Haldir repousava o queixo sobre a cabeça de Tempestade, enquanto ela desfrutava a segurança de seus braços. Por alguns instantes ambos fingiram não haver ao redor deles mais nada além daquela paz que os envolvia. Até que os ouvidos do elfo perceberam a aproximação de um mal há muito esperado.
- Eles estão vindo – murmurou.
A mulher abriu os olhos, aspirou novamente a essência do elfo e fitou seu rosto.
- Por favor, diga-me que estou dormindo e que não preciso acordar... – sussurrou.
- Minha impetuosa guerreira está fugindo de uma batalha? - indagou, sorrindo.
Ela deixou escapar um suspiro e liberou o corpo do elfo, antes de se dirigir à muralha.
- Onde eles estão? – indagou. – Você falou como se já estivessem muito próximos.
- E estão – respondeu Haldir, colocando-se ao lado de Tempestade. – Já despontam no horizonte.
- Não vejo nada.
- Tem o sangue dos elfos agora, Tempestade, não seus sentidos.
- Não precisa se gabar disso, capitão – disse, cruzando os braços e virando o rosto para o guardião de Lórien.
- Não estou me gabando – devolveu no mesmo tom. – Estou constatando – concluiu, cruzando também os braços sem desviar o olhar da mulher e sorrindo diante da altivez de Tempestade. E o sorriso dele fez com que ela cedesse um pouco.
- São muitos?
- As flechas de meus soldados acabarão e ainda restarão milhares de Uruk-hais vivos...
- E então?
- Usaremos nossas espadas.
- Serão suficientes?
- Muito provavelmente, não.
A expressão do rosto do capitão élfico dizia a Tempestade que, na realidade, nunca houve muita esperança. Ela sabia disso desde o início. Ele também. Todos sabiam.
- Nesse caso – disse, dando as costas para a muralha –, é melhor o senhor se juntar a seus soldados. Devem estar sentindo falta de seu capitão.
- Irá para as cavernas agora?
- Cavernas? Eu? Por quem me toma?
O olhar de Haldir deixou a mulher ciente de sua confusão.
- Não posso nem quero me dar ao luxo de me esconder.
- Nem bem tornou à vida, mulher, e já planeja colocá-la em risco? Não foi para isso que eu a trouxe de volta!
O guardião de Lórien queria apenas que Tempestade compreendesse que sua vida lhe era muito cara, contudo, a ex-escrava de Mordor não estava disposta a trocar um senhor por outro.
- Se me devolveu a vida para que pudesse dispor dela ao seu bel-prazer, seria melhor que tivesse deixado que a morte me levasse – disse, fitando o elfo.
O sangue mortal nas veias de Haldir queimou diante do que interpretava como ingratidão.
Ela percebeu o efeito que suas palavras tiveram sobre ele e resolveu recuar. Durante muito temo a raiva e o orgulho haviam-na guiado pelas trilhas da sobrevivência. Naquele momento, porém, não pareciam ser a melhor opção.
Baixou os olhos e deu um passo em direção ao elfo, diminuindo a distância entre eles. Lentamente levou sua mão até a mão de Haldir. Fitou o guardião. Os olhos, ainda que altivos, buscando compreensão.
'Quando não dizemos, demonstramos', o elfo recordou as palavras de Tempestade. Esta lhe mostrava com seu olhar que o amava e que era grata a ele, mas que não poderia lutar contra sua natureza, contra o que era: uma guerreira, uma guardiã como ele. Passara por cima de tudo pela vida do rei Elessar e o faria novamente.
- O simples pensamento de que algo possa feri-la… é insuportável – disse Haldir, colocando a mão no rosto da mortal.
- E pensa você que o medo que tenho de perdê-lo é menor que o seu? Acha que poderia ficar tranquila lá embaixo, sabendo-o cercado por aqueles terríveis Uruk-hais?
O guardião sorriu diante do temor revelado. Como se ele, Haldir de Lórien, o guardião da Floresta Dourada, necessitasse de sua proteção.
- Deixe-me ficar... – pediu inesperadamente a filha dos antigos guardiões.
- Gostaria de sabê-la em um lugar seguro...
- Meu lugar é ao seu lado – completou – e ao lado do meu rei – disse determinada.
Ele se rendeu e beijou-a novamente.
Já era do conhecimento dos soldados de Lórien e Valfenda a nova condição de seu capitão; e não viam com bons olhos a escolha que fizera. Contudo sabiam que, apesar de haver aberto mão da imortalidade, a atitude tomada por ele em nada diminuíra sua habilidade de conduzi-los a vitória. Pelo contrário, a capacidade que o guardião demonstrou de vencer aquele mal tão rapidamente aumentou em muito o respeito que seus soldados nutriam por ele. E Haldir percebeu isso nos olhos dos seus irmãos quando caminhava ao encontro de Aragorn.
