Este é simplesmente o capítulo mais longo até agora XD' Espero que gostem, porque também foi o mais trabalhoso!


Capítulo VI - Redenção da alma.

Shiryu estava muito preocupado.

Não demorou nem dois minutos e Hyoga e Kiki apareceram ao serem chamados por seu cosmo, os dois atônitos ao ver Ikki desmaiado nos braços do cavaleiro de Dragão. Automaticamente ambos entraram na defensiva buscando um possível inimigo.

Os cabelos ruivos já chegavam aos ombros do pequeno ariano que tinha a sobrancelha no formato de dois globos roxos, e embora ainda fosse bem mais baixo que os outros dois, após a reconstrução da casa de seu antigo mestre, Kiki começou a se empenhar muito em treinamentos físicos, intercalados com o esforço para reerguer o santuário, fazendo-o aos poucos aparentar o físico de um cavaleiro de Athena.

Já Hyoga mantinha seus cabelos loiros na mesma altura que antes, emoldurados por seu rosto pálido e intensos olhos azuis, este vestia sua armadura de cisne, ao tempo que o aprendiz levava apenas uma roupa de treinamento marrom.

- Está tudo bem... Eu já procurei e não senti a presença de inimigos. – Tranquilizou o chinês. Após perder definitivamente sua visão, seus outros sentidos haviam se tornado muito mais aguçados, podendo perceber o som de passos ou o respirar de alguém mesmo a grandes distancias, sem contar seu grande domínio no cosmo. – Mas eu vou precisar de ajuda para transportá-lo.

Embora conseguisse se mover muito bem mesmo sem enxergar, passar pelas casas que ainda não tinham sido reconstruídas era um desafio a parte, principalmente a casa de Virgem que tinha sido reduzida a pedaços. Rochas e pilares prestes a cair e pisos instáveis estavam espalhados por todo o santuário, levar sozinho um companheiro desacordado por alguma razão ainda desconhecida por um ambiente tão danificado era um risco que o libriano não estava disposto a correr. Sem questionar sua cautela, Kiki começou a usar seus poderes psíquicos para tentar avaliar o estado de Fênix, enquanto Hyoga correu para avisar Athena e os demais sobre o ocorrido.

- ... Estranho... – Comentou o menino cuja voz ainda saia estridente e infantil - Eu só sinto como se ele estivesse muito cansado, não há lesões físicas, mas sua mente parece estar muito distante...

- Talvez seja melhor o levarmos a um médico – Resolveu Shiryu contemplando o cavaleiro caído.

-...Eu...Sinto muito em não poder ser mais útil – Comentou cabisbaixo o ruivo, lembrando como seu mestre, o antigo cavaleiro de Áries, era conhecido por conseguir até mesmo curar com suas habilidades psíquicas. Foi assim que salvou a vida do mesmo Shiryu, quando este doou seu sangue de bom grado para recobrar a vida das armaduras de Dragão e Pégaso quatro anos atrás. – Meu mestre provavelmente saberia o que fazer...

O chinês sorriu compreensivo, bagunçando levemente os cabelos cor de fogo. Entendia a tristeza de Kiki como ninguém, ele também havia perdido seu mentor na guerra santa, o homem que considerava como um pai.

- Está tudo bem Kiki, não se cobre tanto. Eu e Hyoga havíamos notado que ele andava estranho nos últimos tempos, eu deveria ter tentado falar com ele antes, mas você sabe como é Ikki, sempre querendo se desvencilhar de todos. – Levantou-se com a ajuda do mais novo – Além disso, ainda preciso de sua ajuda, vamos descer até estar fora do santuário, para que você possa teletransportá-lo para um curandeiro de Rodorio.

Meia hora depois, o aspirante a cavaleiro de Áries acompanhava Fênix na única vila próxima as terras de Athena, ao tempo que Dragão chegava ao salão do grande mestre. Hyoga havia reunido os demais cavaleiros de bronze, Marin e Shina, junto a deusa, que por sua vez aguardava sentada no trono do patriarca, no centro do enorme salão de mármore cercado de pilastras gregas, enquanto os demais estavam de pé ao seu redor.

Shiryu aproximou-se e ajoelhou-se à presença de sua deusa.

