Com este capítulo começa a segunda temporada da estória, e como o enredo se tornará cada vez mais complexo, eu resolvi fazer pequenas anotações nas notas finais que possam auxiliar a melhor compreensão dos leitores. Não deixem de conferi-las.

Nesse XV continuamos no passado, lembrando que para saber disso é só ver a terminação do título, os que terminam em ponto são do passado, e os que terminam em hífen são do presente.

Além disso, a partir dessa temporada, serão dois capítulos do passado para um capítulo do presente.


Capítulo XV - Rosas para a sepultura. 2a Temporada.

Quando Marin acordou, sentia uma enorme dor de cabeça, além da sensação de que todas as suas forças foram drenadas. Assim que recobrou plenamente os sentidos, encontrou Shun ao seu lado, e um grito teria escapado de sua garganta se ela não fosse uma amazona treinada, acostumada a cenários sangrentos de batalha.

Ainda assim seu peito se apertou quando rastejou até seu companheiro de missão. Rosto extremamente pálido e frio, braço direito em decomposição avançada e, no entanto, um sorriso em sua face. Um pequeno cachorro negro estava deitado sobre seu peito, ele chorava baixo enquanto cavava o peito do homem caído, como se esperasse que assim conseguisse acordá-lo, mas qualquer resultado era apenas uma mancha de terra em sua roupa.

O primeiro pensamento da amazona foi levar o cavaleiro de virgem a um hospital, mas já era tarde demais.

- Por Zeus...- Lamentou, suas mãos apertando seus joelhos, quando sentou-se ao lado do cadáver. - ...O que aconteceu aqui?

Sua memória estava completamente em branco, a última coisa que lembrava era de se oferecer para vir nessa missão com o dourado, mas sequer se recordava o porquê disso.

O cheiro impregnado na casa era absolutamente horrível, como se a morte estivesse presente naquele ressinto há pelo menos uma semana, o que fez a guerreira temer sobre quanto tempo esteve ali desacordada. E, no entanto, por trás de todo o cheiro da morte, conseguia sentir um odor a jasmins* que provinha do corpo do cavaleiro, que ocultava boa parte do cheiro da decomposição.

Apesar de não ser exímia telepata, usou-se de toda a sua concentração para chamar Kiki. Lamentava profundamente fazer com que o ariano presenciasse tal cena, mas infelizmente era o único meio de levá-los de volta ao santuário.

E, no entanto, ela jamais esqueceria a expressão de horror e choque no rosto do jovem cavaleiro.

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June de Camaleão estava abraçando seu próprio corpo, na praia onde viu Shun pela última vez. Havia permanecido na ilha para receber novamente a armadura de Andrômeda, uma vez que a cerimônia de sucessão fosse realizada.

A entristeceu não poder ver o virginiano tornar-se um cavaleiro dourado, mas entendia da importância de resguardar a armadura, refazer suas proteções até o dia que um novo escolhido viesse reclamá-la.

Após selar a vestimenta, a observou por alguns instantes, lembrando com exatidão quando o pequeno virginiano chegou a ilha, ela já estava sendo treinada por Daidalos naquela ocasião.

Ela tinha seis anos quando seu mestre a encontrou sozinha depois da morte de sua avó, a única parente que conheceu. Shun tinha sete, mas aparentava ser ainda mais novo, pois sempre foi abaixo da altura dos demais.

No começo, ela sinceramente pensou que ele iria acabar morrendo naquela ilha, mas depois de conhecê-lo melhor, e saber de sua motivação para tornar-se cavaleiro, reencontrar–se com seu irmão mais velho, acabou se afeiçoando a ele.

Ainda assim odiava a ideia de que alma tão pura fosse maculada em campos de batalha.

Mas para sua surpresa, Shun não apenas conseguiu tornar-se um guerreiro de bronze, como também manteve sua integridade. Não podia pensar em ninguém melhor para defender a casa de virgem, tinha certeza que Daidalos estaria orgulhoso.

Ela deixou algumas flores no túmulo de seu mestre, e partiu definitivamente da ilha em direção ao barco que a levaria de volta ao continente, mas antes de partir parou no pequeno cais, olhando para trás uma última vez.

A primeira vez que falaram um com o outro, ao pé do vulcão, apareceu em sua mente. Ela estava colhendo as pouquíssimas plantas que nasciam naquele clima inóspito, graças ao solo fértil do vulcão, para que pudessem usar em medicinas e na comida, quando o pequeno aproximou-se, tímido. Contudo, seus olhos cor de esmeralda brilhavam com intensidade.

"-Hmmm...Já nos conhecemos antes?" – Ele perguntou, com o rosto ainda temeroso sobre o que o destino o aguardava.

"-Eu duvido." – Respondeu cortante, naquele tempo, estava decidida a não se apegar a mais ninguém depois de perder sua avó.

Deu as costas ao menino levando consigo o cesto com tudo que havia colhido, deixando-o mais constrangido e triste.

Naquele dia, há quase dez anos atrás, ela não havia olhado para trás.

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Ikki limpou as lágrimas que insistiam em abandonar seus olhos.

Estava sentado numa clareira, ao lado de uma fogueira, poucos quilômetros do santuário. Por mais que insistisse em enxugar seu rosto, era simplesmente inútil.

A ligação de alma que possuía com seu irmão havia berrado que seu caçula estava em perigo, porém, pela primeira vez desde que descobriu essa habilidade, não foi à sua ajuda.

