Capítulo V - A reconstrução do santuário.

Vinte anos antes da sucessão do submundo.

Ikki não estava feliz.

Por mais que se esforçasse, não conseguia encontrar a presença de seu irmão em lugar nenhum! Por mais que se mantivesse afastado de todos, sempre era capaz de encontrar a presença de Shun, independente do plano em que estivesse.

Era algo que nunca questionou realmente, uma ligação que ultrapassava qualquer lógica, como um farol de luz brilhante no meio de um oceano turbulento, independentemente do quão escuro a noite fosse o esplendor seguia lá, indicando onde seu pequeno irmão estava, avisando-lhe quando este precisava de ajuda, muito embora o fenômeno não parecia ser recíproco para Shun.

Essa sensação, quase como um sentido extra, o tinha avisado que após a terrível guerra contra Hades, seu irmãozinho estava vivo e bem, provavelmente havia decidido ir até Athena para ter certeza do estado de sua deusa e saber a respeito do que aconteceu aos outros. Shun era sempre muito benevolente, não era difícil prever suas decisões ou motivações.

Depois, soube que os dois partiram para o Star Hill, o lugar onde os antigos mestres do santuário olhavam para as estrelas em busca de respostas sobre o que o futuro aguardava. De lá, ambos partiram para outro plano, um lugar divino que não conhecia, provavelmente a morada dos deuses, o Monte Olimpo, se pudesse arriscar um palpite.

Manteve-se alerta então de qualquer ameaça que poderia cercar Shun nesse estranho lugar, pronto para ir até lá ajudá-lo se algo acontecesse. Essa ligação também o permitia alcançar seu irmão, onde quer que estivesse. Contudo, apesar de sentir presenças hostis, não foi necessário interferir.

Porém a preocupação o atingiu quando sentiu que seu irmão e Athena aportaram num plano nem humano nem divino, pela primeira vez não tinha certeza se conseguiria ir ao seu auxílio e isso o inquietava completamente.

Como Shun, sendo um humano, poderia pisar num lugar assim com a deusa?!

A lembrança do cavaleiro de Andrômeda tornando-se Hades surgiu em sua mente, mas forçou-se a esquecê-la...Isso estava no passado, Hades estava morto e Shun finalmente livre...

Então, assim que a presença dos dois voltou a terra, ele ponderou se deveria ir vê-los ou não...Logo refutou, ele parecia estar bem, apenas preocupado. Porém se arrependeu desta decisão quando pouco tempo depois descobriu que a presença de seu irmão desaparecera completamente.

Imediatamente foi até Athena exigir uma resposta, mas a deusa apenas lhe disse que Shun estava numa missão para recuperar a saúde de Seiya - que estava preso numa cadeira de rodas - portanto não deveria ser interrompido.

Quem essa maldita achava que era para impedi-lo de falar com seu irmão?! Ah, claaro, ela era a deusa encarregada da terra e ele e Shun seus fiéis cavaleiros...

Pro inferno tudo isso! Ele era o irmão mais velho! Nem ela, Hades ou mesmo Zeus poderiam ficar no seu caminho se ele quisesse vê-lo!

Sua expressão deveria ser realmente assassina após a resposta da deusa, porque Jabu se posicionou protetor frente à ela, como se o unicórnio fosse realmente uma ameaça caso quisesse de verdade arrancar-lhe a cabeça. Isso o irritou ainda mais, depois de tudo que fez por Athena, esses malditos ainda eram capazes de supor, nem que seja por um segundo, que ele podia se tornar um traidor?!

Já estava cogitando descontar toda a sua raiva no estúpido cavaleiro, porém, Hyoga chegou nesse momento pronto para amenizar a situação.

Athena repetiu as mesmas palavras para o cavaleiro de cisne, "Shun partiu numa missão para encontrar a cura para Seiya, ele voltará antes do prazo de três meses." O aquariano também não parecia satisfeito com esta resposta, não conseguindo esconder sua preocupação. Nem ele nem Shiryu haviam presenciado a possessão de Hades, e em meio ao conflito contra o imperador, foi impossível conversar a respeito.

Porém, ao contrário de Ikki, não insistiu por uma explicação de Athena.

Convencer Fênix a se acalmar foi tarefa digna do herdeiro da armadura de ouro de Aquário, e no final, para a surpresa de todos - Com exceção de Saori - o cavaleiro decidiu ficar no santuário, pelo menos até que seu irmãozinho voltasse.

A partir desse dia, começou a reconstrução das doze casas. Era tanto a se fazer, tanto a reerguer, que os cavaleiros mal viam o tempo passar.

