Capítulo 2 – Um Toque de Chuva

Kokoro no naka hitoshizuku

(Dentro do meu coração, uma única gota)
Yasashii ame ochite yuku no

(de chuva suave, está caindo)
Isogasenaide yukkuri to

(Não se apresse, apenas aguarde, tranquilamente,)
Afureru no wo matte

(Que ele transborde)

Sesshoumaru acordara cedo para ir trabalhar. Seu pai ainda não aparecera em casa e naquele dia ocorreria uma importante reunião na empresa. Não poderia se dar ao luxo de se atrasar. Ao entrar no carro o youkai notou que havia um caderno caído no chão do lugar que pertencia aos passageiros. Pegou o caderno e o abriu. Na contracapa estavam escritos os dados da dona do caderno. Obviamente o caderno era da jovem que ele ajudara no dia anterior. Soltou um suspiro. Agora essa. Ainda teria que levar o caderno para aquela humana.

Por um momento pensou em jogar o caderno no banco de trás e esquecer o assunto, mas o que ela escrevera no caderno, obviamente, eram suas anotações de aula, e deviam ser importantes. Pelo que ela escrevera no caderno sobre seu horário, teria aulas até à tarde. Ele tentaria levá-lo para ela na hora do almoço.


Shiranasugiru koto ya

(Há coisas sobre as quais não sei nada)
Shirisugiru koto

(E coisas que sei muito bem)
Itsudemo Unbalance ukubyou data

(Sempre fui desequilibrada e tímida)

Rin acordara um pouco melhor no dia seguinte e estava bem até chegar à faculdade, mas ao colocar os pés na instituição, pôde notar que ela, seu ex-namorado e sua ex-melhor amiga eram o centro das atenções. Aquela situação era incrivelmente constrangedora e, embora nada disso, fosse culpa dela, as pessoas pareciam lhe olhar com zombaria ou com pena. Seria realmente um longo dia. Ela respirou fundo e depois de pegar suas coisas em seu armário, seguiu para a sala de aula. Não sabia como, mas enfrentaria tudo aquilo de cabeça erguida.


Anata ga iru sore dake de

(Porque você está aqui)
Yasashii ame ochite yuku no

(Uma chuva suave está caindo)
Hitori ja nai to omoetara

(Quando você perceber que não está sozinho)
Hito wa tsuyoku nareru

(Vai poder se tornar forte)

Quando chegou à empresa, Sesshoumaru encontrou seu pai com a mesma roupa do dia anterior, sentado em sua sala.

- O que faz aqui? – Perguntou o youkai encarando seu pai com desdém.

- Pensei que tivéssemos uma reunião de negócios hoje. – Respondeu o pai com um sorriso sarcástico.

- E você planeja aparecer na reunião com a mesma roupa que usou ontem? – Sesshoumaru sentou-se do outro lado da mesa e colocou sua maleta no chão. – Não tem vergonha de se apresentar dessa maneira na frente dos funcionários da empresa?

- De que maneira? – Indagou cinicamente Inutaisho. – Sou o dono da empresa. Posso me apresentar da maneira que quiser. – Sesshoumaru encarava-o com nojo.

- Se é a imagem de um mendigo bêbado que pretende passar hoje, está conseguindo. Com certeza vão fechar o negócio com nossa empresa assim que o virem. – Respondeu o youkai se levantando. – Se você está aqui, posso me retirar. Você que se vire com os acionistas. Estou cansado de ter que ficar te acobertando. – Ele pegou sua maleta e se dirigiu para a porta.

- Onde você está indo? – Perguntou Inutaisho genuinamente assustado. Antes de sair, seu filho se virou para encará-lo.

- Como você acabou de dizer, papai, você é dono dessa empresa. Felizmente, para mim, não é meu dono. – Sesshoumaru abriu a porta para sair. – Aproveite a reunião. – E assim ele partiu, deixando seu pai sem saber o que fazer.


Hikari wo sagashiteru

(Estou procurando pela luz)
Dareka no tame ni

(Pelo bem de alguém)
Ima no watashi demo dekiru nanika wo…

(Se tiver algo que eu possa fazer...)

