O jantar ainda não havia sido servido. Fora retardado propositalmente a pedido de Arwen. A rainha tinha esperança de que Legolas e Gimli chegassem a tempo.

Haldir não dizia nada além de monossílabos, imerso que estava na cena que se passara na sala do trono. Ele sabia, tinha certeza de que havia algo mais. Ou seria apenas seu coração a lhe pregar uma peça?

Foi em silêncio que o casal chegou ao salão onde se realizaria o jantar.

- Haldir!

O elfo ouviu a voz melodiosa da Senhora de Gondor.

- Undomiel! – A face do capitão suavizou-se diante da presença de Arwen.

- Como está?

- Satisfeito em revê-la.

- Igualmente, Haldir – Respondeu, antes de voltar os olhos para Tempestade. - E então? Não vai me apresentar à sua esposa?

- Perdoe-me. Arwen, essa é … Anna.

- Majestade – a mulher cumprimentou.

- Ouvi muitas histórias a seu respeito, Anna. Seus feitos em Rohan já chegaram aos nossos ouvidos.

- Espere até ouvir os de Lórien – completou Haldir com um sorriso.

- Lórien? Ora, Haldir, não me diga que em sua Lua de Mel levou sua esposa para a fronteira? Não consegue nem mesmo casado dar-se uma trégua?

- A culpa não foi minha, Estrela da Tarde, foi de Rúmil!

- Vai culpar seu irmão agora, capitão? – indagou a Rainha brindando o casal com sua jovialidade.

- Sim. E ser-lhe-ei eternamente grato por haver levado Tempestade consigo a fim de livrarem seu avô de um bando de orcs – disse Haldir em um só fôlego, sabendo a surpresa que causaria a amiga.

- Conte-me tudo, Galadhrim!

Poucas vezes Anna vira Haldir tão à vontade com outra pessoa. A amiga de infância tomara o lugar da Rainha. Contudo, antes que o elfo pudesse prosseguir com sua narrativa, Éowyn apareceu.

- Saudações, minha Rainha.

- Boa noite, Éowyn.

- Vejo que já conheceu minha amiga.

- Sim, conversávamos sobre Lórien.

- Haldir! – a voz do Rei os alcançou enquanto este se colocava ao lado de sua esposa. - Que bom que não se demorou. Agradeço, pois sei que sua jornada deve ter sido cansativa.

- É sempre um prazer, Rei Elessar.

- Permitam-me privá-las da companhia deste elegante elfo por alguns minutos, minhas senhoras, pois necessito ter com ele uma conversa muito importante.

- Esteja à vontade, meu marido, mas não abuse dele, sim!

Aragorn riu, pois a elfa já sabia da proposta que seu esposo faria a Haldir.

- Enquanto isso, vou ver como andam os preparativos do jantar. Depois quero saber mais detalhes sobre sua história, Tempestade! Por favor, me deem licença.

- Certamente, Senhora – respondeu Anna.

Enquanto a Rainha se retirava, Tempestade ouviu o gentil comentário de Éowyn.

- Ela é um raio de sol.

- Sim...

- O que há, Tempestade? Parece desanimada.

- Não é nada... É apenas o cansaço da viagem.

- Cansaço... Como se uma cavalgada fosse capaz de abatê-la… Tempestade, sabe que nunca conseguiu mentir para mim. Venha, vamos até o terraço. Lá poderemos conversar melhor.

Anna caminhava, mas os passos lhe custavam muito. Por nada consentiria em magoar Éowyn e, pelo que pode perceber, ela ainda não sabia nada sobre ela e Faramir. E nem poderia saber, haja vista que fora para dirimir as dúvidas que ainda pesavam em seu coração a respeito daqueles olhos verdes que Galadriel a orientara a voltar a Gondor. Nem em mil anos poderia dizer isso a amiga. Enquanto pensava em um meio de desviar a atenção da Senhora de Rohan, Tempestade não percebeu que o terraço já se encontrava ocupado.

- Faramir! – Tempestade ouviu Éowyn pronunciar o nome do esposo com satisfação – por que está aqui sozinho?

