.

Capítulo XXV - O imperador dos mares -

- As coisas se tornaram realmente bem animadas aqui no santuário – Comentou mais uma vez a ex amazona com um sorriso.

- Animadas até demais...- Resmungou Soleil. – Todos aqui parecem incapazes de fazer silêncio, mesmo esse lugar sendo, em teoria, um território sagrado.

Finalmente tinham se livrado de Aldebaran, que saiu praticamente arrastando um contrariado Suikyo, para procurarem Seiya. Assim seguiram seu caminho até a biblioteca, porém, para isso tinham que cruzar os terrenos novos do santuário.

June notou com espanto que o local agora ocupava mais terras, escadarias desciam pelas montanhas íngremes e levavam a outros alojamentos e outros centros de treinamento, tudo se assemelhava a um imenso labirinto, que, no entanto, Soleil parecia conhecer como a palma de sua mão. Eles tiveram que desviar por corredores estreitos e aprendizes barulhentos que corriam de um lado a outro, alguns sendo seguidos por seus mestres. No trajeto, já ao pé da montanha em um caminho que não conhecia até a vila de Rodorio, June deparou-se com um grande partenon.

- Isso também é usado para treinamento?- Questionou vendo como pessoas mais jovens saiam do local carregando livros enquanto conversavam e riam, todos que andavam por ali usavam tradicionais togas brancas, não havendo ninguém de armadura.

- Como somos em muitos hoje em dia, a educação básica deixou de ser uma obrigação individual de cada mestre e montamos uma espécie de academia – Explicou Soleil – Aqui alfabetizamos as crianças que vem de outros países e mesmo as que nascem aqui a falar, escrever e ler em grego. Também há aulas de outros idiomas, já que temos pessoas vindas de todas as partes do mundo. Isso é muito útil para preparar os cavaleiros para missões no exterior, Mama, por exemplo, leciona sozinha mandarim, japonês e grego para os meninos e meninas menores de dez anos, as demais línguas são mais esporádicas, depende da volta daqueles que geralmente treinam em outras nações e o tempo de sua permanência quando voltam ao santuário.

- Impressionante – Comentou vendo duas crianças de pouco mais de cinco anos sentadas nas escadarias tentando reproduzir um diálogo em grego que liam num caderno, embora ambos pareciam ter dificuldade. – E quem seria essa Mama? – Questionou curiosa, lembrando que o menor havia mencionado que seu pai era solteiro.

- Ah sim, essa é a forma que chamamos a esposa do Grande Mestre – Respondeu enquanto desciam mais um jogo de escadas, que já dava vista para outro Partenon, além parte do campo do cemitério que ficava próximo a saída do santuário. – Eu sempre achei informal demais, porém ela insiste. Mama que alfabetizou a maioria dos cavaleiros daqui, separando o treinamento físico do intelectual.

-Sim, eu me lembro que quando meu velho mestre me ensinou grego, tínhamos que pagar cem flexões se conjugávamos algum verbo errado – Lembrava com carinho e um pouco de dor.

- Sim...Bem, alguns cavaleiros, principalmente os Alfa, que ainda são apegados a esses antigos métodos – Seguiu Soleil com uma expressão de sofrimento – Eu, por exemplo, tentei aprender português com Aldebaran uma vez...Mas tínhamos que subir e descer as doze casas para cada vez que não sabíamos se uma palavra tinha s, ss,x ou o c cedilhado...- Um tremor correu por seu corpo – Eu desisti depois de uma semana, porque não conseguia sentir mais as minhas pernas.

- Isso é... Um pouco demais...- Eles passavam agora por um segundo Partenon, onde circulavam pessoas mais velhas, porém novamente ninguém trajava armadura, apenas vestes brancas.

- Ainda não se compara com Shaka – Acrescentou em tom sombrio – Ele tirava os sentidos daqueles que falhavam em ler os mantras em hindu ou sânscrito. Shijima acabou sendo seu único aluno, e ele nem é capaz de falar.

Um pequeno sorriso de piedade se formou nos lábios da jovem loira, apesar de tudo, o treinamento para cavaleiros e amazonas seguia sendo bastante rigoroso, mas era acolhedor saber que agora as crianças, que não eram aprendizes de Shaka, tinham uma certa folga, sempre foi muito doloroso para ela ter que enfaixar as mãos feridas de Shun depois de suas aulas de grego, uma vez que o asiático tinha grande dificuldade de se comunicar a princípio. Nunca soube ao certo se isso era por não conseguir compreender o grego ou porque era excessivamente tímido e assustadiço.

- Shunrei alfabetizou você também? – Perguntou enquanto caminhavam para o fim da grande construção.

- Na verdade, foi Milo, o cavaleiro de escorpião. – Soleil deu um pequeno sorriso ao mencionar tal fato, o que denotava certo carinho, mostrando que relatava memórias preciosas – Segundo meu pai sempre me disse, é isso que Milo sabe fazer de melhor. Falar.

June não respondeu, todas as memórias que possuía do cavaleiro de escorpião eram dolorosas e envolviam a morte de seu querido, mesmo que severo, mestre. Porém, da mesma forma que Afrodite, o mesmo parecia ter seguido com sua nova vida, e o tom carinhoso do mensageiro era uma pista clara que ele tampouco parecia ser má pessoa. Soltou um suspiro triste, sem perceber que o menor analisava com atenção sua reação.

- ...Nesse Partenon que estamos passando agora Milo também dá aula de Oratória e ironicamente, de Método socrático, embora sejam conceitos em certa medida contraditórios* – Seguiu falando, tentando retomar a atenção da ex amazona – Ele é muito bom nisso, mas eu confesso que tenho dificuldade de assistir sem rir, quando lembro dos comentários de meu pai – Colocou com um deixe de culpa – De todo modo, a intenção de Senhora Athena e do Grande Mestre era voltar aos moldes da antiga Atenas em seus tempos de ouro, com um certo toque espartano eu diria, mas acredito que o resultado está sendo bastante interessante.