- Athena – Solicitou permissão. Ao que ela confirmou com a cabeça.

De sua forma tranquila, o dragão explicou sua preocupação com o estado de Fênix, e como decidiu iniciar uma conversa com ele e como isso acabou com o outro cavaleiro inconsciente.

- Me perdoe à insolência, mas como não tínhamos certeza do que o afetara e sobre sua gravidade, orientei Kiki que o levasse a um curandeiro de Rodorio.

- Está tudo bem Shiryu, confio em tua prudência e cautela. A guerra santa contra Hades ainda é um evento muito recente, não sabemos que efeitos ela ainda pode nos exercer – Parou sua voz suave por alguns instantes, lembrando-se da imagem de Seiya ainda preso a cadeira de rodas. Respirou fundo, erguendo a cabeça com decisão – Peço a todos que descansem por hoje, sei que em nome de todos que caíram na atroz batalha contra meu tio, desejamos reerguer o santuário outra vez para seu antigo brilho, contudo, eu não desejo ver mais dor e sofrimento no semblante de nenhum de vocês.

- Como desejar, Athena – Todos recitaram juntos, inclinando sua cabeça em respeito.

Shiryu então foi mergulhado em perguntas, apesar de sua detalhada explicação anterior, pelos demais cavaleiros aflitos sobre um possível novo confronto que teria sido capaz de derrubar até mesmo a temível Fênix, contudo, o ajuizado dragão tranquilizava a todos, com suas palavras sabias e tom calmo, sempre ponderando o que dizer e sabendo administrar com maestria as aflições alheias, ainda mais quando Kiki se comunicou por telepatia para informar que, de fato, Ikki havia caído apenas por extrema exaustão.

Assumiram que, sua preocupação com Shun o fez sequer notar que havia ultrapassado os próprios limites durante a reconstrução, uma vez que podia nem estar completamente recuperado da guerra contra Hades, mesmo que afirmasse o contrario.

Saori observava fascinada como o futuro cavaleiro de Libra conseguia tranquilizar os presentes. Assomando isso a grande capacidade de organização que mostrou ao coordenar junto a Marin e Shina o reerguimento das doze casas, fez um enorme sorriso surgir na face da divindade, enquanto tocava sutilmente com a ponta dos dedos os detalhes em revelo do trono de mármore do Grande Mestre, uma ideia surgindo em sua mente.

Afinal, o santuário precisava de um novo guia.

-.-.-.-.-

Ikki caminhava sem rumo por uma planície rochosa de aparência vulcânica, o que condizia perfeitamente com o intenso calor que tomava o local. Por mais que seguisse andando pelo que pareciam horas, não havia outro som senão o de seus próprios passos ou o farfalhar das roupas brancas de treinamento que usava, não havia presença que não fosse a sua própria. Tudo era silencioso e vazio.

- Que porcaria de lugar é esse? – Começava a se inquietar, há muitos anos era adepto a solidão, porém, a deste lugar começava a afligir-lhe a alma.

Como imaginava, não houve qualquer resposta.

Seguiu pisando por desolado ambiente, até que um brilho no horizonte fez seu peito acelerar. Começou a correr em sua direção aos poucos conseguindo divisar a imagem que parecia um espelho, com a diferença de que era completamente negro, ao tempo que sua moldura era detalhada em prata.

-...O que é isso...? - Parou a sua frente, estranhamente sem sequer arfar ou suar, apesar da carreira.

Olhou fixamente para o objeto, e o que viu quase o levou ao chão. Era suposto ser seu rosto refletido naquela superfície ônix brilhante, no entanto, o que via era um rosto pálido, olhos negros e cabelos curtos e azulados iguais os seus, usava também a mesma camiseta branca de longas mangas e calças do mesmo tom. Deu um passo para trás surpreso, mas a imagem apenas repetiu seus movimentos, como um reflexo deveria fazer.

- ... Que ilusão é essa?! Eu não me lembro de ter sido acertado por algum golpe!

Por mais que forçasse suas lembranças, tudo que vinha a sua mente era estar sentado no coliseu, até que Shiryu veio conversar. Sabia que o Dragão não possuía nenhum golpe que o atingisse assim, além de não haver qualquer razão lógica para o outro cavaleiro o atacar, afinal, ambos eram guerreiros de Athena.

