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Capítulo XXII - O imperador das trevas -

Em meio a um luxuoso corredor, nos quais garras marcavam o mármore do piso e rasgava sem piedade quadros de mitos gregos nas paredes, um corpo tomava forma saindo das sombras do ambiente mal iluminado e caminhando até onde poucos raios de sol adentravam uma janela rompida.

Contra a luz solar, a pele de Shun parecia ainda mais pálida, enquanto examinava o local onde havia parado.

Sangue manchava o corredor, mesas de centro rompidas pelo caminho e vasos de flores em pedaços, cuja água e terra misturavam-se com o liquido carmesim.

O senhor da morte caminhou até uma rosa empapada de sangue, dando a sutil sensação de que a mesma estivesse derretendo, sendo a cor das pétalas o mesmo do fluido corporal. Ao tocá-la, contudo, a mesma começou a murchar e definhar, até dissolver-se em pó que voou pela janela, deixando apenas o liquido para trás.

Quando tornou a levantar-se, sentiu uma presença chegando atrás de si.

- O sangue está fresco. – Shun começou – E o medo ainda está impregnado no ar, caso contrário não conseguiria ter chegado até aqui.

- Então, é assim que funciona? – Kairos deslizou alguns centímetros, faíscas saindo de seus pés, tamanha a velocidade que alcançou enquanto corria – Se move através da sombra da morte? É um tanto mais específico do que a de Violeta.

- É verdade, mas é muito útil para levar-nos ao lugar certo – Começou a caminhar, sendo seguido de perto pelo espectro – Onde há o medo da morte e as trevas do fim, eu poderei me locomover, como se estivesse andando pelo próprio submundo. Além disso...

Seguiram reto até chegar a um novo corredor à esquerda. Este estava coberto por uma espessa fumaça arroxeada, era quase impossível ver o que havia a frente, mas era facilmente audível o som dos gemidos de dor, soluços e lamentos.

- Definitivamente. Vemos o terreno de tantas desventuras; mas os terrenos verdadeiros destas desgraças lastimáveis, só poderemos ficar sabendo após maior estudo. – Colocou dramático o deus saltitando na frente de seu senhor e cutucando o que parecia ser um corpo humano, embora tão tremulo e encolhido sobre si mesmo que facilmente poderia ser confundido com um embolado de roupas.

- Devem estar presos nos mais frios pesadelos de morte de suas consciências – Comentou Shun vendo com pesar que havia outros seres irreconhecíveis dispostos pelo corredor, alguns cujo sangue brotava de suas feridas, outras cujas unhas marcavam como garras a carne numa tentativa vã de tranquilizar a mente perturbada. – Mais tempo em contato com a essência da morte e eles perecerão, seja física ou mentalmente.

- Aconteça o que acontecer, o tempo e as horas sempre chegam ao fim, mesmo do dia mais duro dentre todos os dias. – E ao fim de seus dizeres, os corpos deixaram de tremer, os soluços pararam de soar e os gemidos deixaram de se escutar.

O tempo dos mortais que se debatiam foi parado, e o silêncio reinou sobre o corredor que cheirava a enxofre.

- Eu sinto a cosmo energia enfraquecida de Bian vindo de algum lugar dos andares superiores. Essa mansão é muito grande, e segundo Neroda me contou em seus sonhos, pode ser fácil de se perder. Precisamos encontrar as escadas certas...- Shun fez menção de seguir caminhando pelo caminho estreito, quando repentinamente sentiu algo se aproximando, mas não desviou.

- P-por favor! P-p-por favor! – Era uma jovem, não deveria ter mais que vinte anos, agarrou a barra da calça social do senhor dos mortos como se sua vida dependesse disso. – Eu estou com medo! E-e-eles n-nos atacaram do nada! E-eu não quero morrer! N-não, por favor! Nã-não me deixe morrer!

O antigo cavaleiro a observou com expressão de lástima, mas nenhum movimento fez para ajudar a jovem, até que seu rosto se congelou numa expressão de desespero quando seu tempo também foi parado, como se tivesse se tornado pedra ao encarar o olhar da temida Medusa.

- Oooh! Sinto muito! – Dizia em tom teatral o deus oportuno se desculpando com uma reverência. – Lamento, devo tê-la deixado passar.

Shun lançou um olhar severo ao companheiro, para então sacudir sua perna para se livrar do agarre e seguir caminhando pelo corredor impassível.

- Não precisa recordar-me que não cabe a eu ajudar essas pessoas. – Declarou em tom neutral, andando a passo firme – Também sei que não posso me deixar levar pelos meus sentimentos. Devemos fazer o que viemos fazer e isso é tudo.

Kairos sorriu amplamente, em clara satisfação erguendo-se de seu ato.

- Isso me tranquiliza, meu senhor. - Colocou em tom cortês - Até mesmo a bondade, se em demasia, morre do próprio excesso.

- Isso não significa que devemos agir como animais – Tornou a falar severamente – Ou melhor, mesmo animais são capazes de mostrar compaixão. Como um animal inteligente e quase – Destacou a última palavra- divino deveria tentar ser um pouco mais compassivo.

- Oh! Seja bem vindo punhal! – Fingiu com teatralidade que algo o acertava no peito, como se as palavras de seu senhor fossem como uma adaga a atravessar-lhe o coração.

Shun apenas revirou os olhos com a atitude dramática de seu espectro, seguindo pelo corredor, atento a qualquer movimento, a passo ligeiro e silencioso. O que era praticamente inútil, levando-se em conta que o antigo deus cantarolava enquanto parava o tempo e saltava pelos corpos caídos. Seu senhor, contudo, retou importância sobre o pouco caso que dava a desgraça humana, quando avistou um corpo feminino jogado contra a escada no começo de um novo corredor.

