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Capítulo XXIII - Não posso dizer adeus.
Passado
Sentia uma cosmo energia vinda da oitava casa.
Sentia a energia de todos, com exceção de Hyoga, indo em direção à presença.
Sentia a aura de Athena, aflita e preocupada, vinda dos aposentos da deusa.
Mas não se levantou ou sequer se moveu deitada sobre uma cama qualquer, na residência das Amazonas. Seus cabelos loiros se espalhavam pelo travesseiro, um lençol pendia por metade de seu corpo, a outra metade esparramada pelo chão. Lágrimas secas davam uma sensação de endurecimento na pele envolta de seus olhos.
- Shun...
Chamou pela milésima vez naquele dia, apertando seu peito com força. Uma sensação amarga passando por sua garganta, como se houvesse um nó preso nela.
Fechou os olhos, tornando a ver o rosto do cavaleiro de Andrômeda sorrindo para ela, seus olhos esmeraldinos, seus cabelos verdes, sua pele alva e gélida, seu adocicado cheiro de romã. O gosto de seus lábios, o toque suave de suas mãos.
"...June..." – Ouvia em sua cabeça, um tom distante e longínquo.
Estava de volta àquele dia onde Shun a pegou no colo e se lançou com ela no mar.
"- Você cheira a romã" – Anunciou descansando a cabeça sobre o ombro dele enquanto à noite os cobria com seu véu negro.
"...- E você cheira a flores. Eu gosto disso..." - Beijou com dedicação a testa da jovem.
"- Flores? Eu? – Riu com doçura, fechando seus olhos, desejando que aquele momento durasse para sempre. "- Isso me lembra que...Quando nos conhecemos eu estava colhendo ervas e flores." – Abriu os olhos curiosa "-Naquele dia você me disse que eu era familiar, achava que já tínhamos nos conhecido antes."
Por alguma razão, Shun desviou o olhar, um certo rubor subindo por seu rosto.
"-Shun?"
"...Se eu te dissesse que acho que já tinha te visto em um sonho...Soaria muito como uma cantada barata?..."
A amazona riu, ruborizando-se também, pegando um pouco de água do mar com as mãos em conchas e jogando no cavaleiro.
"- É lógico que soaria!"
E ambos começaram a rir da cara ensopada um do outro quando, enquanto lançavam água como crianças.*²
- Shun... – Chamou com mais força, levando as mãos ao rosto. - ...Eu te amo, eu queria te dizer isso antes, mas não tive coragem...Eu pensei...Pensei em te dizer assim que voltasse a te ver.
A energia na oitava casa se intensificava mais, era capaz até mesmo de sentir o cosmo de Kiki se elevando também. Mas não havia qualquer estímulo em seu corpo para se mover.
Sequer sentia-se mais triste, não. Em lugar disso havia apenas um enorme vazio, como se uma parte dela tivesse morrido e sido enterrada naquele caixão vazio, no lugar dos restos mortais de Shun.
Parecia ser incapaz de sentir qualquer coisa.
"...Mas no meu sonho..." – Seguia a voz em sua mente "...Você tinha belos cabelos vermelhos..."
"-Agora de uma cantada brega, você passou a criticar meu cabelo?" – Disse num tom que fingia ofensa, lançando uma grande quantidade de água em seu cavaleiro "- Que rude de sua parte!"
Ele sorriu, aquele sorriso doce que havia atingido seu coração.
"...Desculpe!" – Riu, puxando a mão da amazona e beijando-a em suas costas. "...Você é linda de qualquer forma, watashi no Otome. Minha donzela..."
- ...Primeiro minha avó, depois mestre Daidalos e agora você...Parece que a morte gosta de me perseguir – Colocou com amargura. – Por que não me levou no lugar deles?
"-Minha querida-" Podia escutar a voz rouca de sua avó "- A vida pode ser muito curiosa, bonita como uma flor, que germina, cresce e floresce, até que ela conhece a morte, que aos poucos leva suas pétalas com ela, sua vida e sua essência. A leva para a terra, e da terra algo novo surgirá, nunca se esqueça disso meu amor."