Sentia-se o ser humano mais miserável da terra por isso. Quase conseguia sentir as dores do virginiano como se fossem suas, o ar deixando de entrar em seus pulmões, seu coração parando de bater, seus olhos esmeraldinos deixando de brilhar.

Deu um soco frustrado no chão, criando um buraco de exato tamanho de seu punho, ao tempo que a fogueira bruxuleava com o impacto.

Levou as duas mãos ao rosto, tampando-o, sem dar a menor importância para a terra presente nelas.

Seu irmãozinho estava morrendo... E saber que isso não era definitivo não parecia ser consolo algum frente a tudo que enfrentaria de agora em diante.

Seu senhor estava voltando ao submundo para cumprir sua promessa, levar a paz aos mortos. Mas sinceramente, não queria que ele fizesse isso...

Queria que ele treinasse alguma criança qualquer, para que ela sucedesse suas funções de cavaleiro, e assim pudesse viver longe de todo aquele lugar que cheirava a guerra. Ter uma vida normal, fazer um curso superior como era seu sonho, uma vez até mesmo disse que queria cursar medicina.

Mas o destino tinha que impor suas garras contra aquele coração que parecia bater apenas pelos outros.

Levá-lo de volta para o lugar mais escuro do mundo, provar da agonia e da dor todos os dias de sua existência. O que Shun e Alone haviam feito para merecer algo assim?!*

As lágrimas finalmente haviam parado de correr para dar lugar a uma sensação de raiva que o consumia. Queria descontar em algo, queria matar alguém, encontrar um culpado e nele descontar todo seu ódio e frustração.

Talvez Seiya fosse um bom alvo, era tudo por causa da maldita espada que estava em seu peito. Maldito Pégaso, sempre atrelado intimamente àquele que abrigaria a alma de Hades. Nessa reencarnação, estava feliz de finalmente colocar o outro para trás, ter nascido como irmão de seu senhor, ser aquele a qual ele era mais próximo, ao invés do cavalo estúpido.

Mas ainda assim, o cavaleiro, mesmo inconscientemente, havia dado um jeito de arrebatar a vida de Shun.

Olhou para o céu, onde as nuvens tampavam boa parte do véu da noite. A única constelação que conseguia ver era a de Escorpião. Observou afogado em sua miséria como Antares parecia ver triste os seus lamentos.*

Na terra, contudo, mais especificamente a sua frente, duas vestimentas de batalhas ressoavam, como se tentassem aliviar seu tormento.

A caixa de pandora na qual a armadura de fênix residia, e sobre ela a Sobrepeliz de Benu, em seu formato de grande pássaro negro de asas abertas que se assimilava a um dragão.

Ambas pareciam compreender seu luto, e de algum modo, consolar seu mestre.

Olhando para ambas assim, juntas, longe dos deuses a qual eram fieis, sem qualquer conflito e cooperando pelo conforto de quem em outras vidas trajou ambas, fez o espectro-cavaleiro se perguntar pela primeira vez no fundo de seu coração.

Por que toda essa guerra havia começado em primeiro lugar?
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- COMO ASSIM VOCÊ NÃO SE LEMBRA DO QUE ACONTECEU?!

As paredes do grande templo, que se assemelhava a um mausoléu, ao lado do cemitério começaram a congelar. No centro do enorme salão de colunas gregas, sobre uma mesa de mármore, descansava o corpo do cavaleiro de virgem.

- Hyoga acalme-se – Exigia Shina ao lado da Amazona de Águia. Seus cabelos verdes longos presos em um coque. Vestia sua armadura como a maioria dos presentes.

Um rosto angelical, branco como a neve, cabelos verdes como a copa das árvores, longos que caiam com leveza até sua cintura, trajando uma túnica negra até seus pés, pés esses descalços contra o frio mármore.*

Ao redor da mesa todos os cavaleiros de bronze e os novos dourados tentavam entender o que havia acontecido, sob a cabeceira, Shiryu e Athena, tentavam impor calma a todos.

Contudo, os sentimentos estavam exacerbados desde que todos sentiram o cosmo de Shun enfraquecer, quase imediatamente depois Marin entrou em contato com Kiki, que rapidamente foi ao seu encontro, mas ninguém estava preparado para a cena quando este retornou.

O corpo frio de Shun veio carregado por um soluçante ariano e uma triste pisciana. Desde esse instante todos tentavam entender o que houve.

Ersa se prontificou a arrumar o morto para seu fim inevitável, uma vez que todos que conheciam e amavam o jovem estavam em choque demais para pensar em chamar algum especialista em Tanatopraxia*. Ter sido enfermeira durante a guerra Irão-Iraque tinha lhe dado pelo menos alguma experiência em lidar com corpos em péssimo estado.

Ela havia trabalhado o mais rápido que podia, mesmo que o enterro tenha sido estipulado para o dia seguinte, respeitando às 24 horas da morte, ela tinha certeza de que todos iriam querer ver seu companheiro de batalha mesmo antes do início do velório. Não foi necessário muito tempo vivendo no santuário para perceber a enorme ligação que todos ali possuíam.

Era tarde da noite. Ao invés de se reunirem e discutirem a respeito dos acontecimentos no salão do Grande Mestre, todos precisavam ver com seus próprios olhos para acreditar que seu grande amigo e meio-irmão havia partido para sempre, por isso se encontravam no mausoléu.

A única exceção era Kiki, que estava do lado de fora do templo, nos braços de Seika, enquanto esta tentava consolar o coração do desolado lemuriano, que havia perdido mais um ente tão querido.