- Um dos nossos. – Comentou em tom solene, como se deslizasse pelo solo como o vento pelo campo, no estante seguinte já estava agachado ao lado da jovem, Kairos o seguiu agora em silêncio. Tocou com cuidado suas costas, sentindo o tecido branco e negro empapado pelo sangue - ...Morreu há pelo menos doze minutos. Pelo choque sua alma ainda não deixou o corpo. Mais um pouco e uma das almas podres poderia devorá-la.

Fechou os olhos, enquanto passava com delicadeza suas mãos pelos olhos vidrados e assustados da vitima, fazendo-os se fechar. Então com um deslizar de dedos, como se tentasse atrair um bom aroma, incitou ao espírito a abandonar o corpo ainda quente.

Uma pequena esfera brilhante saiu dos lábios que começavam a se arroxear.

- Não tema pequena – Anunciou Shun em tom aveludado . – Eu não permitirei que nada te passe mais. Estará segura agora.

A alma que tremulava vacilante começou a brilhar com mais intensidade, como se respondendo suas palavras.

- Agora diga-me...O que aconteceu...E aonde posso encontrar as escadarias que levam ao quarto de Astrapí – O brilho deu um pequeno salto no ar e parou frente a testa dos senhor dos mortos, que abriu os olhos em amarelo vivo. Sua expressão brilhou em tristeza e inconformidade, para logo passar a resignação, e a alma tornou a se afastar.

Shun ergueu-se ereto, sua postura mostrando-se mais hostil, embora seu tom seguia comedido.

- Foi uma morte brutal, ela era apenas uma simples mortal, empregada da casa. – Olhou para as escadarias – Eles estão há dois lances de escada daqui, podemos seguir por esse caminho.

Voltou-se outra vez ao espírito, esticando a mão direita, cortando o ar com o dedo indicador, fazendo um pequeno corte em pleno espaço, como se rasgasse um frágil pano de seda. A fenda que se abriu era obscura, além de um vento gélido soprar de seu interior.

- Eu sei que não parece muito convidativo em relação ao ensolarado mundo dos vivos, mas não é de todo mal. Um homem de cabelos azuis adorará ouvir sua doce voz, e um rapaz loiro levará sua bondosa alma até os Elísios.- A pequena esfera hesitou, Shun lhe ofereceu um suave sorriso – Não precisa ter medo.

Com mais um salto de confirmação, a luz partiu em direção à escuridão, que se fechou após permiti-la passar.

- Agora são dois que caíram nessa guerra – Colocou com pesar, encarando o cadáver – Sem mencionar as três almas que foram destruídas no ataque à Verônica. Mesmo parecendo um número pequeno, são pessoas completamente inocentes!

Uma aura negra começou a circular o jovem senhor da morte.

"...Shun, preciso lembrar-te que deves manter-te tranquilo? Para isso que serviu nossas meditações..." – Hades alertou em sua mente "...Tu deves se manter frio e racional, caso contrário, só causará mais mortes..."

"Sim, você tem razão" – Respondeu respirando fundo para acalmar-se, a negritude desaparecendo no processo.

- Em tempos de paz convém ao homem serenidade e humildade, mas quando estoura a guerra deve agir como um tigre! – Kairos tornou a declamar – Mas a diferença entre um tigre e um homem é que o primeiro só mata por necessidade. E o segundo pode fazê-lo apenas por seus próprios desejos egoístas.

Shun voltou-se ao espectro, curioso.

- Essa segunda parte não me lembra nenhuma obra de Shakespeare.

- Um bom ator por vezes deve saber improvisar meu senhor – Piscou, com um sorriso maroto - Viemos aqui para julgar as almas que fizeram isso. – Seu sorriso se intensificou, assumindo uma postura bem mais sádica, seus dentes tornando-se pontiagudos e seus olhos brilhando em intenso amarelo – E eu estou verdadeiramente ansioso para chegarmos às cenas de ação.

- ...Me surpreende, mas eu terei que concordar – Apertou os punhos com força - Quanto antes acabarmos com isso, melhor.

Ambos voltaram-se ao corredor, aonde presenças ameaçadoras vinham agilmente em sua direção.

- Será mais rápido se nos separarmos – Começou Shun entrando em posição de ataque – O tempo se acaba.

- O quão irônico é que diga isso a mim? – Ironizou o deus caído, também assumindo pose de batalha, contudo, dando um passo para o lado, ficando entre seu senhor e as criaturas que vinham pelo outro extremo – Mas por mais que esteja acostumado em sua anterior vidinha humana a assumir a frente por àquela tentativa de deusa, agora você é como o rei do tabuleiro de xadrez. Deve deixar as demais peças fazer o trabalho prazeroso.

- Você não quer dizer o "Trabalho sujo"? – Ironizou.

- Não – Seguiu com seu sorriso mefistofélico – E para que fique claro, entre as peças do tabuleiro, eu sou o bispo. Afinal, além dos reis, ele é o único que usa um chapéu.

Vindo do lado oposto que levava as escadas, quatro criaturas se arrastavam pelo chão. Parecia que algum dia foram humanas, mas agora suas caras eram retorcidas e esticadas, dando a aparência de focinhos. Seus olhos esbugalhados como de peixes, suas mãos e pés com unhas afiadas eram um misto de garras e nadadeiras, e era quase impossível saber se o que havia dos dois lados de seu pescoço eram guelras ou cortes oriundos da automutilação. Seus cabelos agora, todos azuis, cresciam curtos como pelagem, e sua pele também havia adquirido um estranho tom azulado.