"...Um guerreiro de Athena?..." – Abriu seus olhos como pratos quando a figura no espelho começou a falar, num tom de voz exatamente igual o seu, embora sofresse de eco – "...Então é isso o que somos nesse vida?..."

- De que merda está falando?! – Inqueriu entrando em posição de ataque, seu duplo não replicou dessa vez –Quem realmente é você?!

"..." – O ser o encarou com expressão azeda, a mesma expressão mal humorada que sabia que ele mesmo levava em sua face na maior parte do tempo "... É suposto dizer que eu sou você, pelo menos, em outra vida..."

- Não me venha com essa conversa fiada! Diga-me logo o que você quer ou eu te quebrarei em pedaços! – Ergueu o punho para dar mais força a suas palavras.

O outro apenas riu. Irritando fênix ainda mais.

"...Bem, nosso gênio continua o mesmo, isso é bom. Odiaria ter me tornado um escravo de Athena com síndrome de bom moço...Me sentiria ridículo!.." - Revirou os olhos com o pensamento.

- Quem é você exatamente?! – Exigiu saber.

"... Eu costuma ser Kagaho, o espectro de Benu..." - Declarou, e como resposta a suas palavras, suas roupas brancas foram substituídas em meio a uma fumaça negra por uma impecável armadura escura como o ébano, com um grande par de asas à suas costas. "...Nessa reencarnação, eu sou você, contudo, nossas consciências ainda estão separadas. Eu estive preso aqui, dentro desse espelho no mais fundo da sua subconsciência desde que você nasceu..."

- Você só pode estar brincando comigo! EU, um espectro de Hades?! – Deu outro passo para trás, sem conseguir absorver tais palavras – Isso é um absurdo! Como se eu fosse acreditar em você!

"...Eu não me importo se você acredita em minhas palavras ou não, eu só preciso saber de uma coisa..." Bateu com ambas as mãos no vidro, uma intensa expressão de preocupação tomando seu rosto "...Alone, eu prometi que ia protegê-lo! Que nasceria ao seu lado e cuidaria dele...Onde está Alone nesse tempo?!..."

-A...Alone? – Hesitou, esse nome soava de alguma forma familiar.

"...Aquele que possuiu a alma mais pura de sua época, supõe-se que Hades a cada reencarnação venha a terra em seu corpo..." – Parou, apertando as mãos com força "...Eu preciso saber se o Alone de agora está bem...!"

-...Está...Está falando de Shun? – Hesitou – Aquele maldito deus reencarnou usando o corpo de meu irmão Shun!

"...Irmão?!..." – O espectro abriu os olhos em choque afastando-se do espelho – "...Nascemos como...Irmão dele?!..." – A pouca cor que existia no rosto do reflexo pareceu sumir, enquanto ele manteve o olhar baixo, como se perdido em terríveis lembranças "...Eu...Em minha primeira vida...Não pude proteger meu irmão..." – Sua voz começava a embargar "...Meu pequeno irmão Sui...Ele cometeu suicídio, ele se matou por pensar que eu sempre me feria por sua causa!..."

Socou o espelho com força, fazendo-o tremer. Ikki não respondeu, sentia um enorme nó se formando em sua garganta, ver aquele rosto tão parecido com o seu lamentando a morte de um irmão, o fez sentir uma amargura indescritível, lembrando-se de como Shun quase morrera ao tentar sacrificar sua vida para destruir Hades, como esteve a ponto de matar o sangue de seu sangue para assassinar o deus que tomava seu corpo. Sim, conseguia entender essa dor.

"... ME DIGA!... "- Foi repentinamente trago de volta a realidade pela imagem, que socava claramente desesperada o espelho "...ME DIGA QUE ESSE SEU IRMÃO, SHUN, POR FAVOR, ME DIGA QUE ELE ESTÁ BEM!..."

Isso impressionou Ikki, seu reflexo mostrava genuína preocupação por seu irmão. Novamente, parecia estar olhando para si mesmo, apesar da sobrepeliz e pele pálida.

