Mais uma vez chego ao final desta história. E novamente sinto uma pontada no coração por fazê-lo. Foi minha primeira fic e sempre terá um espaço especial em meu coração.


- Deixem Gimli em paz, criaturinhas traiçoeiras! – A mãe estava zangada e as crianças bem sabiam que isso não era um bom sinal

- Não foi nada, Tempestade, são crianças, estão apen...aaaaaaiiiiiii!

- Apenas tentando arrancar sua barba! – O pai já vinha em socorro do visitante.

Os gêmeos eram realmente idênticos, principalmente no que se referia à alegria que sentiam quando da chegada do anão. A menina, não menos que o menino, divertia-se com os falsos acessos de ira do filho de Glóin.

- Saiam de cima de mim! – ele gritou, levantando-se e pondo um fim à brincadeira.

- Está na hora do treino com arco – disse Haldir. – Vamos!

As crianças pularam nos braços do pai que quase já não podia com o pequeno casal que completaria seis anos em breve.

- Treino com arco... – murmurou Tempestade. – Deveria ensiná-los a usarem a espada.

- Arco e flecha são úteis para manter o inimigo distante – argumentou o elfo.

- E a espada põe fim aos que estão perto – retorquiu a mulher.

- Tudo a seu tempo, minha amada, em breve poderá ensiná-los também.

- Assim espero.

Longe de ser uma discussão, o diálogo era mais uma brincadeira do casal a qual os filhos observavam com prazer. Gimli também já se habituara ao estilo inusitado que aqueles dois encontraram de formar uma família.

- A menina também usará uma espada? – indagou o anão, apenas para se arrepender depois do olhar lançado a ele por Tempestade que não resistiu em provocá-lo.

- Tem medo que algum dia ela o desarme, Gimli?

O anão corou. Por várias vezes teve que responder às perguntas que os pequenos lhe faziam de quando ele e a mãe se enfrentaram. E estas, por sua vez, adoravam ouvir a versão da mãe.

- Voltaremos em uma hora – disse Haldir, antes de se retirar.

- Estaremos esperando, creio que Gimli ficará para o jantar – Anna comentou com uma amabilidade que aprendera a ter depois do nascimento dos filhos e que vez por outra surpreendia até a ela mesma.

- Como poderia resistir a um convite tão encantador? – comentou o anão, antes de uma sonora gargalhada.

Tempestade fixou os olhos nele. Gimli percebeu algo diferente naquele olhar. Ela aproximou-se, examinando a testa do anão antes de comentar:

- Esse machucado pode infeccionar.

O filho de Glóin nada disse. Apenas observou, enquanto Anna buscava um pano limpo e um jarro com água. Acompanhava os movimentos da mulher sem acreditar que faria o que tudo aparentava. Não foi à toa que, por um reflexo, se esquivou quando Tempestade tentou limpar seu ferimento.

- O que houve? – indagou a mulher. – Está com medo de que doa ou acha que vou machucá-lo?

- Está sob algum feitiço, Tempestade, para que se disponha assim a tratar de um machucado meu?

- O que há de tão extraordinário assim em uma mulher cuidar de um amigo ferido para que se justifique a necessidade de um feitiço? – retorquiu enquanto começava a limpar o corte. – Além do que, foram meus filhos que lhe fizeram isso.

- A alegria que eles me trazem compensa os riscos de tê-los por perto.

O comentário bem-vindo trouxe às faces do anão e da mulher um sorriso que demonstrava que ambos eram mais cúmplices do que poderia supor a maioria das pessoas.

- Espere que cresçam um pouco mais e creio que o farão mudar de ideia. Estão mais fortes e vivazes a cada dia que passa.

- Têm de quem herdar estas e muitas outras características, Tempestade – disse o anão, atraindo para si o olhar da mulher. E nesse olhar, Gimli pode perceber que realmente havia algo mais por trás daquele serviço que Anna lhe prestava.

O filho de Glóin segurou levemente o pulso que o cuidava, abaixando-o.

- Creio que já está suficientemente limpo, Tempestade. Agora você já pode me dizer o que vai pela sua mente.

