Tempestade percorria os corredores do palácio sem saber o que fazer. As palavras de Haldir ainda ecoavam em seus ouvidos. Por que vieram a Minas Tirith? Somente para se perderem um do outro?
Viu-se em um corredor sem saída com algumas portas antigas e empoeiradas. Não poderia prosseguir. Não queria voltar. Esmurrou a madeira de uma delas com as duas mãos. Um urro saindo pela garganta. A fúria incontida. A raiva envenenando o sangue élfico. O coração descompassado. Transtornado. Irado. Atraindo para si outro coração.
Ele sentia seu coração se acelerar à medida que percebia o ódio crescendo em seu par. Passos decididos a por um fim àquele mal entendido. Caminhava guiado mais pelo instinto que pela razão.
Ela apoiou as costas na madeira fria. Escorregou aos poucos. Encontrou o chão. Buscou acalmar a respiração. 'Elfo maldito!' disse revoltada consigo mesma. 'Fizeste-me prisioneira de teus olhos claros.'
Ele parou. Algo dentro de si impedira-o de prosseguir. Olhou para os lados. Um corredor mal iluminado capturou sua atenção. As rápidas passadas foram substituídas por passos cautelosos como se estivesse de volta à Lórien a espreitar um intruso. Aproximou-se dela. Não percebeu reação alguma. Até que viu-se sob o olhar feminino.
Ali estavam eles. Os malditos olhos azuis. O coração sentiu um estranho alívio. Chegara a crer que ele jamais viria a ela novamente. Viera. Mas não conseguia imaginar como poderiam se entender. Não depois de tudo o que havia sido dito.
Ele se aproximou lentamente, quase temendo assustá-la. Quando já estava próximo, estendeu a mão a ela.
Castanhos femininos fitaram azuis. 'Arrogante! Depois de tudo o que disse, acredita que basta vir até aqui e tudo será esquecido?' Ela virou o rosto. Queria que ele se fosse dali ao mesmo tempo que temia que isso acontecesse.
A mão masculina continuava estendida. Ele havia visto o conflito em castanhos e não desistiria tão facilmente.
Ela voltou a olhá-lo e alternou o olhar entre a mão que lhe era oferecida e os olhos de azul infinito. 'Depois de tudo o que ele havia dito, por que viera até ela? Que jogo cruel era aquele?'
Ele leu a mágoa que emanava daquele olhar, um fruto amargo que ele mesmo havia semeado. Como conseguiria convencê-la de que estava arrependido dos desvarios que proferira? Como sarar aquelas feridas que ele havia causado a ela?
Os joelhos masculinos se dobraram, suplantando o próprio orgulho. A mão, antes estendida, agora descansava sobre o joelho, enquanto ele buscava por uma brecha no rosto de mármore que o encarava. Os dedos pareciam agir por si mesmos ao se aproximarem da face feminina, que recuou. Doeu. Ele baixou os olhos. Os caminhos até o coração dela estavam fechados. Haviam sido interrompidos por uma avalanche de calúnias que ele mesmo havia causado. Como conseguiria retirá-las? Respirou fundo e tornou a erguer os olhos.
- Perdoe-me – rompeu o silêncio.
Ela franziu o cenho.
- Perdoe-me por minha insegurança e por minhas palavras torpes.
O maxilar dela enrijeceu. Ele percebeu que o caminho seria ainda mais árduo do que ele supusera.
- Eu estava confuso e perdido. Deixei-me levar pela desconfiança ao saber sobre uma parte de seu passado que eu ainda não conhecia...
A respiração dela se acelerou. Um sinal claro da raiva que se recusava a ceder.
Ele engoliu seco. O que mais poderia dizer? Como se justificar sem se humilhar ainda mais?
- Sei que agi de forma impensada. Estava com medo... eu... temia que... fui um covarde... eu... não pude suportar o pensamento que de alguém além de mim... – ele desviou o rosto. Não conseguiu terminar a frase. Envergonhado do quanto havia se rebaixado.
Algo se revolveu dentro dela. De alguma forma a visão do orgulhoso Galadhrim ali, falando de seus temores e tropeçando nas próprias palavras arrefecera o fogo da ira.
