Sentia a maciez dos lençóis. O aconchego da cama convidando o corpo a permanecer naquele torpor inebriante. Estendeu o braço para o lado buscando pelo companheiro sem o encontrar. Abriu os olhos. Haldir estava sentado à beira da cama, observando-a com um sorriso enigmático.
- Como passou a noite? – perguntou o elfo.
A mulher se espreguiçou lânguida.
- Não precisa responder – disse irresistivelmente arrogante.
Tempestade fitou o marido. Era como um sonho. De repente nada mais tinha importância. A raiva que sentira fora dissipada pelos carinhos de seu par. Não valia a pena. Irar-se só a fazia infeliz. Deixar-se envolver pela luz de Haldir era muito melhor.
Ele se aproximou e passou as pontas dos dedos pelo rosto dela, enquanto a olhava com um sorriso enigmático nos lábios. Ela compreendeu e sorriu de volta, antes de mergulharem um no outro novamente.
A mulher fitava a janela. Haldir se ausentara por alguns momentos. Não seria de bom tom ignorar um chamado do Rei Elessar.
Estava feliz. Sentia-se mais unida ao marido do que nunca. Seu coração ansiava por retornar a Lórien. Ao lar que aprendera a amar. Entretanto, a voz de Galadriel não calara nem por um minuto desde a saída do marido. 'Sabemos que não é apenas um segredo, Tempestade'.
Precisaria falar. Não seria justo esconder de Haldir algo tão sério. Não poderiam retornar à Floresta Dourada antes que esse último impasse fosse esclarecido. Talvez o mais difícil, por ser uma ferida a qual não havia remédio élfico ou edain que pudesse curar.
O galadhrim entrou, aproximando-se da esposa e envolvendo-a com o mais carinhoso dos abraços.
- Por que torna tudo tão difícil? – indagou a mulher sem perceber que o fizera em voz alta.
- Do que está falando? – retorquiu o elfo intrigado.
- Perdoe-me – suspirou – preciso lhe falar. Lamento apenas que me falte a sutileza dos elfos para tal.
- O que há de errado? – perguntou, enquanto virava a esposa para si. – Não me esconda mais nada.
- Antes de mais nada, quero que saiba que apesar de eu o haver desposado sob as bênçãos dos elfos, se após ouvir o que eu vou dizer, você não desejar mais permanecer unido a mim, eu irei compreender e não questionarei nenhum ato ou palavra que venha a proferir. Não será necessária nenhuma justificativa ou aviso de partida. De todos os meus segredos, este deveria ter sido o primeiro a lhe revelar.
- Está realmente me assustando agora, minha cara. Coisa rara quando se trata de Haldir de Lórien.
- Haldir – suspirou –, lembra-se de tudo o que lhe contei sobre Mordor?
Algo o paralisou. Mordor? O que poderia haver ainda sobre a Terra Negra que fosse capaz de atormentar Tempestade daquela forma?
- Lembro.
- Ao chegar lá eu fui...
- Já disse que lembro – interrompeu o elfo, demonstrando não estar nem um pouco a vontade com aquela conversa.
- Lembra-se então de que fui ajudada por uma bondosa mulher, sem cujos cuidados teria morrido.
O galadhrim apenas assentiu.
- Quase paguei com a vida pelos abusos aos quais fui submetida.
O olhar de Haldir revelava sua total incompreensão. Por que tais recordações agora?
- Bom, não paguei com a vida... mas quando fui entregue aos braços de Yoleth, estava muito fraca... com uma forte hemorragia... a violência havia sido muito grande... – Tempestade buscava protelar por alguns instantes o que na realidade não poderia ser adiado.
- Eu era muito nova...- sentiu a voz embargada. - Muito nova...
Haldir tentou se aproximar, mas foi detido pelo olhar da edain.
- Muito frágil... não estava preparada... nem minha mente... nem meu corpo...eram muitos...juntos... – A mulher fazia apenas sussurrar agora e não fosse por sua audição élfica, o galadhrim não seria capaz de discernir as palavras pronunciadas por ela.