Era uma situação horrível ter que ficar na mesma sala que eles e agir como se nada tivesse acontecido. A impressão que Rin tinha era de que todos falavam e olhavam para ela, por isso tentava ficar o mais quieta possível. Nem tivera coragem de pedir uma folha emprestada a um de seus colegas de classe, mesmo tendo esquecido seu caderno em algum lugar. Provavelmente o perdera no dia anterior... Ou talvez estivesse no carro de Sesshoumaru. De qualquer forma, teria que ficar sem seu caderno, a menos que tivesse coragem de ir à empresa do youkai para verificar se estava com ele. Mas depois da forma como agira no dia anterior, gritando com ele sem motivo e depois voltando ao normal, sabia que não teria coragem de fazer isso.

A aula estava quase acabando quando alguém bateu na porta da sala. A professora foi verificar quem era.

- Pois não? – Disse a professora.

- Boa tarde. – Rin sentiu seu coração dar um pulo ao ouvir aquela voz. E sentiu seu rosto esquentar quando seus olhos fixaram-se nos dele. – Meu nome é Sesshoumaru e gostaria de falar com a Rin. – A sala toda olhou para ela e depois voltou a olhar para ele. Sesshoumaru usava um terno azul marinho feito sob medida. Sua gravata era num tom de dourado, que combinava perfeitamente com seus olhos e seu cabelo estava preso numa espécie de coque que deixava uma boa parte dele solto. Todos podiam notar que ele era um youkai.

- É claro. – Rin se levantou ainda envergonhada e juntou suas coisas. Mas o fato de ter um youkai lindo querendo falar com ela, mesmo que, provavelmente, fosse para lhe entregar seu caderno, levantara seu ânimo. Até sua ex-amiga estava babando por ele. – Oi. – Os dois andaram alguns metros para se afastar da sala de aula.

- Oi. – Respondeu Sesshoumaru lhe estendendo o caderno. – Você esqueceu isso no carro ontem à noite.

- Muito obrigada, Sesshoumaru. – Disse Rin pegando o objeto. – Só quando a aula começou, fui perceber que havia perdido meu caderno. Obrigada por sair de seu caminho para entregá-lo. – O sorriso dela era cativante, mesmo que estivesse envergonhada.

- Não foi nada. – O youkai não sabia por que, mas sentia-se bastante a vontade com aquela jovem. Mesmo ela sendo humana. Eles ouviram o sinal tocar anunciando a próxima aula. – Bom, acho melhor ir andando. Não quero atrasá-la para sua aula. – O sorriso dela murchou um pouco. Não queria voltar para aquela sala e ficar com aquelas pessoas. Gostara de conversar com o youkai no dia anterior e gostaria de poder fazer isso de novo.

- Na verdade, não estou muito bem para assistir as aulas de hoje. – Ela falou um pouco desanimada. – Mas tenha um bom dia no trabalho. – A jovem tentou sorrir novamente, mas não foi muito feliz na tentativa.

- Também não estou a fim de trabalhar hoje. – Sesshoumaru disse repentinamente, surpreendendo-a. Ele não parecia ser o tipo de homem que faltava ao trabalho. Talvez tivesse acontecido alguma coisa. Provavelmente acontecera algo, pois o olhar dele parecia um pouco distante. Um pequeno sorriso surgiu no rosto dela.


Hon no isshun demo ichibyou demo

(Mesmo que por apenas um breve momento)
Dareka wo egao ni shitai

(Quero fazer alguém sorrir)
Atsumeta yasashisa

(Com toda a gentileza que guardei)
Mirai no aozora kaeshitai a touch of rain

(Quero devolver um toque de chuva para o céu azul do futuro)

- Talvez possamos dar uma volta pela cidade. Ir a algum ponto turístico, ou algo assim. – O youkai ficou olhando para ela, pensando se aquilo seria uma boa ideia. Não estava acostumado a esse tipo de programa, com uma pessoa que mal conhecia. Ainda mais com uma jovem humana. Ela pareceu notar que ele não estava à vontade com o convite. – Está tudo bem. Não precisa aceitar se não quiser. Sei que você nem me conhece direito e...

- Eu topo. – Disse o youkai, por fim. O que poderia acontecer demais? Eles só iriam a algum lugar juntos e depois seguiriam seus caminhos. – Aonde quer ir? – Sesshoumaru começou a andar para a saída e ela seguia a seu lado. Ele continuava com a mesma expressão desde que chegara. Parecia não sorrir muito.

