Capítulo X - Tempos de paz, tempos de guerra.

Um mês e um dia antes do retorno de Shun ao santuário.

Athena esperava pacientemente no trono do Grande Mestre pela chegada de certo visitante, mantendo o semblante sério e decidido.

De cada lado do trono, Hyoga e Shiryu prontos para defender sua deusa. Ao lado do cavaleiro de Dragão, Kiki mexia as mãos ansiosamente, escondidas atrás do trono, Marin e Shina esperavam pacientemente.

De frente a deusa, Hécate mostrava-se preocupada.

- Minha cara Athena, compreendo que necessitas novamente das armaduras douradas. Eu estou completamente disposta a negociar para trazer-te aquelas que ficaram presas no que restou do submundo... Porém, tratar de negócios com Hefesto...- Hesitava a jovem bruxa – Eu sei que ele ajudou em teu parto, mas... Mesmo depois que foi aceito novamente no Monte Olimpo, eu diria que ele ainda nutre uma paixão doentia por ti. Receio o que ele possa tentar fazer para possuir-te.

Os cavaleiros presentes franziram a expressão desgostosos com essas palavras, não perdoariam o deus ferreiro se ele ousasse atentar contra a dignidade de sua deusa.

- Eu sei das consequências Hécate, e agradeço que tenha vindo tão prontamente ao meu chamado. Contudo, não posso dar ouvidos a seu alerta. As armaduras de ouro de Leão, Virgem, Libra, Sagitário e Aquário foram destruídas por Hypnos na batalha dos Campos Elísios, sem elas, não posso reerguer completamente o santuário.

A conversa foi interrompida, no entanto, quando duas cosmo energia ardentes puderam ser sentidas do lado de fora do grande salão.

- Entre – Proferiu a deusa.

Hécate deu um passo para o lado, ansiosa. Recordando-se do alerta de Átropos, a Moira do fim, caso não conseguisse convencer Athena a voltar atrás em sua decisão. O plano delas poderia ser colocado em risco e o submundo entraria em ruínas completamente, retornando o mundo à era do caos. Milênios seriam necessários até que a estabilidade fosse retomada e o que restasse da terra voltasse a funcionar mesmo sem a existência do mundo dor mortos.

Afinal, até um relógio quebrado mostrava o horário certo duas vezes por dia.

O primeiro a entrar foi o cavaleiro de Fênix, parecia verdadeiramente irritado por ter sido designado com tal tarefa. Havia acordado no dia anterior, para assombro dos demais cavaleiros, como se nada tivesse acontecido, alegando que ele também tinha o direito de ficar cansado e que um mês desacordado não era razão nenhuma para pânico.

Mesmo Athena não acreditou em suas palavras, pois sequer a deusa foi capaz de fazer seu soldado despertar, mas ele desconversou alegando que o episódio de Hades foi particularmente cansativo para ele em mais de um quesito, conseguindo assim finalmente um pouco de paz.

Mas qual não foi sua surpresa quando no dia seguinte Saori o convocou a guiar um deus pelas doze casas, e lutar com ele caso fosse necessário.

Qualquer pessoa normal saberia que um mês de cama não era exatamente um bom treinamento para enfrentar um deus. Estava com os músculos destreinados e mente cansada, ainda assim estava sendo usado praticamente como bucha de canhão!

Mesmo Hades era muito mais preocupado com o bem estar de seus espectros, sabia bem disso. Seu primeiro desejo era simplesmente buscar sua sobrepeliz e abandonar para sempre o santuário, Athena e seus caprichos egoístas, mas mesmo ele seria incapaz de algo assim.

Nessa vida, havia jurado lealdade a deusa e não era do tipo que voltava atrás facilmente, prometeu que cuidaria da terra e continuaria fazendo isso. Além disso, preferia esperar que Shun retornasse antes de fazer alguma imprudência, algo lhe dizia que seu irmão também havia recobrado as memórias de Alone, e pelo amor que tinha por Sasha, duvidava que ele gostaria da ideia de trair a divindade.

Deste modo, ali estava ele, como uma maldita bucha de canhão frente ao que poderia ser uma seguinte guerra santa, ainda sem saber onde seu irmão estava.

"Muito obrigado, Athena" Pensava com amargura.

Hécate observava interessada a postura do cavaleiro, claramente já havia recobrado sua memória como espectro, se seu olhar repreensivo as atitudes de Athena fosse qualquer indicio. Átropos a informou também sobre a história de Kagaho, a lealdade dos espectros nunca havia deixado de surpreendê-la.

