Anna corria desesperada. 'Um escorpião?', custava a crer. 'O que, em nome de Mordor, aquele elfo insano foi fazer em um monte de escombros?'
Abriu a porta do aposento e antes de tomar fôlego percebeu a presença do rei que se debruçava sobre Haldir ministrando-lhe seus cuidados.
- O veneno já penetrou demais em seu sangue – comentou Aragorn sem olhá-la – não sei por quanto tempo ficou desmaiado antes de o encontrarem – disse antes de mergulhar novamente o pano na água fria a fim de colocá-lo por sobre a testa do elfo.
- Rei Elessar – disse Tempestade enquanto se colocava ao lado de Haldir e segurava a mão enfaixada do marido – abençoado é o povo que o tem por governante e aqueles que o têm como amigo.
O rei fitou a mulher por um breve instante.
- E para que mais existem as habilidades de um rei que não para servir aqueles que se colocam sob sua proteção? – concluiu antes de tomar de Anna a mão que segurava.
Aragorn tirou-lhe as ataduras a fim de untar o ferimento novamente. Tempestade prendeu a respiração ante a gangrena evidente.
- Esse ungüento combaterá o veneno, meu Senhor?
- Não. Ele combate a gangrena local. Aquele frasco - respondeu o rei apontando o pequeno objeto ao lado da cabeceira - possui o preparo que dei a Haldir.
- Há o suficiente? – indagou Anna incrédula diante do minúsculo objeto.
- É um remédio tão forte quanto eficaz. Algumas gotas são suficientes para alguém do tamanho de Haldir. No caso dele os remédios mais leves não ajudariam, pois, como disse, o veneno já se espalhou demais.
- Deu-lhe apenas algumas gotas?
- Sim, mais do que isso, ao invés de ajudá-lo, poderia matá-lo. Agora só podemos esperar, Tempestade – comentou Elessar enquanto se levantava – voltarei em algumas horas para ver se ele reagiu...
- E se não reagir...? – indagou Anna fitando o rei em busca de esperança.
- Então veremos... – respondeu o rei consternado por não possuir uma resposta melhor – talvez lhe ministre mais algumas gotas, mas não gostaria de fazê-lo até amanhã. É muito arriscado.
A mulher assentiu e voltou a olhar o elfo. 'Haldir era forte.' Consolou-se. 'Conseguira sobreviver a outros infortúnios. Superaria também este.' Buscava convencer a si mesma.
Tempestade pôs a mão por sobre o pano na testa de Haldir. 'Como esquentou tão rápido?', perguntou-se enquanto mergulhava-o novamente na água fria e o recolocava. A mulher depositou um beijo suave na face febril e seus olhos miraram o pequeno frasco. Tomou-o nas mãos guardando-o consigo. Uma decisão tomava forma em seu coração.
- Como ele está? – indagou a figura encapuzada que adentrara o quarto sem que a mulher percebesse.
- Nada bem – respondeu Anna sem tirar os olhos do marido.
- Se está sob os cuidados do rei, há de sobreviver – disse colocando a mão por sobre o ombro da prima.
Tempestade levantou-se agoniada buscando ar. Temerosa de agarrar-se a falsas esperanças. Só então percebeu o estado do primo.
- Vai a algum lugar?
- Vou a Ithilien. Permanecerei por lá por alguns dias até ter alguma notícia. Caso não as tenha, farei o que lhe disse.
Anna suspirou. O olhar vazio chamou a atenção do primo que a inquiriu com o olhar.
- Não creio que ele dure muito tempo, Faramir.
A desesperança na voz da prima fez tremer o coração do príncipe.
- E se ele morrer? – indagou o rapaz temeroso da resposta.
- Eu irei em seguida – respondeu a mulher lembrando-se do pequeno frasco.
Faramir sentiu o sangue gelar. Quão injusta era a sina daquela mulher. Tanto sofrimento seguido de alguma ventura apenas para perdê-la tão brevemente. Ele a recomendaria à rainha antes de partir. Arwen, por certo saberia como lidar com tamanha desesperança melhor do que ele mesmo. Confiaria a ela sua última parente de sangue.