- Sim, eu acredito que sim – Concordou June, tentando abandonar suas recordações amargas. – Também acredito que faça muito sentido, afinal, a Grécia já foi o berço da civilização ocidental, lar de grandes estudiosos que revolucionaram o mundo com seus pensamentos, Senhorita Saori havia me dito sobre seu desejo de mudar os rumos do santuário para de volta às origens de Atenas, mas eu não imaginei que o processo já estava tão avançado. Não poderia esperar menos da deusa da sabedoria.

Foi a vez de Soleil guardar silêncio, notando uma figura conhecida no final do Partenon, que parecia olhar para o telhado da construção irritado.

-...Além disso, você fala bastante de seu pai, vocês parecem ser bem íntimos.

- ...Eu devo muito a ele, afinal, me salvou de um acidente aéreo na Sibéria quando eu era apenas um bebê. Meus pais morreram nesse dia. Desde então ele me criou como seu filho aqui no santuário. - Explicou sem grande sentimentalismo, como se estivesse cansado de explicar sua origem, mas ainda assim o fato surpreendeu a empresária, até então não sabia que não eram parentes de sangue. Achava, apenas, que ele nunca tinha conhecido sua mãe, após ter nascido fora de um compromisso formal. Casos assim eram muito comuns nos dias de hoje.

Soleil, contudo, não deu mais voltas ao assunto, acelerando um pouco seus passos até o homem que havia visto antes, numa esquina do partenon, porém mantendo alguma distância ao falar com ele. June logo reconheceu de quem se tratava.

- Está tudo bem senhor Albafica? – Questionou.

O homem de toga branca, sandálias de gladiador, longos e extremamente lisos cabelos azuis claros, mesma cor de seus olhos, voltou sua vista cristalina para os recém-chegados com uma expressão zangada.

- Não precisa me chamar de senhor só porque estou para me tornar um cavaleiro de ouro, Soleil - Reclamou com severidade – Você ainda é mais velho do que eu. – Então sua vista se voltou para o telhado – Piada Mortal está fazendo das suas novamente.

June e Soleil seguiram seu olhar e depararam-se com um menino, pouco mais que uma criança,deitada de forma confortável sobre o telhado de mármore branco. Usava roupas de treinamento e seu rosto não era visível.

- Eu já disse Alba, se quiser que eu saia, você só tem que subir aqui e me pegar – Seu tom era claramente infantil, porém também desafiante.

- Eu não farei isso, e você sabe - Disse com firmeza - Não sei como ainda não taquei esses livros na sua cabeça – Seguiu com irritação o pisciano, mostrando que trazia consigo três volumes amarrados com uma corda que dava várias voltas, seguros em suas mãos.

- Não se atreva! – Colocou o mensageiro, esquecendo completamente o respeito que mostrou ao mais novo instantes antes – Os livros não têm nada a ver com a pouca educação de alguém! É exatamente o contrário!

- Eu não estava falando sério Soleil - Suspirou o grego massageando as têmporas com sua mão livre - É só que... Mortal sempre testa minha paciência, não é nada engraçado ter que ficar de olho nesse pivete. Já reclamei com Máscara da Morte, mas ele só acha isso engraçado.

- Dizem que alguns signos criam uma espécie de ligação entre eles, talvez seja o caso de vocês dois, como foi com seu pai e Máscara. Na minha lista das maiores amizades no santuário eles estão entre os dez primeiros. - Analisou.

- Você fez mesmo lista para isso? - Resmungou baixo, já o demais seguiu em tom mais alto. - E isso não é uma ligação. É simplesmente irresponsabilidade de Máscara, que acha graça que seu aprendiz aterrorize todo o santuário, e por alguma razão o Grande Mestre acha que eu posso resolver esse problema.

- É porque você é a terceira pessoa que ele mais escuta, e a segunda ainda não retornou ao santuário. - Explicou com simpleza.

- Outra lista?

- Mas é claro.

- Hmm, com licença.

Ambos se voltaram a June que escutava tudo até então em silêncio. Albafica havia notado sua presença, mas contanto que ela se mantivesse afastada, não se importava. Contudo, Soleil pareceu verdadeiramente constrangido pela falha.

- Me perdoe! Não foi minha intenção abandoná-la mademoiselle! - Desculpou-se com outra exagerada reverência, a qual Albafica apenas assistiu estranhado.

- Tudo bem Soleil! Não foi nada! - Tranquilizou-o, se perguntando se talvez fosse uma ordem de Athena que ele a tratasse com tanto respeito, mas logo descartou a ideia vendo como o futuro cavaleiro de peixes também estranhava a ação, e para o caso de ser uma ordem apenas para Soleil, por que razão Suikyo havia agido igual? - Eu só interrompi porque talvez possa ajudar.

Ambos a encararam confusos enquanto ela fez menção de se aproximar do pisciano, que instintivamente deu um passo para trás para manter a distância.

-...Eu só - Começou sem entender as ações contrárias - Ia te pedir a corda...

Albafica olhou para baixo vendo o objeto mencionado que segurava seus livros juntos. Desfez o nó e as voltas e entregou a ponta para a mulher.

- Obrigada. - Sorriu, lançando um olhar de dúvida para o seu guia, que apenas fez um gesto afirmativo com a cabeça, como indicando que explicaria mais tarde.

June então desenrolou a corda e estudou seu tamanho, algo como dois metros, além de estar bastante roída.

- Estava para descarte em um dos centros de treinamento - Explicou Albafica.- Achei que talvez fosse útil na floricultura.

- Vai servir - Colocou June contente.

A jovem começou a entrelaçar a corda, como uma espécie de trança, de forma que fosse afinando na ponta, e no fim preparando um nó.

- Eeeeiii, o que vocês estão fazendo? - Questionou curiosa a criança de pé sobre o telhado, tinha uma pele levemente morena e cabelos ciano, além de grandes olhos azuis. Suas roupas de treinamento eram um pouco gastas e com alguns remendos.

- Piada Mortal, é desrespeito com o santuário e com Athena que você fique aí em cima! - Tentou chamar Soleil - Desça já!

