Tempestade acordou com o som dos passos do marido. Haldir já havia vestido quase todo seu uniforme galadhrim. O desentendimento da noite anterior parecia ter aberto um abismo entre os dois. Ela permaneceu sentada na cama sem saber o que dizer ou fazer diante do elfo. Este, por sua vez, parecia bastante determinado.
- Vou para a fronteira – disse sem olhá-la. – Há muito a ser organizado. Não há com que se preocupar. Deixei recomendações a respeito de suas necessidades. Nada lhe faltará – concluiu, pegando o arco e indo em direção à porta.
A mulher sabia que deveria dizer alguma coisa. Qualquer coisa. Não poderia deixá-lo partir daquela maneira:
- Quanto tempo ficará fora?
- Não sei ao certo – respondeu o elfo parado junto à porta, sem se voltar. – Ainda estamos em guerra – concluiu antes de sair.
'Ainda estamos em guerra', ela refletiu, sentindo que aquelas palavras não pareciam se referir apenas à ameaça vinda de Mordor. Tempestade passou um bom tempo na cama sem querer se levantar. E quando o fizesse, o que faria? Não conhecia ninguém. Não conhecia nada daquela cidade élfica. Um lugar tão lindo, mas que perdera seus encantos agora que Haldir estava distante. Ele se fora e não sabia quando voltaria. A filha de Gondor suspirou ao se recordar do contentamento do elfo na noite anterior, quando o desentendimento ainda não havia tomado o lugar da cumplicidade. Como pudera decepcioná-lo tanto? Como pudera por tudo a perder?
Percorreu o talan com os olhos. Invadira o espaço de Haldir apenas para magoá-lo e torná-lo infeliz? Afinal a quem tentou enganar? Como alguém como ela poderia encaixar-se em toda aquela perfeição? Puniu-se em pensamento, dando-se conta de como o repelira. Como alcançá-lo novamente? Sua espada não seria suficientemente longa. Riu amargamente, pois protagonizava um conflito diante do qual as espadas de nada adiantariam.
Por um instante um pensamento quis se insinuar. Mirou a arma recostada ao lado do lugar onde o arco galaghrim há pouco jazia. Talvez fosse o melhor a se fazer. Seria um favor a Haldir e a si mesma. Poderia poupá-los de outros constrangimentos. Deixando que outra mais digna tivesse êxito onde ela falhara.
- O quê? Quer que eu sirva de pajem para sua esposa? – Rúmil perguntou indignado.
- Não foi isso que eu disse, meu irmão – Haldir respondeu com voz cansada. Estava esgotado. Não queria de forma alguma iniciar uma nova discussão.
- Não foram essas suas palavras, obviamente, entretanto, o sentido de sua solicitação não pode ter outra interpretação, meu capitão.
- Peço apenas que olhe por ela. Que vigie seus passos.
- Vigiar?
O guardião coçou a testa. Que situação constrangedora! Além de tudo, aquela mortal ainda o estava expondo diante de seus irmãos.
- Haldir? – o elfo percebeu a seriedade da situação. – O que está acontecendo? – indagou, colocando a mão no ombro do irmão.
- Faça apenas o que pedi, por favor...
- De forma alguma me agrada me intrometer em sua vida, mas precisa entender minha posição. Como posso assumir uma missão sem saber exatamente as condições. Não confia mais em mim?
- Está bem – Haldir cedeu, embora pretendesse revelar apenas o essencial. – Tivemos um desentendimento. Tudo aqui é muito novo para ela... temo que queira ir embora – concluiu, esperando que não fosse necessária mais nenhuma explicação.
Rúmil compreendeu. Estava consternado por seu irmão pedir que ficasse e vigiasse aquela adán enquanto uma guerra se desenrolava além das fronteiras da Floresta Dourada. Contudo, sabia que se o irmão não tivesse o mínimo de tranqüilidade e paz de espírito para organizar as forças de Lórien, se não pudesse se dedicar inteiramente a sua missão, isso só aumentaria ainda mais suas angústias, roubando-lhe a concentração e colocando em risco sua vida e a de outros. Então optou por deixar de lado sua própria vontade e colocou acima desta o bem estar do irmão.
- Vá tranquilo, meu capitão – disse, colocando a mão no ombro de Haldir. – Ela estará aqui quando retornar, ainda que eu precise amarrá-la a uma árvore.