-...Vovó...O que de novo me esperaria? O que eu tenho agora...? – Ela abraçou seu próprio corpo, sentindo-se sozinha. Sozinha como nunca antes em sua vida. -...Eu não tenho mais nada...Mais nada!
A cosmo energia da oitava casa havia se extinguido repentinamente. Shiryu e os outros que estavam no local mostravam por sua própria aura tensa que algo grande deveria ter acontecido. Mas não se importava. Não se importava mais com seu dever como Amazona, com Athena, com nada.
Agora, só existia o vazio.
-.-.-.-.-.-.-
- Eu estou surpreso - Admitiu Ikki encarando a figura a sua frente – Imaginar que a armadura de ouro de Escorpião viria até aqui por você, mesmo não sendo fisicamente.
A amazona passou delicadamente os dedos pela vestimenta num gesto de carinho.
-...És natural...Eu fui a primeira a vestir esta armadura na guerra santa contra Poseidon, quando sentiu meu retorno, ela quis reencontrar-se comigo e me ajudar... – Tomou com suavidade a superfície dourada, delineando cada curvatura –... Depois de uma longa e dolorosa batalha contra o imperador dos mares, milhares dos que lutaram em nome de Athena morreram, até que armaduras foram forjadas para treze de nós. Treze jovens que sequer haviam pisado a vida adulta ainda, eram a última esperança da terra contra a fúria dos mares. Os guerreiros da esperança...
- Todos conhecemos essa história – Colocou o espectro impaciente – Vá direto ao ponto, Astéria.
A amazona inclinou a cabeça.
- ...Então me recordas, Espectro de Benu...
- Nessa reencarnação meu nome é Ikki. – Declarou sério – Eu deveria ter desconfiado assim que a alma de escorpião começou a arder, que se tratava de ti. A amazona que se lançou no rio Flegetonte, eu admito que as memórias sobre minha primeira vida não estão tão completas como gostaria, mas você é uma mulher difícil de esquecer.
-...Vou considerar isto um elogio de tua parte. – Impôs com voz firme – Se eu ainda fosse minimamente sólida te agradeceria com minha Antares em teu coração – Ergueu seu dedo indicador cuja unha era extremamente pontiaguda.
- Há, que delicado de sua parte – Respondeu com ironia.
- Sei que estás se perguntando como eu soube que teu senhor também és teu irmão. E como tentei me comunicar com ele no mundo dos vivos. – Ela caminhou suavemente, até a alma de Aquário, sua chama quase findada. Com as duas mãos a envolveu com sumo cuidado, e a levou ao seu peito, como se aninhasse um recém-nascido. As labaredas assim não se intensificaram, contudo, deixaram de diminuir – Quando tentava assumir esta forma que vês, te escutei falando com aquele outro homem. Dizendo que toda essa estranha energia que agora permeia pelo submundo pertence a esse homem chamado Shun, que tu chamaste depois de irmão. E no mundo dos vivos, parte de minha alma guarda os pertences sagrados de minhas reencarnações no santuário. Lá, presenciei como a atual Athena confiava os pertences das reencarnações de meu velho companheiro Eniato de Virgem, e de seu irmão Lason para o homem chamado Shun.
- Você tem um ouvido muito bom para uma morta. – Taxou Ikki, analisando a figura.
- Eu escuto o que é do meu interesse- Respondeu em tom ríspido, sua aura envolvendo a de seu companheiro protetoramente – E vejo também, aquilo que me convém. Mesmo que a própria Athena não notaste, aquele homem carrega consigo a morte. Da forma que poucos como Hades e Thanatos poderiam carregar. Somando isso ao fato de que ele parecia muito à vontade com a presença de nossas almas, não foi difícil assumir que ele possuía fortes laços irrompíveis com o mundo inferior. Devo recordar-te espectro – Seguiu sarcástica - Que antes das guerras santas começarem, durante a criação das constelações, cada uma foi confiada a um deus para que a bendissesse. E graças à bela bendição de seu querido Hades*, Escorpião foi agraciado com a capacidade de ver a morte.
