Capítulo XVIII - Dentro de um sonho.

Hyoga caminhava sem rumo pelas estradas rurais de Rodorio, sem ver ou se importar sobre onde ia.

Simplesmente não havia pregado os olhos naquela fatídica noite, apenas havia ficado remoendo e remoendo o momento em que viu Kiki e Marin segurando o corpo já sem vida e levemente decomposto de seu melhor amigo, além de um cãozinho ainda preso aos braços da Amazona, latindo para tudo e para todos, como se temesse que alguém atentasse contra o corpo já morto do cavaleiro.

Correu na direção de ambos a tempo de pegar o cadáver quando as pernas de Kiki começaram a fraquejar e ele caiu em prantos, a imagem que presenciou certamente iria traumatizá-lo pelo resto de sua vida.

Imediatamente questionou Marin sobre o que havia acontecido, contudo, a guerreira simplesmente não havia dado uma resposta, por mais que insistisse, até que Shiryu e Jabu chegaram, seguidos não muito depois por Athena.

O libriano deliberou que o melhor seria levar a discussão para outro lugar, enquanto o escorpiano tentava ajudar o ariano a se recompor, suas diferenças esquecidas frente a tragédia.

Ersa nesse instante pediu que deixassem o corpo com ela, antes que os demais chegassem, para que pudessem se despedir direito de seu amigo.

O aquariano hesitou, mas a deusa aceitou prontamente, com lágrimas já se formando em seus olhos.

Deixaram Shun com a japonesa em um dos salões que rodeava o coliseu, enquanto começaram a discutir no mausoléu.

Mas para quê tudo isso serviu? Depois da chegada daquela deusa Hécate, Saori havia perdoado prematuramente Marin, que claramente carregava a culpa do assassinato, e o enterro foi adiado para a manhã seguinte.

Tinha sido o primeiro a ir até o local onde o corpo de Shun descansava assim que amanheceu, apenas para encontrar Geki e Ban desacordados no chão. Abriu as enormes portas do mausoléu com o coração disparado, esperando o pior. Lembrou-se de Hades, como ele reanimava os cadáveres apenas para servirem ao seu lado. Foi por isso que os túmulos de Afrodite, Camus, Máscara da Morte, Saga, Shion e Shura estavam abertos no dia de sua invasão ao santuário.

Temia que o deus do submundo tivesse usurpado o corpo de seu amigo, e que uma nova guerra se iniciaria.

Mas quando viu a caixa de pandora da armadura de Fênix, junto a um maldito bilhete com a letra de Ikki, sentiu um ódio borbulhar pelo seu ser como nunca antes. Como esse desgraçado leonino podia ser tão maldito e egoísta?! O que queria dizer com "levar Shun de volta a onde os dois pertenciam"?! Shun era um cavaleiro de Athena! Um guerreiro de ouro! Seu lugar era ao lado de seus irmãos de batalha, mesmo sob sete palmos.

Foi seu cosmo perturbado que chamou a atenção dos demais e Shiryu precisou de toda a sua calma para controlar a situação, todos estavam chocados com a atitude da fênix. Athena, e mesmo Kiki tentavam como podiam encontrar o leonino, mas ele parecia ter sumido da face da terra.

Hyoga repentinamente parou seus passos frente a uma enorme oliveira, resolvendo sentar sobre sua sombra.

A árvore lembrava o aquariano de uma velha história que seu mestre lhe contou sobre o surgimento do signo de aquário. Cécrope, o primeiro rei de Atenas, costumava fazer oferendas de água em jarros aos deuses antes da descoberta do vinho.

Este mesmo ser, mestiço entre homem e tritão, julgou uma competição que decidiria quem seria o deus padroeiro de seu reino. Athena e Poseidon competiram para ver quem ofereceria o melhor presente. O deus dos mares bateu seu tridente numa rocha e de lá fez brotar água salgada. Athena, por sua vez, bateu seu báculo contra a rocha e de lá nasceu uma oliveira, julgada assim como ganhadora por Cécrope. Foi assim que começou a origem de Athenas e do Santuário. Além disso o príncipe Erisictão*, acabou se tornando o primeiro cavaleiro de Aquário, morrendo muito jovem em nome da terra e da deusa.