Como resposta, o menor que não parecia ter mais que dez anos apenas mostrou a língua cruzando os braços.

- No quero! – Respondeu com sotaque acentuado - Alba pode muito bem subir aqui e me pegar!

- Eu não vou encostar em você! - Respondeu o aspirante de peixes com firmeza.

- Por quê?! - Questionou irritado o menor - Por causa daquele estúpido Elo Carmesim?! - O menino dizia claramente magoado, fazendo-o perder sua expressão risonha - Seu sangue é venenoso, e daí?! Mestre Afrodite já disse mil vezes que desde o remédio daquele tal de Peko ou Pefko*, io no sei que cosa, isso no importa mais! Então por que você insiste com AAAAAAAH-

Contudo foi interrompido quando a corda se amarrou como um chicote envolta de sua cintura e braços, e com um puxão, foi trago ao chão. Sendo, num reflexo muito rápido, pego por Soleil.

- Desculpe! - Exclamou June, que segurava a ponta do chicote de corda - Eu devia ter esperado você terminar, não achei que conseguiria de primeira depois de tanto tempo!

Piada Mortal piscou confuso sendo segurado como noiva até o mais velho o descer, embora ainda preso.

- Questo foi...- Começou surpreso - DEMAIS! Faça isso outra vez moça! Faça! Questo è stato fantastico!

Albafica, por sua vez, deu um passo adiante, seu cosmo o envolvendo de forma ameaçadora. O canceriano engoliu em seco, enquanto era a vez de Soleil e June darem passos para trás para aumentar a distância.

- Então você queria que eu encostasse em você - Disse em tom gélido - Muito bem.

Encurtou a distância que os separava e com um rápido movimento, apertou a prisão de cordas e finalizou com um nó. Ficando com a outra ponta em mãos, como se levasse um prisioneiro amarrado.

- Pronto. - Concluiu com satisfação, começando a puxar a corda como uma coleira.

-Non era quello che volevo dire! Lasciami andare! - Exclamava tentando se soltar.

- Eu não entendo uma palavra do que você diz - Declarou sem dar realmente atenção ao menor, voltando-se a ex amazona - Muito obrigado pela ajuda senhorita June - Fez uma reverência muito mais modesta que Soleil em agradecimento.

- Sem problemas...- Respondeu um tanto sem graça, observando como o menor gritava impropérios em italiano. - Afinal, você me ajudou a encontrar Soleil quando cheguei.

O pisciano sorriu, o que o fazia ainda mais belo, como uma escultura grega talhada à perfeição no mármore. Com um último aceno de cabeça, o futuro cavaleiro dourado se dispôs a sair, arrastando o menor que seguia gritando por liberdade.

Assim que os dois sumiram de vista, Soleil começou a rir, tampando a boca com uma das mãos, e June logo o seguiu, enquanto voltaram a caminhar em direção à Rodorio.

- I-isso foi...Realmente engraçado - Comentou tentando recobrar o fôlego e limpando algumas lágrimas. - Você é verdadeiramente habilidosa.

- Antes de ganhar minha armadura - Seu sorriso vacilou um pouco, mas ela seguiu com carinho - Na ilha onde eu treinava não haviam muitos recursos, então eu e meu companheiro de treino sempre improvisamos usando algumas cordas e o que mais tínhamos disponível. Foi assim que eu aprendi a fazer meu próprio chicote. - Sua expressão passou a uma mais pensativa. - Sobre o Elo Carmesi*, meu mestre já me falou a respeito, por eu também ser do signo de peixes, caso um dia também quisesse pleitear a armadura dourada. Mesmo sendo algo bem menos letal hoje em dia, pelas histórias que ele me contou, acho que também teria medo de me aproximar das pessoas. - Ela suspirou triste - Estando tanto tempo afastada do santuário, acabei me esquecendo disso, agora entendo porque ele foi tão esguio comigo.

- Albafica tem um coração enorme, eu não preciso de uma lista para te dizer isso, por isso se preocupa demais com os outros - Já era possível ver as primeiras casas da vila - Agora seu movimento com o chicote foi realmente impressionante, eu também me dou melhor com esse tipo de arma, mas nem de longe me ocorreu a ideia - Confessou ainda sorrindo.

June olhou curiosa para o mais novo.

- Você sabe lutar? - Questionou, sem poder deixar de recordar-se de quando o golpe de Aldebaran levantou uma onda de poeira no coliseu e ele rapidamente deu seu lenço para protegê-la, sem contar no rápido reflexo que teve para pegar Piada Mortal.

Estavam passando pela última escadaria que levava a entrada do santuário e consequentemente a Rodorio, quando o mais novo olhou para todas as direções para se certificar que não eram escutados.

- Eu sou oficialmente apenas um civil - Disse com um deixe de tristeza - Por mais que eu tentei por toda a minha vida, nunca fui capaz de despertar meu cosmo...- Apertou os punhos com força - Eu sempre me senti um inútil, nada mais que um intruso no meio do santuário, incapaz de retribuir tudo o que fizeram por mim.

- Soleil...

- E então um dia - Um sorriso voltou a se formar em sua face - Milo resolveu me ensinar a lutar. Mesmo que eu não possa ser tão forte quanto todos os outros, eu finalmente pude sentir que estava fazendo algo verdadeiramente útil com a minha vida.

Voltou seu olhar sério para a ex amazona.

- Eu conheço sua história. Milo e Afrodite foram enviados por Saga, quando estava sob influência maligna, para matar seu mestre que se chamava Daidalos. Eu sou incapaz de dimensionar a dor que isso te causou, e ainda deve causar. Entendo que você deva odiá-los por isso, vi sua expressão cada vez que citava um deles. E eu também sei que é muito egoísmo de minha parte, mas por favor, tente perdoá-los.

June abriu os olhos surpresa, encarando os olhos determinados do contrário.

- Eu te juro que nenhum dos dois são más pessoas, e hoje em dia tenho certeza que ambos voltariam atrás se pudessem...Conhecendo Milo, ele deve estar agora em algum lugar do santuário pensando em como te pedir perdão pelo que aconteceu, e mesmo ele sendo muito bom com as palavras, seu jeito passional pode atrapalhar um pouco, então se isso acontecer, por favor, dê uma chance a ele.

