- Então resolveu partir, Minha Senhora?

- Sim, Haldir. Meu tempo nesta terra já se cumpriu – respondeu Galadriel.

- Sinto se for atrevimento meu, Minha Senhora, mas me parece um pouco...triste.

- Toda partida possui sua parcela de tristeza, meu caro galadhrim. Não posso dizer que não sentirei falta destas árvores, todavia, é meu coração quem me conduz às terras imortais.

Haldir baixou os olhos. Seria também este o momento de sua partida, caso não tivesse fincado raízes tão profundas na Terra Média. Algo dentro dele também ansiara por isso um dia. A pergunta era: ainda ansiava? Ou seria apenas uma nostalgia por ver tantos a quem queria bem partirem para não mais tornar a vê-los?

- Não perca a serenidade, Haldir – a voz da senhora da luz trouxe o elfo de volta. – Até o dia de hoje tem seguido seu coração. Vá para onde ele o conduzir e encontrará tudo o que sua alma busca.

- Meu coração me conduz a Gondor, mas sei que os sentimentos às vezes podem ser traiçoeiros, minha senhora.

- Não quando buscamos a felicidade dos outros e não apenas a na nossa. Querer o bem dos outros é o caminho mais seguro para a plena realização de si mesmo, seja eldar ou edain.

- Sempre ansiei por algo mais que a eternidade, minha senhora. Encontrei o que buscava nos braços de minha Tempestade. Contudo, sinto que ainda me falta algo.

- Ainda há um lugar para você nas terras imortais, Haldir, se assim o desejar.

- Não, minha senhora, por nada poderia deixar Anna. É por ela que vivo agora...Não sei por que me sinto assim...

- É apenas a eterna insatisfação dos mortais, meu caro Haldir...

- É mais que isso...

Galadriel estreitou os olhos. Podia ver uma mágoa no coração do guerreiro. Uma mágoa em relação a alguém a quem amava e exatamente por isso sentia-se ainda mais envergonhado.

- Os edain, apesar que não possuírem o dom da imortalidade... – o elfo virou o rosto sem concluir.

- Haldir...

- Ainda assim, eles podem...

- ...

- Eu não posso. Tempestade...

- Eu sei.

O elfo voltou o rosto para a rainha.

- Quando ela lhe contou isso, minha senhora?

Um sorriso foi a única resposta que o galadrim obteve. Haldir compreendeu.


De volta a Minas Thirith, o elfo não tardou em se apresentar ao seu senhor. E apesar do que muitos poderiam pensar, era motivo de honra servir a um nobre mortal, principalmente quando se tratava do valoroso rei Elessar.

- Como foi a conversa com a Senhora da Floresta Dourada, meu caro Haldir?

- Triste, meu senhor Aragorn. Ela partirá em breve.

- Por favor, meu amigo, trate-me apenas por Aragorn ou Elessar. Já lhe pedi tantas vezes...

- Não é apropriado, rei Elessar.

- Então pelo menos quando estivermos sozinhos ou entre amigos.

- Se é tão importante assim...

- Não imagina o quanto.

- Então que seja... Elessar.

Aragorn sorriu. Haldir sorriu também.

- Seu sorriso é triste, meu amigo.

- Sinto que parte de mim irá embora juntamente com a senhora Galadriel. Muito do que fui, do que sonhei, um dia.

- Está... arrependido?

- Não.

- Então, meu caro, tenha paciência e o tempo levará embora sua tristeza, enquanto isso...

- Papai! Papai!

- O que é isso? – perguntou Aragorn aos filhos antes que estes o levassem ao chão. – O reino está sendo invadido?

Haldir deixou a sala do trono com o coração pesaroso. O que não passou despercebido por Arwen que já corria em busca dos meninos de dois e quatro anos que lhe escaparam em busca do pai.

- O que houve, Haldir?

- Galadriel partirá em breve.

- Não é esse o motivo de sua tristeza.

- Conhece-me como ninguém, minha rainha.

- Conversaremos mais tarde.

Haldir baixou a cabeça suavemente aquiescendo ao desejo de Arwen.

- Só uma pergunta, minha senhora. Onde está Tempestade?

- Oh, Haldir. Ela pensou que se demoraria mais em Lórien e foi passar alguns dias em Itilien, ao lado de Éowyn. Faramir se encontra em uma missão a pedido de meu marido.

O elfo fez uma reverência e saiu contrariado.

'Sempre em Itilien.' Refletia Haldir enquanto rumava para casa. 'Desde que nos mudamos para cá, passa mais tempo lá do que na sua amada Cidade Branca!' Haldir tinha vontade de esmurrar as paredes das casas pelas quais passava. E a poderosa presença do elfo se fazia notar entre os habitantes que se afastavam respeitosamente ante a passagem do Conselheiro Real.