- Fomos realizar a missão, ele ofereceu que nos separássemos, e isso é tudo que eu me recordo. – Repetiu pela vigésima vez Marin, dessa vez frente a todos.

- Você quer que eu acredite que Shun, que lutou conosco nas doze casas, contra Poseidon e até mesmo expulsou o próprio Hades de seu corpo, morreu numa simples missão de reconhecimento?! – Acusava Hyoga entre dentes. – Eu ainda posso sentir vestígios de seu cosmo sobre ele! O que você fez!?

- Você não está realmente acusando a minha mestra de ter matado Shun, não é Hyoga?! – Intercedeu Seiya entrando na frente de Marin.

- Seiya, eu sei muito bem me defender sozinha. – Impôs.

- Eu sei disso! Mas eu não posso simplesmente deixá-lo falar bobagens assim sobre você e não fazer nada! – Exclamou sagitário.

- Então você nega Seiya?! Você melhor que ninguém conhece a energia de Marin. Sabe muito bem que eu estou falando a verdade. – Insistia Aquário.

- Ora...Eu também posso sentir, mas eu sei que Marin jamais faria algo assim! – Defendeu – Você que deveria ser o mais racional de nós e está simplesmente jogando afirmações sem pensar!

- Seiya tem razão Hyoga – Shiryu impôs com voz grave, chamando a atenção de todos. – Precisamos nos acalmar, seria um enorme desrespeito a memória de Shun, que sempre defendeu a paz, lutarmos uns contra os outros por sua...Morte. – A palavra saiu amarga em sua boca, e apesar do corpo evidentemente sem vida entre todos, ainda era algo difícil de absorver.

- Se me permite Grande Mestre – Shina deu um passo adiante, parando ao lado de Seiya. Libra fez um sinal positivo com a cabeça, indicando que ela continuasse. – Essa situação assemelhasse muito ao uso do "Satã Imperial" de Saga. Uma vez que esse golpe era lançado, o inimigo tinha sua mente controlada e se tornava incrivelmente violento. E como acredito que todos aqui saibam, a única forma de se livrar dessa habilidade é o afetado ver alguém morrendo bem diante de seus olhos.

- Mas Saga e Kanon estão mortos – Interveio Geki – Existe mais alguém capaz de usar essa técnica?

- Pode ser uma variante – Seguiu Ichi.

- ESPEREM! ESPEREM! – Exclamou Seiya – Vocês não podem assumir tão facilmente assim que Marin matou Shun! Não é mesmo Marin? – Virou-se esperançoso para sua tutora, mas essa se manteve em silêncio. - ...Marin...

- Se for mesmo uma técnica como o Satã Imperial – Continuo Shina – Marin não tem realmente nenhuma culpa, não preciso lembrar que Aioria, que sempre foi um cavaleiro justo e de bom coração, executou meu aprendiz Cassius por estar preso nessa maldita técnica.

- Mesmo que isso seja possível, não podemos descartar a culpa da Amazona assim tão facilmente – Recolocou Hyoga com firmeza.

- Qual é seu problema com a minha mestra Hyoga?!- Irritou-se o guardião da nona casa, elevando seu cosmo.

- Seiya, eu já disse que não preciso que você me defenda!

- Nenhum, contanto que ela pague a consequência de seus atos.

- Aaaah claaaro, a "consequência de seus atos". Pelo menos na batalha das doze casas ela tentou me ajudar a atravessar as rosas de Afrodite até o Salão do Grande Mestre! Enquanto o seu querido mestre Camus fez o quê?! Te prendeu na porcaria de um esquife de gelo! Se não fosse por Shiryu e Shun, você estaria no submundo há muito tempo!

- Não ouse ofender a honra de meu mestre! – Exclamou Aquário elevando o cosmo também.

- ENTÃO PARE VOCÊ DE OFENDER A MINHA!

- ACALMEM-SE VOCÊS DOIS! – Berrou Shiryu elevando sua energia acima dos outros.

Athena também elevou sua presença, sua aura amorosa tentando acalmar os ânimos, embora fosse muito difícil, uma vez que seu coração também sofria pela perda repentina de um de seus amados guerreiros.

- Vós não estais muito longe da resposta – Uma voz feminina vinda do nada interveio na conversa – Perdoe-me Athena por me apresentar assim, tão inusitadamente, mas me permitiria adentrar em vosso santuário?

- Você é bem vinda Hécate – Declarou calmamente.

Após tal convite, poucos instantes depois, a figura da bruxa que todos conheceram na mesma ocasião de Hefesto adentrou ao salão, um pouco atrás dela Seika trazia com dificuldade Kiki.

- Kiki! O que houve? – Geki, que estava mais próximo a grande entrada se adiantou para pegar o ariano.

- Tranquilize-se, eu apenas dei um pouco de paz a este aflito coração colocando-o para dormir. Corroí-me a alma ver uma pobre criança chorar assim.* – A bruxa caminhou até estar no outro extremo da mesa de mármore. – Eu sentia muita tristeza sendo emanada deste santuário, e temi que algo envolvendo Hefesto tivesse acontecido...Mas parece que eu me enganei.

- Hécate, o que quis dizer com "Não estamos longe da resposta"? – Questionou Athena.- Você sabe o que houve?

A deusa do submundo caminhou até o lado direito do falecido e tocou sutilmente seu braço coberto com o traje negro.

- É verdade que a cosmo energia da Amazona de Águia pode ser sentido nesse corpo, contudo, é também possível sentir um forte Miasma.