Benu encarou o rosto mascarado da amazona com desgosto. É verdade que sentia que Shun estava diferente desde que se reencontrou com ele depois de seu treinamento como cavaleiro de virgem, antes mesmo de absorver o poder da espada. Só não imaginou que alguém, com exceção de um espectro, pudesse notar isso.
- Uma coisa que não parece ter mudado em suas reencarnações Astéria - Comentou irritado o leonino – É que você continua falando demais.
Para sua surpresa, isso fez a fantasma rir, uma risada verdadeiramente graciosa.
- Talvez eu tenha escutado isso mais vezes do que o número de estrelas que brilham no céu. - Respondeu num tom muito mais leve que os anteriores - Mas eu gosto que as coisas fiquem muito claras.
- Então você assumiu que Shun possuía alguma ligação com o submundo e resolveu tentar avisá-lo que o mesmo estava em ataque, tudo isso apenas para preservar a alma de aquário. - Detalhou com clara descrença.
- Eu não espero que tu entendas, eu ser leal e dedicar minha alma por alguém que sequer é um deus. - Retornou a falar desafiante.
Ikki abriu a boca para contestar, mas logo tornou a fechá-la, bufando enquanto coçava a nuca, recordando-se de sua promessa com Alone, o humano possuído por Hades, e o fato de ter nascido seu irmão nessa nova vida.
- Eu entendo mais do que você pode imaginar - Admitiu, mas ainda assim não estava disposto a dar o braço a torcer, nada o garantia que os dourados não iriam atentar contra a vida de Shun - Porém, o que te faz pensar que ajudaríamos um cavaleiro de Athena?
- Vejamos, o submundo foi atacado por uma divindade que não Athena. Hades ou qualquer um de vocês espectros não estavam aqui para impedir.- Começou a listar com ironia - Um cavaleiro de virgem de alguma forma possuí a presença da morte e agora o poder dele está espalhado por todo o reino dos mortos, o que somando tudo, deve significar que, de algum modo, ele assumiu o trono. No entanto, sua energia não é igual à de Hades, seu cosmo é tranquilo e bondoso. Mesmo tu Ikki tens uma energia distinta a dos demais espectros. Eu tenho razões suficientes para acreditar que vós não ignoraríeis meu apelo, ainda mais sobre a perspectiva de um novo inimigo, que aparentemente não faz distinção entre espectros e cavaleiros. Já que o ataque também teria destruído a nós,cavaleiros de ouro, se não tivéssemos unido nossas forças para nos salvar. A destruição de nossas almas seria contra os princípios de Hades, e se esse cosmo piedoso é alguma pista, provavelmente também serás de teu irmão. Seria um grande desperdício de fortes potenciais aliados e desestabilizaria o ciclo da vida e da morte.
Ikki encarava a mulher com raiva, sua análise meticulosa da situação, prepotência e confiança em suas palavras lhe davam a vontade de romper a alma dela ali mesmo.
- Eu odeio ser estraga prazeres - Intrometeu-se antes que ela pudesse recomeçar com outro discurso - Mas no último ato de Zeus por sua filha, ele vinculou a alma de seus guardiões às suas constelações*, certificando-se que mesmo Hades não pudesse impedi-los de renascer e a cada vida pudessem protegê-la. Mortos vocês vêem ao submundo, mas sua essência pertence as estrelas. Isso está acima de nossa jurisdição. Não há muito que Shun possa fazer por suas almas prestes a se extinguir além de ressuscitá-los por apenas algumas horas, a menos que jurem lealdade como espectros, e passem a pertencer completamente a ele e ao submundo. Algo que, ambos sabemos, não vai acontecer.
Um longo silêncio se seguiu após este comentário, as onze chamas tremulavam cada vez menores.
- Os cavaleiros da esperança sempre lutarão pela paz na terra, era nisso que acreditávamos...- A amazona virou o rosto em direção a alma de gêmeos, o fogo fátuo que se dividia em dois, representando na verdade duas chamas unidas uma a outra. - Castor era inconsequente, mas Póllux sempre lhe colocava juízo... – Seguiu em tom solene - Ele até mesmo, como eu, sempre reencarnava ao lado de seu irmão, a pessoa mais importante de sua vida...- Ela soltou um longo e triste suspiro sob sua máscara – Mas depois de tantas mortes trágicas, tantas idas e vindas ao mundo dos mortos – Ela apertou os punhos com força – Sendo torturados por termos nos levantado contra os deuses que tentavam subjugar a terra. Nossas almas começaram a se desgastar, algumas até mesmo a se rachar, se dividir, e assim se deixaram corromper. Castor e Póllux, talvez, foram os mais afetados depois de tanto sofrimento.