Uns bons passos atrás do cavaleiro de Fênix, uma figura manca adentrou ao recinto. Possuía cabelos encaracolados vermelhos vivos, uma barba farta e um olhar desconfiado, seu porte era atlético apesar de aparentar certa idade e trajava uma kamui, que lembrava uma certa mistura das armaduras de Touro e Áries, com o acréscimo de grandes asas recolhidas às suas costas.

Ao chegar frente à Athena, Ikki fez apenas um cumprimento de cabeça sutil, antes de caminhar até um pilar e apoiar-se nele, mesmo a contragosto, preparado para o caso de uma batalha ocorrer.

- Minha querida e suntuosa Athena! – Hefesto sorriu amplamente, com evidente malicia e desejo carnal em seu olhar, o que incomodou até mesmo Hécate. – Não sabe o quão feliz estou em poder revê-la depois de tantos séculos, meu amor!

- Quanta audácia - Rosnou baixo Hyoga, o ar ficando evidentemente mais frio.

- Hyoga, por favor, mantenha-se tranquilo. – Colocou Shiryu sabiamente.

- Hefesto. – Cumprimentou Athena sem levantar-se. - Por favor, não se iluda, quero simplesmente tratar de negócios.

- Qualquer serviço aceitaria por uma noite em vossa cama~ - Colocou sorrindo provocante.

Mesmo Shiryu estava com dificuldade em manter-se estável perante tal blasfêmia, e a temperatura da sala só não havia caído a zero simplesmente por causa da raiva de Ikki por tais afrontas, por mais que um minuto atrás estivesse maldizendo Athena, seu cosmo fervoroso estava equilibrando o frio emanado do cavaleiro de cisne.

Kiki apenas observava de um para o outro sem entender, a deusa havia retirado sua audição temporariamente, incapaz de permitir que alma tão doce fosse suja por tais obscenidades.

- Por favor, Hefesto, mantenha a compostura - Tentou Hécate – A menos que queira que eu te amaldiçoe.

O deus ofendeu-se com a afronta, mas sabia muito bem do que a bruxa do Olimpo era capaz.

- Muito bem, que tipo de negócios, minha desejável deusa quer? – Sorriu fingindo cortesia.

- Eu desejo que você recupere as armaduras de ouro de Leão, Virgem, Libra, Sagitário e Aquário, destruídas por Hypnos. Uma vez que Hécate traga-as de volta dos destroços do submundo.

- E por que eu faria isso minha voluptuosa meia irmã? Se não vejo intenção em vosso rosto de dividir o leito comigo. – Indagou com desinteresse – Além do mais, pensei que vós tivésseis em teu poder os lemurianos, eles não são mais capazes de restaurar as armaduras? Ou será que finalmente o último descendente do continente de Mu veio a falecer? Seria uma boa notícia, nunca gostei da ousadia deles de me desafiar na forja divina.

Athena agradeceu mentalmente que Kiki não estivesse ouvindo tais injúrias, muito embora Shiryu, por sua vez, parecia estar completamente tomado em cólera por tal comentário.

- Kiki é um descendente plenamente capaz. O que acontece simplesmente é que as armaduras foram reduzidas a tal ponto que suas habilidades não seriam o bastante. – Anuncio num tom forçadamente educado, mas repleto de fúria.

- Que desculpa burlesca. – Bufou o deus.

Saori teve que emanar seu cosmo para impedir o dragão de pular no pescoço do deus ferreiro, incapaz de suportar aquelas afrontas a seu falecido amigo Muh e ao pequeno Kiki.

- Não subestime um filho de Nýx, Héfesto. – Alertou Hécate – Hypnos e Thanatos podem ter perdido seus corpos devido a sua exacerbada autoconfiança, ainda assim, eles eram absolutamente poderosos, tanto quanto Hades.

- Siim, claro. – Ironizou. – De qualquer forma Athena, o que eu obteria em troca se não tua carne?

- A espada de Hades.

- O quê?! – A bruxa exclamou voltando-se para Athena – Mas teu contrato com as Moiras...

- Meu acordo com as deusas do destino foi simplesmente não destruir a espada - Saori dirigiu-se a rejuvenescida divindade - O que será dela depois nunca foi acordado.

Hécate calou-se, imaginando que a isso Átropos se referia com a possibilidade de um futuro terrível. Quando chegassem a esse ponto, um destino melhor já não estava mais em suas mãos.

Athena voltou sua vista a Hefesto que parecia realmente surpreso pela oferta.