- Medo?
Ele enrijeceu. Aguardou pelo que ela faria diante das palavras dele. Que atitude impensada! Nem se sentia mais um guardião de Lórien.
Ela percebeu que o amor-próprio dele havia sofrido um sério golpe com aquela confissão inesperada. E embora a mágoa ainda persistisse, ela tinha de admitir que ele estava fazendo o possível e que, se ele havia errado, não tinha sido o único.
- Eu não deveria ter escondido nada de você... – ela murmurou com voz rouca.
Ele voltou a olhá-la e a esperança renasceu em seu coração. Deixou que um instante de silêncio antecedesse suas próximas palavras.
- Não... não deveria – ele confirmou, aliviado por não ser apenas ele a admitir os próprios erros.
Ela trincou os dentes.
- Mas, de certa forma... agora entendo por que o fez.
Ela o olhou mais intensamente. Ele ficou satisfeito que haver prendido a atenção dela. Não deixaria que aquela chance se perdesse.
- Entendo o que temia – ele ponderou.
Ela estreitou os olhos.
- Temia o monstro que a acusou sem provas...
Ela percebeu que a expressão no rosto dele era quase... dolorida.
- Um monstro que se deixou levar por sentimentos tão indignos e que a ofendeu tanto que...
- Basta... – ela o interrompeu, virando o rosto. – Não suporto ouvi-lo falando assim. Você não é... você nunca foi... nem um covarde nem um monstro.
Os olhos dele brilharam. Aquelas palavras significavam muito. Ela ainda o considerava.
- E você não foi o único que errou... – ela completou, sem conseguir, contudo, olhá-lo nos olhos.
O coração dele se aqueceu. Mirou a mulher diante de si, buscando a essência do amor que ele sabia que ela tinha por ele. Aquele amor estava ali em algum lugar.
- Talvez devamos deixar de falar em erros... – ele propôs.
Ela percebeu a intenção dele. Sabia que ele tentava juntar os pedaços daquilo que eles haviam tido. E sentido.
- E do que mais falaríamos? – ela murmurou, rezando para que ele tivesse a resposta.
Haldir deixou que um sorriso discreto aparecesse em seu rosto.
- Sobre nós... sobre o que ainda somos um para o outro...
Ela voltou a olhá-lo, desejando que aquela luz que emanava dele voltasse a envolvê-la.
Ele sentiu confiança e a mão que repousava no joelho foi estendida novamente.
Ela suspirou, percebendo que não conseguiria mais resistir e aceitou a oferta de Haldir e ambos ficaram de pé. De certa forma, os erros que haviam cometido perderam a importância diante do que poderiam viver daquele momento em diante.
Ele beijou a mão que aceitara sua oferta, fazendo-a estremecer.
Ela sentiu o calor dos lábios dele mandando embora a mágoa fria.
Ele ergueu os olhos e aproximou o rosto do dela. As testas se tocaram. Fechou os olhos, aspirando o perfume feminino. Não passou disso. Algo dentro dele ainda temia uma recusa da parte dela caso buscasse seus lábios.
- Estou perdoado? – indagou em um sussurro.
O hálito morno que aquece a face. Palavras aquecendo o coração.
- Essa pergunta anda precisa de resposta? – ela sussurrou.
Ele sorriu.
- Precisa – ele sussurrou de volta. – Sinto que perdi o direito de habitar seu coração quando a caluniei. Preciso que volte a abrir as portas dele para mim. Não entrarei novamente sem sua permissão.
Ela sorriu pela primeira vez.
- Ah Galadhrim. Fizeste-me prisioneira de teus olhos claros e de tuas palavras doces – ela pousou as mãos no peito dele. – A permissão está dada, desde que, de tua parte, nunca mais rompa as correntes que me prendem a ti.
Um fogo se acendeu no peito de Haldir e ele tomou o rosto dela entre as mãos.
- E de tua parte, tranque me em teu coração, para que eu jamais torne a sair dele.
Bocas que se reaproximam. Desarmadas. Reconhecendo-se. Ainda eram os mesmos apesar de tudo.
...
