- Por que essa demora, minha senhora? – indagou a mulher impaciente.

- Esse é um vestido de verdade, Tempestade, não um pedaço de pano como aquele que você usava.

- Pois preferia continuar com ele. Para que tantos botões?

- Sua roupa cheirava a morte. Não iria querer encontrar o capitão usando aquilo, iria?

- Ainda não acredito no que ele fez – disse a estrangeira com a voz pensativa. – Se o que Legolas disse é verdade, aquele Haldir poderia ter morrido...

- A determinação dele em salvar sua vida fez com que não levasse em conta essa possibilidade. Precisava ver a urgência com que me pediu para deixá-lo entrar neste quarto.

- Preciso agradecer a ele por isso, embora não saiba como. O que pode ser dado em troca da eternidade? - ela ficou pensativa.

- Há coisas na vida, Tempestade, que valem tanto ou mais do que a imortalidade.

- Pois não consigo imaginar o que possa ser. Aquele elfo me comprometeu com uma dívida que nunca poderei pagar.

- Não creio que ainda não tenha percebido o que ele quer de você.

- Custo a acreditar nisso, minha senhora. Ouvi falar da beleza das filhas dos primogênitos. O que aquele imortal poderia ver em mim?

- É melhor você perguntar isso a ele. Pronto, terminei!

- ...

- Tempestade, espere! Faltam os sapatos!

- Éowyn!

- Os sapatos!

- Arr!

- E pare de agir como um orc! Aí está! Pode ir agora!

A matadora de wargs se dirigiu a porta e antes de sair, voltou-se em direção à senhora de Rohan:

- Obrigada por tudo, minha senhora.

...

- Eu ficarei bem, Legolas. Pode ir. Já estou recuperado – disse o capitão dos exércitos imortais.

- Tem certeza disso?

- Tenho. Quero apenas ficar sozinho e preparar minha alma para a batalha. Preciso aguçar meus sentidos, principalmente agora – respirou fundo – que sangue mortal corre pelas minhas veias.

- Conhecendo você, guardião, sei que isso não deve ter afetado tanto assim sua percepção élfica. Ao contrário, agora você conta com a paixão que os mortais têm pela vida.

- É uma sensação estranha, Legolas – disse Haldir abrindo e fechando uma das mãos – o sangue deles parece queimar, mas não queima. Os olhos não veem aquilo que a mente deseja alcançar. O corpo não possui a força para realizar o que o coração pede. As palavras não bastam para expressar o que se sente... Tudo é tão... intenso...

- Está delirando, Haldir?

Não sabia exatamente como, mas tentaria explicar:

- Olhe para o horizonte, meu irmão e me diga o que vê.

- O pôr-do-sol...

- Como se sentiria se quisesse desesperadamente alcançá-lo?

- Isso não faz sentido, meu amigo. Como é possível tocar o por-do-sol?

- Eu sei, Legolas, mas pense: como se sentiria?

O imortal baixou a cabeça por alguns instantes, depois olhou em direção ao poente. Uma compreensão surgindo em seu coração

- Acho que faço uma vaga ideia do que quer dizer, Haldir: desejar o impossível. Isso é ser mortal?

- Contudo, em vez de frustração, esse desejo me leva a acreditar que o conceito de 'impossível' existe para ser desafiado. Sobreviver dez anos em Mordor como escrava parece tão impossível quanto alcançar o sol. Um corpo mortal resistir ao veneno de um warg por tanto tempo parece tão impossível como tocar a lua. Um elfo sobreviver a todo aquele veneno tendo dado todo seu sangue é tão improvável quanto chegar ao horizonte, entretanto, tudo isso e muito mais vi desde que cheguei aqui. Não se conformar com o impossível, isso é ser mortal.

O filho de Thranduil permaneceu em silêncio por alguns instantes. Depois de tocar levemente o ombro do amigo, se retirou.