- Sim – Por alguma razão respondeu – Ele sobreviveu, Athena o ajudou a expulsar Hades de seu corpo...Ele está bem.

Pelo menos, era isso que queria acreditar, uma vez que não o via há mais de um mês. Porém a reação de sua cópia o surpreendeu de sobremaneira. As mãos escorregaram pela superfície lisa, ao tempo que o espectro caiu de joelhos, lágrimas de sangue escorrendo de sua face.

"...Ainda bem...Por todos os deuses, ainda bem!..." – Sua voz era quase um sussurro, tremula, porém, carregada de um alívio palpável "...Eu não pude protegê-lo em nossa última vida, mas antes de morrer eu prometi que cuidaria da terra banhada pelo sol e nasceria ao seu lado...Pelos deuses! Então...Eu pude manter minhas palavras..."

Ikki não sabia o que responder a imagem soluçante de aplaco.

- Eu não entendo - Começou, embora o outro sequer ergueu a cabeça para vê-lo – Você...É um espectro. Não deveria ficar feliz ao saber que Hades não obteve sucesso ao...Possuir o corpo de Shun.

Kagaho respirou fundo, tentando encontrar fôlego para responder o cavaleiro.

"...Eu podia ser chamado de...Espectro mais leal a Hades..." – Respondeu com sua voz ainda trêmula " ...Porém eu era verdadeiramente fiel a Alone, seu corpo humano. Ele lembrava muito meu irmão Sui..."

Sui. Este nome, a igual que Alone, produzia uma sensação estranha em seu peito.

- Você está tentando me dizer – Recomeçava, ao tempo que o outro, se sentava no chão invisível do espelho, apoiando um dos braços em uma de suas pernas flexionada contra o corpo – Que eu fui um espectro, e renasci como irmão de Shun e cavaleiro de Athena por causa de uma promessa sua?

"...Nossa promessa..." – Corrigiu "...Sim, exatamente isso tento dizer. Eu compreendi as palavras de Dohko no final de minha vida, me deixei purificar pela luz do sol e prometi a Alone que cuidaria dele em minha próxima existência, dele e da terra. Tem seu sentido sermos um cavaleiro de Athena nessa vida então. Só não compreendo como ela conseguiu tirar Hades de seu corpo..." Então parou, como se uma ideia absurda o ocorresse "...Espere um instante... O que Shun é de Athena nessa época se é nosso irmão?..."

- MEU irmão – Retificou. Mas ainda assim respondeu – Ele é o cavaleiro de bronze de Andrômeda. E pelo que parece, o futuro cavaleiro de ouro de Virgem.

"...Então Hades possuiu um cavaleiro?! Isso sim é difícil de acreditar..."- Ponderou por alguns instantes - "...Mas penso saber a razão, Sasha, Athena de minha época, era como sua irmã. Sua natureza bondosa o fez lamentar muito ter que lutar contra ela...Então, nascendo nessa vida como um cavaleiro, ele finalmente poderia protegê-la..."

Um sorriso tomou os lábios do espectro pela primeira vez, enquanto limpava o sangue de sua face. Numa expressão que Ikki conhecia muito bem, embora ninguém nunca o vira utilizando.

Orgulho. O mesmo rosto que fazia para Shun quando estava orgulhoso de o quão forte seu irmãozinho se tornou.

"...Me diga!... "O reflexo inqueriu " ...Como é Shun? Com que se parece? Sua personalidade, sua força. Como foi tê-lo como irmão?..." – Uma esperança quase infantil tomou aquele rosto pálido.

Fênix franziu a expressão, nunca foi de conversar muito, mesmo que fosse para falar de seu querido irmão. Porém, já estava preso naquele lugar, que o outro tinha chamado de subconsciente, pelo que pareciam horas. Sentou-se, uma ideia formando-se em sua mente, lembrando-se das imagens que o perturbou nas últimas semanas. Aquele menino que desaparecia no fogo, o cavaleiro de ouro de touro, as palavras familiares de Shiryu... Seriam essas lembranças de Kagaho?

Seria mesmo verdade que eram a mesma pessoa? Teria estado do lado do inimigo na última guerra santa?! Sido um espectro de Hades?! Isso tudo era tão absurdo...E mesmo assim...

