Capítulo Seis: Os Monitores

Os monitores-chefes não estavam com a cara nada boa e eram os únicos em pé na sala. Lily notou duas cadeiras vazias e uma delas ela soube de pronto, era de Amos Diggory. Franzindo o cenho, tentou voltar a atenção à dupla de setimanistas.

— Como prometido, McGonagall quem escolheu os parceiros de ronda dessa vez. Meu sincero muito obrigada à Christopher e Dorcas que não conseguem desgrudar as línguas nem para uma porra de vigia. – Todos soltaram resmungos em conjunto. Lily ajeitou-se na cadeira.

— Ora, é isso que namorados fazem – cantarolou Dorcas sem se abalar e Louis escolheu ignorar.

Amelia, com um aceno de varinha, distribuiu os pergaminhos que segurava. Um deles aterrissou na frente de Lily, que mal pode acreditar na sua falta de sorte e bufou audivelmente. Remus leu o pedaço de papel antes que ela o dobrasse.

— Conseguiu ser pior que o meu, hein? – cochichou ele, dando uma risadinha e mostrando o nome circulado no dele, o espirrador profissional, Fabian.

Lily fora escolhida para fazer rondas com a garota da sonserina, Alecto Carrow. Poderia ser pior, poderia ser Severus é claro, que agora ela percebeu, era o outro ausente da reunião.

— Qualquer reclamação deverá ser feita ao professor da sua Casa ou diretamente para a Prof. Minerva, que é quem está administrando tudo enquanto o diretor Dumbledore não retorna.

— Por mim ele nem precisava voltar. – Lily ouviu um garoto resmungar perto dela, baixinho.

Para ser completamente sincera, Lily de certa forma concordava. Não achava Albus Dumbledore a pessoa perfeita para desempenhar uma das funções mais cobiçadas da comunidade bruxa de toda a Grã Britânia. De fato, a garota lera sua biografia detalhada nos livros de História da Magia e ele aparentemente detinha um conhecimento sem limites e poderes inimagináveis. A questão chave era comparar o homem descrito, com enormes façanhas e reputação, com o senhor franzino que se sentava para o café da manhã no Salão Principal empilhando waffles imitando as casinhas de gengibre de Natal, e os enfeitar com jujubas, cantarolando cantigas de ninar.

Sem mencionar todas as vezes que Lily o ouviu falar. Seja por meio de discurso de boas-vindas ou uma conversa baixa no corredor com algum professor, suas palavras não faziam qualquer sentido.

Ela chegara a conversar sobre isso com Severus anos antes e ele fez coro às ponderações.

E, aparentemente, o diretor largou Hogwarts sem qualquer aviso. Lily o viu pela última vez no final de outubro. Antes disso, ele já estava fazendo longas viagens também.

— ...Já os monitores do sexto, irão acompanhar os testes do segundo ano. – voltou a dizer o monitor, que também alertou sobre o uso de cinco objetos suspeitos à pedido do zelador. – Esclarecido isso, agora vamos para um assunto sério.

Remexendo as mãos de forma inquieta, Amelia tomou a palavra.

— Deixando claro que fomos devidamente autorizados a tocar nesse assunto com vocês,peço a mais completa discrição. – Suspirando, continuou: — Somos escolhidos monitores não apenas para distribuir detenções à esmo ou para usar um banheiro maneiro. Somos designados à dedo pelo corpo docente e pelo próprio diretor como um instrumento facilitador de diálogo. Entre eles e os alunos.

"Vocês todos devem estar cientes da desistência por parte de alguns alunos no decorrer desse ano. Bom, nada tem a ver com uma doença contagiosa pelo compartilhamento de vassouras, como gentilmente alguns espalharam por aí."

Alecto e outro garoto soltaram risadinhas.

"A verdade é, alguns pais estão assustados com os recentes incidentes por toda Londres e morando no interior do país, preferiram a educação de casa. Como o caso das irmãs Barba e Bethany Johnson. Ou voltaram para o país de origem, no caso de Vitto Hopper. Outros, de família trouxa, realizaram desistência voluntária, pausando sua educação" Murmúrios começaram a se espalhar pela sala, e Amelia teve de aguardar. Louis encarava a cena de braços firmemente cruzados.

— Digo e repito, eles estão loucos!

— Céus, assustados com o quê?

— Eu tenho mantido contato com Vitto. Ele não parece satisfeito...