- Estou com meus pensamentos, Senhora Minha – respondeu docemente.

Algo dentro de Anna se incomodou com a doçura da resposta de Faramir.

- Vim com Tempestade em busca de um lugar onde pudéssemos conversar tranquilamente.

- Devo, então, deixá-las a vontade – comentou o Príncipe de Ithilien antes de começar a se retirar.

- Não será necessário, meu esposo. Temos tempo. Não deixarei que se vá – disse, segurando carinhosamente o braço do marido.

Éowyn estava feliz. Radiante. E merecia cada gota daquele mar de contentamento. Tempestade sabia disso.

- Poeira e mais poeira. É só o que trazemos destas estradas!

A voz do anão soou como um trovão. Do terraço foi possível ouvi-la!

- Gimli! – Éowyn exclamou. – Não acredito que conseguiram voltar a tempo.

- Ele não me parece muito contente – comentou Faramir.

- O que é isso, meu esposo! Deve apenas estar com fome. Vou cumprimentá-lo.

Enquanto a Senhora de Rohan se retirava do terraço, Anna quase lhe segurou pela mão para que não fosse ou para que, pelo menos, a levasse consigo. Entretanto, a presença de Faramir a impedira. Não sabia exatamente por que, mas temia pela resposta. Seus olhos acompanharam os passos de Éowyn até não mais poderem desviar do olhar do filho de Detenhor:

- Faz muito tempo... Anna... desde que tivemos oportunidade de estar a sós pela última vez – disse, tentando iniciar um diálogo.

Ela nada respondeu.

- Seu novo nome é deveras intrigante. Tempestade.

Anna não se atrevia a olhar para aqueles olhos verdes. Faramir deu um passo em direção a ela. Olhou-a, investigando se sobrara algo da menina que conhecera.

A jovem respirou, sentindo o ar que lhe inundava os pulmões liberando-o em seguida.

- Foi ele quem lhe deu esse nome, não foi?

Ela fitou Faramir com uma indagação no olhar.

- Éowyn me contou – esclareceu.

Seguiu-se um silêncio breve antes que ele conseguisse externar o que realmente desejava.

- Por que, minha prima? Por quê? – continuou.

- Minha senhora não lhe contou o motivo?

- Você sabe que não é sobre seu nome que estou perguntando – afirmou, encurtando um pouco mais a distância entre ambos.

- Do que está falando, então?

- Por que não disse nada a eles sobre mim... sobre nós?

- Faramir... tudo isso é passado... não sou mais aquela menina...nem você...

- Então por quê?

Ambos olhavam-se agora. De fato, Anna não era mais uma menina. E Faramir tornara-se um homem. Todavia, permaneceram parados, buscando nos olhos um do outro por qualquer vestígio do que tinham sido.

- Não posso crer no que meus olhos veem! – disse o anão, pondo fim ao silêncio que envolvia os primos. – Está radiante nestes trajes élficos, Tempestade – concluiu amigavelmente irônico, antes de se colocar entre eles.

- Sua esposa deve estar sentindo sua falta, Príncipe de Ithilien – dirigiu-se ao esposo de Éowyn. – Por que não vai ao encontro dela – finalizou significativamente.

- É claro. Peço que me deem licença – disse, antes de se retirar, constrangido diante do olhar do anão.

- E então, Tempestade, como está?

- Quanta gentileza sua interessar-se por meu bem-estar, filho de Glóin.

- E o que a trouxe a Cidade Branca? Embora eu deva confessar que quase consigo intuir a resposta... – disse, acompanhando o vulto de Faramir.

- O que quer dizer com isso?

- Refiro-me ao que estava acontecendo aqui até minha chegada.

- Estávamos conversando, anão. O que insinua? – indagou, afastando-se de Gimli e aproximando-se do parapeito.

- Toma-me por um jovem cego e inexperiente, Tempestade? Pois eu não o sou e tampouco seu marido o é.

A última afirmação do anão preocupou a mulher.

- Meu marido?

- Sim. Junto a mim e a Legolas ele observava o que se passava. Adiantei-me antes que vocês cometessem um ato de insanidade.