- ...Mas pensando nas demais peças do tabuleiro – Seguiu Kairos como se os seres não fossem minimamente importantes – Eu acredito que o Cavalo cairia muito bem ao seu irmão.

As criaturas pararam a poucos metros dos recém-chegados, uma tomou à dianteira se precipitando até eles. Os observava com extrema desconfiança.

- Quem ser...Vós? – Colocou num tom que mais parecia um rosnar.

- Oooh que lindo, o cãozinho marinho sabe falar~- Satirizou o espectro.

Os outros três grunhiram por tal brincadeira, mas o líder não se deixou abalar, inclusive mostrou-se surpreso.

- Podes ver nossa verdadeira forma... – Não era uma pergunta.

- Sim, vocês são Telquines. – Anunciou Shun com severidade – É lamentável que aqueles que outrora cuidaram de Poseidon quando ainda jovem, voltem-se contra ele, fugindo do Tártaro e se aliando a Chronos para destruí-lo, sem se importar que para isso tivessem que possuir o corpo de pobres mortais.

- QUEM PENSAR SER ASSIM FALAR COM NOSSO LÍDER?! – Latiu o último da esquerda, de maior estatura.

- Com esse nível impecável de grego não me surpreende que meu irmão facilmente controla os seus cérebros de peixe~ - O deus caído seguiu com suas provocações, ainda sem deixar a posição protetora frente a seu senhor.

- Irmão?! – A criatura parecia confusa – Que falas?!

- Antes, diga-me... O que os levou a trair Poseidon e castigar os humanos dessa forma?! – Seguiu impondo o imperador, demandante.

O líder franziu o olhar, cada vez mais desconfiado, mas ainda assim respondeu.

- Por Poseidon nossa irmã Hália, morta. Zeus castigar nós por usar magia negra, enviar Tártaro como dizes! – Grunhiu em tom arrastado – Chronos liberdade dar, em troca da cabeça humana de Poseidon!

Shun suspirou com verdadeira tristeza, fechando seus olhos com pesar.

- Vejo que não há mentira em suas palavras...E a podridão de suas alma chega a empestear...Além disso, não consigo mais sentir os espíritos dos humanos que vocês possuíram, ou seja- Mas foi interrompido.

- SUFICIENTE! - O Telquine da esquerda, mais robusto e mais violento que os demais investiu em direção aos inimigos, saltando com as duas patas dianteiras abertas.

Porém para assombro dos outros três, ele ficou congelado em pleno ar, para no instante seguinte, um vulto surgir ao seu lado, lançando-o com tudo contra o chão. Toda a ação não pareceu durar mais que milésimos de segundo, e então o monstro estava estatelado contra o piso frio, Kairos caindo com graça do seu lado direito com a perna que fora utilizada no ataque ainda erguida.

- Quem diria, o de aparência mais forte é o mais fraco de vocês, mal usada, mesmo a mais dura faca perde o fio. – Colocou com indulto, voltando a caminhar para o lado de Shun, sem desviar o olhar de seus adversários.

- O que ele fazer – Questionou o ser da direita, levantando-se em duas patas.

- O tempo parar – Seguiu o segundo, encolhendo-se em si mesmo.

O líder apenas lançou um olhar de desinteresse para o companheiro caído, sua atenção voltando-se completamente ao humano que o derrubou.

- Manipulas o tempo - Acusou analítico - Que relação ter com Chronos?

- Como já te disse ele é meu irmão, para minha infelicidade - Taxou com desprezo - Eu costumava ser Kairos, o deus do tempo oportuno, até o amável sangue do meu sangue apagar a minha existência e me condenar a viver num corpo humano! - Uma cosmo energia sombria cercava todo seu ser, dando a estranha sensação de que o espaço ao seu redor estava se distorcendo - Mas o que mais me adoece é saber que ele sequer se deu o trabalho de falar sobre mim para os seus peões!

Os dois Telquines mais atrás rosnaram para essas palavras, o líder, contudo, seguia impassível.

- Ter razão, ele não falar - Analisou, voltando seu olhar a Shun.

O senhor dos mortos começou a emanar sua própria energia, uma de cor arroxeada intensa, porém de aparência fraca, a qual lentamente envolveu seu companheiro, que aos poucos relaxou sua postura, embora ainda consternado, seus olhos assumiam um tom vermelho e seus dentes deixavam de ser pontiagudos.

- Mas não importar quem ser vós, nossa missão ser claro, vamos cumprir. - Sua voz se tornava imponente, cada vez mais parecida com latidos de um cão.

Encolheu-se no chão, como um lobo que se prepara para o bote, os outros dois o seguiram.

- Se pretendem deixar de latir e finalmente morder, lamento que eu não esteja com o traje adequado! – Dito isso, o espectro rapidamente abriu seu terno com um único movimento de mão, para logo lançá-lo longe, ao tempo que, uma nova fenda abriu-se e de lá saiu uma armadura negra.

Parecia ser a figura de um homem sentado confortavelmente sobre uma estrutura circular, da qual saiam flechas que formavam com perfeição teias de aranha. A manopla ainda, segurava inclinada uma longa cartola, que escondia seu rosto mascarado de sorriso perverso.

Num único estralo de dedos, a sobrepeliz vestiu seu dono, enquanto o chapéu graciosamente caiu sobre sua mão. A vestimenta cobria todo seu corpo, com exceção de seu baixo ventre, ombreiras altas circulares e presas a flechas destacavam-se a igual que a tiara com dois pares de chifres curvos de tamanhos diferentes, sendo o da esquerda maior, e o da direita com metade de seu tamanho.