- Acredito que te interessa. A única arma divina que não foi forjada por tuas mãos, a concentração mais pura do poder de meu tio Hades.

- Eu aceito! – Exclamou em êxtase o deus, sem pensar duas vezes.

Um tesouro da forja como este jamais poderia ser recusado. Era consciente de que a lâmina não apenas era composta de uma força admirável, mas também era um dos pilares que sustentava a existência do submundo, Athena talvez não soubesse disso, ou não se importava com o destino do reino de seu pior inimigo. Se conseguisse extrair a essência das trevas que residia naquela arma, teria poder suficiente para vingar-se definitivamente de Áres por deitar-se com sua esposa Aphrodite, e dessa vez nem mesmo Poseidon o deteria.

- À você Hécate - A deusa da guerra seguia, ignorando a expressão hilariante de Hefesto ou a preocupada da bruxa – Ofereço o sangue de Hades, que foi derramado sobre meu báculo quando o derrotei finalmente. Acredito que, como uma deusa do submundo, você saberá um uso para tal relíquia.

A jovem de maria chiquinha confirmou com a cabeça, alegando também aceitar o acordo.

Não havia mais nada que podia fazer, tudo havia caído sobre as mãos do jovem herdeiro do mundo inferior. Átropos disse que o caos ou a virtude, caso tudo falhasse, estariam a mercê do cavaleiro de virgem.

Rezava a Zeus que Shun tomasse o melhor caminho.

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Era chegado o momento, assim que pisou no Santuário, sentiu todo o peso da responsabilidade sobre seus ombros, mas agora não havia mais retorno.

- Você parece realmente mais forte Shun! – Comentou animado Kiki, embora ainda parecesse ansioso.

- Muito obrigado Kiki – Respondeu com um sorriso suave, enquanto sentia o cosmo flamejante de seu irmão simplesmente correndo em sua direção – Você também ficou mais forte! Mal posso acreditar que cresceu tanto em tão pouco tempo!

O pequeno ariano passou o dedo abaixo de seu nariz orgulhoso do elogio, agora quase chegava à altura dos ombros do virginiano, além disso, alguns músculos já eram claramente visíveis.

Só depois que notou algo diferente em seu amigo.

- Shun, o que aconteceu com seus olhos...? – Questionou preocupado, circulando o cavaleiro para ver se havia algo mais - Você está ferido?! Eu posso te ajudar! Andei treinando minhas habilidades de cura!

- Eu estou perfeitamente bem, não se preocupe. – Tranquilizou Andrômeda começando a caminhar - Antes que meu irmão chegue e me encha de perguntas eu gostaria de saber, como estão as coisas aqui no Santuário?

Ambos haviam chegado a um campo um pouco afastado das terras de Athena, onde o teleporte era possível. Teriam que passar por parte da vila de Rodorio antes de chegar, mas Shun sugeriu que fossem pelo caminho mais longo, um que passava por algumas fazendas e era bem menos movimentado, para o caso da reação de Ikki for um pouco flamejante demais.

- Como consegue saber que eu cresci mesmo sem abrir os olhos?

- Eu posso enxergar, mesmo sem meus olhos Kiki A cosmo energia que emana de todo seu corpo. Calculo que...Você está chegando a altura dos meus ombros, estou certo? – Comentou casualmente enquanto caminhava por um caminho de pedra sem dificuldades.

- Siiim! Exatamente isso! – Impressionou-se – Imagino que Shiryu também faça algo assim, ele também disse que estou crescendo bastante! – Comentou, agora muito mais feliz, diferente do menino apático que havia reencontrado no santuário assim que voltou com Athena da residência das Moiras.

Os dois seguiram conversando, onde o ariano explicou nervosamente o que aconteceu com Ikki, pedindo perdão por não poder ajudá-lo melhor. Shun o acalmou quanto a isso, dizendo que seu irmão nunca foi conhecido por pegar leve consigo mesmo, e que conversaria com ele para ter certeza que estava tudo bem.

Omitir o fato de que havia induzido o cavaleiro de Fênix a essa espécie de coma era algo que incomodava o jovem cavaleiro, mas não havia um meio de contar sobre a história de Kagaho sem gerar certo pânico.

Muh, mestre de Kiki, talvez fosse sensato e maduro o suficiente para absorver tal informação, contudo, seu aprendiz ainda era um fruto que não havia amadurecido completamente.

Antes que o futuro cavaleiro de Áries pudesse começar a contar sobre a visita de Hefesto, Ikki apareceu correndo em direção aos dois. Parou levemente arfante, mostrando que havia corrido o máximo que podia para chegar ali.