Para seu completo espanto, lágrimas começaram a correr pelo rosto da ex amazona.

- D-desculpe - Tentou dizer, limpando seus olhos - É só que...Essa sua atitude altruísta...Me fez lembrar meu velho companheiro, o túmulo que eu estava visitando quando você me encontrou. E os momentos que passamos juntos no treinamento com nosso querido mestre- Um pequeno soluço escapou de seus lábios enquanto fechava os olhos - Eu não posso mentir, por muitos anos a figura de Milo e Afrodite matando meu mestre permearam meus pesadelos, e não será fácil deixar isso para trás...Porém eu sei que tenho que seguir em frente, porque mesmo que eu os odeie pelo resto de minha vida, isso não trará meu querido mestre de volta a vida. - Ela sorriu fracamente - Se ele vier falar comigo, eu o perdoarei.

Soleil não sabia exatamente o que fazer, enquanto a jovem mulher seguia incapaz de conter suas lágrimas, lembrando inevitavelmente do homem que possuía a alma mais pura, e que se estivesse em seu lugar, não hesitaria em perdoar essas pessoas que a vida provou ter bons corações.

Seu nariz começou a escorrer fruto do lamento, e num afã de querer fazer alguma coisa, Soleil declarou atropeladamente que iria buscar papel, correndo para dentro de Rodorio em alta velocidade.

Antes que pudesse voltar, porém, uma mão lhe ofereceu um lenço, o qual prontamente aceitou assoando seu nariz, enquanto tentava acalmar sua respiração.

- Se Soleil foi capaz de fazer uma dama chorar desse jeito, talvez eu não o tenha educado tão bem quanto imaginei.

Ao seu lado estava um homem alto, de cabelos esverdeados até a cintura, intensos olhos azuis, ocultos atrás de óculos, uma camisa azul simples e calças negras disse.

- Você deve ser June - Disse o homem em seu tom sereno - Eu sou Camus, o anterior cavaleiro de aquário. – Esticou sua mão alva em sinal de cumprimento – É um prazer te conhecer.

-.-.-.-.-.-.-.-.-

Kairos parou seus passos, faíscas saindo de seus pés pelo ato repentino. Ainda estava no segundo andar, mas algo chamou sua atenção, evitando-o de prosseguir.

Haviam pedaços de armadura dourada espalhados pelo chão, além de uma lança quebrada, não precisou caminhar muito para encontrar um corpo esparramado no elegante corredor. Sua pele era negra e possuía longos cabelos brancos que se manchavam por seu sangue vermelho.

O deus se aproximou sem muito interesse, ajoelhando-se para analisar a pessoa mais de perto.

Ainda estava vivo.

Mas não seria por muito tempo. Como solicitado por seu senhor antes de partirem para a mansão, concentrou seu cosmo renovado para deter o relógio do Marina, assim impedindo que sua vida se esvaísse, pelo menos, por enquanto.

- Ainda não é hora do ato final, e um ator não deve se retirar até que desçam as cortinas. - Comentou com seu característico sorriso, enquanto se levantava.

Mas este logo se desmanchou ao sentir que havia outra presença no local.

- Está tão assustado que apenas me observa? - Questionou com ironia, ainda sem virar-se. - Muito antes de morrer, morre o covarde; só uma vez o homem corajoso prova a morte.

- ...Das coisas raras de que tenho ciência, sempre me pareceu a mais estranha terem os homens medo, embora saibam que a morte, um fim a todos necessário, vem quando vem.- Uma suave voz feminina completou, fazendo Kairos virar-se para a recém chegada, a surpresa estampada em seu rosto - Então volta em cena o criado de César, e ele lhe pergunta. "Os áugures que dizem?".

Era uma mulher de altura mediana, olhos acinzentados e longos e lisos cabelos castanhos até a cintura. Um belo sorriso compunha sua face, enquanto vestia um vestido comprido e negro, com babados brancos na frente. Um antigo uniforme de criada.

O deus observava fascinado a figura, incapaz de desviar a vista.

- Então o criado responde a César. – Seguiu, enquanto era consumida pelo hipnotizado olhar contrário - "Que não deveis hoje sair de casa. Retirando da vítima as entranhas, verificaram que ao animal faltava o coração."

-... Partita... – o nome escapou de seus lábios.

A jovem afirmou com a cabeça, aproximando-se a passo lento de seu antigo marido.

- Já faz muito tempo, não é...Yohma? - Comentou com melancolia.

Ao invés de responder tomou a mão direita da jovem com sua esquerda e esticou ambos os braços acima da altura do ombro, apoiando a mão contrária em sua própria cintura, ela repetiu o mesmo movimento como um espelho. Ambos fizeram uma suave reverência flexionando os joelhos e inclinando a cabeça. Para então, virarem de costas, ainda unidos pelas mãos, dando dois passos para a esquerda e voltando a ficar frente a frente, repetindo o processo mais uma vez, tornando a encarar-se e entrelaçando então ambas as mãos na mesma altura, saltando juntos enquanto dobravam uma das pernas, dessa vez para o lado direito.*

- Então César, orgulhoso e seguro de si, responde - Finalmente voltou a falar, num tom muito mais suave e sem seu ar de deboche - "Os deuses fazem isso para vergonha, só, da covardia. César fora animal sem coração, se hoje, de medo, não saísse à rua." - Levantam os braços e passam por baixo deles entrelaçando-se de costas um para o outro novamente, tornando a ver-se nos olhos do outro antes de repetir os saltos para o lado esquerdo e executar outro giro. - "Não; César vai sair. Sabe o perigo que mais do que ele é César perigoso. Somos dois leões, nascidos num só dia; mas o mais velho eu sou e o mais terrível. César sairá."

Partita sorriu com carinho, soltando uma das mãos do aperto em meio aos movimentos que se repetiam, deslizando-a pelo braço que antes a sustentava, até descê-la às suas roupas, buscando algo que parecia estar num bolso de seu vestido, retirando-a de forma oculta e escondendo entre seu punho.

