiçoou a Aragorn? - Gimli cogitou.

Haldir não tirava os olhos da cena enquanto sentia um fio de esperança ser tecido dentro dele. Talvez ainda houvesse algo de humano em Tempestade.

- A luz – ele sussurrou. - Ainda há luz dentro dela.

Legolas tornou a mirar a cena que se desenrolava abaixo deles.

- Louca! O que está fazendo? - inquiriu um dos orcs. - Como assim nenhuma cabeça será cortada?

- Perdoem-me – ela se sorriu. - Nenhuma cabeça humana será cortada, foi o que eu quis dizer, porque se qualquer um de vocês tentar se aproximar dele, aí sim cabeças serão cortadas!

- Sua tola! Como ousa recusar a dádiva de seu senhor?

- Sauron não é, nem nunca foi o meu senhor! Nunca pretendi receber dele qualquer dádiva! - ela disse, enquanto os orcs ouviam o barulho do frasco se partindo na mão de Tempestade e o líquido escorrer pelos dedos dela.

- Traição! Está traindo o seu senhor, sim!

- Nunca em minha vida, trairia o meu senhor. E irei servi-lo com minha vida ou minha morte – prosseguiu enquanto atirava a espada no chão e das costas retirava outra que, ao ser desembainhada, ofuscou a vista dos seres da escuridão – se o quiserem morto, terão que antes passar por mim.

A espada brandida por Tempestade possuía o cabo no formato da Árvore do Rei. Pérola e prata de uma beleza única que muitos poderiam atribuir erroneamente aos elfos, contudo mãos humanas dos numenorianos foram as responsáveis por essa jóia de batalha que em nada devia à própria Nársil.

- Isso não pode ser! – sussurrou o príncipe da floresta.

- O que significa tudo isso? – perguntou o anão.

- Essa é a espada dos guardiões da Árvore Branca – respondeu Haldir.

- A guarda pessoal do rei de Gondor – completou Legolas.

- Há séculos não eram vistas. Os regentes deram um fim aqueles guerreiros e suas armas por não quererem manter qualquer lembrança dos reis de Gondor – prosseguiu o servo de Galadriel.

- Eram os soldados mais temidos do mundo dos homens. A elite do exército de Gondor – completou o filho de Thranduil.

- E o que isso está fazendo na mão daquela mulher? – perguntou o inconformado filho de Glóin.

O diálogo se dava sem que elfos e anão retirassem o olhar da inusitada cena.

- Não sei – respondeu o príncipe do elfos – contudo se ela está defendendo Aragorn contra os orcs, nosso lugar é ao lado dela! Vamos! Já esperamos demais! - concluiu o filho de Thranduil, levantando-se, no que foi seguido por Haldir e Gimli.

Os orcs iniciaram sua investida contra a mulher, todavia avançavam apenas para encontrar a morte na arma dos antigos soldados de Gondor. A ela juntaram-se os arcos dos elfos e o machado dos senhores das montanhas.

No caos da batalha, Tempestade sentiu suas costas contra as costas de outro e voltando-se pronta a decepar mais uma cabeça, parou quando viu o machado à sua frente.

- Até que enfim! – dirigiu um deboche ao filho de Glóin – pensei que ficaria apenas olhando – concluiu enquanto sua espada se alojava no tórax de outra criatura de Mordor.

- E deixar você levar o crédito pelo maior número de orcs decaptados? Nunca! – respondeu Gimli, enquanto seu machado estraçalhava o crânio de outro ser das trevas.

- Deixo esta disputa infantil para você e seu amigo elfo, mestre anão – outro orc encontrava seu fim na navalha dos antigos guardiões – nenhum dos dois é páreo para esta espada e quem a brande.

- Veremos!

Um a um os servos de Sauron foram dizimados até restar apenas o líder deles. Tempestade caminhou em direção ao orc que, apesar de não conseguir se levantar, ainda ostentava um olhar cheio de maldade. Ela aproximou a lâmina do pescoço da criatura.

- Você vai morrer – ele destilou.

- Não antes de você – ela respondeu, cortando a cabeça do orc.

Legolas aproximou-se de Aragorn.

- Permanece inconsciente – afirmou o filho de Thranduil. – Devemos levá-los daqui. Onde estão os cavalos?

- Suas montarias fugiram – disse a mulher. - Mas Éowyn os espera no limiar da floresta. Há montarias para vocês lá.

- Vou carregá-lo então – prosseguiu o príncipe élfico. – Não podemos esperar que acorde. Pode haver mais orcs por perto.

- E há – completou a matadora de wargs. - Um outro contingente já se encaminha para cá. Há vários deles distribuídos pela floresta. Até chegarem a senhora de Rohan, os orcs poderão alcançá-los. Vou despistá-los.

- Quando perceberem sua traição, irão matá-la - disse o anão.

- Não houve traição alguma. – disse a matadora de wargs, estreitando o olhar. – Mas não há tempo para explicações. Ou confiam em mim ou morrem.

- Não precisa arriscar assim sua vida, Tempestade – insistiu Haldir. - Venha conosco.

- É a vida do rei Elessar que não deve ser arriscada – ela disse, mirando o rosto de Aragorn.

- Quem é você, afinal, mulher? – Perguntou Haldir, quase num sussurro.

Ela mirou o elfo, porém a balbúrdia da tropa que se aproximava impediu qualquer resposta.

- Vão! – ela gritou.

Haldir segurou o braço dela.

- Venha!

Tempestade fechou os olhos e silvou de dor.

O elfo se deu conta. 'A ferida'.

- Não resta mais quase nada de mim, capitão. Vá.

Haldir engoliu seco. Ela estava certa. O elfo fitou o rosto desacordado de Aragorn.

- Ele saberá o que você fez – garantiu o Galadhrim.

Tempestade assentiu em gratidão.

Haldir e Gimli seguiam logo atrás de Legolas. Uma corrida desesperada em direção à saída da floresta teve início, enquanto Tempestade permaneceu aguardando o que lhe havia sido reservado.