Ironicamente seu pai, o rei, entre os ensinamentos que deu aos atenienses, ensinou também como realizar as cerimônias de sepultamento, que permitiria que os mortos chegassem adequadamente ao Submundo, e no final, acabou tendo que sepultar o próprio filho.

Em seus devaneios, questionava se era possível esta frondosa árvore ser a mesma oliveira dada por Athena, talvez ela até mesmo tivesse presenciado a morte de Erisictão.

Cécrope, pelo menos tinha um corpo sobre o qual se lamentar, podia invejá-lo por isso.

Nem sequer isso possuía. O corpo de sua mãe havia sido enviado por um golpe de Camus para as profundezas congeladas da Sibéria. O do próprio Camus havia se desintegrado por trair Hades. O de Isaak, em algum lugar no mais profundo do oceano, e agora Shun...Em algum lugar perdido no mundo.

A morte, além de arrancar tudo que ele mais amava, sequer deixava nada para que ele pudesse se despedir.

Invejava Cécrope, o símbolo de seu signo, por poder sepultar seu amado filho.

E invejava Erisictão, o primeiro cavaleiro de Aquário, por conseguir morrer cumprindo seu dever. Era tudo o que mais desejava, lágrimas encharcavam seu rosto, abandonar de uma vez esse maldito mundo.

- ...Por que tão triste meu jovem...?

Hyoga sobressaltou-se, levantando-se rápido e entrando em posição de batalha.

- Quem é você?! - Exigiu ríspido, não havia sentido a presença de ninguém aproximando-se. O que podia indicar que o homem não era alguém qualquer.

- Acalme-se rapaz. Eu sou apenas um velho de Rodorio. - A voz era rouca e muito lenta, usava um capuz que escondia seu rosto, ainda assim eram visíveis seus longos cabelos e barba branca. - Eu plantei essa oliveira quando era mais jovem que tu, gosto de passar todos os dias aqui para apreciar sua beleza.

O cavaleiro abaixou levemente a guarda, ainda encarando o outro desconfiado.

O senhor não pareceu se importar, caminhando a passo lento e olhando para a frondosa árvore.

- Sabes, uma oliveira pode viver mais de dois mil anos. É realmente muito tempo para um humano, mas não deve passar de um suspiro para um deus.

- Imagino que sim - Respondeu o aquariano de mal grado, provavelmente apenas não tinha notado o idoso se aproximando devido a que estava perdido demais em seus pensamentos. - Perdoe-me por sentar-me aqui, não imaginava que esta árvore tinha um dono.

O senhor riu, uma risada áspera e arrastada.

- Oh não, não. Eu apenas plantei suas sementes.

- E não é a mesma coisa?

- Quem sabe, particularmente eu acho que nada na terra nos pertence - Colocou, enquanto acariciava com uma de suas mãos enrugadas a casca do tronco. - Tudo pertence ao tempo. O tempo que leva para nascer, para crescer e para morrer. Aquele que semeia as sementes, não estará vivo para ver seus primeiros frutos. Afinal, os humanos dispõem apenas do tempo mortal.

- Quem realmente é você, senhor? - Questionou o russo, tentando ver os olhos do mais velho sem sucesso.

- Eu me chamo Aiónios, se tanto te interessa. Vivo naquela casa ao final da colina - Apontou para uma pequena inclinação de terra, onde era possível divisar uma pequena construção - Vivo aqui desde que nasci, cavaleiro de Athena. - Antes que o loiro pudesse questionar, novamente assumindo posição ofensiva, o idoso acrescentou - Os cavaleiros são famosos e reconhecidos em Rodorio, além disso, eu vi a ti e um rapaz de cabelos verdes indo em direção ao santuário numa tarde de neve.

- Estava nos seguindo por acaso?! - Inquiriu em tom de ameaça, sua desconfiança voltando.

- Em realidade eu estava tentando encontrar na vila algum remédio para a minha artrite, já não sou tão jovem, caso não tenha reparado. - Soltou sua risada arrastada - Mas não pude deixar de te escutar aumentando a voz no meio da rua com o jovem que mencionei.