Todavia os olhares que os imortais dirigiram a Tempestade foram bem diferentes. Embora já soubessem que a mulher vinda de Mordor era, na verdade, a última da respeitada linhagem dos Guardiões da Árvore Branca e estivessem dispostos a honrá-la por isso, ressentiam-se de que, por causa dela, seu capitão perdera o dom que era mais caro aos de sua raça.
- Onde você estava, Haldir? Seus homens perguntavam por você a todo instante. Já não sabia mais o que dizer!
- Calma, meu senhor Aragorn, estou aqui não estou?
- Graças ao Único que está – disse o futuro rei dos homens com as mãos nos ombros do guardião.
- Como organizou as fileiras? – quis saber o capitão.
- Uma parte aqui e outra mais abaixo. O que acha? – respondeu, apontando para os elfos.
- Devo admitir que nem mesmo eu teria feito melhor.
A mulher aproximou-se, chamando a atenção do futuro rei.
- Tempestade?
- Sim, meu senhor.
- Você está… diferente… não acha, Gimli?
- Bem, bem, bem – o anão disse, estendendo a ela um artefato familiar.– Diferente ou não, parece-me que esta espada retornará para as mãos que lhe são devidas.
A mulher segurou a espada em suas mãos, colocando-a diante do rosto.
- Todavia – prosseguiu o anão – espero que não cheguemos ao ponto de que necessite brandi-la.
- O que quer dizer com isso, mestre anão? – perguntou Tempestade, apontando a arma para ele.
- O que é isso? – o anão de um passo para trás diante da inesperada agressividade. – Estou apenas dizendo que só irá usá-la caso os Uruk-hais cheguem às cavernas!
- Pretende que eu vá para as cavernas?
- Foi determinação do rei Théoden – justificou o anão – que as mulheres e crianças fossem enviadas para as cavernas. A própria sobrinha do rei pediu pra ficar e lutar e não obteve permissão.
- Entendo – disse a mulher baixando a espada e fitando Aragorn. – Porém não é o Senhor de Rohan que tem autoridade sobre mim. E estou certa de que o rei Elessar...
- Pare de me chamar assim, Tempestade – solicitou o herdeiro de Isildur. – Eu ainda não sou rei.
- Meu senhor Aragorn – retorquiu a mulher –, homens não se tornam reis. Reis nascem. Alguns apenas demoram mais que outros para receber sua coroa.
- Agradeço seu ponto de vista, mas creio que já fez muito por todos nós e levando em consideração tudo pelo que passou, não seria melhor para você ir para a segurança das cavernas?
Haldir balançou discretamente a cabeça. Aragorn viu-se surpreso ao perceber que o elfo não concordara com suas palavras.
Tempestade baixou a cabeça. Como convenceria Elessar a deixar que ficasse?
- Contudo – Aragorn prosseguiu, retificando sua posição – já vi o que pode fazer com uma espada e diante da atual situação, a sua será muito bem-vinda, se assim o desejar.
- Prometo não decepcioná-lo – disse baixando levemente a cabeça. – Vou me preparar. Não posso participar de uma batalha vestida assim.
- Será uma pena privar os Uruk-hais de vê-la vestida como uma dama! – o filho de Glóin não se conteve.
Tempestade meneou a cabeça em resposta.
Aqueles dois nunca se entenderiam...
A mulher saiu, deixando que sua mão tocasse ocasionalmente a mão de Haldir ao passar por ele. O guardião de Lórien não se atreveu a olhar para trás. Não era do feitio de nenhum dos dois externar sua intimidade.
- Pensei que lhe agradaria deixá-la na segurança das cavernas, Haldir.
- Eu ficaria satisfeito com isso, meu amigo – admitiu o capitão dos elfos – porém não poderia negar a ela o reencontro consigo mesma e com tudo o que ela deveria ter sido. A linhagem dela existe para protegê-lo, Aragorn, quer você queira aceitar ou não sua proteção. Entretanto – prosseguiu o servo de Galadriel – ela o teria atendido se tivesse mantido sua opinião. E o atenderá sempre.
- Tal lealdade aquece meu coração, valoroso Haldir, da mesma forma que o deixa temeroso. Como podem depositar em minhas mãos tanta confiança?
- Aragorn – Legolas interveio – até agora você sempre nos conduziu pelo caminho certo. Sabemos que ninguém é infalível e estaremos ao seu lado quando precisar.
- O que está fazendo, Tempestade? – indagou Éowyn ao encontrar a amiga calçando as botas de soldado.
- Sou grata pelo vestido, minha senhora, mas creio que já serviu ao seu propósito – disse a mulher morena, devolvendo a peça de roupa à sobrinha do rei.
- Do que está falando?