Haldir não pode deixar de sorrir diante da imagem inaudita que se formou em sua mente. E embora tenha sido duro para o orgulhoso comandante dos Galadhrim admitir que estava com medo de que alguém do sexo feminino estivesse disposto a fugir dele, a amizade de Rúmil tornou tudo mais fácil. As palavras do irmão, se não serviram para trazer a ele a paz pela qual ansiava, pelo menos lhe deram o consolo de que quando voltasse, poderia tentar ajeitar as coisas. Não fora, de fato, exigido dele um retorno tão urgente a suas funções, mas o elfo precisava de tempo para ordenar seus pensamentos. Precisava ponderar sobre o que poderia fazer para superar tudo aquilo. Ansiava por ouvir os conselhos da floresta. Esta sempre o acolhera e sabia que não se negaria a ele agora que necessitava tanto de seus cuidados. Deixaria que a paz das árvores de folhas douradas lhe dissessem que rumo tomar. Magoado como estava, não conseguiria alcançar um entendimento com Tempestade.
Lançando um olhar de agradecimento a seu irmão, Haldir partiu para a fronteira.
Tempestade caminhava às margens do rio. Não comera nada desde que acordara apesar de lhe terem oferecido. Haldir não exagerara. Olhavam por ela. Cuidavam de suas necessidades, entretanto, não podia deixar de notar que tudo era feito mais em atenção ao elfo do que a ela própria.
- Pretende seguir o rio até descobrir onde ele deságua, Senhora? – indagou Rúmil que já estava cansado de seguir a mortal naquela caminhada sem propósito, pelo menos para ele.
- E se essa for realmente minha intenção? – retorquiu a mulher, voltando-se surpreendida para seu interlocutor – Por que se incomodaria? Pelo que sei, minha ausência lhe traria grande satisfação.
- Não posso dizer que esteja errada, minha senhora – Rúmil ainda se ressentia com o fato daquela mortal ter tirado de seu irmão não só a imortalidade, mas também a paz - entretanto, trago-lhe uma mensagem da Senhora Galadriel.
O elfo percebeu o efeito que o nome da Senhora de Lórien causou na adan.
- Devo seguir o rio até a trilha da floresta por onde o Senhor Celeborn deve retornar. Segundo a senhora da Luz, ele deve chegar hoje e ela deseja que eu vá recebê-lo. E não me pergunte por que, mas é desejo da rainha que a senhora venha comigo.
- Isso não faz sentido algum!
- Se quiser discutir o sentido das ordens da Senhora de Lothlórien, então sugiro que se dirija a ela pessoalmente.
Tempestade suspirou. Uma caminhada não era má ideia, mas ficar na companhia daquele elfo que claramente a suportava apenas em consideração a Haldir não era nada animador. E o que pretenderia a rainha, enviando-a a receber um senhor que ela nem sequer conhecia? Fosse como fosse, Rúmil tinha razão. Discutir as ordens da Senhora da Luz não resultaria em nada. Então achou por bem ceder. Pediu ao elfo que a aguardasse enquanto retornava ao talan para pegar sua espada. Seria muito improvável que precisasse usá-la, contudo, não iria a lugar algum sem ela, pois era a única coisa verdadeiramente familiar em meio àquele universo tão belo e ao mesmo tempo tão triste.
Os passos de Haldir eram lentos. Orophin percebeu claramente o quanto estava custando ao irmão aquela ida até a fronteira.
- Se não desejava partir, meu capitão, por que o fez? – indagou o irmão mais novo.
- Foi preciso – respondeu o galadhrim, dando a entender que não estava disposto a conversar sobre o assunto.
Orophin compreendeu bem. Não valeria a pena forçar nada agora. Conhecia o irmão. Com tempo e paciência poderia ajudá-lo. Bastaria que permanecesse a seu lado até que o orgulhoso primogênito resolvesse desabafar.
Haldir pensava na distância entre ele e Tempestade, que aumentava a cada passo. O caçula estava certo. Por que não retornar? Por que não colocar o orgulho de lado e resolver aquela situação absurda logo de uma vez? O capitão galadhrim parou por um instante, e olhou por sobre os ombros em direção a Caras Galadhon. Suspirou, deixando que o bom senso e a paciência prevalecessem sobre o sangue adan que lhe queimava as veias e continuou sua caminhada para a fronteira. Sua decisão estava tomada.
Tempestade caminhava ao lado do elfo. O silêncio entre os dois chegava a doer. Vez por outra vislumbrava em Rúmil alguns traços de Haldir. Eram irmãos, afinal. Haldir, onde ele estaria nesse momento? Estaria pensando nela? E se estivesse? Seria com saudades que o fazia?