Hyoga hesitou, não se lembrava desse senhor de nenhuma parte, na época nem Shun manifestou algo sobre estarem sendo observados.

Mas novamente, naquele dia estava muito transtornado para notar ou se importar com um simples ancião. Shun, caso tenha notado, deveria ter achado irrelevante demais para comentar.

- Ele parece se importar muito contigo – Comentou em tom descontraído.

- Se importava...- Deixou escapar, apertando os punhos com força – Ele morreu...Ontem.

- Oh...Eu...Sinto muito, de verdade – O senhor lamentou, afastando-se da árvore – Isso é...Ele parecia tão jovem...Isso é muito triste... Não deve estar sendo fácil para ti. Devia estar aqui sozinho com sua dor, e eu apareci para arruinar seu luto, eu lamento muito.

- ...Tudo bem...Não importa. – Fez menção de ir embora, mas Aiónios ainda parecia ter algo a dizer.

- Há muito tempo, eu perdi meu irmão. Não vejo meus filhos há muitos anos, e nunca conheci meus netos, sequer sei se sou bisavô. Se algum dia precisar de alguém para conversar, esse pobre velho sempre estará aqui.

O cavaleiro parou, olhando para o senhor por alguns instantes, com a sobrancelha franzida.

- Eu mal o conheço, por que acha que eu faria algo assim?

- É verdade, mas uma alma solitária entende outra, e apenas o tempo revela o homem justo; basta um dia para pôr a nu um pérfido.* - E sem dizer mais, o senhor deu-lhe um cumprimento de cabeça e caminhou lentamente em direção a pequena casa que indicou.

O russo o acompanhou com o olhar alguns instantes, antes de seguir seu próprio rumo, de volta ao santuário.

-.-.-.-.-.-.-

Ikki odiava não saber o que fazer.

Estava sentado ao lado do trono do submundo, sentindo como as almas restantes vagavam em espera pela floresta que Shun havia criado.

Ou talvez recriado fosse a palavra certa?

As memórias de sua primeira vida, quando jurou lealdade a Hades tornando-se o espectro de Benu ainda eram quase nulas, mas o Submundo, embora ainda muito vazio, agora que reconstruído, trazia consigo uma forte sensação de Déjà vuu

Lançou um olhar ao corpo de seu irmãozinho, era espantoso que havia conseguido consertar tudo tão rápido, ainda mais se Hades não estava ao seu lado. E, no entanto, sua atitude o preocupava. Parecia o mesmo jovem bondoso que se preocupava com todos ao seu redor, mas ao mesmo tempo, parecia mais frio e calculista.

Estava até mesmo disposto a jogar sujo para vencer, o que não se parecia em nada com Shun. Mesmo assim, sua decisão era compreensível, estava claro que Chronos não teria escrúpulos nessa guerra. Independentemente de tudo isso, quando era Kagaho havia jurado carregar os pecados de Alone,e agora, mesmo uma vida depois, estava disposto a cumprir com sua palavra.

Levantou-se. Decidido a caminhar, ficar ali parado tampouco adiantaria algo, sabia que a alma de seu irmão havia retornado ao seu corpo morto, provavelmente devido ao cansaço, conseguia senti-la emanando do cadáver. Porém não podia fazer nada além de esperar que saísse novamente, e ficar apenas sentado esperando não era de seu feitio.

Caminhou em direção ao novo corredor que levava ao grande salão que substituiu o muro das lamentações e o que encontrou lá o surpreendeu.

No centro do salão vazio haviam doze grandes chamas azuis, algumas compostas de duas pequenas chamas. Elas formavam um enorme círculo, girando como se orbitassem ao redor do sol.

- As almas dos cavaleiros de ouro - Sussurrou impressionado.- Resistiram ao ataque de Chronos...

Olhando com atenção, porém, conseguia notar que algumas almas pareciam mais frágeis e suscetíveis a se apagar a qualquer instante em relação à outras, incapazes de manter sua pouca energia ainda pulsando.

- São uns cabeças duras, mas mesmo os cavaleiros de ouro tem seus limites.

Caminhou a passo lento em direção ao círculo, que parecia completamente ignorante à sua presença. Um objeto em particular chamou sua atenção.

