Olhos castanhos fitavam a copa das árvores. A cidade era bela. Sua gente lhe sorria. Mas o talan estava vazio sem Haldir. Rumores chegavam a todo instante. Era preciso que as informações fossem checadas. O Galadhrim não sabia esperar. Foi a muito custo que deixou Tempestade mais uma vez, mas precisava certificar-se. Se o que ouviram fosse verdade, Aragorn poderia estar morto. Um confronto direto com Mordor era a última coisa que se esperava que os homens do oeste fizessem, contudo, quem os conduzia agora estava determinado a por um fim ao mal que insistia em rastejar pela Terra Média.

A mulher temia por seu marido, mas também temia por Gondor, por seu rei. E pelo que ainda poderia ter restado de seus parentes...

- Admira nossa cidade, Tempestade?

As palavras de Galadriel interromperam os pensamentos da adan.

- O que faz aqui, minha senhora? – indagou, sem conseguir esconder sua surpresa.

- Questiona meu direito de ir e vir em meus domínios, minha cara?

- Não... quer dizer... perdoe-me...

- Acalme-se, criança. Compreendi sua intenção. Venha, quero que me responda uma pergunta – disse a Senhora convidando Tempestade a olhar mais uma vez para a cidade das árvores. - Diga-me: ama Caras Galadhom?

Anna hesitou em responder, pois na boca da Senhora da Luz, a mais simples das palavras poderia possuir mil significados.

- Ela tem sido boa para mim, Senhora.

Galadriel esboçou um pequeno sorriso. A mulher não se enganara, embora parecesse simples, a pergunta da elfa era mais rica de significados do que se poderia supor.

- Não respondeu a minha pergunta, criança. Ama Caras Galadhom? – insistiu a rainha.

- Não posso dizer que não amo – disse, tentando desviar os olhos da rainha.

- Parece-me que não receberei uma resposta direta, afinal... – concluiu a senhora de Lórien.

Tempestade, embora não compreendesse bem do que a elfa buscava, sentia que havia bondade nela e em seu propósito. Se iria viver ali, sob sua proteção, teria que aprender a conviver com nela.

-Perdoe-me se a ofendo, senhora – disse a mortal. – Caras Galadhom me é muito querida e estou disposta a fazer dela meu lar.

- Contudo, não consegue dizer que a ama. Não será porque, em seu coração, o amor por Minas Tirith ainda impera?

A pergunta repentina surpreendeu a mulher. Esperava que sua resposta satisfizesse a Senhora da Luz e pusesse fim ao assunto. Em vez disso, apenas a deixou mais confusa.

- Não posso amar as duas, minha Senhora?

- Não, não pode. Precisa escolher. Nestes assuntos, nosso coração pode residir em apenas um lugar.

A afirmação categórica da Senhora da Luz ajudou Tempestade a compreender que ela lhe queria dizer mais do que aquilo que as palavras poderiam expressar. Não porque Galadriel não fosse conhecedora das palavras certas, mas porque a senhora de Lórien desejava que a mulher compreendesse por si mesma o motivo de suas próprias inquietações a respeito desse assunto.

- Não já escolhi, Senhora? Não estou aqui?

- Mas seu coração ainda suspira pela cidade branca. Será que essa escolha foi justa?

- Por que diz isso?

- Quando foi a última vez que Minas Tirith lhe sorriu? Será que você lhe teria resistido se a oportunidade de fitá-la mais uma vez lhe fosse concedida?

Tempestade, agora, estava quase certa do que a Senhora da Luz lhe insinuava, mas em seu íntimo repetia a si mesma que aquilo não poderia ser verdade.

- Tanto é verdade, minha cara – disse a elfa, deixando a mulher paralisada – que ainda não conseguiu responder a nenhuma de minhas perguntas.

- A que verdade se refere, senhora? – indagou a muito custo.

- Sei que é inteligente, criança. Custa-me crer que ainda não me tenha compreendido.

- Perdoe-me, senhora, mas não me sinto bem com parábolas e rodeios – concluiu, desviando olhar e baixando a voz, pois sabia que estava abusando da boa vontade da rainha.