Colocando uma das mãos na cintura, a outra ainda segurando sua cartola, Kairos fez uma suave reverência. Para logo piscar maroto, mostrando a língua, colocando seu chapéu pendurado sobre o chifre menor.

Todo o processo, contudo, levou apenas três segundos.

- Novamente me apresentando, sou Kairos, conselheiro estrategista do submundo, espectro de Mefistófeles, Estrela Celeste da Liderança, a primeira entre as 108 estrelas maléficas. – Contudo, enquanto estava no meio de sua apresentação, as criaturas atacaram.

O guerreiro desviou com agilidade do golpe do líder, como se dançasse, daquele que vinha da direita, com um simples salto, ao tempo que o último que sobrava atacou quando os pés do espectro voltaram a tocar o chão, mas ainda agilmente colocou a palma de sua mão direita sobre o rosto distorcido, ganhando impulso para executar um salto mortal, parando em suas costas.

- Que descortês! Atrapalhar minha apresentação! – Com um simples movimento de mão, todo o espaço começou a girar em espiral atrás de si, distorcendo-se completamente. O chão se tornou teto, o teto se tornou chão, sendo sugados por uma fenda temporal às costas daquele que invocou a técnica. –Quarto maravilhoso!

A fenda começou a se expandir, engolindo assim o menor dos Telquine à sua frente, como se o ser fosse meramente líquido sendo esvaído por um funil.

Retorcendo-se sobre si mesmo e distorcendo-se de tamanho, cada vez menor, até desaparecer no olho da espécie de furação espaço-temporal.

Os outros dois mal tiveram tempo de virar-se para contra-atacar, depois de seu movimento falho anterior, e seu companheiro já estava praticamente reduzido a partículas atômicas, tudo que puderam presenciar foi uma corrente negra de ponta triangular adiantar-se até a fenda temporal, sumir em seu interior, para logo ressurgir voltando ao seu dono, com uma chama negra atravessada em sua ponta.

- Kairos, por favor, não perca as almas no espaço-tempo - Declarou em tom sério o de cabelos verdes - Será muito trabalhoso recuperá-las depois.

- Oooh lamento! Acabei me empolgando - Respondeu sem parecer minimamente arrependido.

- Ele arrancar sua alma! COMO SE ATREVER! - O outro cão aquático voltou a assumir uma postura em duas patas, usando as traseiras para conseguir impulso e assim atacar Shun.

- Defesa circular! - Correntes surgindo das sombras começaram a girar em torno do antigo cavaleiro, como uma muralha de ferro, assim impedindo o ataque e ainda envolvendo o atacante imobilizando-o completamente, quanto mais se debatia, mais firme as amarras ficavam - Grande prisão das almas*

As correntes começaram a emitir eletricidade de tom avermelhado, enquanto seguiam apertando seu oponente como serpentes.

O líder observava os pelos de seu companheiro começarem a chamuscar, não havia dado muita importância a esse jovem, focando-se completamente no irmão de Chronos, porque o outro além de aparentar uma energia fraca, possuía uma aparência extremamente frágil, como se qualquer brisa pudesse derrubá-lo.

Num urro gutural, o pescoço do monstro preso pendeu para baixo, e então as correntes o libertaram, não antes de atravessar seu coração e também arrancar sua alma.

O líder deu um passo para trás batendo em alguma coisa, quando se virou, deparou-se com Kairos.

- Aonde pensa que vai? Eu pensei que os cães fossem animais leais. – Zombou o deus caído. Levantou a mão direita, apontando o dedo indicador.

Um enorme relógio redondo feito de cosmo com números romanos e um ponteiro que partia do indicador do espectro surgiu ao redor do Telquine.

- Mas o-o quê?!

- Você possuiu um corpo humano, cãozinho, mesmo que tenha destruído seu espírito e desfigurado sua aparência, ele ainda possuí seu tempo. Então por que não voltamos um pouco os ponteiros do relógio? Rebobinar biológico!

- KAIROS, CUIDADO!

O primeiro Telquine caído adiantou-se ao confronto, entrando na frente do líder e recebendo o golpe em seu lugar.

Seu corpo começou a girar junto aos ponteiros do relógio que corriam pelo sentido anti-horário, aos poucos perdendo a deformação e voltando a aparentar humanidade, sem garras, sem pelos, sem guelras, e continuou a diminuir, assumindo a aparência de um adolescente, uma criança, um bebê e logo apenas um feto, que encolheu até desaparecer.

O relógio então se desfez, e frente ao dedo indicador de Kairos restou apenas outra chama negra.

- Ora, ora, parece que existe alguma lealdade entre vocês- Colocou vendo como o líder foi jogado ao chão por seu último companheiro.

O ser rosnou. Voltou a se equilibrar sobre suas patas e correu na direção da escada passando em frente a Shun, o lançando um olhar raivoso e em certa medida temeroso.

O espectro fez menção de segui-lo, mas o senhor do submundo ergueu o braço impedindo seu passo.

- Eu pensei que tivéssemos vindo aqui para levar as almas deles de volta ao Tártaro, além de você ajudar seu irmãozinho – Colocou com desprezo.

-Exato, e graças ao que aconteceu aqui – Indicou com solenidade o corpo eletrocutado, o único que ainda permanecia, e no entanto, começava a derreter, agora que estava sem alma, incapaz de suportar as mudanças em seu sistema. – Ele está apavorado. Temendo sua morte.