Ao centro das doze almas, estava o rosário de Shaka. O rosário criado por Asmita na guerra santa passada e usado para selar a alma dos espectros, se bem lembrava, havia ficado com Muh após a morte do cavaleiro de virgem, contudo, com o sacrifício do cavaleiro de Áries junto aos demais dourados para abrir caminho no muro das lamentações, o item havia ficado sem dono.

Analisou as contas negras, as almas seladas de seus antigos e agora atuais companheiros, enquanto estava cercado pelos espíritos dos doze de ouro, seus agora antigos irmãos de guerra.

Chegava a ser irônico.

Porém seu raciocínio foi completamente interrompido quando sentiu uma presença se aproximando de seu irmão.

Correu de volta para a sala do trono, com o rosário em mãos, as asas de sua sobrepeliz abrindo ameaçadoras. Deslizou frente ao corpo inerte de seu senhor, em posição de ataque.

Mas tudo que havia era uma reluzente chama que parecia ter encontrado seu caminho até ali com muito esforço. Ikki notou que as almas pareciam ter dificuldade de manter sua aparência física uma vez que a maior parte do miasma havia desaparecido.

Era como prender vários insetos dentro de uma doma de vidro, em algum momento o ar se extinguiria e os insetos morreriam. A ausência do Miasma por sua vez, enfraquecia a alma dos mortos, eventualmente poderia acarretar que elas se rompessem sem retorno.

Para que os espíritos aceitassem o cosmo de Shun ao invés do miasma para mantê-las, ainda levaria algum tempo.

Mas essa chama à sua frente, parecia de algum modo estar se adaptando muito bem a mudança, deixando-se envolver pelo cosmo do novo imperador que abraçava todo o submundo.

Quando o fogo fátuo começou a se intensificar, aos poucos assumindo uma forma humana, Ikki inqueriu, em tom ameaçador.

- Quem é você?! Identifique-se!

Quando a luz do fogo começou a se apagar, deu lugar a figura de um homem, alto, longos cabelos loiros e calmos olhos azuis, usando apenas uma toga grega branca.

Ele olhou para Ikki, depois seu olhar se demorou em Shun.

- Eu te fiz uma pergunta! - Rosnou o espectro impaciente.

- Perdoe-me - Falou num tom muito suave voltando-se a Benu - Eu me chamo Daidalos, costumava em vida ser o cavaleiro de prata de Cefeu...Antigo mestre de Shun.

-.-.-.-.-.-.-.-.-.-

"...Tu ficaste louco?..." - Questionou o deus depois de alguns segundos de silêncio. "...Prometeu? O que procurarias de um Titã?..."

- Eu não entendo o porquê de seu desconcerto - Colocou Shun curioso, ainda sentado sobre o jardim. - Você já citou ele para mim duas vezes, se não me engano. O homem que roubou o fogo sagrado de Zeus para dá-los aos humanos, possibilitando o desenvolvimento de todas as tecnologias, e ainda por cima os ensinou muito.

"...E que foi severamente castigado por isso..." -Reforçou Hades em tom grave. "...Castigado pelo próprio Zeus, acorrentado por Hefesto a uma rocha, tendo o fígado devorado por uma águia todas as manhãs, apenas para se regenerar pela noite por ser um imortal, sofrendo novamente no dia seguinte..."

- Você foi a favor dessa condenação na época? - Questionou analisando a expressão contrária, notando-a algo tensa.

"...Eu fui o deus responsável por impor muitos castigos ao longo dos séculos. Não me vejo em posição para condenar a pena de outro deus..." Colocou diplomático.

- Pelo que eu li sobre este acontecimento nas histórias de Ésquilo e Hesíodo* apenas Hermes não ficou contra esta decisão de Zeus, devido a grande ajuda que Prometeu, contra seus próprios irmãos, deu aos deuses para ganhar a Titanomaquia, embora Hesíodo não mencione nada sobre isso. - Analisou Shun pensativo - Um o retrata como um grande bem feitor da humanidade, outro como um grande trapaceiro justamente castigado por suas ações.

O antigo senhor do submundo franziu a sobrancelha pelo comentário.