Sem saber que palavras dirigir à prima ante tão triste comentário, despediu-se silenciosamente. Tempestade colocou-se novamente ao lado do marido a fim de secar-lhe o rosto. Ao que percebeu em Haldir movimentos que não se deviam apenas ao tremor da febre. O elfo parecia querer dizer alguma coisa. Movia a cabeça levemente para os lados como se quisesse acordar. Anna buscou consolá-lo.
- Calma, meu amado, eu estou aqui. Tudo vai ficar bem – a mulher quis realmente acreditar nesse fio de esperança que surgira. Talvez Haldir estivesse lutando contra o veneno, afinal.
A voz da mulher chegou confusa aos ouvidos do elfo. 'Calma, meu amado, estou aqui.' Cínica, dissimulada, pensava ele, odiando-se por não conseguir acordar. Amaldiçoando-se por ter que escutar a conversa da esposa e do amante. As palavras faziam eco em sua mente:
- Vai a algum lugar?
- Vou a Ithilien. Permanecerei por lá por alguns dias até ter alguma notícia. Caso não as tenha, farei o que lhe disse.
- Não creio que ele dure muito tempo, Faramir.
- E se ele morrer?
- Eu irei em seguida.
Ele a aguardaria em Ithilien, e ela, aquela cobra traiçoeira, aguardaria apenas o momento de sua morte para correr para os braços dele. Haldir retomara a consciência apenas para escutar aquele diálogo vil. Que crueldade era essa que o Único fazia a ele? Ou seria uma chance que estava recebendo de se libertar de vez dos braços daquela armadilha que a vida lhe reservara? Não, não poderia se entregar. Não daria aos dois esse prazer. Viveria, sim. Ah! Se viveria. Não precisariam aguardar por sua morte para ficarem juntos. Ele mesmo, Haldir de Lórien, entregaria aquela leviana aos braços do 'nobre' Faramir e lhe diria que fizesse bom proveito. E retornaria a seu povo sem uma gota sequer de arrependimento ou remorso. Mas para isso, precisava acordar, precisava abrir os olhos e fazer com que seu corpo obedecesse os comandos de sua mente. E lutava bravamente contra aquela sensação de morte, contra aquele algo que buscava incessantemente arrancar-lhe a alma do corpo.
A face de Haldir era a imagem do desespero. Tempestade, que a princípio, quis se alegrar com a suposta reação do elfo, começou a temer que ele estivesse agonizando. Até o final da manhã, seu marido se debatia na cama como que procurando acordar de um pesadelo.
- O que está acontecendo? – indagou o rei preocupado.
- Eu não sei, meu senhor, está assim há várias horas.
- Onde está o remédio, Tempestade? – inquiriu Elessar ao sentir a falta do frasco ao lado da cabeceira.
- Eu o guardei comigo, meu senhor – respondeu desconcertada depositando o pequeno objeto nas mãos de Aragorn que olhou desconfiado para a mulher.
- Diga-me que não deu a Haldir uma gota seque desse frasco, Tempestade.
- Não, meu senhor – respondeu a mulher, temerosa de que suas verdadeiras intenções fossem reveladas – apenas não quis deixá-lo ali. O senhor disse que era tão perigoso... – disse em uma mal sucedida tentativa de enganar o rei.
'Temo pela reação dela caso Haldir não sobreviva.'
Foram as palavras de Faramir à Arwen antes de partir em busca de sua esposa. A própria rainha o convencera de que não deveria esperar mais. Levaria dias para chegar a Roham e até lá Éowyn teria tido tempo suficiente para se acalmar. Então o príncipe partiu não antes de recomendar Anna mais uma vez aos cuidados do casal real.
O rei voltou suas atenções ao doente. Examinou-o com cuidado. A febre parecia haver cedido um pouco. Os lençóis estavam encharcados pelo suor do elfo. Aragorn compreendeu.
- Ele luta para sobreviver – disse em um tom de voz ligeiramente surpreso. Como se o próprio rei não acreditasse no que seus olhos presenciavam – mas seu espírito não está encontrando o caminho.
Elessar tomou as mãos do elfo nas suas e juntou-as em uma das mãos, para em seguida com a mão livre tocar-lhe o rosto.