- Miasma? – Questionou Jabu, um pouco mais afastado. – O que é isso?

- É a essência da morte, seu cheiro e sua forma no mundo dos vivos – Explicou a bruxa – Mas também, em estado mais puro, trás consigo todas as dores e medos dos mortais sobre o fim da existência. Uma pessoa normal rapidamente morreria em contato com essa névoa, contudo, um guerreiro de Athena seria capaz de sobreviver, porém, ainda teria que enfrentar seus piores temores em relação à morte. Nesse estado, mesmo um guerreiro treinado poderia perder a noção de realidade e atacar cegamente o que estiver ao seu redor. Em parte, se assemelha a técnica que vós descreveis.

- Então – Concluiu Shiryu, mantendo o respeito em sua voz – Estava ouvindo nossa conversa Srta. Hécate

- Lamento o descortês de minha ação.- Inclinou sua cabeça – Como disse, eu sentia más sensações vindas daqui e temi o pior.

- Como você sabe que foi efeito desse miasma?! – Questionou Seiya inquieto, esse assunto o incomodando, lembrando-se de tudo que teve que passar em relação ao mundo dos mortos.

- Vós não sois capazes de enxergar, apenas aqueles tocados pela essência do submundo podem vê-la. – Anunciou a Bruxa – Mas eu como deusa do mundo inferior, posso alegar que o corpo desse pobre jovem está completamente impregnado de Miasma, e mesmo o dessa jovem ainda possuí um pouco. Pelo que pude acompanhar da natureza daquele que vós nomeais como Cavaleiro de Virgem, assumo que ele utilizou-se de seu próprio organismo para absorver todo o Miasma. Mesmo a Amazona tendo sido afetada por essa essência, o que verdadeiramente o trouxe a óbito, foi absorver sozinho tal nocividade.

- Isso soa exatamente como algo que Shun faria – Declarou com tristeza Sagitário.

Todos, em silêncio, pensavam o mesmo, apesar de não ser mais o cavaleiro da constelação do sacrifício, parece que essa sina não havia abandonado o jovem virginiano.

- Você é capaz de sentir ou ver alguma coisa Nachi? – Jabu repentinamente cortou o silêncio sepulcral. – Afinal você é do signo de câncer.

Todos os olhares se voltaram ao cavaleiro de bronze de Lobo, que abriu os olhos espantados.

- Não diga besteiras Jabu! Nem todos os cancerianos são necromantes! – Mas ao sentir os temores de todos sobre si, apenas suspirou, contendo seus nervos e explicando o melhor que podia – Eu só consigo dizer que sinto algo errado vindo do corpo de Shun e de Marin, mas eu ...Eu só...Não saberia explicar o quê.

- Muito bem - Anunciou Athena, chamando toda a atenção para si. Nachi suspirou aliviado agradecendo internamente sua deusa, não possuía tanta atenção assim sobre si desde a guerra galáctica quando teve que enfrentar...Ikki.

Seu coração congelou, enquanto mal conseguia ouvir sua deusa.

-...Eu acredito em suas palavras Hécate.

-...J-jabu- Lobo aproximou-se de unicórnio – O que...O que vamos falar...Para o Ikki?

O outro também rapidamente perdeu a cor de seu rosto.

- ...Marin, não se preocupe – Seguiu a divindade da terra- Nenhuma acusação será imposta sobre você.

- ...Ei, Ban! – Jabu cochichou - Alguma notícia de Ikki?!

O segundo cavaleiro mais robusto olhou para os outros dois horrorizados.

-...Ele vai matar a todos nós...

- Eu agradeço Athena – Ajoelhou-se, provando seu ponto – Embora, eu não sei se posso perdoar a mim mesma pelo que aconteceu.

Hyoga soltou um comentário baixo em russo, e sem pedir qualquer autorização, abandonou o salão, lançando um olhar raivoso a Seiya e Marin.

- Leve seu tempo, por favor.

- Geki – Ban aproximou-se de seu amigo que sustentava sem qualquer dificuldade o futuro cavaleiro de Áries no ombro. - ...O que faremos sobre Ikki?

-...Realmente – Impressionou-se – Todos ficamos tão chocados com os acontecimentos que não pensamos nisso. Os rapazes disseram que ele sempre vinha quando Shun estava em perigo, o que será que aconteceu dessa vez...

- Cavaleiros de bronze – Athena chamou, fazendo todos àqueles que sussurravam temerosos olhassem para ela – O que houve? Possuem algo mais a dizer?

- Perdoe-nos Senhorita Athena – Interveio Jabu – Estávamos preocupados sobre como...- Hesitou -Ikki vai reagir a essa situação.

Novamente o silêncio se instaurou entre todos.

- Eu já havia pensado nisso – Shiryu se impôs – Talvez, o mais estranho dessa situação é a ausência de Ikki. Os dois sempre pareceram possuir uma espécie de ligação muito forte, ele sempre aparecia quando Shun precisava de ajuda. Temo que algo possa ter-lhe acontecido. Ao mesmo tempo, precisamos entender também porque uma quantidade tão pura de Miasma se encontrava aqui na terra... Contudo, discutiremos isso amanhã, acredito que todos nós precisamos descansar. E nos prepararmos para o enterro. – Todos sentiram novamente uma amargura em seus peitos, quando Libra seguiu conduzindo – Assim que Kiki se recuperar, tentaremos entrar em contato com Ikki.