O guardião sentia em si o sofrimento revivido por sua esposa. Ela nunca entrara em tantos detalhes assim sobre o que passara. Haldir pensava que não poderia piorar. Estava enganado.
- E não foram apenas eles... seus... o que usaram...
- Chega! – O elfo não suportou mais. – Não vejo porque prosseguir com esse assunto sem propósito.
- Haldir... – a voz da edain chegou aos ouvidos do elfo como que um pedido de ajuda de uma criança.
O galadhrim compreendeu.
- Perdoe-me, minha querida – disse, tentando se aproximar antes de ser novamente impedido pelo olhar da mulher.
- Eles me feriram tanto, tanto, tanto – dizia enquanto abraçava o próprio corpo – doía muito. Eles me... me...
- O que eles fizeram, Tempestade?
Na pergunta do marido, a mulher pode sentir que ele seria capaz de sair dali naquele momento e estraçalhar todos os orcs que ainda vagassem pela Terra Média apenas para vingá-la.
- Eles me... destruíram. Não apenas destruíram meus sentimentos, tudo o que eu era. Como pessoa. Como mulher. Como... Eles tiraram de mim a possibilidade de um dia...ser capaz de... gerar... uma... vida...
Haldir sentiu o gelo percorrer-lhe da cabeça aos pés. Milhares de quadros perpassando sua mente. Desde o momento que vira Tempestade pela primeira vez até seus últimos instantes antes de deixá-la para atender ao chamado do rei. A força. O mistério. A honra. Tudo o que ela possuía e que o atraía como mulher. Todo o desejo que se fortalecera nos últimos dias. Toda força daquela união que lhe fizera vislumbrar um futuro pleno de realizações. Poderia ter tudo o que quisesse ao lado dela. Tudo menos... filhos.
Agora o guardião compreendia as palavras da edain. Ela lhe dera permissão. Poderia ir-se sem dizer uma só palavra. Sem explicações. Sem julgamentos. Apenas ir.
Tempestade aguardava, tentando ler no rosto de Haldir alguma pista de qual seria sua reação. O esforço foi em vão. Seu coração também não lhe dizia muita coisa. Sentia apenas o pesar que tomara conta do marido. A esperança de um dia poder ser feliz com ele ficando cada vez mais distante.
O galadhrim deu alguns passos em direção à esposa. Dessa vez, sem ser repelido.
- O que me sugere que faça, Tempestade?
A pergunta que saiu pela boca do elfo surpreendeu até mesmo a ele. Percebia que era seu coração e não sua mente quem falava. E deixou-se guiar por ele. Foi o que fizera nos últimos tempos. Continuaria a fazê-lo agora.
- Sugere que a deixe?
A mulher permanecia imóvel.
O eldar sentia-se flutuar, conduzido por uma estranha força que vinha não sabia exatamente de onde. Uma força que o impulsionava em direção a sua esposa.
- Uni-me a você por razões muito maiores do que as que eu próprio conheço. Não podemos presumir que foram apenas nossas vontades que prevaleceram. Deixamo-nos conduzir pelos desígnios do Único e apenas Ele poderia me afastar de você. E não creio ser esse o desejo Dele.
O queixo da mulher caiu. Castanhos marejados fitavam azuis intensos. Plenos.
- Deixá-la equivaleria a deixar a própria vida. Seria relegar minha existência a um vazio qualquer. Minha vida é ao seu lado, Tempestade. E quanto ao futuro – concluiu enquanto pegava uma das mãos da esposa – deixemos que o Único decida.
Enquanto falava, o elfo era tomado por um sentimento de plenitude totalmente incompreensível diante das circunstâncias. E que ele mesmo era incapaz de explicar, mas pelo qual era grato.
Tempestade apertou a mão que tomara a sua. Não houve necessidade de palavras. Haldir dissera tudo.
A mulher entregou-se aos braços do marido. Sua cabeça repousava sobre o ombro do elfo enquanto seu espírito experimentava uma paz inédita.
Haldir, sentindo o perfume dos cabelos da esposa, envolveu-a com toda ternura de que era capaz. Deixaria para outro momento a revelação de que aceitara o convite de Elessar para tornar-se seu Conselheiro.