E mais infinitos outros. Alguns mais altos e estridentes. Lily arrumou a gola da blusa, desconfortável. Largar o ensino por qualquer bobagem que tenha acontecido à quilômetros de distância era o cúmulo da insensatez.

Por um momento delirante, Lily pensou que Amos havia feito o mesmo. Lembrou, no entanto, de tê-lo visto ainda está manhã e sentiu-se idiota, corando. Remus lhe lançou um olhar questionador, arcando uma sobrancelha.

— Tudo bem, tudo bem. – A Monitora-Chefe sinalizava para se calarem. — Já chega. Entendemos que é um assunto que gera debate, mas preciso da atenção de vocês agora. Dylan Lockhart, da Corvinal, estava sendo tratado como um desses casos. Até hoje.

"Aparentemente em meados de novembro os pais contataram a escola para explicações, visto que Dylan não mais respondia suas cartas. Mas entendam: ele foi embora do castelo meses antes, ainda no ano letivo anterior. Foi aí que começaram as investigações dos aurores em completo sigilo" Amelia os olhos estavam inundados de água a essa altura. "Dylan... foi encontrado sem vida em um galpão abandonado aos arredores de Manchester hoje pela manhã."

Todos prenderam a respiração, em choque. Dorcas abriu um berreiro e estava sendo consolada por Christopher, e Lily, um pouco maldosa, refletiu se sequer eles o conheciam. Mas ela mesma estava nauseada, segurando as mãos trêmulas no colo.

— Está como desaparecido segundo o Ministério e permanecerá assim até segunda ordem.

— Ordem de quem? – Alguém a direita de Lily perguntou.

— Não sabemos. Não sabemos de nada, basicamente – respondeu Amelia, exasperada.

— Tudo que pedimos para vocês é que contenham o resto dos alunos! Precisamos que todos fiquem calmos. Impeçam o falatório que temos certeza que começará. Observem comportamentos estranhos e deem suporte. Há quem não acredite nessa ameaça de guerra, eu mesmo acho que são infelizes coincidências, e há aqueles que fazem questão de pôr lenha nisso só por diversão. – Louis disse. – Agora escutem com atenção as recomendações.

E assim se seguiu o resto da reunião, ouvindo os procedimentos que adotariam, para mais tarde Lily permanecer com um zunido nos ouvidos, que insistia não ir embora.

Se ela realmente se tornasse monitora-chefe no próximo ano e esse tipo de coisa voltar a acontecer – e ela tinha o pressentimento que sim, seria um verdadeiro inferno.

(...)

Afinal, o que meros estudantes, sem qualquer informação privilegiada ou algum poder superior poderiam fazer contra as últimas notícias estampadas no Profeta Diário da manhã seguinte? Especialmente a coluna opinativa de Rita Skeeter, com uma enxurrada de teorias mirabolantes, como a de um homem não identificado que estaria recrutando pessoas para uma espécie de seita?

Isso mesmo, nada.

Lily escoltava o terceiro estudante seguido para cuidados na ala hospitalar só naquele começo de tarde.

Não fazia ainda um dia inteiro que soubera do terrível destino de Dylan e o castelo estava um tremendo caos.

Mesmo com dispensa para desempenhar esse tipo de função, era na aula de História da Magia que a garota deveria estar agora.

Outro? — Arfou a enfermeira, indo prestativa ao encontro dos dois assim que adentraram a ala, com Lily segurando os ombros do garotinho pálido. — Venha querido, venha... está tudo bem...

Acomodando-o em uma poltrona, mantendo a cabeça levantada enquanto também media a temperatura, pediu um tanto rude para Lily alcançar uma poção no armário no final da ampla sala, pois nesse momento o menino sucumbiu completamente, vomitando as tripas.

Suspirando, Lily se dirigiu até lá, notando algumas camas ocupadas com estudantes sonolentos. Menos em uma, à direita. Ali, entre as cortinas semiabertas, Remus Lupin estava sem camisa e com cortes terríveis no abdômen ao lado de James Potter, — que para a chateação de Lily, parecia intacto.

E, eles definitivamente deveriam estar na aula.

— Por Morgana, o que aconteceu? — chiou ela para os dois, que logo sobressaltaram. Recebeu um chamado logo em seguida de Madame Promfrey para se apressar, completando: — Desculpe, estou à caminho!

Levou depressa o remédio e em meio segundo já estava pronta para um interrogatório.

O corte era profundo, não era de se espantar que Lily notara a cara de doente de Lupin ontem na reunião. Mas o machucado já não estava mais a vista quando retornou.