- Haldir – chamou o rei – venha para a luz.
Aragorn quedou repetindo essa frase por muito tempo.
Anna, sem o perceber, também repetia, como que uma oração.
Após vários minutos de expectativa, os movimentos do elfo foram se acalmando, a respiração tornou-se mais compassada e após um suspiro que lhe esvaziou o peito, Haldir abriu os olhos fitando Elessar.
- Obrigado, por me trazer de volta, Majestade! – foi o que conseguiu dizer quase sussurrando.
Aragorn sorriu.
- Será que nem em um momento como esse, nobre Haldir, tenho a ventura de ouvi-lo chamar-me pelo nome como um amigo, deve chamar a outro?
O elfo quis sorrir. Sim, em seu íntimo ele ainda era Aragorn, Passolargo. E era assim que Haldir o via, mas ele, o guardião de Lórien, habituara-se a tratar com a devida deferência os senhores de Arda independentemente de sua origem, Edain ou Eldar.
- O senhor foi para mim, um farol, nobre rei, que guiou minha alma de volta para esta terra.
- Estávamos ambos perdidos, querido amigo, foi o Único que nos guiou a ambos.
Tempestade observava embevecida o diálogo que transcorria a sua frente. Sem conseguir se conter por mais tempo, pôs-se ao lado do marido.
- Haldir, graças que está vivo...
Já ida beijá-lo quando a mão de Haldir a afastou.
- Não se atreva a se aproximar de mim criatura das trevas. Não pense que poderá me envolver novamente em seus ardis.
A surpresa nos olhos de Aragorn diante da inesperada reação de Haldir só não era maior do que a total incompreensão dos fatos que se alojara na face de Anna. Esta, não conseguiu sequer formular uma pergunta.
- Haldir...
- Não pense você que aos olhos do Único as más ações permanecem encobertas e Este mo concedeu conhecer as suas, mulher leviana.
Tempestade se afastou lentamente da cama, da qual Haldir já buscava escapar, para desespero de seu cuidador.
- Não é prudente que se levante agora, meu amigo, acalme-se.
- Nada poderia trazer-me mais males do que continuar na presença vil desta perversa que acolhi em minha vida.
O rosto de Haldir era pura indignação. O que poderia Tempestade ter feito? Refletia o rei, se estava disposta a acompanhá-lo para onde fosse, ainda que para a outra vida? Anna quedou-se imóvel, sem saber exatamente do que se defender. Atônita diante da fúria do marido.
O guardião, ao ver a falta de reação da adan, mal podia acreditar em seu cinismo. Não haveria de fato nenhum pingo de caráter nela?
- Recuso-me a acreditar, 'minha esposa', que não esteja a recordar o recente diálogo que manteve neste mesmo quarto com seu 'primo adorado'.
- Faramir?
- E quem mais seria? Cínica!
Sim, aos olhos de Haldir, Anna era a mais dissimulada das mulheres. Nunca vira nenhuma delas sustentar uma mentira com tamanha desfaçatez.
- Estava esperando minha morte para acompanhá-lo a Ithilien? Pois bem, não precisa mais esperar. Eu a liberto agora de qualquer laço que tenha estabelecido comigo. É bom se apressar, pois ele deve estar ansioso a sua esperara!
- Haldir o que pensa ter ouvido? Eu...
- Saia!
A este último grito os temores de Aragorn se concretizaram e Haldir sentiu suas pernas fraquejarem, mas não a sua consciência. O rei ajudou-o a sentar-se na cama enquanto dirigia a Tempestade um pedido desesperado.
- Em nome do Único, Anna, seja qual for o mal entendido que está entre vocês, deve ser deixado para depois. Vá antes que ele se mate!
A mulher hesitou um pouco antes de sair do quarto. Mas as palavras de Elessar eram sábias e, ainda que a contragosto, ela o atendeu.
- Ele está dormindo? – indagou a rainha.
- Finalmente está. Quase não consigo fazer com que se acalmasse – respondeu Aragorn exausto.
- Vá descansar um pouco, meu amado. Eu ficarei aqui. Não é prudente deixar o impetuoso Haldir aos cuidados de alguém que não seja capaz de conter seus rompantes. E esse número de pessoas é bastante limitado.