Ela envolveu mais a alma de aquário, como se quisesse certificar-se que esse não seria seu destino.
- O espírito partido de alguns de meus companheiros... Racharam-se ao ponto de perderem sua unidade. Alguns tornando-se sombras do que costumavam ser, outros tornando-se duas pessoas completamente diferentes, originadas de uma única alma partida. Essas almas despedaçadas buscam desesperadamente se preencher com alguma coisa...Amor, glória, orgulho, cobiça, inveja, sangue e morte... Mas não foste diferentes para vós espectros - Ela se voltou a Ikki uma vez mais, que a observava tentando entender aonde queria chegar – Todos nós, não passamos de fantasmas do que éramos no passado. Fantasmas de guerras incessantes, fantasmas da vontade dos deuses, simples máquinas de guerra.
Um soluço fez com que o espectro se sobressaltasse, notando que lágrimas começaram a escorrer por baixo da máscara, embora a voz da Amazona seguisse impecável e calma.
- ...Eu só desejava viver num mundo onde não precisasse dizer adeus a quem eu amava por causa de uma guerra. Lutamos por isso! Acreditamos nisso! E agora tudo que nós resta é o eterno vazio? O fim de nossa existência?
- Sempre haverá coisas piores que a morte – Declarou o antigo cavaleiro começando a sentir-se realmente mal pela amazona, por mais que ela fosse extremamente irritante. Nessa última vida também tinha servido Athena, e mesmo que sua grande preocupação sempre foi Shun, não desejava tal fim amargo para seus antigos companheiros de armas.
Pensou em Hasgard de touro, o inconsequente e idealista Dohko de Libra, mesmo Aioria com o qual não teve tanto contato. Nenhum deles jamais voltariam a nascer. Sabia que Shun gostaria de fazer o possível para ajudar, e se sentiria culpado se não o fizesse, por mais arriscado que fosse trazer de volta à vida os cavaleiros que juraram destruir Hades.
Mas não tinha certeza se algo realmente poderia ser feito. Assim que as chamas se apagassem no submundo, a essência nas constelações fariam reencarnar espíritos vazios, como Golens* cuja função e pensamento seria apenas proteger Athena.
Astéria levou a mão ao queixo, tentando limpar suas lágrimas, ocasionando que assim metade de sua máscara rompida caísse. Revelando um belíssimo olho azul esverdeado claro, uma pele alva e lábios morrudos e vermelhos como uma maçã. Ikki a observava fascinado e assombrado.
- Nossa lealdade acabou se tornando nossa maldição, e sequer nos será permitido dizer adeus...
Suas lágrimas caíram no chão, brilhantes e espirituais, transformando em realidade o que era apenas a ilusão de um fantasma. Dando forma a fatalidade de sua sorte.
Refletido no liquido salgado da miséria, havia a figura de um homem, de cabelos cacheados até os ombros e barba farta. Em seus olhos uma faixa tampava sua visão.
Nada disse, enquanto observou o servo do novo senhor dos mortos dizer ao fantasma de uma inimiga que veria o que poderia ser feito, antes de dar as costas. Finalmente a sós, ela caiu sobre seus próprios joelhos, soluçando a inevitabilidade do destino.
O homem observou tudo sem qualquer demonstração de sentimento, até sumir, como se nunca tivesse existido.
-.-.-.-.-
- Tu ficaste louco? – Exclamou Hades surpreso ao seu irmão mais novo que o observava decidido – Queres assumir o corpo de Astrapí?! Mesmo com seus poderes selados?! Isso não te faria muito mais do que um humano, mal chegaria ao nível de um semideus.