Haldir permaneceu junto a muralha a fitar o horizonte. O inimigo não tardaria.

...

Gimli aguardava por Legolas na parte inferior da muralha.

- Ele não vem? – indagou o anão.

- Quer ficar um pouco sozinho antes de se juntar aos outros.

- Como são sensíveis os elfos.

Legolas quis se ressabiar, mas as horas passavam urgentes e ele decidiu não perder tempo com o comentário de pouca importância.

- Vamos ao encontro de Aragorn. O exército de Isengard chegará a qualquer momento – determinou o imortal.

Elfo e anão caminhavam lado a lado, quando viram tempestade surgir à sua frente trajando um vestido simples, porém, diferente do que costumava usar. O brilho da pele e dos olhos castanhos. As feições cheias de harmonia. Os cabelos como ondas negras emoldurando o rosto. 'Talvez tenha sido isso que Haldir tenha enxergado desde o início', pensou, contudo foram outras as palavras que o imortal dirigiu à filha dos antigos guardiões:

- O sangue dos elfos lhe fez bem – declarou com um sorriso nos lábios.

A mulher baixou os olhos, constrangida com a situação. Um comentário de Gimli ajudou-a se recuperar.

- Parece uma dama! – Todavia, o anão realmente partilhava da opinião do imortal.

A matadora de wargs estreitou o olhar em direção ao anão, contudo estava intimamente agradecida pelo comentário. Sentia-se mais à vontade diante de um conflito do que de elogios.

- Onde está o capitão Haldir?

- Lá – apontou o príncipe dos elfos sem deixar de olhá-la.

- Obrigada – disse Tempestade enquanto seguia para o lugar de onde vieram os amigos de Aragorn.

Elfo e anão trocaram um olhar sorrindo com o canto da boca e retomaram seu caminho.

...

O servo de Galadriel sentiu mais do que percebeu a presença da mortal. Seria assim, agora? Sentiria esse aperto no peito sempre que ela se aproximasse? Fora escolha sua, afinal. Optara por estabelecer com ela um laço muito mais profundo do que qualquer outro.

A mulher também soube, de certa forma, que não precisaria anunciar sua presença. O sangue em suas veias lhe dizia que o guardião estava ciente dela. Sentia em seu peito o bater de dois corações em vez de um, assim como o elfo sabia em suas veias seu pulsar e o de Tempestade.

A filha dos antigos guardiões observou por alguns instantes a figura à sua frente. De costas, a armadura dourada, o manto vermelho e os cabelos caindo sobre os ombros e as costas. Respirou fundo. Desde a primeira vez que o vira, o elfo despertara nela algo há muito esquecido. Fugiu enquanto pode, tentando não se distrair de sua missão.

A mulher se aproximou do capitão dele, enquanto ele fitava o horizonte. Clocou-se ao seu lado, todavia mantendo uma certa distância, ainda sem saber exatamente o que deveria dizer ao primogênito. Haldir, sentindo a proximidade estabelecida, abandonou a contemplação do horizonte e mirou aquela a quem ofertara sua imortalidade. E o que viu teria sido o suficiente para dirimir qualquer dúvida, se alguma houvesse em seu coração, a respeito da decisão que tomara. Agora sabia. Fora isso que vira. Fora essa imagem que vislumbrara há três dias quando chegara a Helm e seus olhos cruzaram com os da desconhecida debruçada naquela janela.

- Então – disse o servo da senhora da luz – você era assim antes da maldade de Mordor cruzar o seu caminho... Não me admira ter sido poupada. Nem mesmo o senhor do escuro poderia ficar indiferente a...

Diante da falta de palavras para expressar a intensidade do que sentia, Haldir ergueu o braço e as costas dos dedos roçaram levemente o rosto de Tempestade.

- ... a isso... – concluiu por fim o guardião.

- Por que zomba de mim, capitão? – indagou a mortal, baixando os olhos ao se afastar, contudo o gesto fora feito mais como fuga do toque inesperado do que como demonstração de timidez.