- Então preocupada com o sonho onde previu a morte de seu marido, Calpúrnia pede que ele reconsidere e fique em casa "Ó meu senhor! Anula-se vossa sabedoria ante esse arrojo. Não saiais hoje. Declarai a todos que o que vos prende em casa é o meu receio, não o vosso." - Ela revela uma pequena adaga em sua mão, a qual finca no corpo contrário na divisa entre seu quadril e o começo de sua coxa, onde a armadura não o protegia - "Mandaremos ao senado Marco Antônio, incumbido de dizer-lhes que não vos sentis bem. Que assim, de joelho, eu consiga de vós alcançar isso."

Apesar de metade da lâmina de por volta quinze centímetros rasgando sua carne, Yohma não hesitou, ou sequer se afastou, mesmo que os movimentos da dança tivessem cessado.

- E então César cede, por hora, em consideração a sua esposa "Marco Antônio dirá que estou indisposto; para agradar-te ficarei em casa." - Declamou finalmente, enquanto ela observava confusa, esperando que ele em algum momento reagisse negativamente ao ferimento profundo que começava a escorrer sangue. - Ato dois, cena dois, na casa de César, da obra Júlio César - Suspirou longamente fechando os olhos, um sorriso melancólico em sua face - Mesmo sendo uma ilusão, foi afável poder dançar com minha cara Partita uma vez mais.

- Então você sabia - Seu tom doce foi substituído por um audaz, tentando afastar-se, mas o deus manteve firme suas mãos entrelaçadas, enquanto levava a livre ao punho que lhe cravou a adaga. - Por que não se afastou de meu ato ou tentou evitar meu ataque?

Abriu os olhos, encarando-os cinzentos do ludíbrio.

- Pelos erros que cometi no passado com minha esposa, mereço qualquer punição que ela queira me submeter, mesmo que seja numa ilusão - Envolveu a empunhadura da adaga sobre o firme agarre e a forçou para dentro do próprio corpo até seu final, tremendo ligeiramente em função da dor.

- Você está louco?! - Exclamou surpresa, vendo como o líquido carmim escorria com mais veemência.

O deus humano por sua vez, voltou a dar outro de seus sorrisos teatrais, ainda sem permitir que o outro se afastasse.

- Se você não se lembra do menor sinal de loucura que cometeu por amor, você não amou. - Sangue começou a escorrer por cima do cabo da arma, por entre os dedos do espectro, até tocar os da jovem, produzindo um grande urro de dor. Ela finalmente se viu livre do agarre, afastando-se em tropeços, segurando o pulso da mão ensanguentada com a outra, seus gritos cada vez piores - Mas para seu azar, meu sangue divino pode ser dolorosamente venenoso para um mortal.

A figura caiu no chão, sua pele empalidecendo até tornar-se branca, seus cabelos diminuindo e mudando de cor até se tornarem verde escuros e espetados, seus olhos tornando-se pretos, a roupa transformando-se numa armadura dourada, rachada e partida em muitas partes.

- Então era um Marina - Disse sem qualquer interesse, vendo o ser se contorcendo. Tomou a empunhadura com mais força, arrancando a adaga de seu corpo com um único puxão, seu organismo tremendo, enquanto uma quantidade maior de Ikhor* escorria de seu ferimento, lançou a arma ao lado do humano, fazendo mais sangue acertar o homem, que rolava de agonia- Você me atacou inutilmente, supostamente eu estou do seu lado.

- Q-quem - Tentava dizer o servo de Poseidon, enquanto ficava de pé arfante, exibindo outros ferimentos que havia conseguido em outras batalhas.- O q-que um espectro...Faz aqui?!

- Eu? - Disse com fingida surpresa - Se eu fosse vós, pudera comover-me. Se eu soubesse pedir, também seria maleável aos pedidos. Mas sou firme como a estrela do norte, cuja essência constante e inabalável não encontra paralelo no vasto firmamento. Ornam os céus inúmeras faíscas, de fogo todas e indizível brilho; mas uma apenas de lugar não muda. - O Marina, piscou sem compreender, uma vez que abandonou sua ilusão, e não possuía mais energia sequer para manter-se de pé devidamente depois de enfrentar aqueles humanos que não morriam por mais que os atacava. - Assim, no mundo: de homens está cheio, homens de carne e sangue e inteligência. Mas, em tamanha cópia, um só, conheço que, inatacável, seu lugar não deixa, sempre surdo a pedidos: sou esse homem.

Kasa de Lymnades, lançou um olhar atento para o corpo de Krishna de Chrysaor caído atrás do homem de estranhas palavras. Nunca foi a melhor pessoa para trabalhar em equipe, tampouco costumava mostrar qualquer sentimento de apreço ou compaixão, mas desde que voltaram a vida vinte anos atrás, conviveu quase todos os dias de sua nova oportunidade com os demais Marinas. Depois de tanto tempo, mesmo que odiasse admitir, não podia simplesmente ficar imóvel depois de ter assistido esse servo do submundo aproximar-se de Krishna e então a respiração do indiano cessar, todo seu corpo deixar de se mexer, evidenciando que havia sido morto.

Antes que pudesse se impedir de fazer algo estúpido, já estava lendo a mente do espectro e assumindo a forma de sua antiga esposa.

- Fora daqui! Queres virar o Olimpo? - Seguiu ainda com teatralidade - Se nossos senhores souberem desse incidente, nos espera o caos. O seu é facilmente irritável e o meu excessivamente protetor. Os espectadores podem sair feridos, e desse modo nossa interpretação acabará sem aplausos.

- Como se eu fosse acreditar que você e seu deus estão do nosso lado depois de te ver matando Krishna! - Acusou, começando a elevar seu cosmo, fechando os braços paralelamente à sua frente.

Kairos suspirou longa e dramaticamente, também assumindo postura de luta, apesar de sua dor e constante perda de sangue.

