As muralhas de Minas Tirith surgiram no horizonte. Imponentes. Grandiosas. Contudo, ao se aproximarem, mulher e elfo perceberam as seqüelas deixadas pela batalha recente.
O coração de Tempestade batia cada vez mais forte. O rei Elessar finalmente estaria ali. Aquilo com o qual seu pai tão ardentemente sonhara havia se tornado realidade. Reencontrariam Aragorn em breve, mas era a possibilidade de outro reencontro que toldava os pensamentos de Anna.
Passaram facilmente pelos portões da cidade. Em tempos de paz a desconfiança diante de estrangeiros não prevalecia. Tempestade fitava os rostos buscando por algum conhecido. Todavia, ao contrário dela, os habitantes não tiveram dificuldades em reconhecer na mulher de pele bronzeada que cavalgava ao lado do elfo, a filha de Sador.
As histórias sobre os dois eram contadas e recontadas juntamente com tantas outras a respeito dos grandes atos de heroísmo da guerra do anel. Sendo assim, ao chegarem à entrada do palácio, um dos capitães já se punha a caminho para recebê-los e conduzi-los a presença de Elessar.
Deixaram suas montarias e seguiram seu guia. Tempestade não dizia uma só palavra. Haldir, percebendo a ansiedade que tomava conta de sua esposa, segurou sua mão firmemente a fim de lhe transmitir a confiança necessária. O elfo ignorava que longe de amainar seus receios, sua atitude deixara Anna ainda mais apreensiva.
- Tempestade! Será possível? – disse a Senhora de Rohan transbordante de felicidade. – Quando ouvi os boatos, quase não acreditei – concluiu, antes de abraçar a amiga.
- Fico feliz em vê-la, Senhora. – Respondeu Anna, tentando disfarçar o nervosismo.
- Como está o senhor, capitão Haldir?
- Estou bem, minha senhora, obrigada. – O elfo levou a mão ao peito.
- O que os trazem à Cidade Branca?
- Viemos rever velhos amigos.
- Neste caso, por favor, me acompanhem. O rei Elessar e meu marido estão em uma audiência, mas já devem ter sido avisados de sua chegada.
Atendendo ao convite de Éowyn, o casal começou a caminhar em direção à sala do trono. Acreditando que as duas amigas tivessem muito sobre o que conversar e sabendo que isto faria bem à sua esposa, Haldir deu alguns passos a frente, iniciando com o soldado que os recebera um diálogo a respeito da reconstrução da cidade.
Tempestade caminhava ao lado de Éowyn.
- Está certa de que não atrapalharemos o rei Elessar. Talvez devêssemos esperar o fim da audiência.
- Eles já estavam concluindo quando a chegada de vocês foi anunciada. Meu marido pediu-me que viesse recebê-los.
- Sim, sim, seu marido. Estou feliz que tenha encontrado o amor, senhora.
Eowyn reduziu o passo. Tempestade intrigou-se.
- Tempestade falando de amor? – E soltou um riso cristalino, antes de continuar. – Que poderes devem ter os elfos!
Anna baixou a cabeça e não pode conter o sorriso.
- Sim, Tempestade. Encontrei o amor nos braços de alguém que, assim como eu, chegou muito perto da morte.
- Eu soube. Para salvar seu tio, a senhora matou um Nazgul. O mais poderoso deles.
- Infelizmente não pude salvá-lo... mas ele partiu com honra. Morreu da mesma forma que viveu.
- Então ele foi salvo, sim, minha senhora.
Percebendo que a tristeza se acercava do coração da sobrinha de Théoden, Tempestade retomou o assunto anterior.
- E quanto ao seu esposo? Deve ser alguém de muito valor, se conseguiu conquistá-la.
- Como dizia, fui gravemente ferida na batalha, sendo obrigada a passar uma longa estadia nas casas de cura. E foi lá que encontrei um bravo guerreiro que não fizera menos em defesa de sua amada cidade. Foi ele quem conseguiu curar a maior das minhas feridas. Você deve se lembrar dele. É seu parente. O príncipe de Itilien, Faramir. O irmão de Boromir é agora o segundo senhor de Gondor, logo abaixo do rei. Contudo, não deixa nada a dever em termos de honra e caráter.