"...Quando tu leste Ésquilo e Hesíodo?..."

- Você não estava comigo, eu encontrei Shiryu pouco depois que se tornou o Grande Mestre, conversamos no coliseu e ele me pediu que o acompanhasse até seus novos aposentos, pois entre os pertences do mestre havia muitos livros e pergaminhos antigos, que devido a sua condição não lhe seriam muito úteis. - Colocou com simpleza, lembrando-se da promessa de paz que fez com seu grande amigo naquela ocasião - Eu não tive tempo suficiente para ler muito, priorizei principalmente os textos que falavam sobre o Submundo, mas enquanto lia sobre as Eumênides* acabei me deparando com a história do Titã.

Hades piscou surpreendido, sabia que o antigo cavaleiro tinha certa inclinação para as letras, passou três meses lendo com ele as anotações de Shaka e por mais complexos que os textos ficavam, jamais pareceu verdadeiramente incomodado. Mas ainda assim não imaginou que ele começaria a estudar sobre o mundo inferior por conta própria.

"...Se tu querias saber sobre as Eumênides era só me perguntar..."

- Eu não posso depender de você para tudo, posso? -Brincou o mais novo.

O deus sorriu, não se sentia ofendido por essa colocação, na verdade isso o aliviava de certo modo, conviver com esse humano e governar o mundo o inferior ao seu lado não seria tão complicado como cogitou a princípio, cada vez isso ficava mais claro.

Mas logo o sorriso desapareceu.

"...Não me diga que tu queres conhecê-lo apenas por curiosidade? Te olvidaste o mal que ser curioso já causou aos humanos, mesmo tendo conhecido Pandora?..." Enfatizou severo. "...Não pense que por ter herdado meus poderes, os outros deuses te verão como um igual. Provavelmente apenas te vejam como um usurpador, outros podem até mesmo supor que isto seja plano de Athena, uma vez que foste seu cavaleiro. Seja o que for que pensem, não espere amistosidade das outras divindades, muito menos dos Titãs..."

- Eu imaginava algo assim, se Chronos se ofendeu com três deuses habitando corpos humanos, duvido que muitos gostariam de um humano completo no lugar de um ser divino. - Colocou olhando para o céu aberto de sua subconsciência - Prometeu, no entanto, justamente por isso talvez escute o que eu tenho a dizer. Com a pouca disposição de aliados que temos, não custa tentar.

"...Muito bem, porém, eu não seria muito esperançoso quanto a isso..." Taxou Hades. "...Depois de ser libertado por Héracles, ele passou a viver isolado de todos, não será fácil ..."

- Antes disso, eu gostaria de conversar com Poseidon, eu só não sei como faremos isso, estando agora completamente presos ao submundo e ele selado - Suspirou, fechando seus olhos por alguns instantes.

"...Isso é mais fácil de resolver, precisamos encontrá-lo no mundo dos sonhos. Afinal, o selo de Athena é como um sono induzido..."

Ao ouvir essas palavras Shun abriu os olhos e sentou-se rapidamente ereto, uma expressão que misturava pânico e o medo em seu rosto.

- O mundo dos sonhos...O lugar onde Hypnos me prendeu na Guerra Santa anterior, possibilitando assim que você tomasse completamente conta do meu corpo. - O deus encarou os olhos amedrontados de sua contra parte, quase sendo capaz de sentir pena. Um sentimento pouco experimentado em sua vida.

- "...É impossível eu fazer o mesmo agora, e tu sabes..." - Informou em tom tranquilizante - "... Além disso, Hypnos foi destruído, o mundo dos sonhos deve estar ainda pior do que o submundo estava, agora que aquele que o dava forma pereceu..."

Shun não parecia nada convencido, apertando os punhos com força com uma expressão tensa.

- Não há outro meio? – Questionou em tom hesitante – Nada me garante que você não me prenda lá novamente.

"...Há algo sim..." - Levantou-se, olhando para o mais novo de cima "...Para todos os efeitos, eu não existo. Mesmo no mundo dos sonhos, que pode ser visto como uma dimensão que expande a subconsciência. Eu não passarei de uma imagem vista apenas por ti, como uma ilusã eu já te disse, mais de uma vez, eu não passo de uma memória do que fui, um mero fragmento de alma..."

