... Faramir acompanhou o casal que se retirava e optou por ir em direção oposta, distanciando-se do conflito iminente. Contudo outro conflito o aguardava, pois Éowyn já o esperava. O Príncipe pode perceber pela expressão da esposa que não era há pouco tempo que ela os observava.
Os olhos de Éowyn brilhavam, mas a dama de Rohan não se permitiu chorar. O brio da guerreira suplantava a decepção da mulher. O príncipe de Ithilien, por sua vez, viu-se sem saber como reagir diante dos mil pensamentos que deveriam estar se apoderando de sua esposa. Abriu a boca em uma tentativa de justificar-se, mas ela não lhe deu chance alguma e ofereceu-lhe apenas as costas em resposta, retirando-se para não mais se falarem, pelo menos por um bom tempo.
Quando chegaram ao quarto, Anna aproximou-se da janela, vislumbrando a cidade em uma tentativa de adiar por mais alguns instantes a conversa com o elfo.
- O que eu fiz, Tempestade – Haldir perguntou, enquanto apoiava as mãos na mesa – para ser digno de tamanha humilhação?
A mulher nada respondeu. Seria melhor deixar que o marido extravasasse de uma vez toda ira.
- Privei-a da morte, quando por esta ansiava? Resgatei-a de um mar de trevas e ódio no qual estava imersa? Fui compreensivo demais quando se recusou a dar-se a mim?
Silêncio.
- Esperei por você como nunca esperei por nenhuma outra. Devotei a você minha existência. Por qual destas faltas, minha senhora, resolveu me punir?
- Haldir, por favor, tente compreender...
- Compreender? Pede-me mais uma vez compreensão? Será sempre assim?
Tempestade não sabia o que dizer. Entendia que o elfo tinha razão em muitos pontos.
- Como acha que me senti, vendo-a abraçar seu primo com tanta desenvoltura, enquanto que até pouco tempo atrás rejeitou veementemente seu marido por tentar fazer o mesmo?
- Foi justamente você quem me libertou, Haldir! Você que arrancou de mim todos os meus temores. Curou todas as feridas de minha alma...
- Para que assim pudesse retornar para os braços de seu amado Faramir? – Haldir finalmente encarou a mulher.
- Não!
- Agora entendo porque seu coração chorava por Gondor... Como pude ser tão cego?
- Cego está agora, Haldir, se não vê que o único por quem meu coração bate é por você.
- Sua declaração enternece meu coração, minha esposa – disse ceticamente.
- Quer saber o que senti quando abracei Faramir?
- ...
- Acolhimento, carinho, ternura.
- Comovente...
- Sabe o que sinto quando abraço você? Plenitude, eternidade, vertigem, torpor, desejo...
- Então me responda, por que a mentira?
- Medo.
- ...
- Medo de que reagisse exatamente assim. Quando contei a vocês minha história, eu estava morrendo, não havia motivo... Depois, foi ficando cada vez mais difícil retomar o assunto, mas nunca quis enganá-lo.
- Pelo que pude compreender, não pretendia dizer a verdade mesmo depois de reencontrá-lo...
- Queria poupar a você e a mim este sofrimento desnecessário...
- Com mentiras? Como quer que eu acredite que não veio aqui em busca dele e que se não o tivesse encontrado casado, não correria para os seus braços?
- Minha palavra é tudo o que tenho para lhe dar como garantia, meu esposo.
Haldir nada respondeu. A ira dentro dele crescendo a cada minuto. Resolveu sair dali antes que cometesse algum desatino.
O elfo estava transtornado. Suas feições refletindo sua confusão interior. Percorria a esmo os corredores do palácio sem perceber quantas horas já haviam se passado.
Buscou auxílio nas muralhas reconstruídas. A noite já ia adiantada, trazendo consigo um frio que em nada se comparava àquele que envolvia o coração dele. E que nem mesmo o fogo da ira que percorria seu sangue conseguia abrandar.
Tempestade, Tempestade. Um turbilhão de emoções inebriando a mente, confundindo os sentidos. Levou as mãos ao rosto. Buscou ar. Queria, mas não conseguia acreditar nas palavras dela. Os argumentos daquela adán traiçoeira rodopiavam ao seu redor, contudo, a dúvida se instalara em seu coração e Haldir não sabia o que fazer para desterrá-la.
Pensou em voltar a Lórien. Ficaria um pouco sozinho e assim, longe dela, poderia refletir melhor, mas logo desistiu, sabia que se a deixasse ali, junto dele, não teria paz um minuto sequer. Cada segundo potencializaria um encontro, uma palavra, um afeto entre eles.
Elevou os olhos às estrelas, implorando por uma luz ou algo que o guiasse naquela escuridão.
E as estrelas o ouviram.
- O que poderia ter acontecido a ponto de lhe tirar a paz dessa maneira, Haldir?
O elfo olhou surpreso para a rainha que se colocava a seu lado.
- E o que faz a senhora de Gondor ao relento a uma hora dessas?
- Justamente porque sou senhora dessa terra, Haldir, devo zelar por todos que nela habitam, ainda que temporariamente. Não pude deixar de perceber a ausência de meus hóspedes durante o jantar.
'Pelo Único, o jantar!' Esquecera-se por completo de dar qualquer satisfação que fosse aos anfitriões e amigos.
- Por favor, perdoe-me tal indelicadeza, Undomiel. Eu... nós...