- Eu posso até te contar, mas – Jogou-se no chão, sentando em posição de lótus e cruzando os braços. -... Em troca você tem que me falar sobre seu irmão...Sobre Sui.

O espectro pareceu hesitar por um instante, mas concordou com a cabeça.

"...Muito bem...Temos um acordo...".

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- Eu não compreendo Shiryu...- Kiki estava sentado ao lado da cama simples de fênix, sobre uma cadeira de carvalho velha - ...Por mais que eu tente entrar em contato com a mente dele com minha telecinese, nada parece surtir efeito. É como se algo, ou alguém estivesse tentado impedir meu avanço...

Estavam em um rustico e simplório quarto branco com apenas uma janela de madeira e uma pequena cômoda para utensílios médicos básicos. Era a casa de um velho senhor de Rodorio, pelo estado de Ikki não parecer realmente serio, o mantiveram ali ao invés de o transladarem a um hospital.

Shiryu estava parado quase ao lado do ariano, ao tempo que Hyoga estava escorado na porta do aposento.

-...Creio que o mais indicado então é informarmos Saori...- Entoou calmamente o libriano – Se houver a menor suspeita de que estamos diante de um novo inimigo, o melhor que podemos fazer é deixarmos nossa deusa ciente.

- Além disso, talvez Saori consiga entrar em contato com a mente de Ikki, já que Kiki não é capaz. – Seguiu o russo.

Um pequeno silêncio se fez presente no ambiente enquanto o aprendiz abaixava a cabeça, claramente atingido pelo comentário, enquanto Shiryu aproveitava o pequeno tamanho do quarto para dar uma cotovelada no amigo que o encarou rudemente. Tudo que não precisavam agora eram das observações exatas e frígidas do aquariano, desde a reconstrução da casa de Áries Kiki estava quase irreconhecível, passando a maior parte do tempo triste e distante. Shiryu sabia que Hyoga também sofria pela segunda perda de seu mestre Camus, mas o futuro cavaleiro de Aquário era quase tão bom em esconder seus próprios sentimentos quanto o antigo mago do gelo, apesar de tê-la em constante ebulição.

- Daqui há pouco mais de um mês Shun estará de volta – Recomeçou Dragão tentando reerguer os ânimos – Vamos falar com Saori. Vai completar uma semana que Ikki está desacordado, não quisemos afastá-la do santuário com o receio de algum inimigo estar à espreita e usar esse incidente como uma armadilha, porém, ela e os demais cavaleiros estão cada vez mais preocupados. O melhor agora é levá-lo de volta ao santuário e esperar que nossa deusa consiga trazê-lo de volta – Então se virou para o lemuriano – Você fez um bom trabalho Kiki, agora temos que confiar o demais a Athena.

O jovem ruivo concordou com a cabeça, um pouco menos cabisbaixo, ao tempo que encostava a mão na testa de Fênix e fazia sinal para os outros dois se aproximarem, a fim de teletransportá-los para próximo do santuário.

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Nunca em sua vida passou tanto tempo dialogando. Era tão surreal que sequer tinha ideia de quanto tempo havia passado. Poderiam ter sido dias completos e ele não saberia dizer.

Talvez fosse porque estava conversando consigo mesmo dentro de sua própria cabeça, não havia por que esconder seus sentimentos ou atuar nesse lugar que apenas eles habitavam. Sendo assim, pela primeira vez em sua vida atual passou horas ouvindo alguém falar, escutou atentamente sobre a vida de Kagaho, sobre sua própria vida no século XIII, como se deu a antiga guerra santa, quem eram os cavaleiros que vagamente lembrava ter enfrentado, o convívio algo áspero que tinha com os demais espectros, como era Alone, o antigo corpo de Hades, cuja personalidade parecia absurdamente com Shun, escutou até mesmo a triste história do pequeno irmão Sui. Chegando a morte de Kagaho, uma luta contra Dohko de libra, o mestre de Shiryu, onde em meio a um golpe do cavaleiro ambos deveriam ter perecido na estratosfera, contudo, o espectro havia polpado a vida de Dohko, lançando-o de volta para terra e morrendo sozinho. Um cenário, ironicamente, muito parecido ao que o próprio Shiryu um dia contou ter vivido ao lutar contra Shura de Capricórnio.