— Então? O que raios vocês aprontaram dessa vez?

Remus encolheu os ombros e suspirou, cansado. James em um segundo já estava com uma das mãos ao redor do pulso de Lily, a carregando onde pudessem serem vistos pela enfermeira, que em segundos os expulsaram de lá.

Lily só notou que ainda se tocavam quando já estavam do lado de fora. Com um movimento brusco ela se desvencilhou, como se tivesse levado um choque.

Ele fez sinal de rendição com as mãos e virou-se para sair.

— Afinal, o que foi aquilo, Potter? Uma manada passou por cima do seu amigo? — Caçoou ela, começando a segui-lo.

— Está longe de ser da sua conta — disse ele sob os ombros, com a voz rouca.

— Ótimo, eu descubro sozinha então — ladrou para suas costas. Mas Lily percebera agora que ele caminhava na direção contrária a que deveriam seguir para a aula.

Pensou por meio segundo antes de agir.

— Ah, mas não mesmo. Chega de cabular aulas, você vem comigo ou lhe dou uma detenção — E agora era ela quem agarrava o pulso dele, sem perceber realmente o que estava fazendo. — Prometi à um imbecil que nenhum jogador sairia da linha, ao menos não sob as minhas vistas.

Ele bufou.

— Bendita seja a hora que pedi isso — resmungou, mas sem lutar deixou ser levado, um passo atrás do dela. Estavam dobrando o corredor seguinte quando Lily dera um encontrão com alguém, o que fez James colidir com ela também.

— Ah! Lily, — assustou-se Amos Diggory, e abaixou-se para recolher os livros que levava, caídos agora no chão. — Como você tem estado? Faz tempo que não-

Vendo em quem esbarrara, Lily deu mais um passo para trás, esbarrando novamente em James, o que a fez saltar.

— Mas que inferno, Potter, saia da minha cola — guinchou, no que o garoto revirou os olhos, ajeitando os óculos tortos.

Para Lily, de todos os momentos, essa semana não era a melhor opção para encontrar Amos e ter uma conversa cheia de galanteios.

Amos Diggory, como se apenas agora percebesse a presença do outro garoto, olhou por cima do ombro de Lily.

— Ei, Potter. — Cumprimentou em uma leve carranca.

James acenou discretamente com a cabeça.

Lily arrumou os cabelos atrás da orelha e alisou a blusa, nervosa.

— Alô, Amos — adiantou-se ela em um fôlego só, com receio que seu colega de casa fizesse qualquer comentário tolo, e tentando bloquear a visão dos dois rivais de Quadribol.

— Eu... bom, nós — Lily pigarreou, apontando dela para Potter. — Estamos atrasados. Esse castelo está uma loucura hoje, não é? E veja só, temos que ir voando para a aula. Nos falamos depois, certo?

Amos abriu a boca para responder, franzindo o cenho, mas Lily já arrastava James com ela sem cerimônias pela manga da camisa amarrotada, no que ele aproveitou para se aproximar do ouvido dela, pois agora estavam em uma ala movimentada com estudantes em um vai-e-vem.

— O pobre garoto mal sabe o que você anda aprontando... você é podre, Evans — sussurrou ele, os olhos faiscando, analisando-a.

Lily tropeçou um passo. E o encarou pelo canto do olho por um momento.

— E o que você sabe? — Ela espanou a mão, como se afastasse um mosquito chato, mas não deixou de engolir em seco.

Só mais um pouquinho e eles chegariam...

— Até eu sei que ficar aos amassos com alguém comprometido é errado.

Lily aumentou mais o passo. Ele a seguiu de perto sem esforço.

— ...ainda mais com melhor amigo do cara — completou ele.

A garota nada disse, o som dos passos deles chegando abafados em seus ouvidos, e seus os lábios firmemente cerrados.

Contornavam agora o último corredor.

Se havia alguma coisa que Lily Evans invejava, mas que nunca admitiria em voz alta, era a incrível capacidade dos marotos sempre saberem o que acontece com todo mundo naquele castelo. De uma forma ou de outra, eles nunca pareciam surpreendidos por nada. Era irritante. Era impressionante.

— Você não tem como provar. — Respondeu ela por fim, azeda.

James Potter soltou uma gargalhada, e foi nesse momento que ela abriu a porta da sala de aula, rompendo para dentro com o Prof. Binns repreendendo-os de pronto pela algazarra, e Lily vermelha em um misto de raiva e embaraço.