- Não sei. Na verdade não sou de Tóquio. Me mudei pra cá por causa dos estudos, mas não conheço muitos lugares.

- Já foi ao Parque Yoyogi? É um ponto turístico bastante famoso. Têm algumas áreas para piqueniques, muitas árvores... – Ele parou de falar quando chegaram ao carro e ele abriu a porta do carona para ela.

- Nunca fui. Podemos ir lá! Adoro a natureza... E podemos aproveitar e almoçar por lá. – Sesshoumaru concordou com a cabeça antes que ela entrasse no carro. Com certeza se seu irmão o visse agora, indo a um parque com uma humana, ele não ouviria o fim de sua implicância. Mesmo que aquilo não significasse nada.


Kioku no naka itsu date

(Em minhas memórias, uma chuva suave)
Yasashii ame futteita no

(Sempre esteve caindo)
Minna ga kureta nukumori ga

(O calor que todos me deram)
Toumei na kabe tokashi

(Derreteu uma parede invisível)

- Esse lugar é lindo. – Disse a jovem contente, andando a frente dele, deslumbrada. – Você costuma vir muito a esse parque?

- Ultimamente não. Quando eu era criança, minha mãe gostava de passar as tardes aqui, observando as flores. – Sesshoumaru explicou num dar de ombros. Ele andava com as duas mãos nos bolsos da calça. Deixara a parte de cima de seu terno e a gravata no carro; e arregaçara as mangas da camisa, além de abrir os dois botões superiores. O dia estava muito bonito, além de fazer calor. Rin usava short jeans e uma camiseta rosa, calçava tênis.

- Como ela é? – Rin perguntou, voltando a caminhar ao lado dele. – Sua mãe... – Por um momento o youkai pensou em dar uma resposta curta, indicando que não gostava de perguntas pessoais, mas já que estava ali com a jovem e não pretendia vê-la de novo, não parecia haver perigo em respondê-la.

- Minha mãe é rígida, organizada. Não gosta que façam bagunça em casa. – A jovem pensava que essa devia ser a explicação para Sesshoumaru ser tão sério. Ele crescera numa casa onde não podia fazer quase nada, portanto era óbvio que quando crescesse seria tão sério.

- Mas você tem irmãos? Vocês brincavam muito quando eram pequenos?

- Tenho um meio-irmão. Não nos damos muito bem. Além do fato de que quando ele nasceu eu já tinha uns dez anos, minha mãe não gostou muito do fato de ser trocada por outra, e, por isso, me afastou do meu pai e de meu irmão. – A situação só se agravava, na opinião de Rin. De repente se ele tivesse crescido perto de seu irmão, poderiam ser amigos hoje em dia.

- Mas você não acha que agora que já estão mais velhos... Bom, de repente, poderiam ser amigos. – Ela não podia entender como dois irmãos poderiam não ser amigos. Se ela tivesse irmãos seriam amigos pra sempre. Achava a família algo muito importante.

- Não vejo sentido nisso, humana. – Rin achou melhor não insistir naquele momento. Não se conheciam há muito tempo e o youkai podia considerar aquilo muito invasivo.

- Que pena... – Eles continuaram caminhando pelo parque em silêncio por alguns minutos. – Estou com fome. – Ela disse por fim. – Onde podemos comer?

- Depende do que você quer comer. – Ao longe Rin viu um carrinho de cachorro quente e sorriu.

- Cachorro quente! Vamos comer isso, por favor. – Sesshoumaru deu de ombros e a jovem sorriu animada. Ela segurou a mão dele e saiu correndo em direção ao carrinho. Sesshoumaru a acompanhou, pois se não fizesse isso, acabaria derrubando-a, mas achava aquela garota completamente louca. Parecia uma criança correndo atrás de um carrinho de cachorro quente. – Dois cachorros quentes, por favor. – A jovem pediu quando pararam ao lado do carrinho. Estava ofegante, mas sorrindo feliz. Sesshoumaru não conseguia entender o que se passava na mente dela. Parecia feliz na maior parte do tempo, mesmo que não houvesse motivo para isso. Ele notou que ela colocava a mão no bolso para pegar o dinheiro para pagar pelos lanches.

- Eu pago. – O youkai disse enquanto abria a carteira. Não ia deixar que uma estudante pagasse suas contas.