- Bruto não se ajoelhou sem obter nada? - Seguiu seu teatro, também elevando sua energia - E então César é apunhalado por aqueles que acreditava serem seus aliados, depois de ter sido convencido por Bruto, apesar dos apelos de sua esposa, a sair de casa naquele dia. Entre os assassinos, ele reconhece o próprio Bruto, seu grande amigo, e suas últimas palavras antes de morrer são; Et tu, Bruto? *

E a luta começou.

-.-.-.-

Shun se materializou das sombras em outro corredor branco sujo de sangue e repleto de quadros gregos caídos, ao lado do corpo do Telquine, que agonizava em seus últimos momentos de vida.

"Parece que alguém se adiantou" - Comentou mentalmente com Hades.

"...Sim, fique atento, pode ser o líder deles que não gostou da 'má notícia'..." Respondeu advertindo.

A expressão do imperador azedou-se, agachando-se ao lado do ser agonizante.

"É desprezível pensar que alguém seja capaz de tratar assim seus subordinados." - Taxou com aversão.

"...Guarde seu descontentamento para quando as penas deles forem estabelecidas, por hora, parece que o assassino está aqui..." - Alertou.

"O corpo está coberto de arranhões semelhantes aos golpes de ursos" -Analisou com calma o Telquine que possuía na pele marcas de garras grandes e profundas que dilaceraram sua carne. -"Pensando bem, talvez eu já tenha uma ideia de quem possa ter sido"

- Urso infernal! - Ouviu à suas costas numa voz familiar.

Uma enorme massa de cosmo se formou atrás de Shun, assumindo o formato de um grande urso, ainda assim, o senhor dos mortos não fez qualquer movimento para se defender, apenas virando o rosto para seu atacante.

As garras pararam à centímetros do rosto do antigo cavaleiro.

- "Por que você cancelou o ataque?" - Questionou o virginiano levantando-se e voltando-se completamente ao seu atacante, onde a energia começava a desaparecer, revelando uma figura humana.- "Esse erro pode custar a sua vida."

A sua frente se materializou um jovem elegante de cabelos rosa desgrenhados, compridos até sua cintura. Seus olhos vermelhos brilhantes encaravam o senhor do submundo com a surpresa estampada em sua face bronzeada.

- Até onde eu me lembro, essas foram as palavras que você me disse quando nos encontramos no templo de Poseidon, quase vinte e um anos atrás, Io de Scylla.

-...Shun...? - Questionou espantado o homem, analisando o outro de cima a baixo. - Não é possível, você não envelheceu nada... É você mesmo?

- Já você deixou o cabelo crescer, pelo que vejo...- Disse com um meio sorriso.

"...Nada como o reencontro com velhos conhecidos..."- Ironizou Hades.

"Sim, não são memórias exatamente agradáveis" - Respondeu contemplativo.

-... Você continua igual, e ao mesmo tempo está diferente - Avaliou aproximando-se desconfiado. - Seus olhos eram bondosos e piedosos, por isso eu hesitei em te matar quando nos enfrentamos, mas agora... Você tem apenas os olhos de um morto.

- É irônico que diga algo assim para mim - Respondeu sem se abalar com o comentário, mas exibindo um sorriso triste - Afinal, da última vez que nos vimos eu te matei em batalha, e no entanto, aqui está você. Não acha que eu que deveria estar surpreso?

-...Imagino que sim, mas eu não sei explicar o que me aconteceu, Sorento nunca nos disse com clareza - Afastou-se assumindo postura defensiva. - Parece que um novo deus assumiu o mundo inferior, ou algo assim, e decidiu nos dar uma nova chance. Mas deixemos essa conversa de lado. Estamos sendo atacados por seres que supostamente são humanos, mas não morrem com facilidade, sua presença aqui significa que essas criaturas tem alguma relação com Athena?

- Não precisa exaltar-se com minha presença Io, eu vim aqui apenas para ajudar vocês e seu senhor Poseidon. Athena não tem nada haver com isso. - O chileno o encarou com desconfiança, sem abandonar sua postura, enquanto o antigo cavaleiro explanava tudo com calma - Agora, sobre existir um novo deus no mundo inferior e ele ressuscitar vocês. Eu, pessoalmente, não me intitularia um deus, apesar de tudo, isso iria contra meus princípios, afinal, para mim eu nunca deixei de ser um humano, mesmo após assumir o trono do submundo.

A expressão do Marina rapidamente mudou de suspeita para uma de completo choque, vendo a cosmo energia das trevas que o ex guardião de Andrômeda exaltava para provar seu ponto, fazendo-o instintivamente dar um passo para trás. As correntes que serpenteavam aos pés do jovem de cabelos verdes se erguiam como cobras que buscavam mostrar-se maiores para espantar um predador, indicando que atacariam a qualquer sinal de afronta, como se tivessem vida própria.

Recordando-se da luta que enfrentou há tantos anos atrás, provavelmente elas realmente possuíam.

Inevitavelmente o estranho enigma de Sorento veio a sua mente, enquanto encarava essas correntes.

"Um dia o verdejante das árvores estará nos olhos de alguém, as correntes do rio indicarão uma melódica tranquila, mas forte como o som de um trovão e pulsante como o coração de um amigo."

Essa porcaria que nunca fez qualquer sentido se referia a Shun? Seus olhos eram de um verde intenso, apesar de inexpressivo, tão diferente de como eram duas décadas atrás. Mas sabia, como ninguém, como aquele homem podia ser tranquilo e ainda assim mortal como o raio de um trovão, mas essa última parte..."Como um coração de um amigo" significava que ele estava mesmo de seu lado agora?! Por que o maldito músico nunca foi mais claro a respeito disso?!

- Porque ele não podia - Respondeu a pergunta que se formava na mente contrária - Pois nosso inimigo em comum descobriria que estávamos montando uma armadilha para ele.

- É capaz de ler a minha mente?! - Exclamou irritado. - E como assim uma armadilha?