O espectro ampliou o olhar, compreendendo, logo sorrindo com malícia.

- A sombra da morte o acompanha e nos levará exatamente para onde queremos chegar.~ - Tirou a cartola numa reverência exagerada ao seu senhor - Um homem inteligente pode transformar-se num tolo, quando não sabe valer-se de seus recursos naturais.

E ao se reerguer abriu sua mão, mostrando a última alma que se contorcia tentando libertar-se. Como uma serpente que ataca sua presa, outra corrente surgiu do breu, fincando sua ponta triangular na chama.

Girando ao redor do senhor dos mortos, havia agora três correntes com espíritos presos em suas pontas, que queimavam em intensa cor negra, dando uma aparência ainda mais sombria a pele pálida do virginiano.

- Esses Telquines ainda estavam muito fracos, não é possível que os Marinas tenham perdido tão facilmente para eles e não causado qualquer dano, mesmo sobre o efeito do miasma - Colocou Shun pensativo - Então deve haver alguém mais comandando eles.

- E nosso cãozinho vai chorando até seu dono, muito bem - Recolocou a cartola sobre seu chifre menor - Mas ainda existe a possibilidade dos Marinas serem só uns inúteis.

O imperador fechou seus olhos, concentrando-se na trajetória de seu alvo. Passava a uma velocidade impressionante pela terceira escadaria. Enquanto se privava de um de seus sentidos, os outros despontavam. Podia ouvir com clareza o som arrastado da respiração de seu companheiro, sentir o suave cheiro de suor e sangue.

Ainda sem enxergar levou sua mão ao coração do deus caído, que apenas ergueu sua sobrancelha pelo ato, mas não desviou, curioso sobre o que seu senhor pretendia fazer.

O coração do espectro batia de forma acelerada, revelando o esforço que fora necessário para enfrentar tais inimigos. Embora não tivessem grande força, Kairos ainda dependia da energia de sua armadura para mostrar todo seu poder, e esta por sua vez utilizava de fonte o deus do submundo.

Contudo, a maior parte da energia de Shun estava sendo consumida para manter o mundo inferior em ordem, restando uma mínima porcentagem para que pudesse ofertar aos seus homens. Isso os colocaria num risco muito grande, forçando seus corpos humanos à seus limites, dependendo menos da sobrepeliz e mais de si mesmos. O deus do tempo, pelo menos, tinha uma vantagem, não dependia apenas do cosmo de Mefistófeles, possuía sua própria energia divina, contudo, usada em sua forma pura poderia ser desgastante e eventualmente comprometer sua saúde como mortal.

- Você está com aquela cara de preocupado de novo - Resmungou quase infantilmente o espectro. - Eu estou bem, não tive qualquer arranhão, me cansar é natural, fazia tempo que eu não atuava numa verdadeira peça.

Novamente não obteve resposta, fazendo a divindade bufar frustrada. Quando se uniu a alma de Mefistófeles, soube que Hades, ao seu modo, cuidava de seus homens e detestava batalhas, mas Shun levava isso a outro nível. Nos últimos vinte anos enquanto os espectros cresciam em suas novas vidas, seu senhor o designou que olhasse por seus companheiros, certificando-se que crescessem e vivessem seguros, sem ataques de Chronos, ou quem sabe de algum cavaleiro de Athena.

Mas acabou se tornando muito mais do que isso. Sentia-se uma verdadeira babá quando tinha que impedir algum espectro de morrer num acidente de avião, apanhar de um pai violento, ou ser vítima de um latrocínio. Embora fosse muito gratificante arruinar os planos de seu irmão mais velho, o excesso de zelo de seu senhor para com seus homens chegava a irritá-lo. Mantinha-se sempre atento por aquele espelho negro a qualquer coisa que pudesse lhes acontecer, como uma mãe que zela por seus filhos pequenos, chegava a ser patético.

Por outro lado, em sua larga vida como deus, sendo condenado a viver no subconsciente de vários humanos, sem poder jamais se manifestar, até nascer no corpo de um japonês que viria a se tornar um espectro. Ele só havia presenciado a consideração e mesmo preocupação sobre sua pessoa uma única vez antes de ter Shun como seu senhor. Partita, sua esposa humana, mãe do anterior cavaleiro de Pégaso, ela havia lhe mostrado sentimentos que até então pensava que não existiam, como o amor e a consideração.

De algum modo a atitude bondosa de seu senhor sempre o fazia se lembrar dela, o cuidado que tinha com Pandora quando eram criados da menina, o carinho e zelo que tinha com ele. Por isso, quando via Shun fazendo essa expressão de preocupação, o entediava, o irritava, e ao mesmo tempo, sentia-se uma vez mais, em sua lamentável vida, parte de algo importante.

O senhor dos mortos, por sua vez, era ignorante quanto aos sentimentos de Kairos. Concentrado no que estava prestes a fazer.

-Ohm.*

O cosmo arroxeado começou a envolver Shun, como um broto de flor, que lentamente se abria em seis pontas, como uma estrela. O virginiano então abre seus lábios, soltando um grunhido que parecia vir de uma dimensão distante.

- Ungyou.*

Todo o miasma que tomava o corredor começou a tremular, até começar a ser sugado pelos lábios do anterior cavaleiro de virgem. O espectro observava com fascinação como o senhor do submundo aspirava a essência da morte com sua boca, consumindo-a e transformando-a com seu corpo em cosmo energia. A flor ampliava de tamanho, envolvendo toda a largura do corredor, pequenos raminhos saíam de seu centro, onde Shun se encontrava, assemelhando-a a uma grande flor de romã.