Athena então disse a todos que poderiam retirar-se, pedindo somente que Geki e Ban ficassem para proteger o corpo. Em poucos minutos todos abandonaram o templo, os dois chamados mantendo-se frente as portas fechadas.

- Hécate – Frente aos túmulos dos cavaleiros do passado, a deusa da terra pediu para que a bruxa esperasse, enquanto todos os cavaleiros iam para seus devidos postos. -... Isso tem haver com o "sacrifício definitivo" que as Moiras mencionaram?- Questionou aflita.

- Talvez seja melhor que não saibas a resposta Athena – Colocou a divindade – Seu cavaleiro agora não pertence mais ao mundo dos vivos, e nada, nem mesmo as Moiras, podem reverter isso. – Seu tom suava muito mais maduro que sua aparência – Tudo que podes fazer agora é honrar sua memória. Agora com sua licença.

- Entendo... Obrigada por tudo Hécate - A bruxa desapareceu e lágrimas começaram a dançar pelos olhos de Saori, enquanto ela via o céu nublado com pesar. -...Adeus, Shun, meu querido guerreiro.

E a deusa começou a soluçar, enquanto deixava-se cair de joelhos sobre o gramado.

Quando o relógio bateu horas 3 da madrugada, uma figura alada cruzou os céus.

Assemelhava-se a figura de um anjo negro, cujas asas cor de ébano abriam e fechavam com graça natural.

Quando se aproximou do templo fúnebre, ambos os guardiões foram atingidos mais rápido do que puderam reagir, e as portas se abriram.

O ser então desceu, pisando sobre o mármore com sua armadura negra, parando frente ao corpo exposto.

-...Shun...Chegou a hora. – Recolhendo suas asas, o espectro de Benu colocou a urna da armadura de Fênix ao lado da mesa de mármore, indicando a todos que esteve ali, por uma última vez.

Então caminhou a passo lento até seu irmão. Ao seu lado notou um pequeno cão que dormia tranquilamente. Tocou suavemente o rosto do humano com um carinho que ninguém imaginaria que tivesse, e o tomou em seus braços trazendo o pequeno animal junto ao corpo, tendo uma ideia sobre quem ele seria.

Abrindo novamente as longas e esguias asas, voou em direção ao céu noturno, perdendo-se na penumbra da noite e na bruma entre a vida e a morte.

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Assim que a passagem para o submundo fechou-se, Ikki não era capaz de acreditar no que seus olhos viam.

Não haviam passado pelo Yomotsu, indo diretamente para as portas do Submundo. Contudo o grande portal grego estava completamente destruído e aos poucos sendo levado pelas águas do Rio Aqueronte, que parecia completamente fora de controle. Onde antes era possível ler a lamentável frase que recepcionava os mortos "Deixai ó vós que entrais toda a esperança" era possível ver apenas um único fragmento onde se lia "Esperança".

Mas isso era tudo que não havia nesse lugar, agora mais do que nunca.

Almas sem qualquer forma vagavam sem rumo pelos céus escuros, seus gritos e lamentos eram verdadeiramente ensurdecedores.

Prendeu asas novamente, não havia outra forma de atravessar Aqueronte que invadia tudo com suas águas raivosas e descontroladas. Independentemente do fato de ser um espectro, as almas tentavam atacá-lo, agarravam-se em suas asas ou pernas tentando desesperadamente encontrar uma saída daquele lugar.

Com desgosto, explodiu seu cosmo para afastar tais seres. Sobre sua cabeça, podia ver o mais profundo dos reinos de Poseidon. A barreira que separava o fundo do mar e o mundo inferior* estava quase completamente destruída, rachaduras similares a um vidro rachado estavam por todas as partes, passando a impressão de uma enorme cúpula de vidro prestes a transformar-se em pó.

Fissuras em vários locais deixavam vazar as águas dos mares, que se misturavam com o Rio Aqueronte, fazendo-o inundar e destruir tudo.

A primeira prisão, o tribunal dos mortos, já estava completamente submersa. O vale e a ponte de furacão que levavam a segunda prisão estavam completamente destroçados, e as águas escorriam por seus precipícios. Além disso, os ventos desse lugar tornavam o liquido numa forte corrente que destruía tudo com imensa violência.

Da segunda prisão e guarida de Cérbero restavam apenas os picos da região montanhosa, as chuvas que eternamente ali caíam apenas pioravam a enchente.

Repentinamente, o cãozinho sobre o colo de seu irmão começou a lamentar, ou isso imaginou, até localizar um ponto negro que tentava como podia equilibrar-se no topo de um dos montes.

O enorme cão de três cabeças lamentava e uivava enquanto as rochas da pequena ilha em que se protegia ia desmoronando.

- Porcaria... – Mergulhou em seu voo em direção ao enorme animal.

O cão se assemelhava mais a uma espécie de dragão de três cabeças devido à ausência de pelos pelo corpo, existindo apenas três crinas brancas que iam até o meio de suas costas. Seu rabo era como uma enorme cauda. Suas garras afiadas facilmente tinham o tamanho de cabeças humanas, seus dentes eram pontiagudos e afiados.

Mas seus seis olhos amarelos só mostravam pânico enquanto a água subia ainda mais.

Quando o espectro se aproximou, uma a uma as cabeças viraram em sua direção, chorando para ele em busca de auxílio.

Ikki com cuidado soltou uma das mãos com as quais segurava seu irmão e a elevou acima da cabeça, concentrando seu cosmo e assim criando uma enorme bola negra em chamas, a fazia crescer a uma distancia segura, para que o corpo de Shun não fosse minimamente afetado.