- Sim, me desculpe. Não temos muito tempo, e é a forma mais rápida de compreender suas dúvidas para comigo - Fechou os olhos - Peço que, por favor, confie em mim, como Sorento e Poseidon fizeram há vinte anos, e assim que tudo isso acabar, explicaremos tudo com cuidado.

Tornou a abrir os olhos, determinação refletida neles, além de um pedido aveludado para que não tivessem que se enfrentar. Agora sim parecia o Andrômeda que conheceu.

- Muito bem - Resolveu não completamente convencido - Só porque Bian e meu senhor Astrapí precisam de minha ajuda, mas te advirto Andrômeda, ou seja lá o que for você agora, que quando isso acabar, se eu não gostar do que você e Sorento tem a dizer, ambos terão que se entender com as minhas bestas!

- Que assim seja - Declarou simplesmente Shun, com uma suave inclinação de cabeça. - Por favor, me leve até os aposentos de Astrapí.

O Marina concordou, e começou a correr pelo corredor indicando o caminho, o senhor dos mortos prontamente o seguiu, enquanto uma quarta corrente surgia das sombras ao lado do Telquine, perfurava seu coração num golpe de misericórdia e com isso arrancava sua alma, para depois seguir seu mestre, junto com as outras três.

-.-.-.-.-.-

- O que são essas coisas?! – Exclamou Ione enquanto dava tiros e mais tiros em seres metamórficos que se pareciam mais com cães do que com humanos. Porém, independente de quantas balas eram atiradas, quanto sangue escorria de suas feridas para o chão, as criaturas continuavam avançando.

Tinha acabado de questionar o homem de cabelos azuis espetados e roupas formais sobre sua identidade, uma vez que antes de invadirem a mansão, teve acesso a imagem de todos os funcionários e frequentadores das dependências dos Solo, e tinha certeza que esse homem de olhar violento não estava entre os arquivos, ela se lembraria.

Porém, antes que qualquer resposta fosse dada, quatro meio animais, meio humanos apareceram do nada de dentro da mansão, quebrando as janelas, tentando cercá-los em pleno jardim. Ela tentou conversar a princípio, mas o único som emitido deles eram um estranho e rouco rosnado. Dando um chute na cabeça de uma das criaturas, o desconhecido abriu caminho e assim começaram a correr pelos terrenos da propriedade.

- Telquines – Respondeu Ikki, mantendo um braço protetor frente a Neroda e Havok enquanto se adiantava pelos jardins, Ione também posicionou-se ao seu lado, igualmente disposta a proteger os dois que ela considerava apenas crianças, em pleno fogo cruzado.

O marina, por sua vez, ofereceu as costas para o mais novo dos Solo subir, o qual apenas recusou, correndo então junto ao mais novo.

- Isso é ridículo- Disse ela com severidade, lançando um olhar mal humorado para o desconhecido - Telquines não passam de um mito.

Neroda porém, abriu os olhos espantados.

- Telquines?! Eu só consigo ver humanos – Alegou num tom que parecia muito mais maduro do que um rapaz que apenas estava na adolescência. – Humanos que se comportam estranho, mas apenas humanos. – Voltou-se para Havok – E você?

- ...Hãa...Sim, apenas humanos – Respondeu estranhando a atitude de seu amigo – Telquines não eram os seres que cuidaram do senhor Poseidon quando este ainda era muito jovem?

- Sim, exatamente isso, mas parece que eles não estão mais interessados em cuidar de seu deus. – Contestou Ikki.

- Isso é ridículo – Repetiu a grega em tom severo, virando-se e atirando mais uma vez em um dos atacantes, que apesar de ferido continuava correndo de forma animalesca. – Eu entendo que crianças acreditem nessa história de Telquine, agora um homem como você deveria se envergonhar.

Ikki lançou um olhar irônico a mais jovem.

- E você tem uma explicação melhor para criaturas meio animais, aparentemente imune a tiros, correndo atrás de nós? –Colocou desafiante.

- Deve ser alguma espécie de droga injetada neles, ou uma alucinação fruto da fumaça arroxeava que instantes antes ocupava toda a mansão. – Explicou insolente.

- Deixe-me adivinhar...Do seu grupo, você era a única capaz de ver a fumaça? – Seguiu Benu com provocação.

Ione se calou, lançando um olhar surpreso ao seu acompanhante.

- E pelas presenças que eu senti perto dos portões da mansão, eu diria que seus companheiros da polícia começaram a cair um a um, alguns desmaiando e outros falando coisas desconexas, sobre morte e seus piores medos. – Seguiu explicando, voltando seu olhar a seus perseguidores que os seguiam implacavelmente, manchando todo o jardim de sangue. – E apesar de todo o cenário catastrófico e sem qualquer reforço, você insistiu em entrar sozinha nesse lugar, isso porque sentiu em sua alma que algo, ou alguém a estava chamando.

Parou repentinamente, derrapando.

- Essa distância dos portões já é suficiente para que esses humanos que se dizem a autoridade não morram carbonizados – Explicou simplesmente.

- Quem ou o que é você?! – Exigiu saber a policial, parando também. Sem deixar de apontar sua arma para as criaturas.

- Eu sou um espectro. Como você, sirvo o senhor do submundo – Disse em tom sério acumulando sua cosmo energia ao seu redor – O qual se encontra nessa mansão neste instante. E é a presença dele que fez com que você entrasse apesar dos perigos...

Uma aura ardente de cor vermelha surgiu ao redor de sua mão direita, a qual se abriu em sua frente.

- AVE FÊNIX! – De sua palma uma grande massa de energia se transformou em fogo e partiu em direção ao adversário, assumindo o formato de uma grande ave de fogo.

-... Porque a vocação de nossas almas – seguiu dizendo enquanto as chamas consumiam os Telquines que gritavam em agonia – Desde os tempos mitológicos, tem sido a de velar pelo submundo e por seu monarca – Mas um sorriso de superioridade assumiu sua face – Mas claro, que diferente dos cavaleiros, fazemos isso da forma que bem entendemos, o que faz as coisas mais interessantes.

