Saudações, queridos leitores. Gostaria de agradecer pelo carinho e atenção que vocês têm dado às minhas histórias. Compartilhar com vocês esse universo tão rico de emoções, fantasias e lições de vida é uma experiência única. Obrigada por tudo e por favor, sempre que puderem, deixem aquele review!
Bjs!
Tempestade ainda estava pouco a vontade em seu novo lar. E as palavras da senhora Galadriel, embora isentas de toda sorte de maldade, a deixaram inquieta. Enquanto Haldir a levava pela mão, ela refletia sobre em quanto de seus pensamentos a soberana de Lórien havia penetrado. Gostaria de poder esquecer de uma vez por todas seu passado e começar uma nova vida ao lado daquele a quem amava.
Mirou o galadhrim por um instante. Valar! Como o amava! Tudo entre eles acontecera de forma tão intensa e em tão pouco tempo! Há algumas semanas seu maior desejo consistia apenas em morrer lutando por aquilo em que seu pai acreditava: o retorno seguro do rei ao trono de Gondor. Entretanto, bastaram apenas alguns dias para que o elfo mudasse tudo e a arrebatasse.
Chegaram finalmente ao talan de Haldir. Era tudo muito simples, porém perpassado de uma beleza única. A noite que se aproximava deixava o ambiente envolto em uma penumbra quase mágica.
- O que achou? – perguntou Haldir com um sorriso
- É lindo – respondeu a mulher sem saber exatamente o que dizer.
- Não é muito, mas é o suficiente para mim, pelo menos havia sido até hoje – disse, tocando levemente o rosto de Tempestade – pois se tivesse retornado para cá sem você, nem o luxo do palácio de meus senhores seria o bastante para me trazer contentamento.
Um sorriso quis brotar nos lábios de Tempestade. Contudo, parecia que os músculos de sua face já não eram capazes de sorrir. Pareciam haver enrijecido definitivamente. Haldir percebeu isso e brindou os lábios da mulher com um beijo, casto, a princípio, depois, mais profundo. Aos poucos foram se envolvendo em um abraço até que uma sensação no estômago lembrou Haldir de algo importante. O elfo concluiu o beijo.
- É melhor nos livrarmos dos vestígios da viagem e nos alimentarmos primeiro. Vou providenciar roupas para você e algo para comermos.
- Éowyn me deu alguns vestidos... – disse Tempestade ainda desconcertada
- Que bom. Terá mais opções então – comentou antes de se retirar – espere aqui, eu não demoro.
Ao chegar a porta, Haldir voltou-se por um momento, fitando a filha dos edain que agora ocupava um espaço que antes era só seu.
- O que foi? – indagou confusa.
- Nada. É que...
O elfo engoliu a saliva enquanto buscava pelas palavras certas.
- Recorda-se da primeira vez em que nos vimos? – ele perguntou então.
- Sim...quase cravei uma adaga em você... Por quê?
- Em primeiro lugar, minha senhora, este 'quase' é inapropriado. Seria muito difícil que alguém, mesmo uma guerreira com suas habilidades, pudesse me surpreender.
Os olhos castanhos da mulher brilharam. 'Sempre arrogante', pensou. Porém, antes que pudesse formular uma resposta, Haldir continuou:
- Em segundo lugar, este não foi nosso primeiro contato. Refiro-me ao olhar que trocamos enquanto a senhora me observava pela janela.
A mulher sentiu o coração palpitar. Aquele momento fora realmente marcante para ela, mas não sabia que o elfo partilhava de seus sentimentos.
- Como consegue se recordar de um detalhe tão pequeno? – indagou – Eu tive tempo de observá-lo, admito, mas seu olhar sobre mim não pode ter durado mais do que um segundo...
- O tempo tem o costume de nos pregar peças e não é raro que horas passem voando enquanto que um segundo pode se prolongar bastante. Talvez o Único tenha decidido tornar aquele segundo longo o suficiente para que eu visse o que vi.
- O que você viu? - ela indagou, tentando desvendar o alcance das palavras de Haldir.
- O suficiente.
- Suficiente para quê? - ela já dava sinais de impaciência. Haldir deliciava-se com aquele tipo de reação da parte dela.
- Para desejá-la desde aquele momento – disse antes de se retirar.