Começou a caminhar a passo lento, o novo senhor das trevas, embora receoso resolveu segui-lo.

"...No entanto, o contrário seria possível, tu conseguirias prender-me no mundo dos sonhos..." - Deteve seus passos, encarando o céu sempre limpo e sem nuvens daquele mundo -"... Como estou agora eu seria incapaz de escapar, tu poderias assim reinar a sós no Submundo, seria novamente uma única alma num corpo. E eu ficaria preso pela eternidade num ilusório mundo destruído...Não acha que seria a vingança perfeita?..."

A expressão de temor do virginiano aos poucos foi substituída por uma de aversão, incapaz de sequer ponderar sobre o tema.

- Eu jamais faria algo assim! - Exaltou-se - Seria muito cruel!

"...És muito bondoso Shun, demais para seu próprio bem..." - Comentou com um sorriso irônico.

- Isso se chama compaixão. Você deveria experimentar - Provocou o ex cavaleiro.

"...Não, muito obrigado..." - Contestou com simpleza "...Agora que já te acalmaste e notaste que tu é o único capaz de prender-me no mundo dos sonhos, creio que já podemos ir..."

Voltou a caminhar a passo tranquilo, dessa vez contudo Shun não o acompanhou, seguiu parado observando as costas do deus se afastando, surpreso.

Hades havia feito aquilo para acalmá-lo? Mostrando que a divindade estava em risco maior do que ele? Sorriu, sentindo-se verdadeiramente mais tranquilo. Sabia que desde que saiu da morada das Moiras estava se tornando uma pessoa diferente, pela influência de Hades, pelas enormes obrigações que ia assumindo, e ainda mais agora que teria que orquestrar uma guerra de forma a reduzir ao máximo seu impacto.

Contudo, sentia que o antigo imperador aos poucos estava mudando também, às vezes chegava a aparentar que realmente se preocupava por sua pessoa. Ainda tinha sérias dúvidas se não era apenas sua imaginação ou seu bom coração tentando convencê-lo de que havia algo de puro na alma do deus.

"...Shun, seria possível tu deixares a divagação para o mundo dos sonhos?..." - Insinuou o mais velho, já à uma boa distância.

Correu para conseguir alcançar os passos contrários, passando a caminhar ao seu lado.

- Podemos acessar o mundo dos sonhos a partir daqui? - Questionou curioso.

"...Tecnicamente, é como se tu estivesses dormindo quando estás aqui, no entanto, seria um sonho lúcido, cujo local reflete a forma pura de sua alma. Por isso esse constante céu azul límpido e esse vasto campo de flores. Se continuarmos em direção ao mais profundo de sua consciência, devemos chegar a porta que nos leva a Morfia*..."

-...Mais profundo? - Hesitou, temendo o que poderia estar se escondendo em seu interior.

"...Sim, não devemos estar muito longe, todo esse lugar já é bastante profundo..."

Caminharam pelo que pareceram horas, mas não havia qualquer sensação de desgaste físico, apenas o cansaço mental de longa caminhada sem destino aparente.

Shun estava novamente perdido em seus pensamentos, imaginando como conseguiriam convencer Poseidon a ser um aliado, não conhecia muito sobre o deus, e por mais que tenha dito que sabia lidar com um irmão complicado, a menos tinha certeza que Ikki o amava, em contra partida não fazia ideia se o deus dos mares guardava algum sentimento para com Hades.

Tão distraído estava que não chegou a notar que o jardim a sua volta começou a se tornar rubro, tendo o chão forrado de rosas.

Uma dor pulsante o trouxe de volta a realidade, seus pés descalços haviam sido cortados pelo espinho de uma rosa.

- É muito estranho que eu consiga sentir dor com algo desse lugar - E ao observar melhor notou que Hades havia desaparecido completamente, e ao seu redor e por onde quer que olhasse haviam rosas, mesmo o céu parecia começar a escurecer. - O que é isso?! Hades? O que está acontecendo aqui?!

Tentou dar um passo para trás, mas apenas conseguiu ferir-se ainda mais. Quanto mais se mexia, mais as roseiras se enroscavam em suas pernas, resultando numa dor cada vez mais crescente.

