O novo bando de orcs não tardou a encontrar os corpos de seus iguais e, sentada sobre eles, a matadora de wargs que sorria cinicamente.
- Bem-vindos, meus senhores. Pelo que procuram? – disse ao levantar-se.
- Já sabemos de sua traição, infeliz. O que ainda faz aqui?
- Pensei em passar meus últimos momentos em sua companhia, ou melhor, na companhia de suas carcaças – respondeu, enquanto chutava o corpo de um orc a seus pés.
- Sua vontade será realizada, sua tola, embora a única carcaça que haverá, será a sua depois de nós a devorarmos. Antes disso, porém – prosseguiu o servo de Sauro sorrindo sarcasticamente –, vamos possuí-la de tal forma que suplicará por ser devorada viva.
Tempestade percebeu que sua hora havia chegado. Sabia o que fariam com ela. Contudo precisava ganhar tempo para que os elfos e o anão pusessem Aragorn a salvo, tentou prolongar a conversa:
- Se pretende me assustar, meu caro, não vai conseguir. Ou já se esqueceu de quantos de seus iguais sucumbiram em minhas mãos.
E novamente a lâmina de Númenor bebeu do sangue dos servos de Mordor. De fato, Tempestade era uma habilidosa guerreira, muitos orcs encontraram seu fim naquela tarde, todavia os filhos das sombras eram muito numerosos e a mulher sucumbiu ao cansaço e a dor, desmaiando em meio a batalha. Um urro de satisfação foi a resposta dos orcs que sobreviveram à fúria da árvore branca. O mesmo urro que despertou o herdeiro de Isildur quando este já chegava ao limiar da floresta carregado por Legolas.
- O que aconteceu? – perguntou Aragorn enquanto o filho de Thanduil o colocava no chão.
- Você desmaiou ao cair das rochas lá na cachoeira – o príncipe da floresta mal sabia por onde começar, pois não havia tempo para explicações demoradas – e quase foi morto por um bando de orcs.
- Não havia nenhum sobrevivente, então? – ele indagou levando a mão à cabeça dolorida.
- Não. Aquele homem realmente era um assassino.
- Tempestade não mentiu nisso, afinal – ponderou o herdeiro de Isildur.
- Nem nisso nem em algumas outras coisas – completou Haldir, trazendo surpresa ao ainda atordoando Aragorn.
- Meu Senhor! – Éowyn abraçou o homem por quem temera tanto. – O senhor está bem?
- Tanto quanto possível, minha senhora.
- Onde está Tempestade? – perguntou a sobrinha do rei com uma pálida esperança na voz. O silêncio dos elfos e do anão só foi interrompido pelo questionamento do guardião do norte.
- Tempestade? – disse enquanto olhava inquirindo os companheiros. -Pelo que me recordo, ela foi deixada trancada na Fortaleza.
- Éowyn a trouxe até aqui, Aragorn. Elas vieram em nosso socorro. - Legolas respondeu.
- Como ela poderia saber que havia perigo?
- Eu a alertei – Éowyn respondeu. - Ela não morreria em paz se soubesse que o Senhor não estava em segurança.
- Depois de tudo o que aconteceu?
Éowyn assentiu.
- Ela trazia consigo uma espada dos antigos guardiões da árvore branca, Aragorn – Legolas esclareceu. - Não sabemos por que exatamente, mas ela o defendeu bravamente.
- E o chamou de rei Elessar – completou Haldir.
Éowyn fechou os olhos e murmurou uma prece em agradecimento ao Único. Pelo menos a memória de sua amiga não seria mergulhada na escuridão.
- Ela ficou para trás, para distrair o outro bando de orcs que vinha ao nosso encalço – Haldir concluiu.
- O urro que ouvimos deve ter sido sinal de que ela nos deu o tempo de que precisávamos. Espero que tenha encontrado a morte rapidamente – disse Legolas
Haldir não conseguia falar mais nada. Seu coração doía tanto pelo que dissera quanto pelo que gostaria de ter dito e não disse à Tempestade.
- Era uma mulher rara - olhos se voltaram para Gimli – o que foi? Justiça seja feita.
- Você está certo, Gimli. A justiça deve ser feita. Ajude-me a levantar, Legolas. Quanto tempo ainda temos antes que o exército de Isengard chegue?
- Algumas horas, no máximo, meu senhor – respondeu a sobrinha do rei.
- É o suficiente – disse o herdeiro de Isildur, caminhando rumo à floresta.