- O que há em minhas palavras, Tempestade, que você possa chamar de zombaria? – perguntou o elfo contrariado.

'Por Mordor', pensou a mulher 'sei lidar com uma horda de orcs e não sei como agir diante...disso!'

- Não me entenda mal, meu senhor – tentou desfazer o mal entendido. – Não quero parecer ingrata, até porque desde que... voltei a vida... não penso em outra coisa senão em uma forma de lhe recompensar pelo que fez por mim. É que...- baixou a cabeça buscando em seu íntimo uma gentileza a qual não estava acostumada – coisas como gratidão, consideração, carinho – a última palavra fora mais sussurrada do que dita – há muito deixaram de fazer parte da minha vida. Não sei o que vê em mim que... – parou. As palavras teimavam em ficar presas na garganta.

- Contudo – Haldir veio em socorro da mulher a sua frente – coragem, dignidade, perseverança, lealdade não são virtudes menores do que as que você citou, minha cara. E são essas as virtudes que me encantam em você.

Sem saber como agir, Tempestade tentou mudar de assunto.

- Conseguiu se recuperar? Como o senhor se sente? – indagou desejando fugir do desconforto que aquele tipo de conversa lhe trazia.

- Estou bem – respondeu o elfo, sorrindo diante da fuga infantil.

- Mas não tão bem quanto antes... – completou a mulher baixando os olhos.

- É verdade – concordou o elfo atraindo o olhar da jovem para si. – Nunca estive tão bem quanto estou agora - disse, dando um passo em direção à filha dos antigos guardiões.

- Como pode dizer isso? – questionou a mulher sem tirar os olhos do agora mortal Haldir. – Abriu mão de sua imortalidade! Nunca conseguirei recompensá-lo por isso!

- Toda recompensa de que preciso está aqui na minha frente – disse com o mais belo de seus sorrisos. – E considerei um preço pequeno a pagar se lhe interessa saber.

- Me custa muito acreditar nisso, capitão. Imagino como devem ser as damas da corte da senhora da Floresta Dourada e, pelo que disse Legolas, elas não lhe eram indiferentes...

- É verdade – Haldir sorria diante da bem-vinda demonstração de ciúmes. – Contudo, sempre preferi as árvores à corte. A beleza selvagem da floresta sempre me foi mais cara do que os requintes do palácio de meus senhores. Amo a capital de minha adorada Lórien, mas meu coração sempre pertenceu à fronteira, desejoso que era por conhecer outros lugares, outros povos, outras... – mais uma vez as palavras não eram suficientes – como conseguem viver assim? – perguntou cruzando os braços.

- Assim como? – a mulher estava confusa.

- Sem conseguir dizer tudo o que se sentem!

- Quando não dizemos – respondeu baixando os olhos –, demonstramos...

- Como então convencer-lhe de que é linda?

- Seus olhos o iludem, meu senhor – disse, virando o rosto.

- Adoro essa sua teimosia, Tempestade, mas duvido que tenha sido o único a ver você depois de se recuperar e duvido mais ainda que ninguém além de mim tenha notado seus encantos.

- Na verdade – a matadora de wargs se rendia aos fatos. A mulher dentro dela lutava contra a guerreira – Éowyn disse alguma coisa a esse respeito – Haldir sorriu. – E Legolas...

- Legolas? O que ele lhe disse? – indagou o capitão, descruzando os braços.

- Que o sangue dos elfos me fez, bem... – respondeu sentindo algo morno em seu peito diante do ciúme do servo de Galadriel.

- Isso eu não posso negar – comentou complacente. – Contudo é melhor que aquele garoto saiba até onde pode ir – afirmou seriamente, demonstrando à filha dos guardiões uma nova faceta de sua personalidade.

- Garoto? – perguntou a matadora de wargs. – Ouvi dizer que ele tem quase quinhentos anos!