- Ok. – Respondeu Rin, abrindo outro sorriso. Sesshoumaru sacudiu a cabeça inconscientemente. "Que garota estranha", ele pensou.


Bukibyousa tsukurou

(A única coisa que eu poderia fazer)
Koto sae dekizu

(Era esconder meu embaraço)
Kokoro kakusu you utsumuiteita ano hi…

(Naquele dia eu estava escondendo meu coração e parecendo triste...)

- Adoro dias assim. Não está muito quente, mas não está frio também. – A jovem disse sorrindo quando sentaram numa mesa para comer. – Mas... – O sorriso dela diminuiu um pouco. – Adoro os dias de chuva. Tem alguma coisa na chuva que parece limpar tudo. Não sei explicar, mas a chuva me deixa feliz. A maioria das pessoas não gosta, mas, exceto ontem, sempre que chove, me sinto bem. – Ela mordeu seu cachorro quente, envergonhada. Sesshoumaru olhava fixamente para ela. Será que estava falando sem parar de novo? Provavelmente ele estava se lembrando de como ela agira como uma louca no dia anterior.

- Também gosto da chuva. – Ele disse simplesmente, antes de comer. O que ela dissera era exatamente o que ele pensava. Os dias chuvosos sempre eram os melhores em sua opinião. Era estranho ter algo em comum com aquela humana maluca.


Sasayaka demo chiisakutemo

(Mesmo que seja em quantidade insuficiente, apenas um pouco)
Dareka no kibou ni naretara

(Eu quero dar esperança a alguém)
Inori yo todoite

(Orações, por favor, alcancem alguém)

- Muito obrigada por sair comigo hoje, Sesshoumaru. – Disse Rin quando ele parou o carro em frente à sua casa. – Foi um dia ótimo.

- Não precisa agradecer. Fomos juntos. Não foi um favor que fiz. – Ele respondeu encarando-a sério, como sempre.

- Tem razão. – Ela falou sorrindo, mas seu sorriso não atingia os olhos. Não estava completamente feliz. – Acho que não vamos nos ver novamente, não é? – O youkai continuou em silêncio. Não sabia que resposta dar à jovem. Não eram amigos. Apesar de ter apreciado o dia, não sabia se gostaria de continuar a se encontrar com aquela humana. – Bom, de qualquer forma, vou lhe dar meu telefone. Talvez, se você quiser dar outro passeio pela cidade, possa me chamar. – Ela sabia, pelo que conhecera dele, que ele era um youkai muito sério, mas talvez, depois que se acostumasse com a ideia, poderiam ser amigos. Rin anotou o telefone numa folha de seu caderno e entregou a ele. – Tchau, Sesshoumaru.

- Tchau. – Ele respondeu e, depois que ela entrou em casa, deu partida no carro e foi para casa.


Isshun demo ichibyou demo

(Mesmo que por apenas um momento, ou mesmo um segundo)
dareka wo egao ni shitai

(Quero fazer alguém sorrir)

Ao estacionar em casa e sair do carro, Sesshoumaru sentiu algumas gotas de chuva bater em seu rosto. O youkai não conseguiu evitar o pequeno sorriso que veio aos seus lábios. Já gostava da chuva, mas agora a chuva o lembrava da humana que ele acabara de deixar em casa.

Ele ficou parado na chuva por alguns minutos, sorrindo. Não sabia o que pensar da situação em que se encontrava, mas aquela jovem causava alguma coisa nele. Não sabia bem o que era, mas ela parecia carregar uma paz que o envolvia. Sabia que deveria se afastar, mas talvez ainda não fosse o momento certo.


Atsumeta yasashisa

(Com toda a gentileza que guardei)
Mirai no aozora kaeshitai a touch of rain

(Quero devolver um toque de chuva para o céu azul do futuro)

[A Touch of Rain – Hisako Kanemoto]

Rin estava sentada num banco que era acoplado a janela de seu quarto quando começou a chover. A jovem sorriu animada e colocou a mão para fora para poder sentir a chuva. Foi quando ouviu seu celular vibrar. Ela o pegou em cima da cômoda e leu a mensagem que chegara:

"O que vai fazer no sábado? Sesshoumaru"

Rin se jogou na cama, sorrindo, pois quando a chuva começara, ela pensara no youkai. Por sorte, não tinha nada marcado para o sábado.


Agradecimentos:

Lily Heronchild