- Exatamente por isso que pedi tua ajuda – Explicou o imperador dos mares, sentando-se sobre as águas – Por causa do selo de Athena, eu não posso me manifestar como gostaria, à penas consigo assumir o corpo de Julian por alguns instantes, como fiz quando usei meus poderes para enviar as armaduras de ouro aos cavaleiros de bronze nos Elísios. Mas tu, como senhor das almas, é completamente capaz de dar uma alma a um corpo vazio. Mesmo sendo uma alma selada.
- Sim...Sou. – Contestou consternado – Mas não vejo razão pelo qual faria isso.
- Tu vieste até aqui porque desejas algo meu, então este é meu preço. Agora digas tua razão e veremos se podemos fechar um acordo – Declarou com simpleza.
- Como sabes que não vim apenas para me vingar sobre tua ajuda a Athena? - Colocou com ironia, encarando o deus que apoiava o rosto em uma das mãos sem mostrar cerimônia.
- Tu não és exatamente um deus guiado pelo desejo da vingança – Declarou enquanto fazia um gesto de retar importância com a outra mão – O que é uma raridade, diga-se de passagem. Além do caso de Esculápio, que estava ressuscitando mortos sem sua permissão, não me lembro de nenhuma grande passagem. Tu és alguém muito difícil de se irritar, e mais difícil ainda de deixar levar-se pelas emoções. Athena foi uma das poucas que realmente conseguiu te tirar do sério, não que eu possa dizer algo sobre isso, mas ainda assim não vejo tuas guerras contra ela como vingança...Ou será que são? – Lançou um olhar curioso ao irmão que se mantinha de pé – Nunca me ficou muito clara a razão pela qual tu também começaste a guerrear contra ela.
- Isso não vem ao caso agora – Desviou taxativo o assunto o deus dos mortos.
- Muito bem! Muito bem! – Levantou os braços Poseidon em sinal de rendição – Aonde eu quero chegar é simples, se há uma coisa que realmente te enfurece é que alguém mexa com o ciclo da vida e da morte, e eu acredito que o fato de um humano poder nascer sem alma, entre nesse requisito, afinal, tu sempre levaste a sério demais teu trabalho – Terminou em tom provocativo, revirando os olhos.
- Perdão? – Respondeu Hades erguendo as sobrancelhas – Até onde eu sei, pelo menos um de nós tem que levar o trabalho a sério, e isto cabe a mim, uma vez que tu e Zeus pareciam ocupar seu valioso tempo apenas arranjando novos meios de fornicar com qualquer coisa que respire.
Poseidon o encarou de mal grado, levantando-se.
- Insinuas que eu não me dedico a minha vocação como deus dos mares?! – Colocou irritado, as águas que haviam baixado o nível tornando a subir, e a chuva que tinha parado ameaçando recomeçar sob as nuvens densas.
- Se tu consideras as chuvas torrenciais, maremotos e enchentes por alguém simplesmente te descontentar, com fazer seu trabalho - Colocou em tom neutro.
- E tu sim que fazes um ótimo serviço - Seguiu venenoso Poseidon, o nível do lago outra vez tocando os pés de seu irmão - Afinal, praticamente todos os deuses e mortais abominam tua existência.
- Eu represento a morte meu irmão, isso é natural- Respondeu como se fosse óbvio - Eu nunca esperei algo além do ódio, medo e desprezo seja vindo dos deuses e ou dos humanos. Já me era suficiente a crença e lealdade de meus espectros e dos deuses gêmeos. Além disso, sentimentos de amargura dirigidos a mim, só me fazem mais forte. Agora qual tua desculpa para seres tão odiado?
- De que falas? - Insinuou irritado, as águas já chegando à altura dos joelhos de Hades e a chuva recomeçando, fria e afiada como pequenas navalhas.
- Estás sozinho irmão. - Declarou sem rodeios - Tens mais filhos do que eu sou capaz de lembrar, e isso muito quer dizer uma vez que os arquivos da vida dos humanos e dos deuses fica em meu reino, e no entanto, nenhum deles o ajudou em tuas empreitadas contra Athena, nenhum deles se prontificou a libertar-te do selo que te prende. Sequer sua esposa, ou mesmo mulheres, homens e criaturas que levaste para a cama. Sequer teu Dragão Marinho reencarna mais a teu lado. Crês que tu podes julgar minha infâmia?