- Shiiii! – disse a elfa, colocando a mão delicada sobre a boca de Haldir – Acalme-se, meu amigo. Não estou aqui para lhe cobrar nada. Sei que algo de muito grave deve ter acontecido. Quando fui aos seus aposentos após o jantar, eu o vi sair como um furacão. Caminhou sem rumo pelos corredores durante todo esse tempo.
- E me acompanhou sem que eu o percebesse? Como? Eu deveria estar realmente fora de mim!
- Disso não duvido. Mas preciso saber se vai me contar o que está acontecendo.
- Não sei se sou capaz, se teria coragem...
Haldir fitou a amiga. Um sorriso de Arwen foi suficiente para recordá-lo da amizade que os unia...
- Espero que tenha tempo. É uma longa história...
A elfa assentiu e Haldir começou a abrir seu coração.
Tempestade andava de um lado para o outro no quarto. Seu marido estava demorando mais do que ela poderia suportar e ela decidiu ir procurá-lo.
Andou por alguns corredores e não o encontrou. Chegou ao alto de uma torre e lá ficou, até que uma presença atrás de si chamou sua atenção. Em um reflexo desembainhou a espada, levando-a até a garganta do recém-chegado.
- Calma, minha prima – disse Faramir. – Eu vim em paz.
- Sinto muito, meu primo. Anos de condicionamento são difíceis de superar...
- Eu sei. Soube de suas proezas.
- Proezas? Se lhe contaram a verdade, deve saber que não me orgulho delas...
- Tornou-se uma mulher admirável, Anna, embora insista em negar isso – disse, colocando-se ao lado da jovem.
- E quanto a você, príncipe de Itilien? É o segundo em comando em Gondor. O povo o ama, o rei abençoado o respeita. Conquistou para si o amor de uma mulher inigualável...
- Sim, conquistei – disse com voz cansada – e espero não a haver perdido esta noite.
- Lamento que estejamos unidos neste temor, meu primo.
Tempestade silenciou. Faramir também não sabia o que dizer. Ambos estavam destroçados. Minutos depois, o príncipe de Itilien tentou retomar o diálogo.
- Seu esposo... ainda está...
- Sim...
- O elfo me pareceu um marido cioso e devotado.
- E o é – confirmou a mulher, recordando-se de todos os cuidados de que já fora objeto nas mãos de Haldir.
Um breve silêncio se instalou entre ambos antes que Faramir prosseguisse:
- Éowyn irá a Rohan ao nascer do sol...
A revelação do primo caiu como uma rocha por sobre a cabeça da mulher. Sentimentos de culpa a invadiram. Já não bastava ter arruinado a vida de Haldir e a sua própria? Também viera por fim à abençoada felicidade de um casal que atravessara toda sorte de intempéries a fim de conquistá-la.
- Faramir, eu lamento tanto...
- Não se culpe – disse incisivo. – Ninguém pode escapar do próprio passado ou pretender que alguém o ame sem que o conheça por inteiro. Ela retornará... Se me amar realmente, retornará.
- E se não retornar?
- Então cavalgarei até Rohan e a trarei de volta – concluiu, convencendo a si mesmo de que poderia dar uma solução simples a um problema deveras complicado.
- Mas Faramir...
- Não descansarei enquanto não tiver a mulher que amo de volta em meus braços, minha prima. Ainda que para isso precise percorrer toda a Arda em busca de algo que a agrade.
E a firmeza da resolução de Faramir deu à Tempestade a certeza de que para não perder Haldir, ela também deveria estar disposta a tudo.
O sol já despontava no horizonte quando o elfo vislumbrou a caravana que deixava a cidade sob a bandeira da terra dos cavaleiros. Haldir passara a noite em claro sobre a muralha. Não sentia que poderia retornar ao quarto. De fato, não sentia que poderia retornar a parte alguma.
A rainha fora gentil em ouvi-lo e por alguns momentos sentiu o coração aliviado de tantas incertezas, contudo mal a elfa se retirara, voltou a sentir o coração esmagado pela frustração.
Caminhou por sobre a muralha, indagando a primeira sentinela que cruzou seu caminho:
- Para quem os portões se abriram há pouco?
- A Senhora de Rohan, meu senhor.
Haldir sentiu uma espada penetrar-lhe o crânio e o sangue fugir de seu rosto.
- Algum problema, meu senhor? – argüiu o soldado preocupado diante da reação do estrangeiro.
- Não é nada – balbuciou Haldir, retirando-se em um esforço tremendo de mover as pernas a fim de não chamar a atenção para si.
Caminhava lentamente, mas em sua mente, os pensamentos vinham como enxurradas. O caminho livre. Tempestade agora tinha o caminho livre para aquele a que sempre amara verdadeiramente. Como fora tolo! Um tolo! Haldir se odiava naquele momento. Mais do que recriminar a mulher, recriminava a si mesmo, ainda que ela não se atrevesse a atravessar seu caminho agora. Sabia que não conseguiria conter sua ira.
Encontrou uma pilha de escombros. Resquícios de uma guerra que agora pertencia ao passado. Apoiou-se neles. Sentou-se. Já não conseguia pensar e caminhar ao mesmo tempo. Escombros. Era no que sua existência se tornara. Jamais conseguiria reconstruir sua vida. Desde que encontrou aquela mulher, algo sempre estava desmoronando. Haldir esmurrava as pedras. A ira crescendo dentro de si. Atirou algumas para longe. Esmagava as menores com as mãos. E percebeu tarde demais quando a pequena, mas letal criatura picara-lhe a mão antes que esta a esmagasse.