- É bom ter cuidado agora – a voz de Rúmil rompeu o silêncio em que se encontravam. – Este trecho da trilha é bastante íngreme e se não prestar atenção, irá de encontro àquelas pedras lá embaixo...
O elfo ia na frente, seguido pela mulher. Contudo, o aviso de Rúmil chegou com atraso. Mal terminara de falar, quando foi surpreendido pelo grito de Tempestade que, distraída que estava em seus pensamentos, escorregara e, não fosse a agilidade do galadhrim em segurá-la pela mão, ela teria, de fato, ido de encontro às pedras! Os olhos se encontraram. Era de fato a primeira vez que o faziam com o espírito desarmado.
Ao puxar a mulher de volta, o guardião acabou por perder algumas de suas flechas que caíram de sua aljava. Isso deixou o galadhrim visivelmente chateado.
- Como pude me distrair assim? Eu realmente não devia ter vindo. Meu lugar não é aqui – murmurou a adán voltando o rosto em direção a Caras Galadhon. Somente Haldir a fazia baixar a guarda dessa maneira.
Rúmil leu nas últimas palavras da cunhada que esta não se referia apenas à pequena tarefa que a Senhora Galadriel lhes dera. Diante de tal fato, deixou pra lá o incidente e continuou a caminhada.
- Não é hora de falarmos sobre isso, senhora – disse transparecendo, quase sem perceber, maior compreensão do que a que mostrara até o momento. – Não podemos deixar o Senhor Celeborn esperando. É melhor irmos.
Tempestade percebeu a mudança sutil no tom do elfo. Guardou para si seus pensamentos e voltou a segui-lo. O silêncio entre eles já não pesava tanto.
Para a mulher, orgulhosa com era, e para o elfo, magoado como estava, foi como que um princípio de entendimento entre ambos. Não eram inimigos, afinal.
Rúmil parou por um momento olhando para trás.
- Algo errado? – indagou a mulher.
- Estamos próximos demais da fronteira. Já deveríamos ter encontrado a escolta do Senhor Celeborn.
- Tem certeza?
- Claro que tenho. Pelas indicações que a senhora Galadriel me forneceu, ele não deveria estar longe, embora eu não tenha deixado de perceber uma certa apreensão por parte da rainha – concluiu fitando o chão.
- Não há outro caminho pelo qual ele pudesse ter vindo?
- Não haveria necessidade. Este é o mais utilizado. E o mais próximo do posto da fronteira, que por sinal parece abandonado.
- Como sabe disso?
- Conheço os galadhrim – disse Rúmil quase ofendido. – Sei que não estão onde deveriam estar.
Após mais algum tempo de caminhada atingiram os limites da Floresta Dourada. Como Rúmil temia, os galadhrim realmente não estavam onde deveriam estar. Ou talvez estivessem exatamente onde deveriam.
- O que foi agora? – indagou a mulher ante a parada brusca do elfo. Este, puxando-a para trás de uma das poucas árvores que haviam no limiar da floresta, fez sinal para que nada dissesse.
Tempestade voltou os olhos da direção do olhar de Rúmil.
- Pelo Único! Não pode ser! – sussurrou para si mesma, vendo o Senhor de Lothlórien dentre outros elfos cercados por uma horda de orcs.
- Meus olhos devem estar sob algum feitiço... – sussurrou o elfo, custando a crer na imagem que se descortinava a sua frente.
- Creio que não, meu senhor- Tempestade comentou. - A menos que os meus também estejam...
- Eles devem ter sido alcançados antes de conseguirem adentrar a Floresta.
Rúmil aguçou sua visão élfica na direção do rei e o que viu não o agradou.
- Ele está ferido – constatou o galadhrim. – No braço próximo ao ombro. Deve ter sido uma flecha, mas não estou certo.
Tempestade mirava a cena a sua frente. Não fosse a palavra de Rúmil, sequer imaginaria que o Senhor de Lothlórien se encontrasse em tais condições, tão vigorosamente lutava. Não fosse a tamanha discrepância entre o número de elfos e orcs, não haveria motivo de preocupação. As habilidades do Lord elfo saltavam aos olhos. Sua lâmina decepava cabeças e transpassava corpos com uma precisão que poucas vezes a mulher presenciara.
A adán não pode admirar a maestria do esposo de Galadriel por muito tempo. Sua atenção foi tomada por um perigo ainda maior que se acercara do pequeno grupo de guerreiros imortais. A medida que os poucos elfos que se esforçavam em impetrar a defesa de seu senhor tombavam, uma dupla de orcs montados em wargs se aproximava de Celeborn.