Quando Haldir saiu do alcance do olhar da mulher, esta deu mais uma olhada em volta, aproximou-se da cama e sentou lentamente. 'Desejou-me desde aquele momento...', repetiu baixinho as palavras do elfo. Passou a mão pelo tecido. Nunca tinha visto nada igual. Nem no palácio de Minas Tirith. Quase podia sentir o cheiro de Haldir naqueles lençóis. Enquanto isso, continuava a ouvir as palavras do galadrim: 'É melhor nos alimentarmos primeiro'. O que viria a seguir? Claro que ela sabia. Porém, sentia-se perdida, totalmente desnorteada em meio aquele mundo novo que se descortinava à sua frente.
'Também o desejei desde a primeira vez que o vi', era o que gostaria de ter respondido. Como se fosse fácil dizer isso a Haldir...
'Desejo'. Uma palavra tão estranha a ela, pelo menos o desejo a que o elfo se referia. Sim, pois não havia como comparar o que via em seus olhos com o que vira anos a fio nos olhos daquelas criaturas abomináveis.
Tempestade cobriu o rosto com as mãos. Imagens de um passado distante emergiam em sua mente. Sempre lutava contra elas. Sempre lutava contra tudo o que sentia e contra tudo o que os outros sentiam por ela. E se odiava por isso. Talvez se enfrentasse essas lembranças de uma vez... Qual o quê? Proximidade implicava sofrimento. Fora isso que aprendera. Ao toque se seguia a dor. O prazer era unilateral. Sempre fora. Jamais poderia compactuar com aquilo. Por isso agredia, batia, chutava, gritava, enquanto lhe restavam forças. E quando estas se esvaiam, sua mente negava o que estava acontecendo. Como desejar o toque? Como desejar proximidade?
'Pelo Único!, estou a compará-los novamente com aquelas criaturas!'. Balançou a cabeça. 'Não, não é a mesma coisa. Quando ele me toca não há ameaça. Seus dedos mornos em minha pele me fazem ter vontade fechar os olhos e deixar que ele faça comigo o que quiser.' Dizia para si mesma, permitindo-se sentir como raramente o fazia. 'Quando suas mãos me envolvem o rosto, quando me olha, nada disso é prelúdio de sofrimento. Quero que continue a me tocar... E não quero, por quê?' Levantou-se. Os questionamentos fazendo sua cabeça doer. Olhou a porta. 'Ele logo estará aqui...', sentou-se novamente. Não conseguia ficar de pé.
O coração parecia querer pular para fora do peito. A respiração acelerava com o simples pensamento de que Haldir a possuiria. Olhava para a cama sem saber ao certo no que pensar.
'E se eu não conseguir me controlar?' Veio enfim o desespero com a possibilidade até então não considerada.
'E se eu o repelir? Ou pior: se eu o agredir? Não seria a primeira vez...' Ela deixou-se levar pela incerteza, recordando-se novamente do primeiro encontro e de como reagira então.
'Acalme-se, mulher' disse para si mesma. 'Você não é um animal e não precisa mais se comportar como um! Ainda não compreendeu que essa fera que alimentou por tanto tempo não é mais necessária?'
'Sim.' Era a resposta óbvia. 'Mas o que faço com ela agora?'
Aquela pequena observação fez com que Tempestade quase sorrisse. 'Talvez Haldir conseguisse domá-la...' Ela deixou-se tomar pela sensação reconfortante que a imagem do galadhrim sempre lhe trazia. 'Ele com certeza se agradaria disso...'.
- Que bom que já está se sentindo mais a vontade – a voz de Haldir lhe causou um sobressalto. – Essa cama agora também é sua – disse o galadrim com um sorriso nos lábios. E algo mais que Tempestade reconheceu bem. Algo que era comum ao sexo masculino de todas as raças. Algo predador. Com Haldir não seria diferente...
- Acho melhor nos banharmos antes de comermos – comentou o elfo enquanto colocava sobre a mesa a bandeja que trouxera, fazendo com que o temor que habitava o coração de Tempestade transparecesse em seus olhos. O galadrim percebeu a reação feminina e a fim de tranquilizá-la, perguntou:
- Quer ir primeiro?
- Acho que sim - respondeu a filha de Gondor olhando para o chão. Sair do alcance dos olhos de Haldir naquele momento era fundamental para que pudesse voltar ao seu estado normal.
- É por ali – apontou o guardião encantado com o desconcerto da jovem.