O irmão mais velho logo recuperou a compostura e para confusão de Kiki olhou para Shun detidamente, dos pés a cabeça, como se o estivesse vendo pela primeira vez, como se não acreditasse no que estava frente aos seus olhos. Sabia que os dois tinham uma ligação muito forte e que Fênix estava absolutamente preocupado com seu caçula, mas não esperava esse tipo de olhar tão...

Saudosista?

Como se fizesse muito mais do que apenas três meses que não o visse.

"...Cuidado com o que pensa meu irmão, Kiki pode conseguir ler seus pensamentos" - Alertou Shun na mente do outro cavaleiro.

Ikki conseguiu esconder sua surpresa ao ouviu esse alerta em sua cabeça, voltando-se para o ariano com sua expressão azeda tradicional.

- Deixe-nos sozinho pivete, preciso falar com meu irmão.

- Eu não sou um pivete! Tenho doze anos! – Alegou batendo o pé irritado – Shun tinha apenas treze quando começou a enfrentar cavaleiros de ouro!

- Doze é diferente de treze, agora suma daqui – Voltou a exigir mais irritado.

- É apenas um ano de diferença! Além disso, Athena me deu a missão de guiar Shun até o salão do Grande Mestre assim que ele voltasse! – Seguiu insistindo, começando a levitar pedras ao seu redor, mesmo sem perceber.

- Já chega vocês dois – Impôs Shun com voz firme, quase soando como uma ordem, fazendo Ikki ter que reprimir o impulso de se ajoelhar. - Não é preciso brigar por um motivo tão trivial. Kiki, por favor, deixe-nos sozinho. Eu te encontrarei na casa de Áries, não iremos demorar.

O pequeno lemuriano resmungou, mas concordou com a cabeça, mostrando a língua para Ikki, antes de seguir correndo em direção ao santuário.

- Menino idiota – Resmungou Fênix observando as costas do garoto se afastando.

- Ele ainda tem que aprender a controlar seu gênio, antes de se tornar o sucessor de Muh – Comentou Shun, acompanhando a presença do menor se afastando – Mas sem duvida se tornará um formidável cavaleiro.

- Ele foi capaz de parar os ataques de Thanatos, mesmo eu sei que esse pirralho ainda vai ser grande coisa. – Voltou-se para Shun, sério – Mas isso não importa agora. Shun, eu preciso saber... Durante esses meses...

- Sim, meu irmão, eu também recuperei a memória de minha antiga reencarnação – Respondeu a pergunta não dita – Aparentemente, com meu treinamento mental, eu comecei a despertar essas recordações e isso acabou te contagiando...Quando você conseguiu reencarnar como meu irmão, acabou criando um vínculo entre nossas almas.

Abaixou sua cabeça, num movimento japonês de desculpa.

- Me perdoe por isso Ikki...Eu acabei te causando muita dor...

- Não seja estúpido! – Berrou dando alguns passos à frente, parando a poucos centímetros do outro – Mesmo que tenha sido fruto de seu treinamento, eu sei que não foi sua intenção, eu te conheço, te conheço em mais de uma vida, jamais faria algo para machucar alguém se pudesse evitar...- Fez uma pequena pausa, sorrindo de lado – Você não mudou nada.

- Por favor, irmão, não diga que você está sorrindo, não me tente a abrir os olhos! Eu preciso resguardar meu cosmo – Brincou Shun, separando com um último passo a distancia que os afastava, agarrando fortemente em um abraço o antigo servo, o homem que havia reencarnado ao seu lado, seu irmão.

Lágrimas rolavam por seus olhos fechados, fraquejando perante a pessoa mais importante de sua vida.

-...Eu...Eu não acredito que você fez isso por mim...Kagaho...- O nome soava estranho saindo de seus lábios trêmulos.

- Eu prometi que voltaria se aqueles idiotas não conseguissem te salvar no final – Comentou massageando as costas do menor, lágrimas mais sutis também presentes em seu rosto. – Mas eu prefiro continuar sendo chamado de Ikki, estamos em outra vida agora, as coisas são diferentes. Somos irmãos e isso é o que importa.

-Sim...Você tem razão. – Fungou ligeiramente, deixando-se consolar. -...Sinceramente, eu também prefiro o nome Shun...Alone era um tanto melancólico.

