Anteriormente: Lily acha um pedaço de papel misterioso que voa pra ela, ela o pega e sai correndo
Capítulo Quatro: Algo Bom, Algo Ruim
Não tinha ideia de como seus pés a obedeceram tão prontamente mesmo com seu coração não parando de ameaçar sair pela boca. Vomitando a senha momentos depois e, tropeçando para dentro do buraco do retrato, Lily empurrou um quintanista da sua frente enquanto avançava pela Sala Comunal.
Trêmula, vasculhou o lugar, não precisando de muito esforço para encontrar seu alvo. Eles costumeiramente ficavam à um canto perto das grandes janelas da torre. Os quatro estavam entrosados em uma conversa, com Marlene jogada no sofá ao lado, arremessando diabinhos de pimenta para os garotos pegarem no ar, parecendo entediada.
— Ei, vocês! – Lily trotou para lá em um instante. — Muito divertido tudo isso. Realmente, hilário. Vocês estão o quê, presos no segundo ano para sempre?
Ela não conseguia se lembrar da última vez que falara com qualquer um dos marotos, – a exceção de Remus.
James Potter sequer a olhou quando respondeu numa voz arrastada, preocupado em fazer Peter Pettigrew errar a dentada no doce jogado.
— Poderia elaborar melhor, quem sabe?
Lily estalou a língua, mortificada, mas respondeu.
— Olha, tudo bem, já entendi que não foi legal o que eu fiz na aula de Poções, um tantinho maldoso para quem vê de fora, é verdade, mas considerando que você estava recebendo mais do que uma ajudinha extra... – Ela tentou buscar um pouco de ar para os pulmões e levantou o dedo em riste. — Vocês não tem o direito de me amedrontar como estão fazendo, sabem bem que tenho crises de pânico! Por isso aqui ó, eu não caio no chão dura! Aliás, foram vocês os responsáveis por desencadear isso anos atrás, ou esqueceram tudo que o diretor falou àquela noite? Pois eu me lembro muito bem, sim, senhores.
Lily sentiu que ofegava, olhando de um para outro, esperando uma retratação, no mínimo. A primeira coisa que recebeu foi um silvo animado.
— Ahá! Sabia que tinha dedo seu, Evans – comemorou Sirius em um cumprimento esquisito de mãos com James. Marlene sentou-se ereta tentando acompanhar o raciocínio da amiga, embora estivesse sonolenta, esfregando os olhos.
— Então você admite! – Lily virou o rosto para ele imediatamente, com uma fúria animalesca. Mas não pôde deixar de sentir-se aliviada em saber que fora apenas seus colegas idiotas agindo como, bom, idiotas.
— Bem, nós suspeitávamos, sim. Agora, com uma confissão descarada dessas... – riu-se James, atraindo a atenção da garota para seu lado novamente, estendendo a mão para ela. — Passe para cá a poção, Evans, é o mínimo que pode fazer agora.
— Pro diabo a poção, quero saber como fizeram para chegar aqui tão rápido...!
— Não faço ideia do que está falando.
Ela estreitou os olhos.
— Pagaram algum infeliz para essa brincadeira de mal gosto, é? Talvez ameaçaram alguém? E-e quanto à isso aqui...
Ela tinha um palpite que estava parecendo uma desvairada à essa altura, mas ignorou. Começou a vasculhar os bolsos à procura do pergaminho luminoso para esfregar no nariz empinado de Potter.
Marlene, todavia, a interrompeu, sentando-a no sofá. No meio disso, os marotos desataram a falar ao mesmo tempo, cessando somente quando uma das pálpebras de Lily começou a tremer.
— Evans, você 'tá legal? – Surpreendentemente, até mesmo para o próprio, fora Sirius quem perguntou.
— Você está branca, Lily! Bom, mais que o normal. Nos diga com calma o que está acontecendo – pediu Marlene, com os braços já em volta dos seus ombros.
— Têm certeza que não tentaram me assustar lá perto da Torre de Astronomia? Ou no Corujal antes disso? – perguntou, começando a massagear as têmporas.
— Lily, nós não temos nada a ver com isso, seja o que for – esclareceu sério Remus, com o olhar firme em sua direção. — Dou minha palavra.
A garota gastou uns bons segundos o encarando, tentando achar alguma pista em seus olhos. Por fim, soltou um suspiro resignado.
— Certo. – Pensando agora, tinha pelo menos uma dúzia de pessoas nesse castelo que poderiam querer pregar-lhe uma peça. Lily achara que sendo monitora desde o ano passado havia adquirido algum tipo de respeito.
— Agora vai nos explicar o que 'tá rolando? – perguntou James, coçando a cabeça.
Lily se levantou, bufou para os meninos e antes de fazer seu caminho para o dormitório, lembrou da amiga.
— Vamos, Lene.
(...)
Havia tido uma péssima noite, com Marlene palpitando de forma conspiratória tudo que pudesse ter acontecido (e a teoria mais forte era a de Pirraça sendo um completo atraso de vida), enquanto Lily tomava um frasco atrás do outro de poção calmante.