Aos poucos todo o miasma presentes nos corredores da mansão foram devorados e convertidos.

Em seguida, com a mão que ainda estava sobre o coração do outro, fez com que uma sensação calorosa passasse de sua palma para a sobrepeliz e logo para o espectro, que fechou os olhos aproveitando a sensação revigorante. Era como deixar-se banhar pelas chamas curandeiras do rio Flegetonte, só que melhor.

Quando tornou a abri-los. O corredor estava sem qualquer sinal da emanação mortal, enquanto Shun o observava curioso, uma mão sob o queixo e outra na cintura.

- E então? – Questionou interessado – Funcionou? Se eu pude substituir o miasma com meu cosmo quando cheguei ao submundo, tive a ideia de que o oposto também poderia ser possível.

"...Tu misturas-te duas técnicas de virgem para conseguir absorver todo o poder de escuridão do miasma..." – Colocou Hades em tom admirado "...Parece que tu nunca vás a deixar de surpreender-me Shun..."

"Obrigado." – Agradeceu, sentindo-se satisfeito consigo mesmo.

- Quando te ocorreu a ideia de poder fazer algo assim? – Questionou o espectro interessado.

Shun pensou por um momento, antes de responder com um pequeno sorriso..

- Um bom ator por vezes deve saber improvisar. – Zombou, fazendo o deus caído sorrir verdadeiramente pelo comentário.

- As ideias das pessoas são pedaços da sua felicidade, no caso, da minha- Olhou para seu punho, sentindo a energia fluir por todo seu corpo. – Parece que funcionou com perfeição. Não me sinto tão cheio de cosmo desde antes da luta contra Aspros de gêmeos.

- Muito bem, eu também me sinto mais forte agora, conseguirei abrir as portas do Tártaro sem grandes problemas - Declarou voltando-se às escadas, suas correntes ainda circulando ao seu redor com as almas em sua ponta – Nosso objetivo acabou de parar muito próximo a Bian, eu irei até lá. Acha que consegue me alcançar?

Kairos novamente tirou seu chapéu, fazendo uma reverência mais comedida, porém, bem mais sincera.

- Estarei logo atrás, senhor imperador das trevas.

Com um aceno de cabeça, Shun novamente se deixou envolver pela escuridão.

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- Em primeiro de janeiro deste ano, a Grécia assumiu a presidência semestral da união Europeia, tomando o lugar da Lituânia, e se manterá até junho quando será sucedida pela Itália. "A Grécia assume a presidência do Conselho da União Europeia com um grande senso de responsabilidade com nossos sócios europeus e todos os cidadãos europeus", declarou o ministro das Relações Exteriores, Evangelos Venizelos na ocasião, no entanto, quatro semanas depois o País ainda sofre os efeitos avassaladores da crise econômica. Tal situação, porém, não parece afetar a magnata família Solo. Conhecidos mundialmente como grandes empresários do ramo marítimo, os negócios da família só aumentaram nos últimos vinte anos. As ações de suas empresas continuam em alta apesar da pouca credibilidade econômica que o País berço das ciências e das artes apresentou nos últimos anos. Tal façanha, creditam os especialistas econômicos, se deve a administração de Astrapí Solo, filho mais velho de Julian Solo. Apesar da saúde precária e possuir apenas vinte anos, o jovem grego mostrou-se um verdadeiro gênio, apostando não apenas nas empresas Solo, como também no mercado imobiliário, adquirindo propriedades de grande valor em Países como Alemanha e mesmo Japão. Muitos gregos, por outro lado, suspeitam que o enriquecimento crescente se deva a atos de corrupção que podem ter contribuído para a falência do Estado grego. Tais suspeitas, porém, nunca foram provadas, mesmo a família sendo alvo de várias investigações. Mas isso não deteve os cidadãos gregos de organizar uma manifestação próxima a mansão Solo, que em algum momento pela manhã adquiriu um caráter violento. Vamos agora com nossa correspondente na Grécia, Toula Portokalos, para mais informações. Toula.

- Obrigada Georgia. Como podem ver e ouvir atrás de mim, o povo grego não está festejando dessa vez. Essa multidão se reuniu em protesto a um evento orquestrado por essa família que se realizará em alguns dias na Alemanha. Enquanto todo o mundo parece economizar seus trocados, os Solo parecem ter encontrado uma bola de cristal, que sempre os mostrou exatamente onde deveriam investir. A festa da mais alta gala é uma prova disso. Ela estava sendo organizada em segredo, mas como todos sabemos desde a Primavera Árabe, nada escapa das redes sociais, o que gerou inconformismo da população grega que passa por sérias dificuldades econô , as autoridades já deram algum pronunciamento sobre os manifestantes violentos que invadiram a mansão?

- Ainda não. A Polícia já montou barricadas para impedir mais invasões e uma equipe especial adentrou a casa em busca dos manifestantes que feriram alguns policiais antes de invadir o local no começo da manhã. Georgia.

- Obrigada Toula, voltaremos a transmitir esse impasse grego assim que obtivermos mais informações. Enquanto isso no Egito, a situação também parece cada vez pior, quase três anos após a queda de Hosni Mubarak, ainda é difícil saber qual será o destino da revolução egípcia. Mas uma coisa é certa, uma animosidade estranha parece tomar multidões em todo o mund-

- Vamos colocar numa programação um pouco mais agradável, não? - Uma garçonete colocava com um sorriso mudando a programação para um filme qualquer.

O rapaz que ela olhava apenas deu um sorriso sem graça e a mulher se afastou. Ele então suspirou mostrando-se contrariado. O jovem possuía cabelos espetados tão loiros que chegavam ao tom branco, pele clara e vibrantes olhos amarelos.