A mulher suspirou, levantou-se e caminhou até a mesa, colocando sobre esta a água e o pano levemente sujo do sangue do anão. Sabia que não seria fácil, mas havia realmente algo a ser dito. Voltou-se na direção de seu interlocutor.

- Eu nunca o agradeci – disse, mirando o chão, antes de conseguir erguer os olhos e encontrar a dúvida que se instalou no rosto do anão.

- Do que está falando, Tempestade? – indagou depois de algum tempo.

Anna sorriu levemente antes de responder.

- Por muitas coisas. Creio que a lista é longa.

- Pois eu não sou capaz de imaginar um só item dessa sua lista – comentou cruzando os braços. – Poderia me esclarecer?

A mulher deu alguns passos em direção ao filho de Glóin e parou.

- Primeiro você me atingiu com seu machado dando início ao primeiro de nossos muitos desentendimentos – começou a dizer. – Não fora isso, eu teria passado por vocês naquele dia totalmente despercebida.

Gimli abriu a boca para comentar o fato, mas como não encontrou palavras, Anna prosseguiu sua narrativa.

- Depois não me deu um instante sequer de sossego, obrigando-me a me expor cada vez mais atraindo para mim as atenções de todos, principalmente de um certo elfo.

Nesse momento, um sorriso também começou a brotar no rosto do anão.

- Foi graças à sua provocação na sala do trono que ele veio a mim para me convencer a ficar em Helm. Por causa de sua obstinação em descobrir quem eu era, a verdade que poderia ter morrido comigo, veio à tona. Nunca foi minha intenção revelar nada sobre mim. Queria apenas ludibriar os orcs para que deixassem Elessar em paz. Caso conseguisse, acolheria com alegria a sorte que me fora reservada.

Tempestade deu mais alguns passos em direção ao amigo.

- Entretanto, você, anão teimoso, fez com que Haldir me percebesse, me desvendasse e assim tive direito a uma segunda chance nesta terra. E por fim, você abriu meus olhos para que eu acolhesse a luz que o amor de Haldir traria à minha vida.

Vencendo ainda mais a distância física que havia entre eles, a mulher se aproximou, colocando uma das mãos no ombro do anão antes de continuar.

- Se tenho hoje esta casa, esta família, devo muito a você. Eu nunca lhe agradeci por isso.

O filho de Glóin fixou seu olhar no olhar da mulher à sua frente durante um bom tempo. Ambos buscando a coragem necessária para dar o próximo passo. Para vencer por fim o pouco que ainda separava seus corações.

Tempestade já tinha dito tudo. O anão compreendeu.

Gimli colocou a mão sobre a mão amiga que aquecia seu ombro.

- Desde que a conheci, nunca me conformei que fosse trevas e não luz, Tempestade. Tanta força a serviço da escuridão! Tanta determinação sendo vilmente usada pelo inimigo. Era esse o pensamento que me punia. Desejava a todo instante desmascará-la a fim de descobrir que havia, lá no fundo, uma chance de redenção para você, mas sempre esperava pelo pior, para sofrer menos caso não fosse possível. Por isso, quando a vi defendendo Aragorn diante daquelas criaturas, não hesitei em lutar a seu lado. Quando ele propôs que fôssemos resgatar você das mãos deles, eu o segui sem questionar.

A mulher fechou os olhos deixando que as lágrimas, até então contidas, banhassem seu rosto. Ouvira da boca de Éowyn sobre a disposição de Gimli em resgatá-la. Recordava-se do quanto havia ficado surpresa. Somente agora, tantos anos depois, descobria o porquê.

O anão respirou fundo. Não se deixaria levar pela emoção tão facilmente. Não antes de dizer tudo que agora seu coração o inspirava.

Apertou um pouco mais a mão que ainda estava sobre seu ombro e levou a outra ao pescoço da mulher, que não ousava abrir os olhos, colando gentilmente sua testa na dela.

- Aprendi à querê-la como a uma filha, minha jovem – disse, por fim, antes de deixar ele também que as lágrimas viessem à tona.

Tempestade, que há muito tempo nutria pelo anão e por seus conselhos um respeito que em muito se assemelhava ao que nutrira um dia por seu pai, não mais resistiu, entregando-se, juntamente com Gimli, a um abraço libertador.

Sua família estava completa.