- O que é tudo isso?! - Exclamou horrorizado, era como se as plantas tivessem vida própria.

- Por que temer flores tão belas quanto essas? Pensei que considerava minhas rosas as mais belas flores que já viu.

Por entre toda a flora cor de sangue, uma figura começou a emergir com um andar suave e tranquilo. Seus cabelos eram longos e azuis claros, sua pele alva e brilhantes iris do mesmo tom de suas madeixas . Usava uma armadura dourada e em sua mão esquerda levava uma rosa branca.

O virginiano abriu os olhos surpreso com a visão.

- A...Afrodite?! Como isso é possível?!

O homem não respondeu, apenas continuou seu caminho, o observando de soslaio, como se o julgasse mentalmente, recriminando-o apenas com o olhar.

- ...Você deveria estar...Isso é uma ilusão? - Tentou soltar-se das roseiras, mas como serpentes, elas apenas se envolveram mais em sua carne. Teve que conter um grito, quando os espinhos começaram a rasgar sua pele sem piedade.

- Dói, não é? - O cavaleiro de ouro voltou a falar, circulando o mais novo como um caçador cercando sua presa - A rosa é a mais bela das flores, contudo, deve-se estar preparado para suportar seus espinhos.

Ao fim de suas palavras, os ramos cresceram com mais ferocidade, agarrando-se a cintura e subindo pelo peito do ex cavaleiro de virgem.

- Você é como essas flores Shun. A primeira vista inofensivas, belas e puras. A alma mais pura de todas...- O pisciano fechou os olhos apertando o punho com força, deixando que as pobres pétalas amassadas deslizassem por entre seus dedos. - Mas na verdade, está repleto de espinhos, capaz de ferir qualquer um que se aproximar demais. Um assassino que luta em nome da justiça, soa quase romântico, você não acha?

O corpo do virginiano começou a tremer, apenas permitindo que mais cortes fosse distribuídos por seu tronco

- ...Não...Eu não acho... - Abaixou a cabeça, lágrimas prontas para rolar por sua face- Não tenho qualquer justificativa sobre o que eu fiz...Dizer que foi pela justiça não é mesmo uma desculpa.

- Eu não compreendo...Como o homem que me matou, como o homem que matou tantos outros, pode ser considerado a alma mais pura? - Colocou com ironia, e por onde passava agora as rosas começavam a quebrar em milhares de pedaços como vidro, ao tempo que os estilhaços derretiam ao tocar o chão, permitindo que um grosso liquido carmesim manchasse a terra.

- Eu jamais pedi para ser algo como isso! - Exaltou-se, as gotas salgadas agora marcando seu rosto - Isso é simplesmente ridículo! Como posso ser algo assim se eu matei tantas pessoas?! Como posso ser puro se das minhas mãos escorrem sangue?!

Afrodite parou, agora à sua frente, seu corpo completamente encharcado da essência avermelhada, manchando seus cabelos, seu rosto, sua armadura. Estando tão próximos, Shun pôde notar que o olhar do cavaleiro era completamente vazio de expressão.

- ...Ainda assim... - Tentou seguir falando, as flores quase alcançando seu pescoço - Ainda assim...Por mais sujo que eu me sinta, por mais sangue que eu tenha derramado...Se tivesse me mantido indiferente, eu teria que presenciar a morte dos meus amigos que seguiriam lutando, eu teria que ver inocentes morrendo por guerras que não possuem qualquer envolvimento...Por isso eu continuei lutando, por isso eu tive que continuar matando...Eu me arrependo, e sempre me arrependerei de tudo que fiz... Mas quando chegar o momento de pagar por todos os meus pecados, eu aceitarei qualquer castigo de bom grado... Até lá...

Conseguiu soltar sua mão direita, mesmo essa cobrindo-se de cortes e escoriações, agarrando assim os ramos que ameaçavam sufocá-lo.

- Até lá, eu...- O aperto começava a sentir-se insuportável, mesmo sua mão livre não parecia ser suficiente para impedir as roseiras de enforcá-lo.

- Continuará sujando suas mãos com sangue? - Impôs acusatório o cavaleiro.