- Me perdoem por atrapalhar este momento – Uma voz infantil surgiu, fazendo os dois se separarem e procurar sua origem. Hécate estava parada a alguma distância, sentada de pernas cruzadas sobre seu báculo de madeira. – Mas eu preciso falar urgentemente com vocês dois.

- Você é aquela pirralha de ant- Porém suas palavras foram detidas quando no segundo seguinte o mesmo báculo estava a centímetros de sua cara, levitando no ar. Mesmo assim Ikki não retrocedeu, observando a recém chegada, irritado.

- Não blasfemei Ikki, Hécate é uma deusa muito poderosa – Advertiu Shun limpando seu rosto, ao tempo que o objeto voltava para o lado de sua dona, que também estava flutuando no ar. – Apenas com nós dois? Tem algo haver com a ruína do submundo?

- Antes de dizer qualquer coisa, eu preciso que chames o senhor Hades em vossa mente, ele também precisa saber.

Ikki piscou diante dessa informação, encarando o rosto da bruxa e então de seu irmão, a boca aberta em choque.

- "Chame o senhor Hades em vossa mente"?! – Repetiu completamente chocado, encarando Andrômeda em busca de alguma resposta - Que maldita história é essa Shun?! Hades não está morto?!

O virginiano suspirou profundamente.

-Eu ainda ia te contar... –Hesitou, sentindo o cosmo ardente, irritado, e até mesmo receoso de Fênix – E não. Ele está morto, mas... Ainda existe, é difícil explicar...

- Nosso Senhor Hades atualmente está pagando pelos erros que sua cólera e anseio de subjugar Athena o levaram. – Informou a deusa pulando para o chão e agarrando seu báculo – Tudo o que tu necessitas saber agora Espectro-Cavaleiro, é que ele não é mais capaz de possuir o corpo de seu irmãozinho. Então, por hora, não precisa preocupar-te. O inquietante agora é a negociação que Athena se involucrou. Sobre isso precisamos discutir. O tempo nos finda.

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Todos estavam reunidos no coliseu. Marin, Shina, os cavaleiros de Bronze, mesmo Hyoga, Shiryu, Kiki e Ikki estavam sentados na escadaria. Na arena, Saori estava posicionada atrás da cadeira de rodas que resguardava Seiya. Rosto pálido, caído e sem vida, olhos entreabertos sem foco, mesmo usando sua característica camisa vermelha e calça jeans, para qualquer desavisado parecia claramente um morto.

Ao lado esquerdo de Athena, Shun imaginava que estava Hefesto, já do lado direito, Hécate.

"...É difícil crer que Hefesto caiu tão baixo, sem duvidas é ele, reconheço seu cosmo..." – Dizia Hades em sua mente "...Mas passar de se vingar de Ares prendendo-o despido em uma rede e levá-lo para o Monte Olimpo, à querer tomar para si o poder do submundo para subjugar o deus da guerra, há uma diferença abissal.."

"Amor e ódio, sem duvidas são duas faces da mesma moeda" – Respondeu o cavaleiro, de frente para Pégaso.

- Shun, meu mais justo cavaleiro. – Dizia Athena, provavelmente trajando sua armadura por como sua energia emanava. – Uma vez mais agradeço sua implacável lealdade e benevolência para com a terra, cada um de seus irmãos e a mim.

À essas palavras, o cavaleiro ajoelhou-se.

- Apenas cumpro o meu dever, Athena.- Enunciou com respeito - Prometo que farei o que for preciso, para que o melhor para todos nós seja feito.

Então se sentou em posição de lótus e começou a meditar, enquanto emanava seu cosmo em pequenas ondas.

"...Cavaleiro..." – A voz do deus do submundo tornou a soar, pela primeira vez desde que começaram a dialogar, mostrando-se hesitante – "...Tens certeza do que estás prestes a fazer? Lembra-te o que Hécate disse, não haverá volta..."

"- Você era o último que eu esperava que me colocasse em duvida quanto a isso."

"...Eis que te enganas. Quando a guerra contra Kronos acabou, Zeus partilhou os frutos de nossa vitória. Eu fui jogado ao Submundo que havia criado para submeter os Titãs, eu não tive escolha –Alegou, um claro ódio e ressentimento em sua voz – Eu fui encarregado deste fardo e sempre o amaldiçoei, descontando meu ódio nos mortais que vinham a meu reino. Meu reino era minha prisão, meu único tesouro e conquista era meu maior castigo. Eu nunca tive opção. Mas tu Cavaleiro, não, tu Shun tem uma opção..."

Seu cosmo continuava ampliando, mais e mais, tomando facilmente o coliseu, impressionando em maior e menor nível cada um dos presentes.