- Para um elfo isso não é muita coisa, minha cara. Tenho quase três mil. Para nosso povo, Legolas está mais próximo de você e eu de Aragorn, por exemplo.

- Três mil anos! – Tempestade deu as costas ao elfo, tentando assimilar o significado da quele número. – E teria mais três mil se não fosse por minha causa...

- Isso é verdade – aquiesceu Haldir, fazendo Tempestade fechar os olhos. – Três mil anos de solidão às costas e mais três mil anos de solidão teria pela frente... se não fosse por sua causa... Eu lhe trouxe de volta à existência, contudo com você espero finalmente ter um pouco de vida – concluiu, tocando levemente o ombro da mulher.

- Meu coração não consegue aceitar que um imortal possa pensar assim, sinto muito.

- Seu coração se recusa a aceitar minhas palavras porque só conheceu o sofrimento, entretanto estou pronto a curar-lhe as feridas com o meu amor; e este, seu coração não pode recusar, pois percebo em minhas veias que sabe o que anseio. Sei que tem por mim mais do que gratidão, Tempestade. Disse que quando as palavras não são suficientes, os sentimentos devem ser demonstrados. Creio que já mostrei de todas as formas que a amo e cabe a você agora me dizer que resposta dará a esse amor.

- Para quem não tinha mais palavras – disse a mulher olhando por cima do ombro – o senhor disse muita coisa. Tenha paciência comigo, capitão. Não sei muito sobre... o senhor sabe...

- Quanto a isso – disse o elfo se colocando diante dela – não precisa se preocupar. É próprio de minha raça ser paciente.

- Isso quando o senhor tinha a eternidade a sua frente, mas e agora? – indagou Tempestade ainda resistindo

- E me disseram que não havia em Arda criaturas mais teimosas que os anões – disse após um longo suspiro. – De uma vez por todas, mulher, sei que não será fácil, mas confio que o amor que sinto por você será capaz de transpor qualquer impossível. Nunca viu um amor assim?

- Meus pais... – recordou.

- Isso – disse, enquanto pousava suas mãos no rosto da mulher. – Sei que era jovem quando foi capturada, todavia, nunca teve sequer um amor? – a pergunta do elfo fez a matadora de wargs lembrar-se de algo há muito esquecido e que esquecido deveria permanecer.

- Não.

- Quer dizer que nunca foi...nunca recebeu...um beijo? – perguntou, enquanto a distância entre as bocas diminuía.

- Não de um...elfo.

- Então – Haldir sorria irresistivelmente, olhando cada detalhe daquele rosto que o encantava – espero não decepcioná-la – concluiu, fechando os olhos e aspirando sua essência antes dos lábios se tocarem num beijo inesperadamente casto.

Todavia foi o suficiente para fazer Tempestade deixar de sentir as pernas e agarrar-se aos braços do elfo, caso não quisesse ir de encontro ao chão. Lábios se separaram. Com a respiração entrecortada, a mulher abriu a boca, mas as palavras não saíram. Seus olhos, contudo, deram ao guardião a permissão de continuar. O servo de Galadriel sorriu mais uma vez e sua boca foi beber daquela fonte pela qual tanto ansiara. A mulher, realmente, não sabia o que era um beijo, contudo Haldir falara a verdade. Com toda a paciência de que apenas um elfo era capaz, conduziu-a habilmente. E seu prazer não foi prejudicado, ao contrário, o modo como ela finalmente se entregara o fazia exultar e podia sentir em todo o seu corpo a alegria de dar e receber na mesma intensidade.

Quando os lábios mais uma vez se separaram, uma entrega maior teve início. As mãos da filha da árvore branca deixaram os braços de Haldir para envolvê-lo em um abraço, enquanto recostava a cabeça no peito dele. O servo da senhora da luz correspondeu ao gesto, aconchegando Tempestade em seus braços. A paz e plenitude que sentia valiam a imortalidade.