- ELEVAÇÃO DAS TREVAS!

A grande esfera de energia que se parecia com um enorme sol negro, caiu de suas mãos em direção à água próxima ao cão e então seguiu uma linha reta. Todo o liquido tocado pela esfera evaporava, criando uma trilha seca.

- Ande logo seu cão estúpido!

Sem esperar segundas ordens, apesar do calor absoluto, o enorme monstro seguiu a esfera de fogo, que abria caminho à sua frente.

Contudo, de algum modo, o enorme sol se desfez, revelando um lugar ainda imaculado pela destruição, o cão e o humano se adiantaram até lá.

-...Isso não é possível...Por que esse lugar continua intacto?! E ainda por cima desfez minha técnica – Sob seus pés, o único campo de flores que florescia fora dos Campos Elísios mantinha seu brilho majestoso. Nenhuma pétala ou flor parecia ter sido tocado.

Cérbero que era quase quatro vezes o seu tamanho, deitou cansado sobre a planície, mesmo suas garras não pareciam danificar as plantas.

O animal latiu em agradecimento apesar de ter várias partes de sua crina chamuscadas e ferimentos de queimadura, seu rabo balançava e batia no chão criando pequenos terremotos.

- De nada – Disse Ikki sem virar-se para a criatura, ainda surpreso com a visão do campo de flores. Mas quando sentiu os três focinhos, mas especificamente, suas línguas se aproximarem, adicionou em claro tom de ameaça – Uma única lambida e eu afogo vocês no Aqueronte.

As três cabeças se afastaram, mas não pareciam menos felizes.

Ikki agachou-se sutilmente para não derrubar seu irmão e com a mão livre colocou o filhote negro sobre as flores. O pequeno ser apenas observou tudo curioso, não se assustando mesmo encarando o abissal monstro à sua frente.

- Fiquem aqui vocês dois, parece ser seguro. Fique de olho nesse filhote – Adicionou encarando os três pares de olhos – Ou terá que se entender com seu novo senhor.

O animal latiu em aparente confirmação, abaixando-se e tentando cheirar seu novo companheiro, mas só sua respiração foi suficiente para mandar o filhote longe.

Voltando a aconchegar Shun com seus dois braços, Benu tornou a elevar-se aos céus.

O campo florido parecia ter feito uma espécie de obstáculo, impedindo a inundação de chegar à terceira prisão. Contudo, as rachaduras na barreira que separava o reino de Hades do reino de Poseidon ainda permitiam que a água do profundo oceano invadissem as terras inferiores, submergindo aos poucos o poço da prisão.

O Rio Estige, a igual que o Aqueronte, estava começando a invadir seus arredores e ao entrar em contato com as chamas eternas da quinta prisão, fazia um vapor intenso tomar conta de tudo em seu entorno, transformando o Rio Pyriphlegethon num mar branco, ocultando o bosque e o deserto infernal.

O espectro teve que guiar-se pelo brilho avermelhado da cascata de sangue para conseguir saber para onde ir.

Mas mesmo ela estava a ponto de ruir, pois o calor intenso havia sido suficiente para derreter novamente o gelo do Rio Cócitos, libertando todas as almas que haviam atentado contra os deuses. Inundando todas as fossas vazias da sétima prisão.

Novamente as almas tentaram atacá-lo, antigos seres que atentaram contra as divindades, agora libertos de seu confinamento. Pôde reconhecer algumas almas de cavaleiros antigos, mas não havia qualquer consciência neles uma vez que não haviam despertado o Arayashiki, tornando-os simplesmente seres sem memória que agiam pelo simples impulso do ódio criado por seus cruéis castigos.

Ikki desviava com agilidade, apesar do atordoamento que os gritos lhe causavam.

Entre os espíritos podia sentir alguns mais fortes, que se precipitavam até as rachaduras e escapavam pelo mar, mas não podia fazer nada por enquanto.

Finalmente pôde ver Giudecca. O palácio dos três juízes a igual que o grande portal do submundo estava completamente submerso e em ruinas, tão somente o de Wyvern que ficava ao topo da primeira morada com suas asas abertas era testemunha de que algum dia três imponentes construções se erguiam ao fim do mundo dos mortos.

Contudo, mais elevado que o resto, o palácio de Hades possuía suas estruturas ruídas, mas ainda se mantinha de pé.

Acelerou o voo em direção a grande entrada de mármore. Subindo as escadarias.

E ali estava novamente, num lugar que jamais imaginou voltar. O salão do trono de Hades, seus pilares caídos e escadas danificadas, cortinas ao chão. Apenas o trono mantinha-se razoavelmente inteiro, embora o sangue de Athena ainda manchasse a superfície branca.

Caminhou em direção ao trono, com sumo cuidado recostou o corpo de seu irmão sobre ele, retirando com zelo os fios de cabelo que caíam sobre seu rosto, e ajoelhou-se frente à visão, o plano que Shun elaborara antes de sua partida em busca da Sobrepeliz de Benu passando por sua mente.

"Ikki, eu acredito que não terei forças para abrir a entrada do submundo" – Dizia sentado em lótus sobre o jardim morto da casa de Virgem "Mesmo que minha alma esteja se tornando a do senhor do submundo, eu ainda não tenho controle total sobre minhas novas habilidades, com tudo estando destruído, eu precisaria de certo domínio para poder forçar a entrada."