Esses relatos mexeram muito com fênix, cada um parecia ativar uma memória a muito esquecida, como quando Pandora alterou suas lembranças para que não recordasse que foi ela que deu o amuleto de Hades a Shun, e não sua mãe como falsamente se lembrava. Essas sensações despertadas por cada palavra dita faziam com que fosse impossível refutar aquelas experiências como momentos que algum dia, mesmo em outro tempo, havia vivido.

Sempre foi alguém muito descrente, nem sequer em Athena confiava completamente, mesmo assim ali estava ele, acreditando nas palavras de um simples reflexo.

Não cabia em si de surpresa quando se viu começando a falar também, sobre sua vida sendo cavaleiro de Athena, sobre Shun, como quase tentou matá-lo, mas depois sempre fez o possível para se redimir, ajudando-o quando precisava. Surpreendeu-se que Kagaho não o julgou por isso, apenas escutou como se entendesse suas dores. No final, até mesmo o sofrível tema de Esmeralda foi tocado nessa conversa.

Era como se alguém estivesse, mesmo que invisível, incentivando-o a falar, a abrir sua mente e alma para si mesmo. Era uma experiência surreal, mas nunca antes havia se sentido tão leve.

Quando enfim parecia que as palavras haviam se esgotado, Ikki levantou-se decidido.

- Como eu faço para tirar você daí? – Inqueriu de repente. – Eu só preciso quebrar essa porcaria de espelho?!

"...Se você fizer isso..." – Respondeu o espectro levantando-se também, não exatamente surpreso pela ação não pensada, afinal, ele sempre foi impulsivo, não importa quantas vidas vivesse "...Nossas consciências se tornaram apenas uma...Você se lembrará de tudo, mesmo meu cosmo e sobrepeliz serão seus..."

- Se somos a mesma pessoa, qual o problema disso? – Questionou irritado.

"...Uma coisa é eu te contar, outra coisa é você reviver cada momento..."- Hesitou "...Mesmo a morte de Sui..."

- E como você acha que eu me sinto esquecendo-se dele?! – O reflexo o observou atônito – Eu te disse sobre Esmeralda, toda dor que senti e ainda sinto com sua perda, porém, em momento nenhum de minha vida desejaria esquecê-la! – A frustração em sua voz era palpável - Ela foi a minha luz, o que me manteve humano e cuidou de mim no inferno que era a Ilha da Rainha da Morte. O mesmo era com Sui, não estou certo?! Você se tornou um espectro por causa dele, e mesmo assim não o esqueceu! Ele também era sua luz, independente do que aconteceu, foi isso que o ligou a Alone! Foi ISSO que fez com que eu nascesse irmão de Shun, e eu não posso dizer o quão grato eu sou em ter alguém como ele sendo sangue do meu sangue. Eu quero. Eu preciso me lembrar!

Começou a revestir seu punho aberto com cosmo.

- Eu já vivi demais fugindo de meu passado, agora eu compreendo que por mais que fuja, por mais que eu me distancie de todos para não ter que encarar Shun nos olhos e admitir todos os meus erros, isso não vai apagar o que já aconteceu. Agora me diga você Kagaho! Quer ficar nesse espelho para sempre, ou prefere estar comigo para viver ao lado daquele que você reencarnou para proteger?!

Como resposta o espectro sorriu, abrindo os braços com satisfação.

"...Apenas me prometa..." Impôs com firmeza "...Que cuidará de Shun, independente do que acontecer, ou de quem seja nossos inimigos..."

- Não seja idiota – O fogo de sua energia já rodeava completamente sua palma - NÓS faremos isso. AVEEE FÊNIIIIX!

Uma enorme cosmo energia em formato de pássaro de fogo saindo de sua mão acertou o espelho, quebrando-o em milhões de pequenos pedaços que se espalharam e caíram por todo o lado como se fossem minúsculos flocos de neve negra, cada ínfima partícula ao tocar o corpo de Ikki revivia completamente as memorias do espectro e cavaleiro, cada fragmento trazia de volta cada dor e cada emoção, cada caco o lembrava de todos aqueles que conheceu, os convívios e sensações.

