Os dois imortais discutiam às portas do quarto onde Tempestade fora deixada pela senhora de Rohan, enquanto esta buscava por um pouco d'água.
- Haldir, guardião da Floresta Dourada e capitão da aliança, você precisa desistir disso. É muito arriscado, tanto para você quanto para ela. Não há garantias para nenhum dos dois e mesmo que dê certo, estamos no limiar de uma batalha. Você não ficaria em condições de lutar.
- Legolas, filho de Thranduil e príncipe da Floresta Negra, não há o que você possa dizer que me convença a desistir de salvá-la.
O jovem elfo acabou por capitular. Nada era capaz de demover o guardião de Lórien da decisão que havia tomado.
- Como queira – respondeu o jovem elfo vencido pela determinação do servo de Galadriel – nesse caso, é melhor fazer o que tem que ser feito o mais rápido possível e que o Único tenha piedade de sua temeridade e pouco amor pela vida.
- Do que os senhores estão falando? – perguntou a sobrinha do rei ao encontrar os elfos altercando diante de seus aposentos.
Após um breve silêncio, Haldir tomou a palavra:
- Creio que sei uma maneira de ajudar Tempestade, minha senhora. É arriscada, mas pode dar certo.
- Arriscada? – interveio Legolas – ele pode morrer, minha senhora. E as chances dela são mínimas. Há algum tempo atrás, quem sabe... mas agora?
O filho de Thranduil se viu fuzilado pelo olhar do guardião da floresta.
- Que seja! Estarei aqui se precisar de mim – concluiu, inconformado enquanto cruzava os braços e se recostava na parede.
- Eu estou confusa, meu senhor – disse Éowyn, dirigindo-se ao capitão dos exércitos imortais.
- Não há tempo para explicar minha senhora. O que Legolas disse é verdade. Não posso garantir nada, contudo, se o que pretendo fazer funcionar...
- Queria muito que a ajudasse, meu senhor, todavia sei que ela não desejaria que se arriscasse em vão.
- Não será em vão, minha senhora. Sinto em minhas veias que não será.
- Se é assim, de que precisa?
- Apenas que nos deixe a sós.
Éowyn hesitou por um momento, contudo, após mirar novamente a figura imponente do elfo, abriu a porta e disse:
- Abençoado, seja, capitão Haldir.
Ouvindo o rangido da porta, Tempestade pensou que era novamente a sobrinha do rei.
- Por que insiste em perder seu tempo comigo, Éowyn?
- Tempestade? – disse Haldir, fazendo a respiração da mortal cessar por alguns instantes antes de lhe dirigir a palavra.
- O que está fazendo aqui, capitão? – indagou surpresa.
- Eu vim ajudá-la.
- Do que está falando?
- Preciso que confie em mim. É capaz de fazer o que lhe disser sem questionar?
- Não estou entendendo...
- Não há tempo para entender. Confia em mim, sim ou não? – indagou, aproximando-se da cama.
Tempestade mirou a figura do elfo a sua frente. Alto, forte, belo. O que fizera para merecer sua atenção?
- Confio – disse a matadora de wargs.
- Permita-me – disse o guardião, sentando na beirada da cama – dê-me suas mãos.
A mulher questionou com o olhar e com o olhar o elfo reafirmou que não havia tempo para perguntas e respostas. A mortal cedeu estendendo as mãos ao primogênito.
- Confie em mim – repetiu, ao segurar as mãos da mortal com uma das suas enquanto retirava um punhal de sua cintura.
- Vai tirar-me a vida em um ato de misericórdia, capitão? – indagou Tempestade com uma voz tão triste que Haldir quase não reconheceu.
- Não, minha querida, vou lhe devolver a vida, se assim for a vontade do Único. Aguente firme – determinou enquanto cortava a palma de cada uma das mãos da filha dos antigos guardiões.
A mulher levantou um pouco a cabeça e silvou com a dor, mas não se queixou. Enquanto o sangue quase negro começava a escorrer por suas mãos, elamordia os lábios.
- Sabia que não me decepcionaria – disse o imortal, orgulhoso do brio da mulher a sua frente.