Por fim, o último defensor do senhor de Lothlórien tombou, restando apenas ele de pé. Uma ordem veio de um dos capitães. A audição de Rúmil não pode deixar de perceber o diálogo que entre eles se travava.
- Parem agora, seus vermes, vamos ver o que temos aqui.
Celeborn não baixara a guarda. Sua espada ainda estava em posição de ferir mais algumas daquelas criaturas das trevas antes de ser mandado para os Halls de Mandos.
- O que faremos com esse elfo? – indagou um deles.
- Uma bela refeição, como estes aqui! – respondeu outro, olhando para o rei e cutucando um dos elfos caídos com a ponta de sua lança. Celeborn, contudo, em vez de demonstrar o pavor ao qual estavam acostumados, ofereceu apenas uma expressão impassível em seu rosto.
- Não sejam tolos! – disse o outro. – Este não é um elfo qualquer. Vamos levá-lo conosco. O senhor do escuro muito se agradará!
Enquanto as criaturas discutiam, Tempestade e Rúmil procuravam por uma saída.
- Ouviu o que ele disse? Há mais orcs por perto – constatou a mulher.
- Buscar ajuda, então, está fora de questão. Todavia, não consigo imaginar o que podemos fazer.
- Quantas flechas lhe restam?
- Cinco – respondeu o elfo após verificar sua aljava.
- É um bom começo. Acha que consegue acertá-los daqui?
- Claro que consigo!
- Mesmo quando perceberem que estão sendo atacados? Não irão ficar parados...
Rúmil olhou para Tempestade, estreitando os olhos e falando por entre os dentes:
- Já disse que consigo!
- Então vou me aproximar e chamar a atenção deles. Quando se distraírem comigo, você os atinge. Tente acertar primeiro os que estão montados nos wargs.
- Não seria melhor dá cabo logo dessas montarias abomináveis?
- Suas flechas não bastariam. Deixe os wargs por minha conta.
- E se eles se voltarem na direção do Senhor Celeborn?
- Eles não chegarão nem perto de seu senhor, eu asseguro.
- Como pode me garantir isso?
- Eu acreditei que o senhor é capaz de acertar os orcs, não é verdade? Então acredite quando lhe digo que aqueles monstros não experimentarão sangue élfico no dia de hoje. Quando suas flechas acabarem, vá para junto de seu senhor e deem àqueles orcs o que eles merecem.
A mulher falou com tanta convicção que o elfo não pode duvidar. Tempestade, então, se aproximou devagar. Quando julgou que Rúmil estava preparado, deixou que os orcs a vissem.
- Ora, ora, ora... vejam o que temos aqui – comentou um dos que estavam montados. – Uma adan na fronteira de uma floresta élfica? Rapazes, se estavam querendo uma refeição, ei-la!
Os servos do escuro começaram a caminhar em direção à mulher, entretanto parte deles teve seus passos detidos por flechas élficas certeiras, chamando a atenção do resto do grupo. Celeborn reconheceu as flechas e agradeceu ao Único pela habilidade de seus Galadhrims.
Antes que os orcs montados em wargs pudessem esboçar qualquer reação, também foram atingidos. O irmão de Haldir não mentira. Sua mão não tremera nem por um segundo.
Rúmil desceu de seu posto, aproximou-se de seu senhor e em pouco tempo já estava banhando sua espada no sangue negro das criaturas das trevas ao lado do senhor de Lórien. Os servos do escuro mal podiam acompanhar o ritmo ditado pela dupla de guerreiros. Contudo, graças ao efeito do ferimento, o rei fora desarmado por um dos orcs e viu sua espada ser lançada longe. Porém não seria dessa vez que o esposo de Galadriel se encontraria sem defesa. Acreditando que o lord elfo estava a sua mercê, o orc avançou em direção a Celeborn apenas para ter sua garganta cortada por uma adaga que o rei trazia escondida em sua cintura.
Quando as feras se viram livres de seus condutores voltaram o olhar faminto para a dupla de elfos fazendo com que os temores de Rúmil quase se tornassem realidade. Quase. As feras deram alguns passos em direção ao esposo de Galadriel, contudo algo chamou sua atenção.
- Ei, criaturas estúpidas – gritou Tempestade –, se é sangue que buscam, podem vir pegá-lo – concluiu, cortando a palma da mão com sua espada e deixando escorrer o sangue, cujo cheiro capturou a atenção dos wargs.
Tempestade aguardava pacientemente pelo momento certo.
- O que ela pretende – indagou Celeborn, após decepar a cabeça de mais um orc.
- Não faço ideia, meu senhor – respondeu Rúmil transpassando o último dos servos do escuro.