- Isso tudo é loucura! – Exclamou a mulher em choque, sem desviar o olhar dos corpos que se perdiam no fogo.- Como conseguiu que chamas saíssem assim de suas mãos?! O que inferno está acontecendo aqui?

Ela voltou-se para as crianças, preocupada que tais cenas de brutalidade pudessem tê-las traumatizado pelo resto de suas vidas. Como aconteceu com ela, quando bandidos emboscaram seu pai enquanto estava no banco de trás da viatura da polícia, as cenas de tortura e dor que teve que presenciar eternamente ficariam marcados em sua memória, e teria sido muito pior se não fosse a ajuda daquele estranho civil de cartola, que apareceu do nada e distraiu os meliantes, o reforço policial não teria chego a tempo se não fosse por ele, e tanto ela como seu pai teriam morrido há muito tempo.

Mas os dois jovens não pareciam tão abalados, o mais novo observava a cena com fascinação, enquanto o pequeno Solo possuía apenas uma expressão de tristeza, estranhamente melancólica para uma criança.

- Eu não tenho tempo para explicar agora, apenas fique atrás de mim que eu protegerei você e esses pivetes. – Disse com insolência, voltando a concentrar seu cosmo notando que dois dos Telquines ainda seguiam com vida, apesar de seus pelos estarem completamente chamuscados.

Ione, porém, lançou um olhar de completa afronta ao espectro, e quando uma das criaturas avançou para atacá-lo, ela se adiantou à sua frente, dando um enorme chute lateral na cabeça do monstro, quebrando seu pescoço e lançando-o com força diretamente contra uma árvore.

Ikki observou a cena, incapaz de ocultar completamente seu espanto.

Ela imediatamente voltou-se ao mais velho, tomando o colarinho de sua roupa, seus olhos repletos de aversão.

- Escute aqui seu maldito, eu não quero saber se você é um fantasma, um humano ou um deus. Ninguém, eu disse ninguém – Reforçou entre dentes – Pode me dizer que eu preciso ser defendida. Eu sei muito bem me cuidar, e se quer seu pescoçinho ainda em cima de sua cabeça, é melhor ter isso em mente. "Espectro" – Chamou com sarcasmo.

Para sua surpresa, o outro apenas sorriu.

- É exatamente disso que precisamos no nosso exército, guerreiros de fibra.

- Está me desacatando?!- Questionou venenosa – Saiba que eu tenho o poder e a autoridade para te prender até o final de seus malditos dias.

- Há! Eu gostaria de ver você tentar. – Desafiou Benu.

Ignorando a recente briga entre ambos, Neroda tomou a dianteira, Havok tentou segurar sua mão para detê-lo, mas uma descarga de cosmo fez com que o soltasse surpreso.

-...Neroda? – Questionou preocupado, chamando a atenção dos adultos.

- Eu quero saber, por que vocês estão nos atacando?! – Perguntou passando ao lado dos outros dois, seus olhos focados no último Telquine que mantinha de pé.

Os dois espectros fizeram menção de impedir o garoto de avançar, mas uma intensa massa de energia os impedia de sequer se mexer.

O monstro olhou nos olhos dele, porém nada disse, avançando rapidamente para atacá-lo.

- NERODA! – Berrou o marina, tentando se mexer, mas a igual que os outros dois, algo parecia ter imobilizado seu corpo.

Mas o bote nunca aconteceu, porque um objeto reluzente surgiu na frente do adolescente, defendendo-o do ataque sem qualquer dificuldade.

- Não é possível! – Exclamou Havok em choque - O tridente de Poseidon?! Mas ele estava nos aposentos do senhor Astrapí!

O menor dos Solo tomou o objeto dourado de três pontas à sua frente, empunhando-o com completa desenvoltura, encarando desafiante o Telquine que ousava enfrentá-lo.

- Se não vai dizer nada para defender-se, terei que impor pessoalmente seu castigo! – Anunciou em tom firme, seus olhos brilhantes em amarelo vivo, enquanto os mares que batiam contra o rochedo se tornavam mais intensos. –Afinal, é meu dever como imperador dos mares!


*Os Sofistas, segundo Aristóteles, ensinavam a argumentação a respeito de qualquer tema, mesmo que os argumentos não fossem válidos, ou seja, não estavam interessados pela procura da verdade e sim pelo refinamento da arte de vencer discussões, pois para eles a verdade é relativa de acordo com o lugar e o tempo em que o homem está inserido. Por outro lado, o método socrático é uma técnica de investigação filosófica, que se utiliza de perguntas simples e quase ingênuas, para levar o aluno a pensar nos erros de seus argumentos ou ideias, e assim auxiliá-lo a repensar suas conclusões,deste modo aprendendo a pensar por si mesmo.

*Pefko, quando ainda muito pequeno, é salvo em Lost Canvas Gaiden Albafica pelo próprio Albafica, e na despedida dos dois, o pequeno grego resolve ficar na Ilha dos Curandeiros, estudando para um dia curar o veneno dos cavaleiros de peixe. Parece que ele conseguiu.

* O sangue dos deuses

*A obra de Shakespeare citada é Julio César, a história de como ele foi assassinado.

A primeira parte trata-se de uma cena em que tentam impedir César de sair de casa, nas palavras rebuscadas de Shakespeare, ele se recusa a ficar em casa, porque jamais demonstraria medo, apesar das previsões de seu assassinato, mas sua esposa tem "medo por ele", deste modo o mesmo acaba resolvendo ficar, a princípio. Essa relação entre os dois é uma analogia a Yohma e Partita. César diz que ficará por sua esposa, mas acaba sendo convencido por Bruto a sair de casa e ir para o Senado neste dia. (Abandonar sua esposa por causa de sua personalidade complicada e ego) Então, contradizendo os pedidos da esposa ele sai.

O último ato narrado apenas por Kairos, faz menção ao último discurso de César antes de ser traído e morto à apunhaladas. Entre as pessoas responsáveis, ele reconhece o próprio Bruto. Isso é uma analogia do Kairos para com o fato de Kasa tê-lo apunhalado mesmo eles sendo aliados.

Poseidon e Neroda?! O que está acontecendo?!