"Então o que faremos para voltar para lá?" – Questionou Ikki, sentado não muito distante. "Athena selou a entrada do castelo na Alemanha."

"As sobrepeliz foram feitas com a essência da energia de Hades" – Repassava Shun pensativo "A de Benu, sua armadura, não foi trajada na última guerra santa, ela ainda continua com seu poder intacto. Acredito que o melhor a ser feito é buscá-la, e usar-se de seu poder para adentrar ao mundo inferior."

"Eu não vou te deixar sozinho aqui morrendo!" – Exclamou horrorizado ficando de pé.

"Minha alma quando eu estiver morrendo não irá ao Yomotsu, como deveria ser, porque ela não estará definhando como meu corpo, ao contrário, ela se tornará imortal. Se eu deixar meu cadáver para trás e tentar forçar minha entrada por conta própria, é possível que consiga, mas o processo de apodrecimento de minha carne será acelerado, e eu não poderei mais usar meu corpo".

Encarou diretamente os olhos de seu irmão, brilhante olhar esmeraldino cristalizando-se com a ameaça de lágrimas.

"Ikki...Eu não suportaria a ideia de ter que possuir alguém...Não depois de tudo que as possessões de Hades me fizeram passar! Eu prefiro estar confinado em meu próprio corpo em declínio pela eternidade do que ter que fazer algo assim!"

O espectro mordeu seu lábio inferior com raiva, ao mesmo tempo em que apertava seus punhos. A ideia de abandoná-lo em seu leito de morte corroendo suas entranhas, mas forçá-lo a possuir o corpo de um mortal inocente não era uma opção.

Apesar de sua completa aversão ao plano, questionou.

"Então...O que você quer que eu faça?"

"Encontre sua Sobrepeliz, e quando eu morrer, leve meu cadáver para o submundo. Com o poder de Benu você será capaz de abrir a entrada. Minha alma continuará dentro de meu corpo até que estejamos em Giudecca. Lá eu poderei regenerá-lo, enquanto meu espirito será livre para atuar no mundo dos mortos."

"Mas você não poderá voltar a pisar na terra deste modo" – Interviu.

Shun sorriu tristemente, limpando as lágrimas de seu rosto.

"Eu sei. Até que meu corpo se recupere, minha alma estará presa ao submundo. Mas eu prefiro isso a ter que agir como os deuses e condenar um pobre inocente a carregar meu espírito. Por favor, Irmão...Não me force a ter que fazer isso!"

Como poderia negar um pedido assim?

Podia sentir uma aura proveniente de Shun, uma tranquila e suave que chegava até o espectro. Deixou-se envolver pelo cosmo divino que emergia de seu irmão, acalmando seus medos e temores, como uma brisa suave numa tarde de verão. Sentia a sensação até mesmo mais agradável do que ser tocado pela energia de Athena.

O cosmo formou uma grande esfera sobre o peito do guardião da sexta casa zodiacal, a qual se encaminhou para o lado de Benu, tomando aos poucos a forma humana quase sólida do antigo cavaleiro de virgem e novo senhor do submundo.

- Me perdoe por exigir tanto de você meu irmão – A voz suave de Shun lamentou.

- Arayashiki? - Questionou levantando-se frente ao outro.

- Na verdade, é uma projeção astral, uma vez que minha alma não está morta para que eu use do Arayashiki – Olhou para as próprias mãos semitransparentes – Mas isso não em dá uma forma física.

Virou-se para seu corpo, encarando seu próprio rosto falecido.

- Mas é uma sensação realmente muito estranha...

- E você diz isso para mim? – Resmungou Ikki.

Shun caminhou até a entrada do palácio, seu irmão seguindo-o. Observou a ruína completa do mundo inferior, submergido aos poucos pelos mares da terra e rios do submundo.

- Muitos espíritos escaparam pelas rachaduras na barreira, e com Poseidon selado, não há nada que as impeça de chegar a terra – Informou Ikki – Algumas pareciam ser verdadeiramente perigosas.

- Eu não compreendo...- Colocou a mão sobre seu queixo – O estado que o submundo se encontra...Não era para estar tão arruinado, uma vez que meu espírito ainda vive, e comigo a espada de Hades...Deveríamos ter mais tempo antes de que tudo chegasse a esse estado.

Ambos se viraram atentos quando duas energias surgiram de dentro do palácio.

- Isso porque o tempo do submundo foi acelerado – A passo lento, Clotos, a Moira do nascer.

- Quem é essa?! – Questionou Ikki entrando em posição de ataque, protetoramente frente a seu senhor e irmão.

- Não se preocupe – Anunciou Shun em tom tranquilo – Elas são as Moiras.

- Moiras?! As deusas do destino que você e Athena foram negociar a vida de Pégaso?!

- Precisamente... Senhora Clotos, Senhora Láquesis... Por favor, poderiam me explicar? Como o tempo do submundo foi acelerado? – Questionou em tom polido.

- Justamente para isso viemos meu jovem senhor – Anunciou com sua voz severa a irmã que puxava o fio da vida – Chronos, o senhor de todo o tempo, sentiu-se desafiado quando tu e Athena recorreram a nós ao invés dele para salvar a vida de Pégaso.

- O único ser a qual Chronos já jurou alguma lealdade foi Zeus – Seguiu Cloto em seu tom mais juvenil.

- Para todos os demais deuses, principalmente os mais jovens, ele nunca sequer se mostrou. – Completou Láquesis – Ele governa sobre o tempo eterno, e a vida dos deuses imortais, portanto, não reconhecia mais Hades, Poseidon ou Athena como deuses verdadeiros, uma vez que abandonaram seus tempos eternos e se misturaram de algum modo aos mortais.