Era realmente muito bom que nessa reencarnação Athena cresceu em riquezas, pois foram necessários muitos gastos da fundação Kido para poder comprar todo o material preciso para reerguer o santuário em todo seu esplendor. Claro, havia a economia de mão de obra, uma vez que o serviço dos cavaleiros seria inacreditavelmente mais rápido, sem contar que civis não deveriam entrar tão profundo nas terras sagradas da deusa.

Ao cabo de uma semana, Shiryu finalmente apareceu, alegando que estava consolando Shunrei pela morte de Dohko, que para ela e Dragão tinha sido como um pai. Apesar da tristeza de todos pela perda dos cavaleiros dourados, tal comentário não foi perdoado, rendendo inúmeras brincadeirinhas de mau gosto, lideradas exclusivamente por Jabu de unicórnio.

Shiryu também ficou transtornado pela situação de Seiya e incomodado pela ausência de Shun.

" -Nunca imaginei que um dia Ikki estaria conosco e o desaparecido fosse Shun" - Não pôde deixar de comentar o Dragão assim que soube da missão do amigo, recebendo a concordância de todos, o que apenas irritou fênix ainda mais.

Por ainda estar cego, o herdeiro de libra ajudou as amazonas Marin e Shina na parte organizacional da reconstrução, reforço que foi muito bem vindo, acelerando ainda mais os processos de restauração.

Uma semana e meia da partida de Shun, a casa de Áries tinha voltado ao seu resplendor, deixando Kiki simplesmente desconsolável.

O pequeno lemuniano de curtos cabelos ruivos, que recém estava completando seus doze anos, caiu em prantos quando viu intacta a casa de seu mestre Muh, mais que um mentor, um verdadeiro pai. Foi pesaroso para todos ver o jovem que acabava de pisar em sua adolescência, aos prantos nos braços da deusa, que o acariciava e consolava com seu cálido e amoroso cosmo.

Mesmo Ikki teve que se afastar da cena, resolvendo adiantar os trabalhos da casa de touro, enquanto os demais cavaleiros de bronze e amigos do ex cavaleiro de Áries mostravam seus respeitos ao guerreiro caído na última guerra santa.

Porém, ao caminhar sozinho para a segunda casa, tudo começou a ficar estranho. Com os pensamentos ainda perdidos na lamentação de Kiki e na missão secreta de Shun, Ikki subiu a escadaria que levava ao templo de touro, sentindo suavemente o cosmo de seu antigo defensor, como se o mesmo tivesse ficado prensado entre as paredes com a mesma força que o antigo cavaleiro possuía.

A vaga lembrança do guardião de touro surgiu em sua mente, mesclando-se com o choro de criança que incrivelmente ainda era possível de ser escutado.

"Essas crianças precisam de mim, tenho que sobreviver para cuidar delas."

Sobressaltou-se, derrubando os matérias de construção que levava apoiados em seu ombro, por alguns segundos pôde ver a sua frente um homem trajando a armadura taurina, alguém que parecia muito com o portador caído na guerra santa contra Hades, porém, seus cabelos eram longos e brancos, chegando a sua cintura, e mesmo sob o capacete, era possível ver sérias queimaduras espalhadas por sua face.

- Q-quem...! – Tentou perguntar, mas era inútil, não havia ninguém a sua frente.

A voz que tinha falado era firme, vinda de um homem cheio de convicção. E por alguma estranha razão, esse comentário o trouxe uma enorme tristeza.

Uma criança chorosa apareceu na sua mente, sua aparência era pobre e frágil, além de não conseguir ver com clareza seu rosto.

"Se algo acontecer com meu irmão, eu não vou aguentar!" – A voz agora era suave, mesmo que clamasse em desespero.

TUM

Um som seco foi abafado pelas conversas que aconteciam na casa de Áries, quando Ikki caiu de joelhos na escadaria segurando sua cabeça com muita força.

"QUEM É VOCÊ!" – Gritava inutilmente dentro de sua mente. Seu corpo começando a tremer repentinamente, seus olhos a lacrimejar, enquanto a figura de uma criança que desaparecia no meio do fogo o observava com piedade.

"Não se machuque mais...Irmão" – A figura etérea suplicava.

"Você...- Não era possível ver direito o rosto do jovem em meio a tanto fogo, mas uma enorme dor no peito do cavaleiro indicava que de alguma forma conhecia aquele menino -... Do que está falando?! Shun é meu único e verdadeiro irmão!"

Uma lágrima caiu daquele rosto difuso, fazendo um abissal sentimento de culpa ferir o peito de fênix, com uma força e intensidade maiores do que qualquer golpe que recebera em alguma luta como cavaleiro.

