O casal cavalgava tranquilamente rumo à cidade branca. O coração da mulher era um turbilhão de sentimentos. Tanta coisa poderia acontecer... Segredos seriam revelados, não sem causar dor. Uma dor necessária, de acordo com a senhora da luz, para que Anna e seu amado elfo pudessem enfim viver plenamente seu amor sem que nada nem ninguém pudesse se colocar entre eles.

'Seu amor por Haldir será posto a prova', foram as palavras de Galadriel. 'E o amor dele por você também precisará resistir'

Tempestade fitava o horizonte, trocando apenas algumas palavras com seu marido que, ao perceber a pouca disposição da esposa, também se recolhera ao silêncio.

Aos poucos a mente de Anna foi sendo tomada por uma lembrança em particular, talvez uma das mais importantes e determinantes de sua vida. Era justamente essa a lembrança que procurara ocultar em Rohan, quando falara sobre seu passado.


Estavam de volta à biblioteca.

- Não está cansada, Anna? – indagou o garoto, olhando ternamente a prima.

- Não. Você está? – retorquiu a menina desafiadoramente.

O filho de Denethor contemplou o rosto juvenil. Uma flor que desabrochava a sua frente.

- O que está olhando, Faramir?

- Nada – respondeu, baixando os olhos ao se ver inquirido por castanhos. Um sorriso querendo surgir em sua face.

- Está rindo de mim?

- Não, Anna, é que...

- O que?

- Calma menina! Eu queria apenas ouvir sua voz um pouco. Já fazia tanto tempo de olhava esse mapa...

Anna sentiu-se constrangida. De fato fora mais ríspida do que desejara.

- Perdoe-me, Faramir. Não sei o que há comigo. Nos últimos tempos tenho perdido a paciência por tão pouca coisa.

O primo sorriu novamente. Bem sabia o que poderia estar afligindo a menina.

- Eu sei...

- Como assim sabe? – Anna surpreendera-se.

A mãe havia lhe referido que o que vinha sentido devia-se a proximidade da idade adulta, contudo insistiu que isso fazia parte do universo feminino e que não deveria fazer comentários com qualquer pessoa, principalmente com meninos. Deixara escapar o comentário com Faramir dada a cumplicidade que possuía com o primo, entretanto estranhara o fato deste afirmar que sabia do que estava falando.

- Percebi suas mudanças de humor – respondeu, desviando o olhar a fim de não deixar a prima pouco à vontade – tenho sido uma vítima frequente delas...

- Por favor, me desculpe, primo – respondeu, abandonando de vez o mapa e deixando a mão feminina pousar displicentemente sobre a dele. – Não queria te chatear – Faramir lutou para não demonstrar o efeito que o calor da mão dela havia tido sobre ele. Aquele ar de menina doce, nos últimos tempos, vinha chamando a atenção do filho do regente.

- Não se preocupe, Anna. Eu entendo.

- Entende? – indagou timidamente, sentindo uma vibração diferente na voz do primo.

Faramir voltou a olhá-la, enquanto punha sua outra mão sobre a dela.

- Sim, eu entendo.

Anna estremeceu diante daquele novo que se insinuava.

Faramir percebeu e não ousou apressar as coisas. Deu um tapinha carinhoso não mão da menina e soltando-a, enquanto voltava a olhar o pergaminho sobre a mesa.

- Diga-me, Anna,o que tanto a estava impressionando nesse mapa?

- Mapa? - ela demorou um tempo para dar-se conta do que ele estava falando.

- Sim – respondeu, indicando com os olhos o velho pergaminho.

- Ah, sim. Claro. Eu tentava adivinhar algo.

- O que?

- Que caminho tomará nosso futuro rei? Por onde ele virá?

O filho do regente encantava-se com a doce fé que a menina herdara do pai. Sador sempre fora um ardoroso defensor de que o comando de Gondor deveria retornar para as mãos do herdeiro de Isildor o quanto antes. E não os recriminava por isso. O velho guardião tinha orgulho do passado de seus ancestrais e ansiava poder servir ao rei abençoado quando este retornasse, dedicando-lhe toda sua fidelidade.

Assim como o pai, a filha partilhava desse desejo. Faramir não os condenava. De fato, também ele desejava ver a cidade dos homens de Numenor recuperar todo o seu brilho e sabia que apenas com o retorno do Rei isso seria possível. Lamentava apenas que por conta de todo seu empenho, Sador e sua família não fossem favorecidos pelo atual regente, seu pai.

A Denethor custava compreender por que o velho guardião estava tão descontente com seu governo. De fato, tudo não passava de um mal entendido entre ambos. Embora não se sentisse ligado ao regente, não era por conta dele que Sador desejava ver restabelecida a coroa a quem lhe era de direito. Era apenas seu senso de justiça.

- Não faço ideia de trilha ele seguirá para chegar até nós, Anna.

- Espero que não demore. Meu pai gostaria muito de servi-lo... – comentou docemente.

A menina temia que o pai não conseguisse realizar o anseio que guiara toda sua vida. E a possibilidade de isso vir a acontecer lhe toldava a alegria que era natural de sua idade.

Faramir se comoveu com os sentimentos da prima.