- Seu plano era prender a ti e a Athena no passado e assim apagar suas existências das linhas do tempo.

- Assim se livraria não apenas da deusa da sabedoria, como também do único capaz de suceder Hades.

- Desse modo, só lhe restaria Poseidon, que estando selado e sem seus Marinas, não seria capaz de resistir a extinção da família Solo.

- Então ele expurgaria da terra de todos os deuses que alguma vez já habitaram corpos mortais. Aqueles que deram as costas ao tempo imortal e buscaram o tempo humano.

- Uma vez que vocês não viajaram ao passado e seu plano não foi possível, ele resolveu acelerar o mundo inferior, uma vez que não possuía um senhor que o defendê-se, assim libertando as almas aqui presas, almas podres que juraram vingança contra Hades, Athena e Poseidon.

- Devido ao desejo de ti e Athena, ele começou uma guerra santa contra todos os mortais.

- Conhecemos seu desgosto para guerras meu jovem senhor – Finalizou Cloto – Mas não há como convencer Chronos de desistir. Nós, como deusas do destino podemos garantir que essa possibilidade é inexistente.

- Vocês querem me dizer... – Começou Shun com o rosto baixo, uma energia negra emanando de seu corpo, seus olhos em amarelo vivo – Que ele quer uma guerra santa, pelo simples fato de que esses três deuses deram as costas há seu tempo imortal, o que os torna indignos de serem divindades?!

Ikki observou espantado o rosto frio de seu irmão, não havia ódio nele, apenas a mais profunda repulsa.

- Pois então eu tenho uma proposta ao grande Chronos – Sua voz era ríspida e séria, sua energia emanando em ondas, reforçando suas palavras - Se ele é tão seguro de seu tempo imortal, dê-nos um pouco de tempo mortal, o suficiente para que os três exércitos divinos possam se reorganizar. As almas imortais que ele libertou e que lutarão ao seu lado, apenas por vingança, não hão de temer frente a "simples humanos mortais" e só assim sua vitória será verdadeiramente plena. Atacar a terra e subjugar os mortais quando não possuímos qualquer chance de defesa, seria indigno a uma entidade tão superior quanto Chronos.

- Shun – Colocou Ikki completamente chocado – Você tem certeza disso?

- Eu odeio guerras acima de tudo Ikki. O resultado de uma batalha sangrenta... É outra batalha?!... A paz nunca chegará, mesmo que a gente se esforce?* – Recitou suas velhas dúvidas em tom ferido – Enquanto deuses que se sintam superiores aos mortais existirem, nunca deixaremos as guerras santas para trás... Eu continuo me perguntando se vale a pena lutar, mas ao mesmo tempo não posso ficar de braços cruzados sem fazer nada. Afinal, eu também sou um guerreiro. – Ele encarou seu irmão, seus olhos novamente esmeraldinos e decididos - Se há uma coisa que o budismo me ensinou, é que nenhum humano deveria ter que se subjugar e temer a um deus. Então eu juro pela minha alma, que esta guerra será a última. Não haverá outro conflito divino que acometa os mortais depois dela, essas batalhas que trazem à morte humanos inocentes e assim quebram o ciclo natural da vida. Eu, como novo senhor do mundo dos mortos, não permitirei que isso volte a acontecer. Nem que eu tenha pessoalmente que enfrentar cada um dos deuses do Olimpo para me certificar disso.

O ex Fênix não respondeu, sua boca completamente aberta. Em contra partida, as duas deusas sorriram.

- Sabíamos que essas seriam suas palavras meu jovem senhor. É de vital importância que o ciclo natural da existência seja respeitado, e sabíamos que tu eras o melhor ser para defendê-la – Recitaram juntas - Por isso Átropos foi negociar com Chronos. Ele os concedeu 243 meses antes que a guerra inicie de fato. Vinte anos e três meses até que os ataques recomecem.*

Shun confirmou com a cabeça em agradecimento.

- Será o suficiente.


Notas finais
* As flores que Shun comprou em sua viagem para Rodorio com Hyoga. Elas são uteis para amenizar odores muito fortes, como por exemplo, cheiro de decomposição.
* Na verdade, Alone fez bastante coisa...Mas Kagaho é cego quanto a isso.
* A constelação de Escorpião, no ocidente, representa a morte.
*Mesma descrição do corpo de Shun no prólogo.
*Tanatopraxia - Técnicas para a conservação de cadáveres, maquiagem, reconstrução, preservação, entre outras.
*Hécate também é a deusa da maternidade.
* De acordo com alguns mitos antigos, acreditava-se que o submundo encontrava-se no mais profundo dos mares de Poseidon. Até por isso, Hades nunca entrava em conflito com seu irmão...Meio que não era uma boa ideia xD
*Na mitologia, o Rio Cócito não está congelado, por isso a referência de que ele alguma vez foi um rio de água corrente.
* Essa frase já foi dita por Shun, na saga de Hades.
*Os capítulos do presente acontecem exatamente 241 meses após a negociação de Átropos. Os ataques presente nos últimos capítulos aconteceram 2 meses antes do previsto para o começo da guerra santa.

Além disso, se você chegou até aqui, tenho uma pergunta. Por que o capítulo se chama "Rosas para a sepultura" se não há nenhuma rosa nesse capítulo? É um detalhe muito importante, deixem suas teorias nos comentários!