'Talvez não sentisse tanta falta da cidade afinal e sim...' O elfo balançou a cabeça tentando expulsar os maus pensamentos. Era absurdo. Tempestade era teimosa, sim. Era temperamental e imprevisível, porém o amava. Ele sentia isso em cada detalhe de suas vidas. Nos pequenos gestos. Nas mínimas palavras. Nos carinhos. Sim, apesar de cinco anos já haverem passados, a rotina não conseguiu arrefecer aquele amor forjado em meio às mais duras provações. Anna fazia de tudo para vê-lo sorrir. Disse que aprenderia a ser gentil como Éowyn e graciosa como Arwen. O elfo sorriu ao lembrar-se da cena. Sua impetuosa guerreira se propondo a agir como uma dama da corte!

Apesar de que nas últimas semanas estava mais voluntariosa do que nunca. Impaciente. Qualquer coisa a irritava.

Haldir chegou em casa ansioso por um banho e um pouco de descanso. Depois trataria de mandar um mensageiro a Itilien avisando que retornara.

Ao abrir a porta, o primogênito foi surpreendido por uma presença mais do que inesperada. A figura feminina olhava pela janela.

- Seja bem vindo, meu esposo – disse Tempestade sem se voltar.

Haldir aproximou-se sem dizer nada. Pôs as mãos nos ombros de Anna e sussurrou em seu ouvido.

- Senti sua falta.

Anna sorriu, virando apenas o rosto e ficando com a face a poucos centímetros da face de Haldir.

- Seu sorriso ilumina minha vida, minha cara.

- Meu sorriso é obra sua, meu senhor.

Dessa vez foi Haldir quem sorriu, contudo um traço de melancolia anuviou a expressão dos lábios do elfo. E tempestade percebeu.

- Algo o incomoda, meu esposo – afirmou a mulher.

- Impressão sua – o guardião apressou-se em dizer enquanto a abraçava e tentava desviar sua atenção. Tempestade não merecia saber de sua frustração, afinal, sabia que ela também sofria com sua esterilidade. Sempre que visitavam Éowyn ou iam ao Palácio, viam as crianças que jamais poderiam ter. No início, o amor de ambos fora suficiente, todavia é da natureza do amor querer se doar e se multiplicar.

- Éowyn está grávida – disse sentindo o coração de Haldir disparar.

- Pensei que ficaria mais tempo com ela – disse o guardião tentando não parecer afetado pela notícia.

- Não houve necessidade.

- ...

- O pequeno Théoden está satisfeito por ganhar um irmão.

Haldir suspirou. Era estranho que Tempestade estivesse se prolongando neste assunto. Era doloroso tanto para ela como para ele.

- Preciso de um banho – disse o elfo numa tentativa de encerra a conversa. – Deseja me acompanhar? – sussurrou aos ouvidos da esposa.

- Não estou muito disposta para isso hoje – disse a mulher.

- Não tem estado disposta para muitas coisas ultimamente, minha cara – disse Haldir contrariado antes de deixar de envolver Tempestade em seus braços e começar a sair da sala.

- Éowyn disse que é normal – disse Anna sem alterar o tom de voz como se falasse do tempo.

Haldir parou.

- As tonturas, os enjôos, o cansaço. Tudo isso faz parte.

A respiração do elfo se acelerava. Queria sorrir, porém temia estar compreendendo mal.

- E depois virão dores na coluna, inchaços...

As pernas do primogênito tremiam. Haldir olhou para elas. Não se lembrava da última vez que algo o fizera tremer assim.

- E quando finalmente chegar a hora – continuou a mulher, caminhando em direção ao elfo – ela não poderá me ajudar, pois parece que fomos abençoadas na mesma época... – dizia enquanto colocava a mão no ombro do marido.

Haldir não suportou mais e virou-se para encontrar a luz que vinha dos olhos de sua mulher. Queria dizer-lhe mil palavras de amor. Dizer como estava feliz e realizado. Que nunca se arrependera do que fizera. Que apesar da falta de filhos a amaria por toda vida. Contudo a única coisa que conseguiu dizer ao segurar a esposa pela cintura foi:

- Como?

O sorriso da mulher se alargou.

- A senhora da luz me disse que isso poderia acontecer um dia, embora não tivesse me dado a certeza. – respondeu colocando as mãos nos ombros do guardião. – Parece que os elfos continuam a me devolver o que Sauron me tirou – conseguiu concluir antes de ser silenciada pelo beijo de Haldir.