"- Eu não entendo. Você nunca me deu uma chance, cada vez que se apossou de meu corpo e me fez, contra vontade, imperador em seu lugar." – Questionou a mudança repentina em tom calmo, sem perder sua concentração. – "Por que agora?"

"...Eu apenas não consigo entender como podes aceitar um fardo tão grande quanto este por uma deusa como Athena! ..."– Exclamou frustrado –"... Essa tua devoção a ela, está te levando ao sofrimento eterno e sem volta, e isto não parece tão divertido quando eu imaginei a principio. Enquanto sua deusa se regozijara de sua vitória na guerra, tu serás apenas abandonado na escuridão da morte, como eu fui após a Titanomaquia , todos serão completamente ignorantes de seu suplicio. Simplesmente não posso compreender porque se expor a isso por Athena!..."

- E-eu...Não acredito que Shun é...Assim tão forte! – Exclamou Jabu de Unicórnio com dificuldade de manter-se de olhos abertos.

- S-sua força está simplesmente em outro nível! – Colocou impactado Ichi de Hidra, seus cabelos brancos esvoaçando graças à energia que tomava o formato de um intenso vendaval.

- Fiquem atrás de mim! – Kiki exclamou, abrindo os braços e fazendo seus olhos brilharem, criando uma espécie de barreira para proteger os cavaleiros de bronze de tal emanação, lembrando de certo modo como protegeu Seika dos ataques de Thanatos.

Marin e Shina, as únicas da patente prata, mantiveram-se firmes em seus lugares sem buscar a cobertura.

Hyoga e Shiryu, por sua vez, desceram para se posicionar frente à Athena. Confiavam plenamente em Shun, mas essa cosmo energia havia superado qualquer demonstração que seu amigo já havia mostrado em batalha, inquietando-os ao deixar sua deusa tão exposta frente à tanto poder.

- Patéticos. – Alegava Ikki para os cavaleiros amontoados atrás de Kiki – Tendo que ser protegidos por uma criança.

Apesar de dizer isso, apertava seu punho quase ao ponto de tirar sangue. Tanto porque sabia o que iria acontecer, tanto por estar utilizando-se de toda sua força e boa vontade para conter-se de responder a tal emanação de energia de seu antigo senhor. Era inebriante e intenso, fazendo seu pulso acelerar sem dificuldades.

Seus sentimentos eram um misto de orgulho e receio. Sem duvidas Shun havia alcançado o nível mais próximo de um deus.

E sabia que logo ultrapassaria esta última barreira...

Shun Kido levantou-se, caminhando até parar frente a Seiya, finalmente abrindo seus olhos.

O vendaval se tornou um intenso furacão, obstruindo a visão de todos os presentes, com exceção do cavaleiro frente à cadeira de rodas.

E então pode vê-la, a espada do submundo.

"-Você está enganado, Hades"

Esticou a mão em direção ao cabo frio.

"-Não estou fazendo isto por Athena. Não dessa vez."

O metal parecia ressoar ao seu toque.

"-Faço isso pela terra. Pelas pessoas que ainda não conheci."

Sangue de um intenso rubro começava a fluir da mão do cavaleiro, escorrendo para a espada que parecia absorvê-la.

"-Por meus amigos e irmãos"

A armadura de Andrômeda que trajava pela última vez, assumia sua forma divina respondendo a força de seu senhor, brilhando em compasso com a energia emanada.

"-Por Ikki"

Começou a fazer força, para extraí-la do peito de Pégaso.

"-Por June"

Uma energia completamente negra começou a sair da espada, envolvendo completamente o braço direito que tentava empunhá-la.

"-Eu sempre desejei que os humanos pudessem viver em paz...Mas se isto não é possível..."

A lâmina foi graciosamente erguida, o cosmo negro dissipando aos poucos.

Quando o furacão causado por Andrômeda cessou e todos puderam voltar a enxergar. O cavaleiro estava ajoelhado frente à Hefesto com sua armadura de volta ao normal, entregando a espada sob suas mãos em oferenda ao deus. Ao tempo que Seiya soltava um suave ronco, virando-se na cadeira como se apenas estivesse dormindo.

"-...Me certificarei de garantir a paz na morte..."


Notas finais
Todo esse vendaval que Shun criou me lembra alguém...Hmmm, quem será?

No próximo capítulo teremos a conversa de Hecate, Shun e Ikki! Ele se chamará "O apelo do submundo", aguardem e não deixem de comentar!