- Anna – disse, pousando novamente sua mão sobre a dela – sinto que ele não tardará muito. Não tema, em breve verá o sonho de seu pai realizado.

Faramir pressionou levemente a mão de Anna, buscando ratificar com o gesto suas palavras.

Fitavam-se, agora.

Respiração que se acelerava. Em ambos.

Palavras que faltavam.

O filho do regente erguera suavemente a mão livre aproximando-a do rosto bronzeado, antes de esconder por trás da orelha um teimoso cacho que escapara dos cabelos presos por uma trança improvisada. A ponta dos dedos roçou levemente a face de menina-moça.

Anna estremeceu e afastou-se.

- Não tenha medo – ele sussurrou. – Eu nunca lhe faria nenhum mal.

- Eu sei...

Faramir não conseguira afastar os dedos do rosto da menina que agora percorriam a face até chegar aos lábios.

Como que por instinto, Anna abriu a boca. Os dedos masculinos pararam sentindo a umidade doce que os alcançara.

A filha de Sador tremia. Faramir percebera.

- Diga uma palavra. Basta uma e eu paro – propôs.

Anna não queria parar. Temia o desconhecido, porém algo mais forte que ela lhe dizia que nem em mil anos o que estavam fazendo poderia ser errado ou trazer dor.

Lábios masculinos acercaram-se.

Corpos que tremem.

Algo morno que se aproxima.

Lábios em lábios. Não mais do que isso.

Esmeraldas recuam contemplando os olhos femininos cerrados.

Sorriso que surge no rosto claro.

Lábios em lábios novamente, saboreando a descoberta sem perceber a sombra que se afastava da biblioteca após tê-los observado longamente.

...

- Mandou me chamar, meu senhor?

- Sim, mandei. Aproxime-se. Tenho algo muito sério a tratar com você, Sador.

- De que se trata, meu Regente?

Detethor mostrou-se contrariado com o tratamento que lhe era dispensado pelo velho guardião. Este nunca perdia a oportunidade de reafirmar sua condição. Contudo, não se deteria em provocações. Havia algo urgente a ser resolvido.

- Sabe onde sua filha está agora, Sador?

O guardião estranhou a pergunta. Preocupou-se.

- Algo aconteceu a ela?

- Não. Ainda.

- O que quer dizer com isso, meu senhor?

- Responda minha pergunta, Sador, e eu responderei a sua.

- Pensei que estivesse na biblioteca. Tem recomendações explícitas de minha parte de que deve permanecer lá sem perambular pelos corredores quando a trago comigo.

- E está.

- ...

- Está com Faramir.

Sador questionou com o olhar sem conseguir entender o que o Regente pretendia.

- Está novamente colocando na cabeça dele as mesmas caraminholas que você colocou na dela.

- São apenas duas crianças, meu senhor. Que mal há nisso?

- Engana-se, Sador. Não são mais duas crianças. Principalmente meu filho.

- Não compreendo...

- Compreenderá – afirmou o regente antes de iniciar a narrativa dos fatos que presenciara na biblioteca.

...

- Vai passar o resto do dia aqui? – indagou o filho de Denethor.

- Espero por meu pai. Ele virá me buscar para almoçarmos. Não posso sair daqui sem que ele o permita. Teme que faça algo que não seja de seu agrado.

- Então devo rogar ao Único que isto – disse apontando para ambos – não o desagrade.

Anna riu mais alto do que se esperaria que se risse em um ambiente de estudos.

- Está vendo, Sador – ao som da voz do Governante de Gondor o casal estremeceu – isso já está passando dos limites.

- O que houve, meu pai? – indagou Faramir.

Denethor olhou o guardião, cobrando o que fora combinado.

- Vamos, Anna. Vamos embora. Despeça-se de seu primo.

A menina fitou o pai sem compreender a voz grave por ele utilizada.

- Até amanhã, Faramir.

- Até amanhã, Anna.

Despediram-se, demorando a soltarem a mão um do outro.

O coração de Sador doeu. Não havia justiça naquela situação vexatória. Seria a última vez que se veriam. Tinham direito a uma despedida. Contudo, como não contrariar a orientação explícita do Regente de que nada deveria ser dito antes de sua partida? O guardião resolveu apostar na sagacidade de Faramir.

- Adeus, meu rapaz – falou ao se aproximar do sobrinho e segurar-lhe os ombros dizendo mais com os olhos do que com as palavras. – Está se tornando um homem admirável – concluiu, antes de segurar a mão da filha e começar a se retirar.

Anna apenas estranhou. Faramir compreendeu.

- Não! Para onde vai levá-la?

- Acalme-se, Faramir! – determinou o Regente. É o melhor a se fazer!

A menina estremeceu.

- Pai!

- Vamos, filha, não há mais nada aqui para nós.

- Anna! – Faramir quis ir ao encontro da prima, mas foi detido pelos braços do pai.

- Vá, Sador! O que está esperando?

- Faramir!

- Anna!

O guardião se afastou da biblioteca, do palácio, da cidade. Antes do anoitecer já não estavam mais em Minas Tirith. O longo exílio de Anna começara. E demoraria muito para que a filha de Sador conhecesse o seu final.