- Por que as pessoas detestam tanto ouvir um noticiário?

- Por que elas querem acreditar que o mundo não pode ser tão horrível quanto a realidade diz. Preferem ficar presas em seus mundos perfeitos, sem ter que encarar a consequência real de suas ações.

O homem sentado à sua frente, possuía um porte mais alto e atlético, também possuía fortes e severos olhos amarelos, porém suas madeixas eram de um loiro mais escuro, mas não era possível saber se eram espetados, já que levava uma touca negra que chegava até seus olhos.

Ambos estavam num pequeno café quadrado de paredes amarelas gastas, sentados um frente ao outro numa pequena mesa redonda e alta como tantas outras ocupadas naquele lugar simples, porém agitado. O mais baixo comia um bolo de chocolate, umas rosquinhas de chocolate e tomava chocolate quente enquanto assistia uma pequena televisão de péssima imagem às costas de seu acompanhante. Este, por sua vez, apenas lia um livro de aparência velha.

- Irmão, você não vai comer nada? Estivemos andando por horas.

O mais alto suspirou, fechando seu livro. Revelando a capa com um olho desenhado, e o título "Vigiar e Punir".

- Eu não estou com fome.

- Peter, peça pelo menos um café - Insistiu o menor - Eu sei que não chegamos a nenhuma conclusão ainda sobre nossa investigação, mas você fazer greve de fome não vai adiantar em nada. Além disso, você ouviu as notícias, há manifestações para todos os lados, casos de violência só estão aumentando, seja o que for essa fumaça roxa que estamos investigando, é praticamente certeza que ela é culpada, pelo menos em parte, sobre tudo isso. - Olhou para o pedaço de bolo na sua frente - Eu não sei porque ela não nos afetou até agora, mas mesmo assim não podemos ficar enfraquecidos, fomos testemunhas do que ela é capaz de fazer.

- E imagino que se entupir de chocolate é seu jeito de se manter com energia - Ironizou vendo o outro voltar a comer.

- As coisas estão ficando perigosas, nunca se sabe quando pode ser sua última refeição! - Defendeu-se com a boca manchada pelo doce.

- Que as coisas fiquem perigosas é o que eu preciso Victor - Colocou Peter com um sorriso de antecipação - Eu não sinto ação de verdade desde que saí do exército, mas se você estiver com medo, pode voltar para casa.

- De forma alguma! - Exclamou assustando a garçonete de antes que passava numa mesa próxima.- Eu jamais te deixaria sozinho enfrentando algo que quase matou nossa irmãzinha! Eu irei contigo até o fim, você sabe que eu até mesmo morreria em seu lugar.

- Eu sei...- Respondeu em tom contemplativo - É isso que me preocupa.

- Desculpa, está tudo bem? - A jovem atendente veio a mesa de ambos depois do repentino grito.

- Sim, está. - Disse em tom firme, colocando a mão no bolso e tirando uma carteira de couro dele - Meu irmão é só muito escandaloso - Tirou um cartão prateado dela, levantando-se. - Onde fica o caixa?

A jovem por sua vez olhou para o cartão e então para o homem de alta estatura.

- Seu nome é Peter Quill? - Ela colocou com um sorriso - Esse nome me parece familiar...

- Lá vamos nós de novo...- Resmungou Victor, encolhendo em sua cadeira.

O mencionado fez uma expressão assassina, mas a jovem seguiu encarando o cartão platina tentando se lembrar.

- Acho que fo- Porém Peter voltou a colocar o cartão no bolso.

- Deixa, eu acho o caixa sozinho - Impôs irritado, batendo o pé com força.

A jovem ficou piscando confusa, sem saber o que tinha feito de errado.

- Star Lord - Victor respondeu a pergunta não feita, chamando a atenção da moça - É uma história em quadrinhos. Nosso pai era muito fã dela, por isso eu me chamo Victor Sparta e ele Peter Quill.

- Isso é permitido?! - Colocou ela chocada.

O rapaz deu de ombros, comendo o que restava de seu lanche achocolatado, e terminando de beber

- O nosso verdadeiro sobrenome é Aldertha, geralmente nos apresentamos assim - Levantou-se, disposto a seguir seu irmão que havia encontrado aonde pagar - Mas eu sempre digo a ele que podia ser pior. Ele podia se chamar Peter Parker.

A jovem cobriu a boca para esconder sua risada, recebendo uma piscadela do homem atraente, que no entanto, logo seguiu seu irmão porta afora deixando-a para trás.

-.-.-.-.-

Assim que Ikki pousou no jardim, sequer teve tempo de se inclinar para ajudar na descida e Havok já saltou de suas costas com Neroda ainda inconsciente.

Com sumo cuidado o rapaz colocou o adolescente no chão e o examinou de cima a baixo,como para ter certeza que estava bem.

- Você cuida muito desse garoto - Declarou o espectro olhando ao redor, procurando algum sinal de inimigo.

- Mas é claro! Nós crescemos juntos, ele é como se fosse meu irmão mais velho. - Foi até seu rosto, dando pequenos tapas em sua bochecha. - Meu pai fez ele dormir com sua música quando o ataque começou, para que conseguíssemos fugir mais fácil ...Porque...Neroda pode se impressionar com...Certa facilidade.

- Então por que está acordando ele agora?- Perguntou sem dar muita atenção, sentindo o cosmo de Shun se manifestar dentro da mansão. Franziu a expressão preocupado, era uma manifestação extremamente fraca, do tipo que usava apenas para acalmar algum dos espectros. Provavelmente aquele idiota do Kairos estava fazendo alguma bobagem.