Poseidon o encarou com verdadeira cólera, seus olhos brilhando em amarelo vivo.
As águas começaram a subir, formando uma enorme onda às costas do deus marinho, elevou-se cada vez mais, até passar por cima da divindade, focando o humano parado sobre a ilha submersa.
-KAHN! - Uma grande barreira esférica o cobriu. A enorme onda quebrou sobre a proteção com um grande estrondo, para logo submergi-la.
Tudo que via a seu redor era o azul intenso. Mesmo estando protegido, olhava para todos os lados imaginando de onde o outro viria.
"Como eu disse, tu se deixas irritar por qualquer descontentamento" - Tentou falar mentalmente com o mais novo- "A força bruta não pode ser a única forma de resolver seus conflitos! Deixe de ser tão passional!"
A pressão das águas contra a esfera de cosmo intensificou-se, forçando Shun a emanar cada vez mais energia para se defender, respirando de forma acelerada devido ao esforço de usar a pouca força que ainda dispunha desde que passou oitenta e oito por cento de seu cosmo total para o submundo, além do cansaço adquirido desde sua entrada no mundo dos sonhos.
Isso diminuía rapidamente a quantidade de oxigênio disponível na pequena bolha, dificultando ainda mais sua concentração. Sem mencionar, que apesar de selado, a aura do deus dos mares ainda era avassaladora, emburrando e encolhendo o Kahn, como se mãos gigantescas esmagassem a pequena esfera. Era uma questão de tempo para ficar sem ar e estar completamente a mercê do irritadiço imperador.
- Parece que eu terei que emprestar outro golpe daquele cavaleiro de virgem - Disse para si mesmo, a respiração vacilante - Mas tomarei a liberdade de parafrasear.
Posicionou os braços em sinal de reza, porém, com uma pequena distância separando-as, e começou a concentrar a pouca cosmo energia que lhe restava entre as mãos
- Subversão Secular!*
Uma explosão de energia negra teve início entre suas palmas, expandindo-se rapidamente. Do seu centro surgiram raios de tom avermelhado que logo envolveram a expansão e uma vez que o Kahn foi desfeito, eletricidade embutida com escuridão espalhou-se por toda a água. O nível do lago começou a descer rapidamente, logo fazendo Hades estar outra vez de pé sobre a pequena ilha de terra.
Poseidon estava ajoelhado à sua frente, com o corpo um pouco chamuscado e expressão ainda irritada.
-Acalme-se de uma vez irmão - Colocou Shun em tom mais brando - Eu não vim aqui para lutar. - Para em seguida sua voz se tornar mais áspera - Além de ser uma forma verdadeiramente estúpida de pedir por minha ajuda.
Poseidon franziu a expressão desafiante, no instante seguinte, porém, o senhor do submundo deu um passo adiante, mesmo afundando seu pé nas águas e ofereceu sua mão para o mais novo se levantar. O deus observou o gesto com desconfiança, mas ao encarar os olhos esmeraldinos do corpo humano de Hades e não ver qualquer malícia no ato, resolveu ceder, engolindo amargamente seu orgulho e deixando-se levantar, o outro deus tinha razão, ainda precisava de sua ajuda, não era o momento para lutar.
-...Mas saiba querido irmão, que apesar de sua descortesia e imprudência, eu pretendo sim ajudá-lo. - Anunciou encarando-o cara a cara, o líquido frio escorrendo por ambos os corpos e perdendo-se na superfície agitada do lago. - Mas não da forma que pretendes, eu tenho um plano mais seguro.
- Há, o submundo te fez um homem tedioso - Largou a mão de seu irmão e cruzando os braços, desinteressado - Quando éramos jovens e lutamos contra o nosso pai Kronos, tu não pensaste duas vezes antes de se oferecer para roubar suas armas, era bem menos preocupado com a própria segurança e bem mais imprudente!
- Éramos jovens como tu bem disseste, embora eu não lembre assim - Declarou com um sorriso lateral, nostálgico - E eu ainda estava com meu elmo de invisibilidade, não corria exatamente tanto perigo.