- Eu não demoro – disse Aragorn, antes de depositar um beijo na testa da esposa e se retirar.
Arwen via que o sono de Haldir não era tranqüilo. Permaneceu a observá-lo por um longo tempo, enquanto montava as partes daquele confuso mosaico. Até que viu-se sob o olhar do amigo.
- Ela se foi? – indagou Haldir.
- Sim. Quer que mande buscá-la? – arriscou a rainha.
- Nem em mil anos! Deixe que fique para sempre nos braços de Faramir. Os dois se merecem.
- Do que está falando, Haldir? Faramir não está em Gondor.
- O que?
- Foi para Roham, em busca de Éowym. Parece que algumas sombras do passado se colocaram entre os dois.
- Creio que está enganada, minha rainha. Ele foi para Ithilien esperar por Tempestade. Sei o que ouvi.
- Sabe o que ouviu? Quando?
- Aqui neste quarto. Não sabiam que eu podia ouvi-los. Combinaram seu encontro em Ithilien. Ele iria primeiro e Tempestade disse claramente que após a minha morte, ela também partiria. Então, como não morri, eu mesmo a libertei de mim.
- Haldir, o que está dizendo? Seus ouvidos só podem tê-lo enganado!
- Questiona a percepção dos ouvidos de um elfo guardião de Lórien, Majestade?
- Sim – respondeu firmemente – questiono a audição distorcida em meio a uma febre atroz que trouxe a uma mente já perturbada por dúvidas palavras que esta mesma mente interpretou de uma forma ainda mais distorcida!
- Que quer dizer, Undomiel? – indagou Haldir sentando-se na cama com as costas recostadas na cabeceira. Um raio de preocupação nos olhos pela certeza implícita nas palavras da rainha.
- Faramir ia de fato para Ithilien, mas seu intento era aguardar alguns dias antes de ir Roham em busca de Éowym. Eu mesma o convenci a seguir para Edoras. Nunca vi o filho de Denethor tão desesperado. E quanto a Tempestade, pelo que sei, ela estava pronta a partir após sua morte, mas não para seguir a Faramir. Ela seguiria seu marido em uma atitude insana de tirar a própria vida. Foi o próprio príncipe que me pediu para protegê-la de si mesma. Acha que Tempestade traria isso consigo para quê? – inquiriu a rainha mostrando o pequeno frasco ao elfo.
- Será que eles também não a engaram, minha rainha? – indagou Haldir com medo de acreditar na verdade.
- Acha realmente que conseguiriam enganar a mim e ao rei? E se de fato essa versão louca dos fatos que sua mente entorpecida pelo veneno criou fosse verdade, acha que eles ficariam tranquilamente em Ithilien expondo-se ao julgamento de todos? Pois um comportamento assim não seria tão facilmente tolerado.
As palavras de Arwen faziam sentido. Sem dúvida alguma. A elfa silenciou por um tempo enquanto observava o amigo digerir a nova ordem dos fatos que lhe parecia, é verdade, mais sensata e de acordo com o que vira até agora do que o engodo que sua mente tentara lhe pregar. Fitou longamente o frasco que Arwen depositara em sua mão.
- Ela realmente se mataria?
- Ela não se lançou de cima de uma muralha por você, Haldir? O que o impede de acreditar que ela se lançaria outra vez?
O elfo respirou fundo.
- Então talvez fosse eu aquele que deveria dar cabo da própria vida. Eu lhe disse palavras horríveis... – comentou, fitando a janela.
- Estou certa de que tais palavras de ódio podem ter seu efeito anulado por suas palavras de amor – propôs a rainha com a mão por sobre a do amigo, atraindo para si sua atenção.
- Será que ainda tenho dentro de mim amor suficiente para isso? Deixei-me levar por tanto ódio!
Arwen sorriu, antes de se levantar. Apenas ela era capaz de dizer sim de uma forma tão delicada.
- Ela deve estar vagando pelo corredores do castelo – disse, enquanto se levantava da lateral da cama – tão perdida como você se sente agora. Necessitados de reencontrarem um ao outro – concluiu, antes de deixar o quarto.