Cortando as frutas em cubos perfeitos e retirando a casca do pão fatiado, Lily encontrava-se reunida com as colegas no café da manhã seguinte. Marlene e Emmeline comentavam descontentes sobre a tarefa de DCAT.
— Dá pra acreditar que o professor Andrew passou toda essa montanha de deveres? Ele acha o quê? Que vamos aprender Defesa engolindo uma enciclopédia? Não consigo enrolar direito, e duvido muito que ele vá ler – Emme suspirou, desistindo de lacrar o pergaminho de forma manual, recorrendo a varinha.
— Vamos descobrir logo – disse Marlene e soltou uma risadinha nervosa. — Combinei com os marotos ontem de escrever receitas de tortas recheadas no meio das nossas lições e ver o que acontece.
— Não brinca!
— Ver o quê, o Trasgo gigante na nota de vocês? – zombou Lily afetada, ao mesmo tempo que Alice e Mary chegavam à mesa.
Não demorou muito para as garotas trocarem de assunto, concentrando-se em algo infinitamente melhor que as reclamações voltadas ao novo professor e sua didática, planejando o final de semana em Hogsmeade agora em dezembro:
— ...ele teve o cuidado de passar o bilhetinho durante a aula de Feitiços, mas mesmo assim deixei cair meu tinteiro quando li... e ele achou fofo! – suspirou Mary.
— Vocês definitivamente devem ir à Madam Puddifoot's, não tem passeio melhor para saber qual é a dele, Mary – aconselhou Alice, em um tom de quem sabe das coisas.
Lily escutava com meia atenção, pois a risada de Amos Diggory na mesa da Lufa-lufa invadiu seus ouvidos, percebeu que ele estava em uma conversa animada com seu melhor amigo, Christopher Wilkes. Então, farfalhar de asas imediatamente a fez erguer os olhos. Ficou à procura da enxurrada de corujas que apareceriam a qualquer momento.
— Ah, Graças a Merlin, o correio! Espero que dessa vez mamãe tenha enviado o cachecol da sorte...! – Marlene exclamou cheia de expectativas, ansiando pela peça antes do primeiro jogo de Quadribol, em janeiro. Deixara Lily com os nervos à flor da pele, revirando o dormitório à procura do acessório, que sequer havia estado em seu malão.
Lily observou uma coruja marrom largar seu exemplar do Profeta Diário quase em cima do mingau de aveia. Depositou o pagamento e viu Mary e Alice fazerem o mesmo com outras duas.
Passou rápido os olhos pela manchete poluída e logo descartou metade do jornal para o lado, deixando as cruzadinhas e as dicas de botânica por perto.
— Minha nossa, isso parece sério... aconteceu há uma semana e só agora publicaram? Jornalzinho de quinta – xingou aflita Emmeline, lendo por cima do ombro de Alice.
— Diz aqui que estão foragidos! – alertou Marlene e sua voz soou distante para Lily.
Muitos murmurinhos estavam espalhando-se agora, não apenas das suas colegas ou de sua mesa, mas do Salão em geral conforme recebiam o periódico. Suspirando, dobrou o seu próprio da melhor maneira e levou as mãos em busca de sua pena, na mochila, pronta para responder a primeira pergunta na horizontal.
— ...Acham que isso tem alguma coisa a ver com o que aconteceu no verão?
— Com certeza, os aurores devem estar numa pilha só. Olhe, estão abrindo mais vagas que o normal... espero que tenha quando for minha vez – dizia Alice.
Chifre de unicórnio. Escrevera Lily, em uma letra caprichada, alheia à discussão. A habilidade de ignorar o que não a interessava e poder concentrar-se nas suas coisas era algo que a orgulhava muito. Molhou novamente a pena para responder a pergunta diagonal à essa.
— ...Ouvi papai dizendo que podem ser vários ataques que vão na onda. Particularmente, eu concordo — opinou Mary, segurando uma página onde podia-se ver fotos de um incêndio e uma grande explosão em looping.
— É, não é possível que sejam os mesmos responsáveis...
(14) Criatura feita a partir de materiais inanimados: 5 Letras. Horizontal. Lily mordia a pena pensativa, focando o teto do Salão. Até a resposta vir, e com uma animação exagerada escreveu a palavra Golem.
— Evans?
— Hum? Sim? – Lily saltou alguns centímetros na cadeira quando ouviu Alice a chamar algum tempo depois.
— O que você está fazendo?
Lily a encarou inexpressiva.
— Cruzadinhas?
— Isso eu sei. Quero dizer, não está nem um pouco preocupada com as notícias?
Marlene jogou o jornal na página certa para ela. Deu uma lida rápida e segurou-se para não revirar os olhos.
— Certo. Um atentado à trouxas.
— Isso não te deixa com medo? – Tanto Alice quanto as outras a olhavam com assombro.
— Por que eu teria medo? – perguntou com uma nota ofendida ao fundo.
O fato de qualquer coisa relacionada ao mundo trouxa ser uma pauta nas conversas com suas amigas era uma chateação para Lily, que gostava de ter sua imersão completa – salvo suas duas cartas por semestre para casa –, no mundo bruxo. Tinha tempo de sobra, infelizmente, nas férias de verão, para se informar dessa outra parte da sua vida.