Tempestade se levantou, pegou as coisas com que a senhora de Rohan lhe presenteara e seguiu na direção indicada por Haldir. Este, ao se ver a sós, não resistiu e sorriu abertamente. 'Parece tão perdida quanto uma menina. Há de se encontrar em meus braços', pensou, deliciosamente arrogante.
Contudo, sabia que a tarefa não seria fácil. Tempestade chegara a Mordor ainda menina. Fora aviltada de todas as formas. Havia motivos de sobra de ser como era. Embora sentisse que a mulher dentro dela correspondia aos seus carinhos, não poderia esquecer-se da menina acuada que ainda habitava aquele corpo.
Sim, a desejara desde a primeira vez que a vira. Nutrira admiração por ela quando aos poucos reconheceu sua força, suas habilidades, sua determinação. E tanto maior fora sua decepção ao erroneamente concluírem que a mulher seria uma assassina. Encantara-se com a história da heroína abnegada a ponto de se dispor a trocar sua vida pela dela.
Por certo que não era guiado pelo desejo, apenas. Algo maior o impulsionava. Queria tornar-se um com ela. Fazê-la parte de sua vida e de si mesmo – e já não era? Seu sangue já não corria nas veias dela e o dela nas suas? Que laço maior poderia haver entre eles? Faltava pouco, muito pouco para que a união total pudesse ser consumada. E o momento finalmente havia chegado.
A mulher deixou que o banho levasse embora a poeira da viagem, contudo, por mais pura que fosse a água de Lórien, era incapaz de levar embora a ansiedade que a corroía por dentro. Ao sair do banho e vestir-se com uma camisola branca longa, mais uma gentileza da senhora da Terra dos Cavaleiros, sentou-se à mesa, aguardando por Haldir. Em pouco tempo, este surgiu trajando uma roupa simples, calça e camisa, juntando-se a ela.
O guardião degustava com prazer o saudoso alimento pelo qual tanto ansiara. Tempestade, porém, comia pouco.
- Não está do seu agrado? – indagou o elfo.
- Está, mas por hora estou satisfeita – disse levantando-se. A ansiedade não permitia que continuasse sentada. No que foi seguida por Haldir.
O galadrim aproximou-se da mulher que se colocara de costas para a mesa. Pousou a mão por sobre o ombro, afastando os cabelos e sussurrando.
- Pois eu ainda tenho fome...
A mulher ficou imóvel. Não se achava capaz de mexer um só músculo. Respirava com dificuldade até sentir os lábios do guardião tocarem a pele de seu ombro. Juntando toda coragem de que era capaz, virou o rosto na direção do elfo. Os olhos se encontraram. Os de Haldir estavam escuros de desejo. Os de Tempestade, temerosos. O galadrim se inclinou em busca dos lábios da jovem, entretanto, esta, inesperadamente, afastou-se.
- Estou tão cansada – disse a primeira coisa que lhe veio em mente. – A viagem foi muito longa.
Haldir compreendeu. Ele podia sentir a insegurança palpitando dentro dela. Aproximou-se e tomou o rosto dela entre suas mãos.
- Temos tempo. Não há tarefas para cumprir amanhã. A noite é nossa e garanto que após passá-la em meus braços seu corpo já não sentirá nenhum cansaço.
O olhar do elfo era quase hipnótico. Tempestade abriu a boca, mas não conseguiu dizer nada. A fera em seu peito rugia e arranhava.
Haldir deixou que suas mãos escorregassem até os ombros dela e beijou a testa, os olhos, as bochechas, o canto dos lábios…
A mulher pousou as mãos no peito dele, dividida entre repeti-lo ou puxá-lo para mais perto de si. A fera gritando que a dor seria iminente.
Os lábios do elfo aproximaram-se dos dela. A mulher virou o rosto. Sua respiração acelerada garantindo a ele que o desejo era recíproco, mas que não era a única coisa que a guiava. Haldir aproximou a boca do ouvido dela.
- Confie em mim… sabe que eu seria incapaz de fazer algum mal a você…
Tempestade fechou as mãos em punho, desejando esmurrá-lo e abraçá-lo ao mesmo tempo.
O elfo buscou os lábios dela novamente. Em vão. A mulher afastou-se.
O guardião inclinou a cabeça.
- Algum problema?
- Não... – respondeu a mulher sem encará-lo.
- Então por quê...? – perguntou enquanto colocava a mão no ombro da jovem que se afastou novamente.