Quando o primeiro warg pulou em sua direção, Tempestade desviou, agarrando-se à sela da montaria orc e, segundos depois, fazendo dela sua própria montaria. Os elfos mal podiam acreditar na cena que se passava a frente deles. A mulher conduziu o warg em um ataque ao outro animal deixando que eles se ferissem a vontade, porém tomando muito cuidado para que não fosse ela própria atingida, caso contrário, seria muito difícil encontrar outro elfo com a disposição de Haldir para ajudá-la.
Quando o cansaço já havia dominado o outro warg. Tempestade usou sua espada para concluir o trabalho. A besta caiu e a mulher se voltou para sua montaria, ferindo-a na jugular e saltando em seguida a fim de não correr o risco de ter a perna esmagada pelo peso do monstro.
Os elfos não conseguiam tirar os olhos daquele espetáculo grotesco. O senhor de Lórien resolveu, então, se aproximar. A mulher apoiou-se em um dos joelhos. A simples presença dele parecia impor aquele respeito devido aos grandes reis.
- Contraí uma dívida para com você hoje, filha da Árvore Branca.
- Como sabe quem sou, meu senhor? – indagou, sem ousar olhar o Lord elfo.
- Aqueles dentre meus soldados que sobreviveram à batalha do Abismo de Helm contaram-se sua história.
- Então deve ser de seu conhecimento que minha dívida com seu povo é muito maior.
- Ainda assim – prosseguiu Celeborn – não posso ficar indiferente a seu gesto. Tem minha gratidão.
Tempestade balançou a cabeça para por fim àquele diálogo. Não lhe agradava ser o centro das atenções.
- Devemos ir, meu senhor – interveio Rúmil. – Deve haver mais daquelas criaturas por aí.
- Algo precisa ser feito com relação a isso – comentou o lorde elfo. – Precisamos providenciar um reforço para as fronteiras.
O resto da viagem foi tranquilo. Ao entrarem na cidade, o trio não pode deixar de chamar a atenção dos que os vissem. Tempestade encaminhou-se ao talan o mais rápido que pode. Queria ver-se livre da sujeira dos wargs e dos olhares curiosos. Contudo, a notícia de seu feito correu de boca em boca.
No dia seguinte, sentada junto ao rio que se tornara seu confidente, a adán pode sentir quando o nobre elfo se aproximou. Levantou-se, pensando que nunca deixaria de se impressionar com a luz que emanava deles. Fora isso que sentira ao ver Haldir pela primeira vez. Pareciam não pertencer ao mundo dos homens, e talvez não pertencessem de fato, assim como ela não se sentia parte daquele mundo.
O imortal nada disse. O rosto indecifrável despertou no peito da mulher um temor que o elfo reconheceu. E como não tremer diante da imponente figura do Senhor de Lothlórien? Tão abismada ficou que não percebeu que o rei trazia junto a si um objeto envolto em um pano que de tão fino não impedia que se visse do que se tratava.
O elfo ergueu a mão que carregava o objeto, ofertando-o. A mulher, percebendo o movimento, deu um passo atrás. Celeborn não se moveu, nem seus olhos abandonaram o rosto da adán. Tempestade deu um passo a frente a fim de recuperar o espaço que o temor lhe tomara. Fitou o objeto. A boca entreaberta revelava a total surpresa e falta de palavras da mortal.
O rei não parecia disposto a falar. Tempestade percebeu que não haveria explicações, pelo menos não naquele momento. A mulher estendeu as mãos, segurando o punhal como se estivesse sendo colocada sob seus cuidados uma peça de cristal. Ao observar mais de perto, percebeu tratar-se do mesmo punhal que o Senhor de Lórien usara no dia anterior. Os olhos da adán demonstraram a surpresa que tomara conta de seus pensamentos. Fitou o elfo mais uma vez. Este apenas assentiu antes de se retirar.
Enquanto Tempestade observava o punhal sem saber exatamente o que fazer , Celeborn disse sem se voltar.
- Está comigo há muitos séculos. Desde a última vez em que meu coração me conduziu a fazer a oferta que torno a fazer agora. E quis o Único que fosse novamente uma mulher a recebê-lo – concluiu antes de se retirar.
'Temi tanto pela reação desse povo', refletia Tempestade, fitando o objeto. 'Pensava que contaria apenas com o apreço de Haldir e que deles estaria sempre distante. E agora, me vejo distante de Haldir e admirada por eles.' Suspirou, desejando que a primeira situação houvesse se concretizado no lugar da segunda.