- Bobagens! Se nosso pai te encontrasse pelo cosmo, faria algo muito pior do que devorar-te vivo. – Caçoou em um tom muito mais tranquilo do que o de instantes antes.
- Tu por outro lado foste muito menos sensato sendo a isca que o mantinha ocupado enquanto eu o roubava – Apontou com um deixe de graça – Ganhando tempo até que fosse a hora de Zeus atacar.
- A verdade é que nosso caçula ficou com a parte mais fácil! – Começou a rir, quase gargalhar, sequer parecia que recém tinham acabado de sair de um enfrentamento.
Hades, por sua vez, também ria, muito mais contido que o irmão, mas ainda uma risada sincera.
- Mas isso foi antes... – Continuou Hades em tom mais melancólico quando o deus do mar se acalmou do momento mais humorístico. - ...Agora qualquer ação que tomamos possui severas consequências, não apenas a nós, como também para todo o nosso domínio. Minha...Derrota definitiva...Contra Athena deixou isto bem claro. Se eu tivesse desaparecido completamente, o submundo ruiria sem minha presença, e logo a terra seria jogada em uma segunda era do caos. Meu destino desde o fim da guerra contra nosso pai tem sido zelar pela existência do mundo dos mortos, eu não posso me dar o luxo de colocar-me em grande risco como antigamente.
O imperador dos mares soltou um longo suspiro quanto a isso, olhando para o céu de seu sonho cujas nuvens começavam a se dissipar.
- És uma carga demasiadamente pesada, admito. Eu disse isso a Zeus, mas ele preferiu ouvir Chronos do que a mim.
Tal comentário fez o senhor dos mortos abrir os olhos em choque.
- Como disseste? – Questionou tenso.
- Eu avisei Zeus que te confinar no mundo dos mortos que tu mesmo criaste para prender os Titãs, era uma péssima ideia – Repetiu Poseidon sem notar a tensão de seu irmão – Mas ele sempre ouvia mais seus conselheiros. Hécate o aconselhou que fizesse a partilha com cuidado, mas Chronos insistiu que tu deverias ficar a sós no mundo inferior.
Uma aura negra começou a circular Hades, seus cabelos perdendo o brilho e a água ao seu redor assumindo uma coloração esverdeada. O rei dos mares observou com espanto a mudança repentina no mais velho, dando inconscientemente um passo para trás.
-...Hades...? – Perguntou hesitante.
Mas tão rápido como veio, o fenômeno se foi, quando Shun respirou fundo, tranquilizando-se e emanando uma cosmo energia muito mais tranquila e suave.
-...Então foi de Chronos a geniosa ideia de prender-me no mundo inferior - Sua voz era tranquila, porém fria e sombria – Quem diria, parece que não é deste século que ele quer me ver fora de seu caminho.
- Do que está falando irmão? – Questionou verdadeiramente confuso.
- O mesmíssimo Chronos pretendia destruir a nós três, meu irmão, é por isso que eu estou aqui - A expressão do imperador dos mares se abriu em choque.
- Chronos?! – Exclamou descrente – Mas ele sequer costuma se envolver com os demais deuses! Permanecendo em sua forma etérea no Monte Olimpo.
- Ele pretendia usar-se de Athena para destruir este corpo humano que vês, a própria deusa, e exterminar a família Solo assim que nossas existências fossem apagadas desse fluxo temporal.
O céu voltou a nublar-se rapidamente, as águas tornando-se novamente turbulentas, ao tempo que a cosmo energia do imperador dos mares eclodia raivosa de seu corpo.
- Ele não seria capaz! – Exclamou em tom imponente e colérico.
- Tua preocupação em tomar o lugar da alma perdida de Astrapí Solo, é válida. Julian, que sempre teve tudo que quis, pode traumatizar-se ao ter como primeiro filho, ainda mais sendo tão jovem, um bebê praticamente morto. Ao ponto de não arriscar mais ter descendentes. – Pontuou sério o mais velho – De fato, pelo que eu conheci dele, é uma possibilidade alta. Teu poder pode fluir por outro corpo irmão, que não seja um Solo, como no caso de Serafina*, mas tua alma está presa à essa família desde que Athena destruiu teu corpo original junto a Atlântida em sua primeira guerra santa, e teu Dragão Marinho ofereceu o seio de sua própria família para resguardar-te. Se um Solo* for o último de sua linhagem, tu perecerias com ele.