- E Éowyn?

- A bondosa senhora não consegue circular pelos salões sem ser constantemente requisitada. Apenas nos dirigiu um cumprimento e Árwen a chamou.

- Onde está Haldir?

- Já não sei.

A mulher sentiu sobre si o peso de toda Arda.

- O que ele viu?

- Então realmente havia algo para se visto? – retorquiu o filho de Glóin.

- Está jogando comigo, anão?

- Se há alguém jogando aqui, e um jogo muito perigoso, esse alguém é você, Tempestade.

- Eu...

- Vá até ele – cortou o anão – não se demore. A situação só tende a piorar caso o faça.

Gimli falou à mulher, olhando profundamente eu seus olhos. Buscando fazer com que compreendesse que tudo o que estava dizendo era para o seu bem. Por Iluvathar, Anna compreendeu partindo a procura do marido.

...

O corredor estava vazio. Pelo menos era o que o Príncipe de Ithilien supunha. Caminhava lentamente perdido em mil pensamentos. Quando poderia esclarecer tudo? Sorveu mais um gole de vinho, esvaziando a taça para encontrar os olhos azuis de Haldir há poucos metros de si. Como aquele elfo aparecera sem que ele o notasse? O vinho deveria ter afetado seus sentidos de guerreiro e algo na fisionomia do elfo lhe dizia que não iria conseguir passar por ele dizendo apenas um 'boa noite'.

- Como está, capitão Haldir?

- Como poderia estar, meu Senhor?

- Perdoe-me, meu Senhor, mas...

- Toma-me por algum tolo, rapaz? – Haldir perdeu a paciência diante da demonstração de ingenuidade que ele julgava leviana.

- De forma alguma, meu Senhor. Por favor não me entenda mal. O que eu puder fazer para...

- O que pretende? – o elfo disparou.

- O quê?

- O que pretende com minha mulher?

Faramir abriu a boca, contudo as palavras não saíram. A hesitação do filho de Denethor fez apenas crescer a ira no peito de Haldir. O silêncio era a prova de que não havia como desmentir a impressão que tivera desde o primeiro momento em que se encontraram.

- Não consegue sequer formular uma resposta, ádan?

- Ela é minha prima, meu Senhor...

- Acha que não tenho olhos? Que não vi a maneira como...? – o elfo buscou ar antes de continuar – Não sei o que há de errado comigo que não lhe ponho um fim agora mesmo – concluiu levando a mão à espada.

- Haldir! – Tempestade surgiu a tempo de segurar o braço do marido. O que o elfo viu nos olhos da esposa o entristeceu profundamente. Até aquele instante, rezava para que se tratasse apenas de uma investida unilateral do segundo senhor de Gondor, contudo, a reação de Tempestade não lhe deixava dúvida alguma.

- Teme que o machuque, minha esposa? – indagou profundamente magoado. – Teme por seu bem-estar? Até que ponto? Posso saber?

- Agora basta, Anna – disse Faramir. – Ou conta você, ou conto eu.

Haldir gostaria de não ter ouvido, mas ouviu. Não havia como negar. Realmente havia algo a ser revelado e ele descobriria.

A mulher permaneceu em silêncio.

- Sinto profundamente, capitão Haldir, por minha prima não dizer a verdade a todos vocês.

- Faramir...

- Que verdade? – indagou Haldir olhando fixamente para sua esposa.

- Sobre o verdadeiro motivo pelo qual a família dela foi expulsa desta cidade, meu senhor – respondeu o filho de Denethor, assumindo uma postura ainda mais nobre do que a que já lhe era tão familiar.

Haldir reagiu, mitigando sua beligerância.

O olhar de Faramir voltou-se para Tempestade.

- Soube que sequer mencionou meu nome quando contou a história de sua vida, Anna – prosseguiu o príncipe de Itilien. – Ainda não conseguiu me perdoar pelo mal que lhe fiz?

- Você não me fez mal algum, meu primo!

- Então por quê?