- Não poderia lutar usando algo tão refinado. Essas calças e essa camisa me serão mais úteis agora – respondeu tristemente, pois sabia do desejo e da capacidade da senhora de Rohan.
- Você irá lutar? Como meu tio pode ter permitido a você algo que foi negado a mim?
- Éowyn – disse, sabendo exatamente o que ela deveria estar sentindo – Théoden rei tem sua vida e sua segurança em grande conta. Já perdeu o filho. Enquanto houver esperança, não arriscará perder aquela que tem como filha. Além do mais – concluiu – Théoden não dispõe de minha vontade. Esta está a serviço do rei Elessar.
- Se é assim... só me resta a conformação...
- Não fique assim, minha senhora, sua hora chegará!
A segurança no olhar da mulher expulsou um pouco a tristeza do coração da senhora de Rohan.
- Como disse antes, espero poder revê-la – concluiu, enquanto abraçava Tempestade. Esta, desacostumada como estava a demonstrações de afeto, demorou a corresponder ao gesto inesperado da sobrinha do rei.
- Há alguma esperança real de que isso possa acontecer, minha senhora?
- Isso eu não sei – respondeu Éowyn olhando para chão. – Contudo ontem a essa mesma hora não havia esperança alguma de que você pudesse ser curada, não é verdade? – concluiu com um sorriso.
- Isso eu não posso negar – respondeu pensativa. – É melhor eu ir agora, senhora.
- Poderia me fazer um último favor?
- Qualquer coisa, minha senhora.
- Depois de tudo pelo que passamos e diante das incertezas do por vir… - As palavras de Éowyn atraíram a atenção da guerreira. - Poderia me dizer o seu nome?
A mulher baixou os olhos, decidindo.
- Se ainda há ar em meus pulmões, eu devo isso a Haldir. Seja o que quer que aquele elfo tenha visto em mim, foi forte o bastante para que ele me desse um nome e irei honrá-lo. Meu nome é Tempestade.
A Senhora de Rohan sorriu...
- Vá em paz... Tempestade.
Quando ela chegou à muralha, a chuva já havia começado a cair. A visão do exército de Isengard era capaz de fazer o sangue do mais corajoso dos guerreiros gelar. As muralhas de Helm pareciam inexpugnáveis, contudo a mulher aprendera que segurança era um conceito bastante relativo.
- Não tenham pena deles – gritava Elessar –, pois eles não terão pena de vocês!
Os olhos dela buscaram por Haldir. Ele estava distante, na parte superior da muralha, com arco em punho. E sem o elmo! 'E me acusa de arriscar minha vida!' Seus olhos se encontram. O servo de Galadriel sorriu. Havia força naquele olhar.
As criaturas de Sarumam marchavam de forma decidida. O ar estava pesado, face a batalha iminente. Nenhum dos lados ousou tomar a iniciativa até que uma flecha lançada erroneamente por um dos soldados de Rohan incitou a ira dos Uruk-hais, que iniciaram sua marcha em direção às muralhas de Helm. Estas, a princípio, mostraram-se suficientes para conter o avanço dos servos de Saruman.
As flechas dos elfos e dos homens abatiam numerosas criaturas, enquanto as espadas finalizavam com aqueles que conseguiam escalar os muros da fortaleza. Haldir e Tempestade buscavam amiúde um ao outro, cada um tentando se certificar de que o objeto de seus cuidados ainda estava a salvo.
Ao perceber que o exército de Isengard não conseguia ultrapassar a muralha, o rei Théoden viu surgir em seu coração uma leve esperança de vitória. Contudo, um ardil de Saruman tratou logo de debelá-la. Os servos do Senhor do Escuro depositaram junto a parte mais fragilizada da muralha a arma que Saruman tão habilmente impetrara. Faltava apenas o contato com o fogo para ela fizesse desmoronar as esperanças do Senhor de Rohan juntamente com a muralha.
Foi o que aconteceu apesar dos esforços de Legolas em deter a criatura que se encarregara de aproximar a chama do terrível objeto... e a fortaleza foi sacudida por uma explosão inesperada que abriu em suas muralhas passagem ao exército das trevas.
Além de matar, a explosão e seus destroços feriram vários soldados de ambos os lados; alguns dos quais foram lançados para longe de onde estavam anteriormente. Um dentre eles foi Aragorn que, após se recuperar do choque inicial, se viu frente a frente com os primeiros Uruk-hais que invadiam a fortaleza. Tempestade pode presenciar uma demonstração de lealdade mais do que esperada por parte de Gimli, que se lançou em meio aos servos do escuro que iam em direção ao filho de Arathorn. Este, por sua vez, correspondendo à bem vinda prova de amizade, liderou um pequeno contingente de elfos contra o mar de Uruk-hais.