Anna parou. A respiração ficou difícil. Estava tão pálida que deixou a senhora de Rohan preocupada.
- O que houve, Tempestade? – indagou, colocando a mão no ombro da amiga.
- Não foi nada – disse num sussurro. – Foi só a surpresa.
- Entendo... – Éowyn sorriu. – A final de contas ele é seu primo. Há muito o que contarmos uma a outra, mas creio que teremos tempo para isso, se não planejam ir embora em breve.
- Algum problema? – Haldir retornou ao perceber que as mulheres pararam de caminhar.
- Não há problema algum, meu senhor – respondeu a mulher de pele clara. – Tempestade foi tomada pela emoção ao descobrir que agora somos parentes. Casei-me com seu primo.
- Essa é sem dúvida uma boa notícia, minha querida – declarou o elfo.
- Então vamos? – propôs Éowyn.
Enquanto caminhavam e as portas da sala do trono iam se tornando cada vez mais próximas, Tempestade imaginava se Faramir havia dito alguma coisa sobre eles. Tudo indicava que não.
...
Na sala do trono, Elessar e Faramir tomavam resoluções sobre os mais diversos assuntos. O príncipe de Itilien ia e vinha a Minas Tirith com bastante freqüência. Amiúde trazia Éowyn consigo. Redescobrira o amor nos braços da Senhora de Rohan e em sua alma já não havia lugar para tristezas, embora tenha sido justamente Éowyn a lhe contar sobre uma outra mulher que há muito tempo, fora a dona de seu então jovem coração. Contudo, Faramir não conseguia compreender porque Anna nada revelara sobre ele.
Aragorn estava sentado no trono e o príncipe de Itilien, em frente a ele, examinava um último pergaminho, enquanto aguardavam a chegada do casal que já havia sido anunciado.
- Majestade, o capitão Haldir de Lórien e sua esposa estão aqui e desejam lhe falar – disse o soldado.
- Diga que entrem – Aragorn orientou. – Faremos uma pausa nestes assuntos extenuantes agora, meu amigo – dirigiu-se a Faramir. - Estou prestes a rever duas pessoas que me são muito caras.
O príncipe de Ithilien sentiu o chão sumir sob seus pés. Não houve tempo para que Faramir fizesse qualquer comentário sobre as palavras do rei. As portas da sala se abriram e o casal entrou, com o elfo um pouco mais a frente.
- É um dia de júbilo, nobre Haldir, o dia em que velhos amigos se reencontram! – disse, antes de abraçar o elfo sem a menor cerimônia, deixando o guardião de Lórien ligeiramente constrangido.
- Fico feliz em ver que Gondor está em tão boas mãos, majestade.
- 'Majestade!'? Peço encarecidamente que me chame de Aragorn ou Elessar, Haldir. E vejo que não veio sozinho – disse, voltando os olhos para Tempestade, que nada respondeu.
- Ela está muito emocionada, majes.. Aragorn.
- Entendo. Venha, Haldir, e conheça aquele a quem realmente são devidos os maiores méritos pela reconstrução de nosso reino. Sem ele, eu estaria perdido – declarou, apontando para a figura do filho de Denethor que, contudo, ainda não se virara na direção dos recém chegados.
- Faramir, quero que conheça Haldir de Lórien.
Aos poucos, o príncipe de Itilien voltou-se em direção aos amigos do rei. As mãos tremiam e o coração estava acelerado. O irmão mais novo de Boromir viu o seu nome ser pronunciado mudamente pelos lábios de sua prima:
-' Faramir...
Tudo que havia ao redor dele pareceu sumir por um segundo e a alegria de vê-la viva suplantou qualquer medida de bom senso que pudesse limitar seus atos.
- Anna...- disse indo abraçar a jovem.
Entretanto, o filho de Denethor foi detido pela poderosa presença do elfo.
- Mil perdões, meu senhor – disse, dando um passo atrás e fazendo uma reverência que em toda sua vida só prestara a seu pai e ao rei Elessar.