— Diz ali... alguns deles tem ligação com sangue bruxo! Olhe! Esse aqui a prima frequentou Hogwarts alguns anos atrás! – Alice apontava a manchete de forma débil.
— Besteira, desde que o mundo é mundo esse tipo de coisa acontece. Uma pena gente inocente sair lesada com isso? Claro, mas confio na ação rápida do Ministério, vocês não? – Perguntou em tom de fim de conversa e recebeu olhares atônitos como resposta.
— Mas... – tentou Emmeline, sendo cutucada por Mary. Alice balançava a cabeça, pegando seu jornal com violência de volta.
Suspirando, Lily resolveu deixar para lá seu hobby matinal.
Seus pensamentos voaram para o pergaminho achado ontem à noite, devidamente guardado na primeira gaveta da cômoda. Havia momentos em que brilhava mais e até ficava quente ao toque. Tentou escrever nele, mas a tinta escorria, e prometendo a si mesma investigar isso com calma depois, levantou para aula.
(...)
— Lily! – Remus Lupin acenou, lá do mesmo canto da noite anterior, quando ela acabava de dar uma chamada de atenção em um garoto que tentava subir as escadarias do dormitório feminino por causa de uma aposta qualquer, causando confusão no Salão Comunal inteiro.
Ela marchou até lá de má vontade. Quase parecia um novo hábito surgindo, e para ela, era um péssimo.
Notou de imediato que um deles estava ausente, o menor dos quatro. Os outros dois erguiam as sobrancelhas em uma pergunta muda para seu amigo, tão surpreendidos quanto ela pelo chamado, empertigando-se ambos no sofá, observando.
Já o garoto, levantou-se quando ela se aproximou.
— Olá, Remus. Como vai?
— Bem, – respondeu ele, ostentando as suas olheiras profundas de sempre, mas com um sorriso brincando nos lábios, e a afastou delicadamente da vista de James e Sirius. — Como passou o dia? Sem sustos? – sussurrou.
— Tudo tranquilo.
— Bom. Isso é bom. Espero não estar lhe atrasando, mas tem um tempo agora? Quero lhe mostrar uma coisa, acho que vai te animar, – Remus indicou com a cabeça o buraco do retrato. Lily conferiu o relógio por um instante e então o seguiu.
Desceram alguns lances de escadas, passaram por alguns colegas no caminho, e pararam de súbito em um corredor qualquer.
— Você de novo não – gemeu o quadro para Remus no momento que o mesmo apontava a varina e grudava a figura no lugar, evitando uma fuga. Era um quadro grande, mas Lily nunca parou realmente para observá-lo antes. O senhor, agora impossibilitado de se mover, usava uma roupa bem antiquada e fazia cara feia, xingando em uma linguagem floreada.
— Calado. Lily, esse é o Príncipe das Colinas e, como pode observar, ele tem esse quadro, ao lado do depósito.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— ...fascinante.
Remus soltou uma risadinha, não se importando com o mau humor dela.
— E tem outro dentro da sala dos professores. Por um acaso, eu estava passando por aqui hoje pela manhã e descobri algo muito curioso. Seu Golias aqui tem alguns passatempos, dentre eles, escutar conversas alheias.
Lily o olhava em confusão, duvidando do que quer que seja fosse realmente a interessar. E muito menos porque ele a levara para compartilhar isso ao invés de seus fiéis escudeiros.
Ele prendeu a respiração em antecipação, explicando melhor:
— Havia somente dois docentes naquela sala essa manhã, se sentindo à vontade talvez, o fato é, a Prof.ª McGonagall confidenciou para Prof. Slughorn que, – continuou ele, a observando de perto — bom, ao que tudo indica, seremos nós os próximos monitores-chefes.
Ele a encarava em expectativa. Lily engasgou.
— Isso... como é possível? Mas ainda- Você aí! – Lily virou-se para o quadro, pronta para obter detalhes, no que Remus prontamente o fez contar, o Príncipe muito desgostoso com a falta de tato – além do arrependimento por ter aberto a boca na primeira vez.
Ela arregalou os olhos. Olhou do quadro para ele, um pouco atrás. E dele para o quadro novamente.
Demorou, mas girou nos calcanhares, ficando de frente para o garoto, trêmula.
Não se importou, quando, praticamente saltara em direção de Remus Lupin e segurou seus ombros com força, o encarando com um brilho jamais visto nos olhos.
— Isso, Lupin, é a chance das nossas vidas! – esganiçou-se ela. — Estamos feitos! Feitos!
— Uau, – Remus coçou o nariz, desconfortável, depois que Lily finalmente o soltou. Sorria para uma agora frenética Lily Evans, que estava andando em círculos, balbuciando coisas indecifráveis para ela mesma enquanto torcia as mãos uma na outra. — Deveria ter dado a notícia no momento que descobri...
NOTA: Entãooooo... Lily é muito iludida na vida, né? Estamos caminhando para o meio da 1ª fase da fic, e o plot principal será finalmente explicado (em partes, rs). Espero que goste!