- O que, em nome do Único, você está fazendo Aragorn? – perguntou o anão.
- Vou procurar por Tempestade. Se ela ainda estiver viva, ouvirá de minha boca as palavras de gratidão que lhe são devidas.
- Ela já deve estar morta, meu amigo – afirmou o filho de Thranduil – , se não pela espada dos orcs, pelo veneno dos wargs.
- Nesse caso - disse o guardião do norte - será devidamente vingada. Não sobrará orc vivo nessa floresta.
- Mas Aragorn... – insistiu o anão.
- Basta. Minha decisão está tomada. Aquela mulher arriscou a vida defendendo o rei Elessar, ele deve se mostrar digno deste sacrifício.
- Se arriscar sua vida, meu amigo – ponderou Legolas com a mão nos ombros do filho de Arathorn – a morte dela terá sido em vão.
- Se não demonstrar minha lealdade agora, meu caro, aí sim ela terá morrido em vão, já que o terá feito por um homem que não merece ser rei. Era assim o relacionamento entre o rei de Gondor e seus guardiões. Não sei quem ou o que ela é, mas comportou-se como um deles. Devo fazer o mesmo – e prosseguiu adentrando mais uma vez a densa mata.
Sem dizer mais nada, o anão o seguiu. Os elfos entreolharam-se, soltando um suspiro.
- Você vai? – perguntou o filho de Thranduil.
- Um guardião da floresta que não ousa entrar em uma por medo de orcs? Eu jamais conseguiria dormir novamente. E Você? – indagou Haldir.
- Se você é o guardião, eu sou o príncipe. Meu pai me deserdaria se soubesse que o filho sucumbiu a tal covardia. Vamos! – respondeu Legolas com o sorriso ousado dos jovens.
Somente a senhora de Rohan permaneceu. Olhos voltados para o céu implorando ao sol que não se pusesse tão cedo.
...
Tempestade acordou, todavia não ousou se mexer ou abrir os olhos. Decidira adiar por alguns instantes o encontro como o inevitável. O cheiro que lhe chegava às narinas era inconfundível, assim com o barulho. Devia estar bem no meio de uma horda de orcs. A sensação das mãos atadas logo acima da cabeça deram-lhe a certeza de que estava em péssima situação. Os pés estavam livres. Sabia bem o porquê. Engoliu seco. Respirou fundo. Decidira abrir os olhos. Rostos deformados foi o que viu. Reuniu todas as forças de que era capaz. Não eram muitas.
- Teve belos sonhos, minha senhora? – a voz esganiçada lhe doía mais na alma do que nos ouvidos.
Nada respondera. Não havia nada a ser dito. Apenas suportado.
- Agora que está consciente, prepare-se – disse a criatura percorrendo o rosto da mulher com a língua – vamos usá-la até quase estar morta. Em seguida lhe daremos um tempo para se recuperar e então a usaremos novamente até que implore pela morte ou que esta a leve espontaneamente.
Quis fechar os olhos. Decidira que não. Não mostraria fraqueza diante daquelas criaturas. O olhar altivo enfureceu o orc. Tempestade sentiu seu rosto queimar com soco que lhe dera. E outro. E outro.
Um chute no estômago fez com que quase parasse de respirar.
Tossiu.
Buscou ar.
Ouviu risadas. Deboches.
Abriu os olhos novamente.
Encarou.
Ouviu urros.
A tortura teve início.
Implorou pela morte, mas não a eles. Ao Único. Que ele a ouvisse. Sentia dor. Sentia nojo. Virou o rosto em direção à mata. Pensou ter visto algo. Um rosto envolto em moldura dourada. 'Não!', pensou. 'Ele não pode me ver assim!', piscou. A imagem sumira. Fora uma ilusão. Como tudo em relação a ele.
...
- Não podemos simplesmente ficar aqui esperando que eles a matem! – O guardião da floresta estava possesso diante da cena aviltante.
- Não ficaremos – disse Aragorn resolutamente –, mas precisamos distraí-los.
- O que faremos? – indagou o anão.
- Legolas, Haldir, venham aqui – solicitou o herdeiro de Isildur. – É arriscado o que vou lhes propor.
- Mais arriscado do que estarmos ao lado de um bando de orcs e com sérias chances de encontrarmos dez mil Uruk-hais entre nós e a fortaleza? – perguntou o filho de Thranduil.