E então tudo desapareceu, deixando o leonino completamente perdido, com a respiração descompassada e cosmo energia agitada, esparramado de qualquer jeito no meio da escadaria entre Áries e Touro.

Ninguém questionou a razão de seu cosmo parecer tão incomodado, ainda mais depois da cena que todos presenciaram com Kiki, de forma que o irmão mais velho apenas recolheu as pedras que deixará cair e seguiu arfante até a seguinte casa, sentando lá e tentando colocar os pensamentos em ordem, antes que alguém desconfiasse de alguma coisa.

Porém a situação só piorava com o passar do tempo.

Em duas semanas da partida de Shun, a casa de touro passava por seus últimos retoques. Hyoga e Shiryu, que o conheciam melhor, começaram a perceber que Fênix estava ainda mais esguio e distante do que nunca. Ele ajudava na reconstrução completamente calado, isso em si não era incomum, porém, o incomodo estava no fato de que sempre trabalhava o mais afastado possível e dificilmente respondia qualquer pergunta ou comentário dirigidos à sua pessoa.

Os demais cavaleiros de bronze associaram isso apenas a personalidade difícil do companheiro, mas Cisne e Dragão sabiam que havia algo a mais. Sua expressão e energia pareciam perdidas muitas vezes, sem foco, como se estivesse perdido em memórias muito profundas, e muito além de não responder qualquer pergunta devido à sua personalidade, parecia realmente não ouvir que alguém do mundo real lhe dirigia a palavra.

Alheio as preocupações dos companheiros de armas, Ikki era constantemente abordado por lembranças de uma luta intensa com o tal cavaleiro de touro de longos cabelos, algumas vezes podia até mesmo ouvir gritos que o chamavam de Aldebaran.

Mas esse não era o Aldebaran de touro que Seiya enfrentou na luta das doze casas, mesmo que não tivesse vivido muito com o cavaleiro, sabia diferenciar.

Nessas visões, enfrentava o cavaleiro com toda a sua força, ou isso acreditava que fazia, e no final a luta sempre acabava da mesma forma. Com seu corpo completamente ferido, e seu orgulho em pedaços. O taurino não tinha utilizado todo seu potencial de proposito, deixando o vivo, observando-o com misericórdia.

"Porque você não é um homem mau" – Respondia o dourado, todas as incontáveis vezes que a visão se repetia.

Um homem mau?! Por que lutava com este homem? Por que parecia que ele era o errado da história? Sim, ele não era mau! Conseguia admitir que tinha uma personalidade difícil, mas por Zeus! Ele também era um cavaleiro de Athena! Lutou várias vezes para proteger a deusa, quase esteve a ponto de matar seu próprio irmão possuído por Hades, em prol dela e da humanidade! Então por que essas visões?! O que elas queriam dizer?! Quem era o cavaleiro de touro que enfrentava em loop em sua mente?!

Essas perguntas inquietavam de sobremaneira o leonino, que parecia se desligar cada vez mais do mundo real. Cada vez sentindo mais nítida em sua pele a frustração de ser poupado em batalha, os golpes que recebera, os gritos dos aprendizes velando por seu mestre. E cada vez menos pensava nessas imagens como visões, pareciam mais memórias perdidas no mais profundo de seu ser.

Quando começaram a reconstrução da casa de gêmeos, Ikki afastou-se decididamente de todos. Precisava de espaço, colocar os pensamentos em ordem.

-...O que está acontecendo comigo? - Questionou certa noite da terceira semana, observando o céu estrelado, deitado no topo da casa de touro.

Procurava distraidamente a constelação de Fênix. Conseguiu encontrá-la com certa dificuldade, as nuvens pareciam cobrir as estrelas da mesma forma que as duvidas nublavam a mente de seu cavaleiro. Passou então a procurar a constelação de Andrômeda, ignorante ao fato de que Ankaa, a estrela mais brilhante de Fênix, parecia cintilar para ele de forma distinta.

Por outro lado, a de seu irmão era impossível de se encontrar, completamente encobertas por intensas nuvens. Soltou um urro de frustração e raiva que sequer sabia que estava contendo. Ainda não havia noticias da tal missão de Shun, tampouco conseguia sentir minimamente a presença do jovem de olhos esmeralda, seu coração se oprimia em pensar no que poderia ter lhe acontecido.

Não sabia o que faria se o perdesse, esteve tão perto disso na luta contra Hades e não queria que jamais voltasse a acontecer.

Ankaa continuou brilhando insinuante por toda a madrugada, como se tentasse orientar a mente perturbada de seu protetor, mas Ikki parecia incapaz de escutá-la.