- Porquê... eu não sei – disse Tempestade baixando a cabeça e deixando claro que não teria forças para contar a verdade nem tampouco impetrar alguma mentira.

Haldir observava o diálogo entre eles, buscando ler em cada expressão de seus rostos o que haveria por trás das palavras.

- Eu e Boromir sempre fomos muito próximos de Anna e de seu irmão, Anor, apesar da antipatia que existia entre nossos pais – Faramir iniciou seu relato. – Anna e eu, particularmente, tínhamos o hábito de frequentar a biblioteca em busca das histórias dos reis de outrora.

Tempestade quase sorriu ante a doce lembrança. Haldir percebeu. E não gostou.

Faramir continuou.

- Imaginávamos o dia em que o rei retornaria e devolveria a nosso país o lugar que lhe era devido. Nunca tive a pretensão de me tornar senhor de Gondor, o que sempre almejei foi servir a meu povo.

O primo de Anna silenciou por um instante, buscando forças para encarar as dolorosas lembranças.

- Prossiga – disse Haldir, encarando o príncipe de Itilien.

Faramir sentiu na voz do elfo a justa ira daqueles que são privados da verdade.

- Entre Anna e eu surgiu um sentimento maior do que o afeto entre parentes.

Ele fitou o elfo, observando sua reação.

Haldir se conteve.

- Éramos então muito jovens. Nada sabíamos sobre a vida, sobre o amor ou sobre... a intolerância…

Faramir baixou os olhos por um segundo.

O elfo ponderou. Não havia vergonha ou culpa nas palavras daquele homem...

- Um dia, meu pai nos encontrou e descarregou toda sua ira sobre minha prima, expulsando-a juntamente com sua família.

- Durante um certo tempo, Boromir me trouxe notícias suas – o filho de Denethor agora se dirigia apenas a Tempestade, – O que não foi possível por muito tempo. Não soube de mais nada até que...

O príncipe de Itilien tremeu os lábios ao lembrar do que ocorrera depois.

- ... boatos sobre o ataque ocorrido após o rio chegaram à Cidade Branca. Fiquei desesperado. Boromir e eu, contrariando os desígnios de nosso pai, reunimos alguns soldados, porém chegamos tarde.

Os olhos de Faramir estavam marejados de lágrimas.

- Encontramos apenas... sua família... seus... corpos... e nenhum sinal seu. Busquei por você durante dois dias e duas noites, então rezei para que tivesse sido morta rapidamente, pois sabia que se chegasse viva a Mordor... – o filho de Denethor não conseguiu concluir. Deixou-se vencer pelas lágrimas levando uma das mãos aos olhos.

- Tudo o que pude fazer foi enterrar os corpos em Itilien, sem que meu pai soubesse, é claro. E esperar que não tivesse morrido sem me perdoar.

- Meus pais? Em Itilien? – indagou Anna surpresa.

- Sim...

- Está me dizendo, Faramir de Gondor, que meus pais e meu irmão estão em Itilien e não apodreceram em um buraco qualquer em Mordor? – Pela primeira vez em muitos anos os olhos da matadora de wargs souberam novamente o que eram lágrimas.

- Era o mínimo que eu poderia fazer, minha prima...

- Valoroso Faramir – disse Anna, colocando a mão no ombro do primo. – Vejo que continua não havendo limites para sua modéstia e honradez. Não pode imaginar a alegria que trouxe a meu coração.

- Estou perdoado, então?

- Nunca houve o que perdoar, Faramir. Toma sobre si uma culpa que não é sua.

O filho de Denethor sorriu. Parecia que o peso da montanha da perdição havia sido tirado de seus ombros.

Haldir sentia em suas veias uma fúria desconhecida até então.

- Creio que é hora de nos retirarmos, minha senhora – disse Haldir, segurando a esposa pelo braço e conduzindo-a a seus aposentos.

Faramir acompanhou o casal que se retirava e optou por ir em direção oposta, distanciando-se, assim, do conflito iminente, contudo este seria inevitável, pois Éowyn já o esperava. O Príncipe pode perceber pela expressão da esposa que não era há pouco tempo que ela os observava.