O elfo pousou as mãos de Tempestade sobre suas pernas enquanto com o punhal cortava a palma de suas próprias mãos.
- Que loucura é essa, meu senhor? – a mulher parecia assustada.
- Feche os olhos – disse, enquanto tomava as mãos da mulher nas suas – aja o que houver, apenas respire e permita que morte a deixe para que vida possa vir habitar novamente seu corpo.
A mortal continuava a fitar o elfo, sem entender.
- Feche os olhos, agora – ordenou o capitão dos exércitos imortais.
A mulher obedeceu. No início não sentia nada, contudo um calor começou a invadir seu corpo vindo de uma das mãos. Sentia suas veias serem percorridas por algo morno que foi se intensificando até chegar ao coração, enquanto sentia que algo saía por sua outra mão. Aos poucos o que era apenas uma leve sensação se tornou um incômodo. Seu corpo inteiro parecia queimar até que perdeu os sentidos e desmaiou.
Do lado de fora o filho de Thranduil e a senhora de Rohan aguardavam. A porta se abriu e ambos mal conseguiam reconhecer o capitão dos exércitos imortais. Pálido e com os olhos opacos. Parecia que cada veia de seu corpo queria arrebentar sua pele.
- O que aconteceu, meu senhor – indagou Éowyn enquanto com um pano enxugava a testa do guerreiro élfico.
- Água... – disse num sussurro, recebendo o a apoio do príncipe da floresta.
- Aqui está – a sobrinha do rei quase que antecipara o pedido do imortal.
- Vou levá-lo daqui – disse Legolas.
- Vele por ela – pediu Haldir, dirigindo o olhar para o quarto atrás de si.
- Sim, meu senhor – respondeu a senhora de Rohan.
O filho de Thranduil conduziu o guardião de Lórien até uma fonte na área externa para que o elfo pudesse se refrescar um pouco. Todavia, tudo que o corpo de Haldir queria era por para fora todo aquele veneno.
- Deixe-me só, Legolas – pediu com voz rouca.
- Isso está fora de questão.
- Não vai gostar do que vai ver – disse Haldir.
- Então não verei. Ficarei logo ali. Se precisar de mim, me chame.
- Haldir! O que está acontecendo? – indagou o herdeiro de Isildur ao filho de Thranduil, tranquilamente recostado na parede observando o capitão dos exércitos imortais se perder em espasmos e vomitando uma substância negra tão fétida que, de longe, se podia sentir seu cheiro.
- O corpo dele está lutando – respondeu o elfo com uma calma aparente, entretanto seu olhar revelava o temor pela sorte de Haldir.
- Contra o quê? – perguntou Aragorn, dispondo-se a ir ao encontro do servo da senhora da luz.
- Não vá. Deixe-o. Essa é uma luta que ele deve vencer sozinho.
- Explique o que está havendo de uma vez, Legolas – Gimli, que viera com Aragorn, estava impaciente.
- Eu disse que seria muito arriscado, mas ele não quis me ouvir – disse o imortal pesaroso.
- Em nome do Único, o que ele fez? – insistiu o filho de Arathorn diante dos enigmas de príncipe da floresta.
- Tentou salvar a vida de Tempestade.
- Como?
- Você conhece os costumes de nosso povo, Aragorn. Sabe mais sobre os elfos do que qualquer mortal. Não desconfia?
O herdeiro de Isildur voltou seu olhar na direção do servo de Galadriel e uma luz iluminou sua mente.
- Haldir! Não! – lamentou o filho de Arathorn.
- Será que alguém pode me explicar o que está acontecendo? – o anão estava quase gritando a fim de se fazer ouvir!
- Deu todo seu sangue a Tempestade – esclarecera o elfo – e tomou o sangue dela para si – disse olhando para ao anão.
- Apenas em uma ou outra lenda de seu povo, Legolas, ouvi menções sobre isso – completou Aragorn.
-É um recurso antigo. O corpo dos elfos se cura rapidamente. Diz-se que os imortais eventualmente tomavam para si uma parte do sangue dos mortais doentes dando a eles uma parte de seu próprio sangue. Diante da maioria das enfermidades, um pouco de sangue élfico seria então o bastante para devolver a saúde a um mortal, e embora nada seja certo, como você mesmo disse, meu amigo, há quem acredite – concluiu fixando o olhar em Haldir.