- Tempestade! Está com medo de mim? – indagou entre surpreso e magoado.
O silêncio da mulher teve o efeito de um sim inquestionável. Ele sabia que haveria hesitação da parte dela. Mesmo uma certa inexperiência. Porém, medo? Haldir sentiu como se seu corpo estivesse desabando sobre si mesmo. O que fizera de errado? Sempre a tratara com gentileza. Lutara e estivera disposto a até mesmo morrer por ela. Buscou ar a fim de se acalmar. Aproximou-se lentamente da jovem.
- Será que não mereço uma resposta – perguntou docemente. – Nem mesmo um olhar?
A mulher abriu a boca, buscando por palavras. Estas, entretanto, ficavam teimosamente presas na garganta. Os lábios tremiam.
- Tempestade? – insistiu carinhosamente o guardião.
- Preciso que entenda – respondeu quase sussurrando, sem, contudo, se voltar. – Não estou pronta ainda.
- Como assim?
- Isso – disse fitando a cama – sempre significou punição e humilhação. Como se eu existisse apenas para satisfazer os desejos de qualquer um. Todos tinham direito sobre mim. Meu corpo – respirou fundo – sempre esteve à disposição de todos...
- Eu não sou qualquer um, Tempestade, nem nunca vou exigir que sempre esteja à minha disposição – completou, tocando levemente o rosto da esposa - mas sou seu marido... - O galadhrim não conseguiu dizer aquilo que para ele era tão óbvio.
Mais uma vez o turbilhão de sentimentos a invadia. O toque de Haldir em sua face trazendo à tona o desejo de beijá-lo, de abraçá-lo, de entregar-se.
- Estou disposto a curar-lhe as feridas – prosseguiu o elfo encorajado pelo que vislumbrara nos olhos da mulher. – Dê-me uma chance e mostrarei que tudo o que você sofreu é uma distorção vil e hedionda do que é o amor – concluiu, acariciando os cabelos da mortal.
A mulher fechou os olhos, saboreando as palavras, tentando deixar que o carinho que sentia pelo marido lhe desse a coragem de que necessitava para sair de si mesma e liberta-se dos grilhões de sua malfadada servidão. Todavia, ao fechar os olhos, do escuro de sua mente emergiram as lembranças dolorosas que teimavam em não se deixarem sepultar. A repulsa latente pelas imagens do passando suplantando novamente a perspectiva de futuro.
- É tão difícil assim compreender? – inquiriu, mirando o esposo, tentando fazer com que visse em seus olhos o que não conseguia explicar com suas palavras.
Tempestade baixou o rosto. Não conseguia se fazer entender.
Haldir permaneceu em silêncio, também ele angustiando-se por não ser capaz de fazer com que a mulher que amava confiasse em seus sentimentos. Já não havia mais palavras a serem ditas. Usara todos os argumentos dos quais dispunha. Aproximou-se tentando abraçá-la, confortá-la, contudo, fora mal interpretado.
- Se não entende, poderia pelo menos aceitar! – concluiu, magoada pelo fato de Haldir não compreender o quanto tudo aquilo estava sendo difícil para ela.
- Aceitar que não confia em mim? Aceitar que me teme? Aceitar que me considera igual aos orcs? Como pode me exigir isso?
- Não foi isso que eu disse, não o considero igual a eles.
- E como me considera então, se parece temer-me como os temeria.
- Eu não os temia. Eu os odiava. – Ela enervou-se.
- Com esse mesmo ódio que está agora me direcionando, Tempestade?
- Eu não o odeio. Estou apenas...
- Apenas…?
- Decepcionada... Por que você não é capaz de entender.
- O que quer especificamente que eu entenda então, para que me diferencie destes a quem abomina?
- Quero... Quero que entenda que preciso de tempo. Quero que saiba esperar.
- Esperar? – A indagação do elfo parecia o prelúdio de algo maior, mas à fúria seguiu a consternação no rosto de Haldir.
- Esperar... – repetiu dando as costas e baixando a cabeça – esperar... – ele sussurrou, relutando em acreditar que a mulher que amava não confiava em seu amor por ela, antes de encará-la novamente. – Estou tão cansado de esperar pelo amor, Tempestade. Foi o que fiz a minha vida inteira... E quando pensei que o tinha encontrado em você, o que vejo? Medo, desconfiança...