Pequenas lágrimas salgadas correram por sua face enquanto mantinha o rosto erguido, vendo Sui se suicidando porque não queria vê-lo se ferir mais ao tentar protegê-lo. Mas também se lembrou de seu sorriso, de sua presença acolhedora. Todo o amor que sentia por seu pequeno irmãozinho que partira do mundo tão cedo, amor este que salvou sua alma de transformar-se num fantasma das trevas uma vez que se tornou um espectro de Hades.

"Porque você não é um homem mau" – As palavras do cavaleiro, Hasgard de Touro, que usava o epiteto de Aldebaran, agora faziam sentido em sua mente. Ele conseguiu ver através de sua alma, conseguiu ver sua dor.

Asmita de Virgem e mesmo Dohko de libra tinham feito o mesmo.

"RETORNE AO SOL, KAGAHO DE BENU!" – Dohko havia desejado, em meio a seu golpe suicida, que deveria matar os dois, mas ele salvou o cavaleiro no último instante, morrendo sozinho, porém, tendo sua alma lavada pelo próprio sol.

Quem diria que esse mesmo Dohko viveria o suficiente para ser o mestre de Shiryu, seu meio irmão e companheiro de armas nessa reencarnação? O quão irônico a vida podia ser...

"...Obrigado..."

Uma doce voz pode ser escutada, Ikki abaixou a cabeça para notar que a mesma vinha do pó negro resultante da quebra do espelho. Ela se tornava esverdeada, para então começar a rodopiar e aos poucos tomar a forma humana. Um menino, vestindo uma grande toga branca, possuidor de cabelos negros e curtos que emolduravam a perfeição seu doce rosto infantil, sorriu. O coração de Fênix parou.

- S-sui...?! – Sem sequer esperar resposta, correu até a aparição e não coube em si de surpresa ao notar que podia sentir o toque quente de sua pele, as lágrimas agora rolando intermináveis por seu rosto. – Meu irmão!

Lagrimas douradas também saiam dos pequenos olhos infantis, que abraçavam o forte homem à sua frente sem hesitar.

- Me perdoe irmão, toda a dor que te causei, eu só queria...- A suave voz tentava dizer - Queria que você fosse livre de mim...N-não pensei, não pensei que te...Te causaria tan-ta dor...!

Os joelhos da figura espectral, e estranhamente sólida, vacilaram, mesmo Kagaho não conseguia sustentar o próprio corpo frente a tamanha emoção, ajoelhando-se ao lado de seu falecido irmão.

- Como...Como é possível...- Tocava aquela infantil face, descrente no que seus olhos viam. – Sui, meu pequeno Sui, é v-você mesmo? – Todas as lembranças do menino agora eram vividas na mente de Fênix.

O menor balançou a cabeça, tremulo. Abraçando seu irmão com mais força.

-...Por ter...Cometido o crime de tirar a minha própria vida, minha alma teve que pagar... – As lágrimas cada vez mais frenéticas o atrapalhavam a falar – M-mas pe-pelas suas ações irmão...E-eu pude pagá-las em vida! E-eu pude reencarnar...Pa-para estar outra vez ao seu lado. Mesmo que- mesmo que não pudesse ser mais teu irmão...Porque você já há-havia ligado sua alma com a de A-alone.

- Do que...Do que esta falando Sui?! – E sua face não coube em assombro quando a figura do pequeno menino assumia curvas mais suaves, traços ainda mais finos, longos cabelos loiros e brilhantes olhos verdes. Aquela figura que tanto lembrava seu irmão atual– N-n-não pode ser! Vo-cê...Você...Esmeralda?!

- M-mesmo que...Eu não pudesse ser outra vez seu irmão, eu pude...Nascer como alguém parecida com ele... – A pequena jovem sorria abertamente – Você não sabe o quão feliz eu era quando você me confundia com Shun. Mesmo que na época eu não sabia o porquê disso.

A jovem deslocou uma das mãos que antes abraçava o homem a sua frente, para enxugar as lágrimas de seu rosto.