- E quanto aos elfos? – indagou o anão.
- Como eu disse – prosseguiu Legolas – nos curamos muito rapidamente. Um pouco de sangue mortal doente poderia ser facilmente absorvido pelo nosso corpo, sem maiores consequências.
- Um pouco de sangue – o filho de Arathorn completou – contudo dando todo o seu sangue a Tempestade, se o que as antigas lendas dizem for verossímil, Haldir teria então aberto mão da própria imortalidade...
- Só uma parte do sangue dele não bastaria? – insistiu o filho de Glóin.
- A mulher estava quase morta, Gimli, não sei nem se todo o sangue de um imortal seria o bastante para salvá-la.
- Nosso amigo lançou uma flecha no escuro – concluiu Aragorn.
Enquanto conversavam, os três guerreiros observavam os espasmos de Haldir diminuírem até cessarem por completo. E o imortal, que já estava de joelhos, caiu exausto.
Legolas correu em direção ao amigo, seguido pelos dois companheiros.
- Está vivo – constatou o príncipe da floresta. – amos levá-lo daqui.
Os olhos de Tempestade se abriram. A boca entreaberta diante da visão da Senhora de Rohan que sorria prodigamente.
- Éowyn... – disse a mulher como que em uma prece.
- Ele conseguiu!
- Do que está falando, senhora?
- Não se lembra? – indagou a sobrinha do rei.
- Eu... – aos poucos a filha dos antigos guardiões recuperava a memória. – O que ele fez?
- Não sei, mas você está viva!
A senhora de Rohan mal podia acreditar no que via. A pele da mulher estava com um viço inédito, bronzeada e brilhante. A boca vermelha no lugar da palidez de outrora. Os olhos cheios de vida. Ah! Se Haldir a visse agora!
O capitão dos exércitos imortais fora levado a um quarto a fim de recuperar suas forças. Era uma luta contra o tempo, já que os exércitos do Isengard e Mordor em breve chegariam ao abismo. Deitado sobre a cama simples na qual fora posto, o guardião tremia abraçado ao próprio corpo. Contudo, sentia que o pior já havia passado. Sua respiração aos poucos se normalizava e já podia sentir o calor retornando ao sangue mortal que agora corria em suas veias.
Ao abrir os olhos, a visão, inicialmente turva, também voltava ao normal como pode constatar ao perceber a sua frente o filho de Thranduil. Haldir conseguiu colocar-se de pé com certa dificuldade. Legolas pode então ouvi-lo sussurrar enquanto o guardião levava a mão à cabeça como que tentando recordar alguma coisa.
- 'Valar! Sinto como se um bando de wargs tivesse passado por cima de mim.'
- Então, guardião, você conseguiu – declarou Legolas antes, de colocar a mão no ombro do amigo.
Contudo, seu contentamento em ver Haldir de pé novamente era tanto que o príncipe dos elfos lançou mão de um costume dos mortais que já não lhe era tão estranho e envolveu o outro imortal em um abraço sincero ao qual o servo de Galadriel correspondeu prontamente, agradecido pelo apoio que seu corpo recebera.
- Então é assim que os segundos filhos se sentem diante da morte? – indagou o elfo de Lórien.
- Deve ser – respondeu o filho de Thranduil finalizando o abraço.
- Meu respeito por eles aumentou consideravelmente – disse Haldir – e onde está Tempesde? – indagou com voz urgente.
- Está se recuperando. Contei a Éowyn o que você fez.
O sorriso que Legolas viu surgir no rosto do outro elfo o fez refletir sobre a força que o movera a fazer aquela loucura. A mesma força que levava Arwen a desejar abandonar seu povo por Aragorn. Seria ele capaz de realizar algo assim?
- Onde está minha armadura? – a pergunta do capitão dos exércitos imortais interrompeu os pensamentos do filho de Thranduil. – Temos outra luta pela frente.
Os imortais sorriram mais uma vez e Haldir foi se preparar para o que estava por vir.