Seguiu-se um silêncio
Haldir estava esgotado. Sem saber mais o que poderia dizer ou fazer, pegou sua capa e se foi.
Tempestade passou muito tempo mirando a porta. Sua mente tentando absorver o que tinha acontecido. Como as coisas chegaram aquele ponto? Tudo tinha sido tão rápido! Não conseguia raciocinar direito. Como ele não foi capaz de entender? Haldir sempre fora tão compreensivo... Será que não conseguiu ver nos olhos dela que não se negara a ele deliberadamente? Era mais forte do que ela.
Após algum tempo, aproximou-se da cama. Sentou-se. Pegou o travesseiro. Sentiu o cheiro dele, Haldir. 'Valar! O que eu fiz?' Veio-lhe o impulso de ir procurá-lo. 'Que tolice seria...', pensou. Não fazia a menor ideia de para onde ele poderia ter ido... ou de quando voltaria... ou se voltaria... A esse último pensamento, sentiu um frio percorrer seu corpo. Contudo, persistia dentro dela o confronto: 'Por que ele não entendeu, por quê?' indagava-se apertando o travesseiro contra o peito. Todavia, não conseguia chorar. Não ainda. E depois de remoer tantos pensamentos e possibilidades, quando a noite já estava próxima do fim, adormeceu lembrando-se das vezes que adormecera no colo de Yoleth nas noites de Mordor. Todavia sua delicada mão já não acariciava os cabelos da menina.
Haldir caminhava apressadamente, mais para combater o frio do que para chegar a algum lugar. Na verdade, não tinha nenhum destino em mente. Queria apenas afastar-se. Ir para longe dela, para longe de toda essa decepção. Não conseguia compreender o que poderia ter feito de errado. Não, não fora ele quem errara. Definitivamente, não fora ele. Dera todas as provas possíveis de seu amor por aquela adán. Não havia o menor motivo para que ela não confiasse nele. O galadrim passava a mão por sobre os braços tentando espantar o frio. Que temeridade sair pelo meio da noite tão pouco protegido, agora que sangue élfico não mais corria em suas veias... mas pensando bem, desde que conhecera aquela mulher, desde que permitira que entrasse em sua vida, o que mais cometera foram temeridades. E que temeridade maior poderia haver do que trocar sua eternidade pela incerteza de uma vida mortal ao lado de uma mortal igualmente incerta? Tolo e imprudente. Era assim que se considerava agora. Era assim que seus irmãos deveriam se referir a ele e não sem razão. Negara sua própria natureza e assim sendo, perdera-se, perdera o rumo de si mesmo, tal qual os elfos que se deixaram perder no passado e, por essa fraqueza, acabaram transformados nas criaturas das sombras com as quais fora comparado naquele dia por aquela a quem amava. Seria a rejeição um castigo por seu pouco amor à sua dádiva? Não, o Único não poderia ser tão cruel! A não ser que em vez de castigo, visse o fato como consequência. Sim, dera início a um ciclo que já não poderia interromper. Escolhera rebaixar-se e seria assim por toda a vida até que um dia se olharia no espelho e não mais se reconheceria e no lugar de seu rosto veria um mostro, assim como sua mulher deveria vê-lo.
Poucos foram os elfos que presenciaram o passeio noturno do guardião. E dentre esses, nenhum se atreveu a inquiri-lo. Quando percebeu que já se afastara consideravelmente do talan, parou. Recostou-se em uma árvore deixando que seu corpo escorregasse até o chão. Encolheu-se, tentando se proteger do frio que lhe fazia doer os ossos. Todavia, esse não o machucava mais do que o frio que percebera em sua esposa. 'Esposa...', pensou, jogando a cabeça para trás a fim de observar as estrelas, buscando nelas a resposta para suas perguntas. Com muito menos demonstrações de carinho, conseguira o favor de outras. Com muito menos palavras, conquistara outros corações. Fechou os olhos. Todavia ela, logo ela, aquela mortal intempestiva, teimosa, imprevisível parecia insensível a seus olhares, carinhos, palavras. Logo ela. A única até aquele dia que realmente importara.
O galadhrim tornou a mirar as estrelas. Não encontrou nelas as respostas que buscava, contudo o Único pareceu apiedar-se de seu filho, pois Haldir sentiu ir embora o frio que o incomodava. Sentiu o corpo relaxar e adormeceu, deixando que, pelo menos por aquela noite, suas perguntas ficassem sem resposta.