A falta de informações, as consecutivas batalhas contra esse segundo "Aldebaran" e essa inquietação em seu peito, fazia uma enorme raiva voltar ao seu interior, quase tão pulsante quanto a que sentia quando abandonou a Ilha da Rainha da morte, onde obteve sua armadura.

No final do primeiro mês, a casa de câncer estava de volta à seu resplendor, sem cabeças de mortos enfeitando todas as paredes, o que era uma excelente melhora. Era iniciada a primeira semana do segundo mês desde o começo da missão de Shun, estavam para começar as reconstruções na casa de Leão, quando Shiryu apareceu ao seu lado.

Nesse dia estava sentado no coliseu, pensando na jovem criança que o chamou de irmão, e que só apareceu em suas memórias enquanto escutava os prantos de Kiki. Por que não tinha voltado a aparecer? Tão ofendido tinha ficado ao ouvi-lo dizer que Shun era seu único irmão?

Estava decididamente ficando louco. Era apenas uma visão, ele não tinha sentimentos. Por que então se importava tanto por não vê-la novamente?

- Imagino que você ande com olhos muito tristes, Ikki.

Foi bruscamente trazido de volta à realidade quando ouviu a voz suave do cavaleiro de dragão, este sentou ao seu lado sem esperar convite. Os longos cabelos negros tocando o mármore da escadaria, enquanto seus olhos cobertos com vendas focavam na direção do leonino.

- Eu não me lembro de pedir companhia – Disse cortante, já se preparando para levantar.

- Um dragão pode viver mil anos, mas que valor tem uma longínqua vida, se imersa em meio à solidão?

- Shiryu, eu não estou com paciência para suas metáforas agora!- Rosnou já de pé.

- Se você continuar se afastando de todos assim, acabará se tornando algo não humano – Orientou ainda calmamente o libriano – Igual na história do mestre do meu mestre, ele-

- Se tornou um dragão ascendente e subiu por si mesmo aos céus, vivendo mil anos de solidão até o fim – Fênix interrompeu o chinês e recitou o restante de suas palavras, como um mantra que parecia saber de cor.

Isso surpreendeu o mais novo.

- Já conhece essa história? – Isso era inusitado, não pensou que seu mestre tinha dito a outras pessoas, era um assunto delicado que ele ainda parecia se culpar.

-...Sim, alguém me contou, há muito tempo atrás, eu acho – Respondeu num tom mais incerto do que gostaria, tentando inutilmente se lembrar quem havia lhe dito isso.

"Se sacrificar em prol de alguém" – Uma voz jovem emergiu repentinamente em sua mente, parecia vir das suas costas, mas algo o impedia de se mexer " Não é uma sensação que você sempre, sempre teve...?"

-...Ikki? – Shiryu percebia a inquietação no cosmo de seu companheiro, mesmo que não pudesse vê-lo.

"Tudo bem, você ser um humano" – A voz estava cansada, mas era tão determinada quanto a de touro.

"M-mas eu sou um humano!" – Novamente tentava conversar com sua mente, as pernas começando a fraquejar.

"Viva livremente...Irmão" – Agora era a imagem da criança de novo, ela estava em cima de um alto muro.

"NÃO! Você não é um fardo!" – Berrava em sua cabeça, mesmo sem ainda saber quem era aquele menino de olhar...De olhar tão familiar.

- Ikki!

Então a jovem criança deu um passo para trás, seu corpo sendo abraçado pela queda mortal.

"SUUUUUUUUI!" – Gritou do âmago de seu ser.

E tudo se tornou negro, enquanto a voz do homem determinado de antes voltava a soar em sua cabeça.

"Se aquele garoto que eu vi no meio das chamas, faz parte do seu passado...Você é o homem que conhece a dor de proteger uma pessoa." – A voz masculina dizia, enquanto seu corpo parecia ser puxado por um imenso turbilhão "Você não irá se transformar em um monstro...Não, eu não irei deixar!"

RETORNE AO SOL, KAGAHO DE BENU!

E o negro se transformou num imenso sol quimérico, apenas visível na mente do cavaleiro de fênix. Ao tempo que no mundo real, Shiryu sustentava o corpo do companheiro que repentinamente caía em inconsciência, emanando seu cosmo em alerta para que alguém viesse ajudá-los, sem conseguir compreender o que havia acontecido.

Muito distante dali, um cavaleiro em profunda meditação permitia que uma lágrima escorresse de seus olhos.

"Me perdoe Ikki...Mas você precisa se lembrar...Vamos cumprir, aquela promessa, juntos"


Notas finais
*Foram utilizados os capítulos 40,178, 179 de Lost Canvas para fazer as memórias de Kagaho.

O próximo cap. é o maior da estória, com quase 5 mil palavras! Se chama "Redenção da alma". Aguardem, por favor~