- Olhe para mim, Tempestade – disse resoluta, mas gentil, não deixando à mulher outra escolha que não a de olhar para aqueles olhos aos quais não era possível ocultar coisa alguma. No entanto, quando a mulher ergueu a cabeça, não era um par de olhos azuis que a esperavam, mas um par de esmeraldas desafiador. A prova cabal de que algo dentro de Tempestade ainda precisava ser esclarecido. Algo com o qual não poderia conviver. Uma dúvida que de tão íntima e profunda, a mulher ainda não se dera conta de que possuía até Galadriel descortiná-la por completo.

- Não! – gritou em uma tentativa de fuga que sabia inútil.

- Acalme-se – disse a rainha segurando gentilmente o rosto da edain. – Não há motivo para negar o que sente, Tempestade - azuis cheios de compreensão fitavam castanhos.

- Tenho vergonha, não é justo... – disse quase num sussurro.

- Justo?

- Não é justo com ele.

- ...

- Haldir.

- Entendo. Mas será que é justo com você que sua alma permaneça nesse silêncio? Será justo enterrar um sentimento que ainda pulsa tão fortemente?

- Com o tempo ele morrerá...

- E de quanto tempo mais acha que precisará, minha cara? Quanto tempo mais está disposta a esperar? Nem as muralhas de Mordor puderam por fim a tal sentimento. Nem a ameaça de morte iminente. Nem o amor de Haldir.

- Se não conseguir matá-lo, pelo menos bem acorrentado permanecerá. Não conseguirá escapar jamais.

- Pelo menos não até que ele seja descoberto.

- Que quer dizer com isso, senhora?

A elfa soltou o rosto da mulher, afastou-se um pouco e deu as costas, permanecendo em silêncio enquanto buscava pelas palavras exatas. Tempestade ainda era uma menina em muitos aspectos.

- Quando duas pessoas decidem viver juntas, criança, quando decidem compartilhar uma vida, principalmente nos moldes que você e Haldir o fizeram, com o tempo, um é capaz de saber até pela respiração que há algo incomodando o outro. O amor e a confiança que os une é muito forte e pouco a pouco tanto suas defesas como as dele irão cair. Você irá se revelar a ele e ele a você e, muito provavelmente, sem que os dois se deem conta, um estará mergulhado no outro.

A rainha se virou por um momento. A expressão da mulher lhe revelou que estava conseguindo se fazer entender. Tempestade mal respirava. A senhora de Lórien encarou a mortal.

- Haldir mergulhará em sua alma, em seus sentimentos, em seus traumas. Não haverá como esconder. E na primeira oportunidade esse sentimento acorrentado se insurgirá contra ele, quando você não puder mais controlá-lo. Como um Balrog que surge das profundezas. É isso que você deseja?

A mulher abriu a boca, mas os lábios tremiam demais para que conseguisse dar qualquer resposta, contudo a rainha compreendeu.

- Precisa voltar a Minhas Tirith. Por você e por Haldir.

- Como poderei contar a ele sobre isso?

- Eu não disse que precisaria contar a ele. Disse que precisa encarar seus sentimentos. Tenha calma. Não se deixe levar pela impetuosidade que é tão própria de seu espírito. Deixe que os fatos se sucedam primeiro e então aja. Entende isso?

- Não tenho certeza...

- Permita que suas ações sejam guiadas pelo amor que sente por Haldir.

Tempestade assentiu.

- Se for assim, ele não irá descobrir, então?

- Não, minha cara, ele descobrirá – olhos confusos fitaram a rainha de repente. – Eu não disse que ele não descobriria. Disse que você não precisaria contar a ele.

A mulher suspirou profundamente. Elfos e seus enigmas.

Sei que será duro para você, criança. Será para ambos. Mas você verá que quando os segredos forem revelados, Haldir a amará ainda mais e você descobrirá que o ama muito mais do que supõe.

A mortal não pode evitar de corrigir a rainha.

- Segredos, minha senhora? Não se trata de apenas um?

A elfa sorriu ternamente.

- Não Tempestade. Sabemos que não é apenas um.

A mulher vasculhou a mente em busca do que mais poderia ser. Por fim deu-se conta do que a rainha poderia estar falando. Malditos orcs! Seria isso?

- Ele também descobrirá que...

- Não. Esse você deverá contar ele. Afinal, ao contrário do outro fato, minha cara, esse, você não conseguiria esconder por muito tempo.

Tempestade fitou a cidade das árvores mais uma vez. Como gostaria de não precisar deixá-la.