- Subam naquelas árvores – prosseguiu o guardião do norte – e lancem suas flechas sobre eles. Pensarão que estão sendo atacados e se voltarão para vocês. Enquanto isso, eu e Gimli a resgataremos. Quando perceberem que a pegamos, fujam e nos encontrem onde Éowyn nos aguarda. O que acham?
- É loucura – respondeu Legolas.
- Chances mínimas de sucesso - completou o anão.
- Então vamos – disse Haldir indo em direção ao ponto indicado por Aragorn.
Os elfos subiram na árvore e prepararam-se. O coração de Haldir batia forte. Legolas armou seu arco, seguido pelo guardião. Os orcs viram-se atingidos pelas flechas dos elfos. Conforme Aragorn previra, os servos do senhor do escuro voltaram-se para seus supostos inimigos, abandonando o corpo quase sem vida de Tempestade.
Homem e anão rastejaram pelo chão frio da floresta.
- Ela parece estar desacordada – constatou Aragorn.
- Seria melhor se pudesse andar – completou Gimli.
- Duvido que conseguisse ainda que estivesse consciente.
O herdeiro de Isildur puxou de sua cintura uma adaga com a qual cortou a corda que amarrava o punho da mulher. Tempestade abriu os olhos. Por um instante pensou estar tendo outra alucinação. A voz de Gimli a fez perceber a verdade.
- Pegue-a e vamos, Aragorn.
- Meu senhor, não... – sussurrou a matadora de wargs em protesto, enquanto o futuro rei de Gondor a levantava.
- Não fale, está muito fraca.
- Por que voltou? – prosseguiu a mulher apesar do pedido do guardião do norte. – Por que se arriscou a ... – foi interrompida por uma tosse, voltando a perder momentaneamente os sentidos. Seu coração se entristeceu ao ver que o rei Elessar ainda corria perigo em meio aquele caos, contudo redeu-se à segurança de seus braços.
O anão seguiu o filho de Arathorn, entretanto algo jogado no chão chamou atenção do filho de Glóin. Decidiu levá-lo consigo. O herdeiro de Isildur certamente aprovaria.
...
Os temerários guerreiros foram perseguidos pelos orcs até o limiar da floresta onde a sobrinha do rei os aguardava. Não fosse a bênção dos céus, teriam sido alcançados.
A matadora de wargs abriu novamente os olhos. A segurança dos braços masculinos ainda estava lá, contudo eram outros braços. A mulher ergueu um pouco a cabeça a fim de entender o que estava acontecendo. Viu a face clara. Os cabelos dourados. A armadura noldor.
- Ela acordou, Aragorn! – gritou o guardião, enquanto parava o cavalo e descia com a mulher em seus braços.
Os demais também pararam suas montarias. Éowyn aproximou-se com um cantil para que Tempestade bebesse.
- O que é isso? – indagou a matadora de wargs em um sussurro.
- É mais um pouco da bebida que lhe dei. Não creio que irá surtir o mesmo efeito de antes, porém lhe concederá mais algum tempo.
- Tempo para quê? – perguntou sem desejar resposta e virando o rosto.
- Tempo para ouvir o que tenho a dizer, Tempestade – respondeu o futuro rei de Gondor.
- Deixe-me morrer, meu senhor – retrucou a mulher – agora que o vi em segurança, posso ir em paz.
- Contudo – ajoelhou-se Aragorn – eu não ficarei em paz se não receber seu perdão.
- Não há o que perdoar...
O herdeiro de Isildur sentiu nas palavras da guerreira a sinceridade dos nobres e seu coração chorou.
- Contudo – prosseguiu o filho de Arathorn – atenda a um último pedido meu e beba.
A humildade e a dignidade daquele homem tocaram fundo o coração da matadora de wargs. Seria realmente uma pena não poder servi-lo.
- Por favor, beba, Tempestade – Haldir interveio, aconchegando a mulher em seus braços – resista mais um pouco, por favor – concluiu num sussurro.
Algo na voz de Haldir a chamava para a vida, embora sua mente soubesse que não havia esperança para ela. Sobreviver mais um pouco. Seu coração sempre lhe pedira isso. Era Haldir quem lhe pedia isso agora. Mais uma vez, atenderia. E bebeu do cantil oferecido pela sobrinha do rei.
O guardião de Lórien levantou-se com a mulher em seus braços, sussurrando-lhe ao ouvido que descansasse. A matadora de wargs sentiu seu corpo ser tomado por um relaxamento tal que a fez adormecer nos braços do elfo.