Lançou um olhar decidido ao mais novo, enquanto a chuva voltava a cair com uma força abissal, fazendo o horizonte tingir-se de branco.
- Mas tu precisas entender que isto é um suicídio! Este deve ser exatamente o plano de Chronos. Que tu reencarnes em Astrapí Solo!
- Então o que tu esperas que eu faça?! – Impôs em tom irritado, ondas quebrando às suas costas - Espere meu inevitável fim enquanto Julian Solo morre sem descendentes?! Mesmo como uma criança eu não tenho medo de Chronos! Posso enfrentá-lo mesmo com meus poderes selados!
- Estás sendo inconsequente outra vez – Taxou Hades com firmeza –PENSE, Poseidon, PENSE. É verdade que apenas uma alma especial poderia conseguir adentrar e sobreviver num feto que já passou dos três meses. Mas tu não és o único capaz de fazer isso.
O rei dos mares abandonou um pouco sua fúria, a substituindo por curiosidade e logo descrença.
- Como eu disse anteriormente, eu tenho um plano. Ele será cruel, mas também será o mais seguro para todos – Respirou fundo, assumindo uma expressão triste – Porém antes eu preciso te explicar tudo que aconteceu desde minha guerra com Athena. E isso será muito difícil se tu não parares de mudar o clima a cada instante.
Notas Finais
* O título desse capítulo "Não posso dizer adeus" é uma das ost de CdZ, cuja letra traduzida é a seguinte:
Feche os olhos e lembre-se/Dos dias que atravessamos o céu/Éramos companheiros que se olhavam/E assim nos livrávamos do triste véu/Mesmo quando nossa vida acabe/Vamos rir pacificamente.
Não posso dizer adeus, meu amigo/Não posso dizer mais./Tente se lembrar/Tente se lembrar uma vez mais
Mesmo que foram lutas indesejadas/Nós as superamos/E embora agora nos separemos/Algum dia nos reencontraremos/
Deseje isso com seu coração/no lugar de dizer adeus.
Não posso dizer adeus, meu amigo/Não posso dizer mais./Tente se lembrar/Tente se lembrar uma vez mais
Não posso dizer adeus, meu amigo/Não posso dizer mais./Tente se lembrar/Tente se lembrar
Não posso dizer adeus, meu amigo/Não posso dizer mais./Tente se lembrar/Não posso dizer adeus, meu amigo/Não posso dizer mais.
*Com a June se encerram os 5 estágios do luto da psiquiatra suíça Elisabeth Kubler-Ross, Seiya simbolizando a Negação, Hyoga a Raiva, Kiki a Negociação ou Barganha (nova resolução de vida), June a Depressão, e Shiryu a aceitação.
*² Esse momento de Shun e June também tem uma sequência em terra na estória extra "Dias de Paz" mais precisamente, em seu último capítulo, mas atenção que os capítulos tem spoiler de diversos momentos de G&P.
* Cada um dos signos do zodíaco tem um deus que o rege e resguarda, no caso de Escorpião este é Hades, em G&P isso atribuiu a cada signo uma espécie de "dom" especial.
*Zeus era o deus responsável por colocar as constelações no céu, por isso nessa estória eu expresso que é devido a esse "detalhe mitológico" que Hades nunca pôde impedir os cavaleiros de reencarnar.
* Golem - Uma criatura do Judaísmo, artificial e deficiente de fala. Era apenas capaz de executar trabalhos simples e repetitivos, não possuindo vontade própria.
* Subversão Secular - Golpe criado por mim - É a versão de Shun/Hades do golpe de virgem "Rendição Divina", seu nome simboliza exatamente o oposto da habilidade de virgem.
*Serafina - É a irmã falecida de Unity, um amigo de Dégel de Aquário, de Lost Canvas, que tentou usar a energia de Poseidon para reviver o corpo de sua irmã, mesmo que de forma artificial. Contudo, era apenas o poder, não a alma de Poseidon em si.