-...Até lá eu...Seguirei...- O ar parecia começar a faltar, enquanto os ramos que o prendiam também se quebravam, substituídos pelo líquido carmesim que parecia se multiplicar, sendo suficiente para afogar o virginiano, que parecia ter se tornado incapaz de nadar, observado pelo pisciano sem expressão. -... EM...FRENTE!

Enquanto lutava para manter sua cabeça erguida entre o mar vermelho, a figura de Afrodite começou a rachar.

-...Será que você ainda será a alma mais pura quando chegar lá? - E a figura do falecido guerreiro estilhaçou-se em milhares de pedaços.

Ao tempo que uma mão surgiu, agarrando o pulso de um Shun quase inconsciente trazendo-o para fora do mar de sangue.

-.-.-.-

"...Eu pensei que tu serias confrontado por todos que mataste, não imaginaria que focarias apenas em um..."

Estava de joelhos no chão, a respiração fluindo com dificuldade, o coração dolorosamente acelerado, e a sensação de algo gélido como um pedaço de pano esquecido ao relento preso ao seu pulso.

Em compensação, frente a ambos estava um grande portal de mármore, cujo exterior era negro e impossível de ver.

- Você sabia que algo assim ia acontecer...? - Questionou em tom fraco, tentando se recompor.

"...Era previsível. Tu claramente odeia matar e carrega muita culpa pelas mortes que causou. Não é de se estranhar que no profundo de sua subconsciência esse assunto tentasse afogá-lo. Apenas não pensei que seria literalmente..."

Estava a ponto de reclamar que o deus poderia ter lhe avisado antes, mesmo não sendo de seu feitio fazer algo assim, quando levantou seu rosto, podendo ver assim a expressão cansada de Hades, obrigado a sentir as mesmas emoções que sua contraparte, além disso, a mão dele segurava fortemente seu pulso.

Shun piscou, sem saber o que dizer. O deus apenas o soltou, virando-se para o portal como se nada tivesse acontecido.

"...Mesmo que tudo esteja em ruínas, tenho certeza que encontraremos Morpheu vigiando o sonho dos heróis..." - Declarou a divindade em tom sério- "...Tu precisas usar as palavras certas para convencê-lo a ajudar-nos a encontrar e entrar no portal de Poseidon. Com a pouca energia que temos, lutar não é uma opção. Mesmo sendo subordinado a Hypnos, ele também é um deus. Seria estupidez subestimá-lo..."

O virginiano levantou-se com certa dificuldade, encarando o desafio à sua frente.

-Vamos seguir em frente. - Colocou com determinação, atravessando o umbral com Hades ao seu lado.


Notas finais
O título do capítulo em inglês "Inside a dream" é uma referência a um dos temas tristes de CdZ, atribuído a Hyoga. Além de uma alusão aos acontecimentos do final do capítulo
* Erisictão, filho de Cécrope (não confundir com o rei de Tessália), era um jovem herói devoto aos deuses, que morreu muito jovem na região de Porto Rafti sob circunstâncias desconhecidas. Acredita-se que faleceu enquanto trazia uma estátua da deusa Ilitía até Atenas.
* "Apenas o tempo revela o homem justo; basta um dia para pôr a nu um pérfido" é uma frase de Sófocles, um importante dramaturgo grego.
* Ésquilo, dramaturgo grego. Hesíodo poeta grego. Ambos relatam passagens e visões diferentes do mito de Prometeu.
* As Fúrias ou Eumênides, este segundo em grego significa Benévolas, são também chamadas as Erínies. Essas divindades do mundo inferior são as encarregadas de executar sobre os culpados a sentença dos três juízes do submundo.
* Morfia, citada em Lost Canvas, é a região mais profunda do Mundo dos Sonhos, governada por Morpheu. É o local onde se encontram os sonhos dos reis e heróis, por consequente, os das divindades também.

E o enigma da vez é...De onde veio esse senhor que falou com Hyoga?

No próximo capítulo voltamos para o presente e o ataque a família Solo! Agora, na segunda temporada da estória, os capítulos do presente/futuro aconteceram a cada 2 capítulos do passado ao invés de 3. Então aguardem~