Os imortais eram poucos diante de tantos servos Isengard. Elessar escapara do raio de proteção da lâmina de Númenor e a mulher chegou a pensar em se juntar a seu rei, todavia, havia muitos Uruk-hais entre eles. Seus olhos buscaram novamente por Haldir e a filha dos guardiões agradeceu pelo elfo haver optado por não usar o elmo. Sua cabeleira dourada foi logo avistada pelos olhos femininos. Um alívio momentâneo tomou conta do coração da mulher. Ainda estavam vivos, afinal, seus dois senhores.
A medida que o tempo passava, entretanto, a ira de Isengard prevalecia sobre a bravura dos homens e dos elfos. As baixas eram muitas e Théoden via com tristeza sua fortaleza cair diante do exército de Saruman. As lâminas élficas e mortais, apesar de não terem um segundo de trégua, mostraram-se insuficientes, como era de se esperar. A lâmina numenoriada de Tempestade perdera temporariamente o brilho de pérola e prata por causa do sangue dos inimigos mortos. Enquanto isso, Haldir, que já havia perdido a conta de quantas criaturas matara, sentia seu corpo se render ao cansaço. O guardião havia se recuperado com relativa rapidez do episódio que salvou a vida de Tempestade, contudo o tempo decorrido ainda não fora suficiente para uma total recuperação e o servo da Senhora da Luz via alguns de seus sentidos falharem.
Um toque de retirada fora decretado pelo senhor de Rohan a fim de que seus homens e seus aliados pudessem se reagrupar. A parte baixa da fortaleza havia sido perdida. Muitos o seguiram imediatamente, temerosos que estavam diante da força dos exércitos do escuro. Contudo, alguns ficaram para trás, dando aos outros a chance de escapar. Dentre eles, Haldir.
Apesar do chamado de Aragorn, e ignorando os sinais de fraqueza dados pelo seu corpo, o servo de Galadriel permanecia no alto do que restara da muralha de Helm e se recusava a deixar qualquer de seus comandados para trás.
Tempestade também se recusava a recuar enquanto não visse Haldir fazer o mesmo. Gimli precisou ser arrastado pelo elfos, caso contrário não teria abandonado o campo de batalha. A medida que homens e elfos se retiravam, o número de criaturas das trevas começou a superar em muito os poucos que ainda não haviam atendido às orientações do Senhor de Rohan.
Não demorou para que Haldir fosse cercado pelos Uruk-hais. Em desvantagem e com seus sentidos enfraquecidos, o elfo não pode evitar de ser atingido primeiramente no tórax e depois na nuca, para desespero de Elessar.
Sem se importar com a própria segurança, o herdeiro de Isildur correu em socorro do amigo. Não percebeu reação alguma ao se aproximar do corpo de Haldir, contudo não pode examiná-lo com maior cuidado pela necessidade de defender-se dos servos do escuro que procuravam brindá-lo com o mesmo destino que haviam ofertado ao guardião de Lórien.
Uma das criaturas, num ato de pura maldade, atirou o corpo de Haldir no rio que passava pela parte externa da fortaleza e que, devido à explosão, foi fortalecido por um curso d´água liberto depois de uma eternidade no subsolo e correu célere à procura de um rumo, arrastando em seu caminho o que havia.
Ao ver Haldir ser atingido, Tempestade seguiu o exemplo de seu senhor e, usando a lâmina de Númenor, abriu caminho até o local de onde o servo da senhora da luz fora ferido. Entretanto, antes de conseguir chegar ao seu destino, a mulher sentiu o desespero turvar-lhe a mente ao ver Haldir ser lançado muralha abaixo. Correu o mais rápido que pode, juntando-se ao seu senhor e ajudando-o a se livrar das criaturas das trevas que ainda se detinham na muralha, dado que a maioria delas já se dirigia à torre onde os soldados foram conclamados a se reunirem.
Após dar um fim ao último dos servos do escuro, Tempestade e o herdeiro de Isildur se olharam antes de mirarem o rio que corria violentamente aos pés da muralha. Aragorn tentou consolar a mulher.
- Ele se foi, Tempestade. Sinto muito...
- Não posso acreditar nisso... – disse com a voz um pouco mais do que um sussurro.
Os olhos dela encontraram novamente o olhar do futuro de rei Gondor. Nenhuma palavra fora necessária para que este compreendesse o quanto a mulher estava dividida entre o amor e o dever que ela mesma se havia imposto em nome de sua linhagem.
- Deseja segui-lo, apesar da pouca esperança que resta?
- Meu coração está dividido, meu senhor. E quanto ao meu dever para com o meu rei?
Aragorn ensaiou um sorriso. Ele sabia que o espírito de Tempestade jamais encontraria a paz, caso seguisse um caminho diferente do de Haldir.
- Que o Único guie seus olhos para que encontre nosso guardião e o traga de volta.
Ela assentiu, ante a ordem implícita e pulou, não antes de entregar sua espada a Aragorn.