- Você sabia? Sui e Esmeralda se escrevem iguais em japonês*, seu idioma natal Ikki. Quando eu era Sui, você pensou que eu parecia muito com Alone, por isso se afeiçoou a ele... E como Esmeralda, eu era igual a Shun, por isso você se afeiçoou a mim... Não acha que nossos destinos foram sempre interligados? – Ela tornou a abraça-lo, escondendo seu rosto em seu pescoço - ... Eu paguei a divida de minha alma suja pelo pecado do suicídio sendo uma escrava vendida pelos próprios pais, sendo Esmeralda, até o dia que você me salvou Ikki... E finalmente pude ser eu a cuidar de você. Eu fui tão feliz. Mas eu ainda tinha que pagar pelos meus erros, assim eu morri jovem numa vida que, apesar de dura, dessa vez, eu realmente queria viver. – Suspirou - Você entende Ikki?! A culpa nunca foi sua! Eu que acabei com minha vida, eu que não pensei em seus sentimentos, eu pude reencarnar e estar novamente ao seu lado, mas para pagar meus erros eu não pude estar por muito tempo, mas agora tudo acabou.

Ela levantou o rosto novamente. Intensos olhos verdes avermelhados de tantas lágrimas.

-Agora minha alma obteve a redenção. - Disse sorrindo como um anjo - Eu estou livre! Mas eu só posso fazer isso se você se perdoar. A culpa nunca foi sua, Kagaho meu irmão, Ikki meu salvador. Por favor, continue se lembrando de mim, mas não deixe de viver por minha culpa. Eu nunca poderei descansar se for assim.

Ikki ainda sem palavras frente à revelação de que no final, a culpa da morte de Esmeralda não foi sua, ainda chocado com a ideia de que seu pequeno irmão aceitou uma vida dura e tão curta apenas para estar novamente ao seu lado, o abraçou com todas as suas forças, beijou a raiz de seus cabelos de forma protetora, uniu suas testas sentindo a respiração contraria, que de alguma forma existia junto ao corpo físico.

- Me perdoe...- A jovem voz mesclada entre o feminino doce e o masculino infantil disse num fraquejo.

- Não há o que perdoar – Sorriu, um sorriso verdadeiro – Você me ensinou a amar, em mais de um sentido. E estarei aqui, esperando o dia que eu possa te amar pela terceira vez, seja como for!

- As deusas do destino me permitirão reencarnar. Elas estão cuidando da pós-vida por enquanto.- A doce alma sorriu, um sorriso mais brilhante que o próprio sol - Tenho certeza que logo voltaremos a nos ver! Então...Isso não será um adeus.

Ambos se abraçaram com mais força, com mais lágrimas, até que o corpo retornou a seu estado não-físico, se desmanchando novamente em pó esverdeado que foi levado pelo vento, pela planície rochosa que aos poucos se tornava um imenso e interminável jardim.

Ikki se deixou cair, no infinito gramado verde, respirando fundo enquanto recobrava o ritmo de seu coração.

Pela primeira vez em suas duas vidas... Estava em Paz.

E tão absorto nesse sentimento ficou, que foi incapaz de notar uma presença distante, que acompanhou tudo, mesmo de olhos fechados sentado em posição de lótus.

-Meu irmão, agora é hora de acordar e desfrutar da redenção de sua própria alma... - Abriu os olhos, da mesma cor que a pedra que simbolizava o nome daquela alma que enfim pode partir em paz – Mas Kagaho...Ainda existe uma promessa que precisamos cumprir.

E aos poucos Ikki voltou à consciência.


Notas finais
*Sui é um tom de verde, deste modo, para se escrever "esmeralda" usa-se o Kanji "sui" a principio. Quando eu descobri isso, pesquisei e busquei fontes diversas sobre reencarnações, pelo ponto de vista budista e espírita, então, levando-se em conta as intenções de Shiori Teshirogi em dar muitos sinais de que Kagaho e Alone eram Ikki e Shun na vida passada, eu desenvolvi essa teoria.

Sui e Esmeralda são a mesma alma, e a razão da jovem ter vivido tão pouco foi para pagar seu 'karma' de ter tirado sua própria vida em sua reencarnação passada.

Qualquer dúvida, por favor, não hesitem em me perguntar!