- O que é isso, meu esposo? – interveio Éowyn. – Tenho certeza de que Haldir, assim como eu, não se sentirá ofendido se você abraçar sua parenta depois de tanto tempo – concluiu, embora um incômodo quase imperceptível houvesse pousado em seu coração por conta da inexplicável hesitação de Faramir. Éowyn, contudo, atribuiu a mesma ao respeito que ele certamente demonstrava pelo elfo.
Haldir não poderia fazer suas as palavras dela, entretanto seria descabido privar aqueles dois de um reencontro merecido. Afinal, no que dizia respeito a familiares de sangue, eles agora só tinham um ao outro.
Anna olhou rapidamente para o elfo. Este deu a entender seu consentimento, reclinando levemente a cabeça, embora algo nas fisionomias dos dois primos o estivesse intrigando.
Pelo relato de Éowyn, Faramir sabia que Anna nada dissera a respeito de seu amor. A questão era: por quê? Contudo ambos sabiam que a situação ficaria por demais constrangedora se protelassem por mais tempo o abraço naturalmente esperado entre dois parentes que não se viam há muito tempo.
Com o coração aos pulos, Faramir deu um passo em direção a Anna. Ela correspondeu, afinal, se havia alguém que seu coração sabia que jamais a machucaria, além de Haldir, este alguém era Faramir. Apenas mais um passo fora necessário para vencer a distância entre eles e o príncipe de Itilien envolveu Tempestade em um abraço cheio de significados. Aos poucos os braços da mulher circundaram as costas do primo.
Anna nunca chorava. Haldir já a repreendera várias vezes por isso. As lágrimas às vezes eram necessárias para lavar a alma. Contudo, apesar do turbilhão de sentimentos e sensações que acometeram a filha de Sador, ainda não seria dessa vez que aqueles olhos as derramariam. Todavia, Faramir não conseguiu resistir ao retorno de lembranças que ele julgava superadas. O abraço ficou cada vez mais intenso deixando em um certo desconforto os expectadores daquela cena.
Mergulhados em sentimentos, os primos esqueceram-se do resto. Quando percebeu que um tempo razoável havia passado, Faramir abriu os olhos marejados de lágrimas para encontrar o olhar do elfo, que viu nos olhos dele algo além da ternura familiar.
O filho de Denethor interrompeu o abraço. Anna não lhe opôs resistência. Um comentário de Aragorn rompeu o silêncio.
- Então finalmente descobrimos seu verdadeiro nome, minha cara Anna...
Tempestade olhou surpresa para Faramir. Este compreendeu de imediato o questionamento dela.
- Não me vi no direito de revelar seu nome, minha prima, já que você mesma não o fizera a ninguém – comentou o príncipe de Itilien, buscando desesperadamente disfarçar suas emoções.
- Excetuando seu marido, é claro – comentou Haldir, colocando a mão no ombro da esposa.
- É um lindo nome, Anna – comentou Éowyn, percebendo que algo começava a toldar a atmosfera amistosa que inicialmente se havia estabelecido.
Faramir percebeu que não estava nos planos da prima revelar nada sobre eles, pelo menos por enquanto. Não era da natureza do jovem regente mentir ou omitir. Além disso vira no olhar do marido de Anna que este já percebera mais do que se poderia imaginar. Contudo não julgou prudente contrariar a vontade da prima, pelo menos por enquanto.
- Creio que é hora de nos retirarmos, minha senhora – a voz de Haldir refletia sua inquietação.
- Providenciarei que sejam bem instalados, meu caro Haldir – declarou Aragorn. – E os aguardo para o jantar. Creio que folgará em saber que poderá rever Legolas e Gimli. Eles devem chegar logo mais.
- Certamente, Rei Elessar, certamente – comentou com os pensamentos distantes das palavras do Soberano de Gondor.
- Venham comigo – propôs Éowyn. – Eu cuidarei de tudo.
O casal se retirou, vigiado por verdes indecifráveis. Faramir mergulhara dentro de si mesmo. Como poderia a presença da prima ainda afetá-lo tanto depois de todos esses anos? A mão de Elessar em seu ombro o trouxe de volta à realidade.
- Passado e presente que se misturam não é, meu bom amigo? – Insinuou Aragorn.
- E dizem que sou eu quem leio os corações... – respondeu o Príncipe de Ithilien com um sorriso triste.