- Meu pai sempre me disse que Neroda é como a terra que a água toca, mesmo sendo o caçula, devíamos cuidar dele com o mesmo zelo que o senhor Astrapí, que é água que toca a terra. Ambos são Solo, seríamos uma farsa se não o fizéssemos. E se algo muito ruim acontecesse com nosso senhor, cuidaríamos de Neroda, mas teríamos que contar para ele a verdade.

Ikki soltou uma pequena risada irônica, balançando a cabeça descrente, enquanto o menor dos Solo resmungava algo inteligível.

- Qual a graça?! - Irritou-se o jovem Marina.

- Me parece que Sorento fez um grande jogo de palavras. Eu sei que Shun lhe disse que jamais deveria falar a verdade no mundo dos vivos, que Chronos estaria sempre espreita, mas não imaginei que ele poderia ser tão engenhoso.

- O que quer dizer? - Questionou impaciente.

- Havok? - Uma voz infantil e sonolenta se fez ouvir. O maior bocejava enquanto esfregava os olhos azuis rajados de amarelos. - Onde estamos? O que aconteceu?

- Neroda! Finalmente acordou! - Exclamou feliz - Estamos no jardim... E...-Hesitou - É uma longa história na verdade...Bem...- Começou a coçar a nuca - Eu não tenho certeza por onde começar...

- Ei, pivete - Ikki chamou a atenção do mais novo que o observou curioso, ao tempo que o Marina lhe lançou um olhar reprovador. Sentia com clareza o cosmo de Shun espalhando-se por todos os corredores, logo envolvendo toda a mansão. Chronos não seria mais capaz de ver o que se passava ali - Os seus precisam de você, então se levante e faça alguma coisa.

Havok estava a ponto de ofendê-lo por essas palavras, quando o caçula levantou-se de um enorme salto, parecendo repentinamente muito animado.

- Finalmente! - Anunciou vibrante.

- O quê?! - O Marina o encarou sem entender - Como assim "finalmente"?! Vocês se conhecem?

Porém a conversa foi interrompido abruptamente quando uma quarta presença se assomou, a passo rápido Ikki automaticamente, se colocou frente aos menores.

- Quem é você identifique-se imediatamente!

O espectro abriu os olhos surpreso, a figura parecendo-lhe muito familiar.

A voz era firme, ameaçante, porém ainda assim feminina. Possuía cabelos púrpura presos num rabo de cavalo, debaixo de um quepé policial. Seus olhos eram vermelhos escuros e afiados, e uma cicatriz despontava de seu pescoço e se perdia no uniforme da polícia grega.

Além disso, apontava uma arma diretamente para o coração de Ikki.

- Não acredito, justo agora...- Resmungou Benu analisando a figura.

- OOOOH! - Exclamou Neroda com entusiasmo - Não é aquela mulher da televisão? Los Kipus*? Aquela que acusaram de repreensão violenta?!

- É Ione Kípos senhor Solo - Disse entre dentes, sem tirar os olhos de Ikki, ou o dedo do gatilho - E eu não me importo de sofrer o processo que for se você não se identificar nos próximos cinco segundos. Já te adianto que eu sei que você não trabalha nessa casa, então se sua resposta não for boa o suficiente, eu atirarei do mesmo modo!

O ex Fênix suspirou profundamente, exibindo uma expressão irritada.

- Sim, definitivamente é a Violate.

Notas Finais

* Grande prisão das almas- - Referencia ao golpe "Grande Captura de Andrômeda" usado contra Io. Com um toque da habilidade "Relâmpago Negro", para eletrocutar sua presa e assim conseguir adquirir sua alma.
* Ohm - Consiste em um mantra que os cavaleiros de virgem utilizam para intensificar o seu cosmo acumulado por meditação e expandi-lo. Normalmente utilizado antecedendo técnicas maiores. Ao queimar o seu cosmo através deste movimento, o cavaleiro normalmente ataca o alvo e o afasta de suas proximidades pela irradiação provida de sua energia, mas nesse caso o cosmo apenas envolveu Kairos sem prejudicá-lo.
* Ungyou -Shijima em N.D usa esse golpe abrindo sua boca, manifestando todo o cosmo acumulado por se privar de um dos cinco sentidos, liberando o som divino do Ungyō, o som do fim do universo. Fazendo tudo ao seu redor ser consumido pela escuridão. Shun, nesse caso, usou o movimento para atrair toda a escuridão para si, consumindo-a e a transformando em cosmo-energia junto do Ohm.
*Los Kipus - Neroda se confundiu, Los Kipus é um velho grupo de música peruana. Talvez ele tenha escutado isso de Sorento alguma vez e acabou misturando os dois.

Peter Quill Aldertha - Peter Quill é o nome humano de um personagem da Marvel conhecido também como Star Lord.
Ald – Vem do inglês antigo, tem o sentido de" velho/a".
Ertha – vem do Saxão antigo, significa "Terra"

Victor Sparta Aldertha – Peter Quill tinha uma meia irmã, seu nome era Victoria, cujo masculino é Victor.

Sparta – É o nome de uma das antigas cidade-estado gregas. Porém, também é uma referencia ao planeta que Peter e Victoria descendiam, Spartax ou somente Sparta.

Ione Kípos – Ione foi uma das amantes de Zeus na mitologia, como castigo, Hera a transformou em um boi. Diziam que enquanto chorava sua desgraça, Violetas nasciam de suas lágrimas.

Kípos –Jardim em grego.