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Capítulo XXVI - Linhas da vida.
Queria gritar de ódio, de raiva, de frustração, de tristeza, mesmo sem reconhecer quem era aquela que estava aos seus pés, apenas vendo o corpo caído ao chão, seu sangue espalhando-se por todo o mármore, sua alma despedaçada pela arma divina de Athena. Uma dor tão ruim quanto a de quando ele próprio havia sido perfurado por aquele báculo o atingiu em cheio seu coração, fazendo-o arder como se estivesse pegando fogo.
Quem era ela? Por que se sentia tão miserável ao perdê-la?
Quem era, quem era, quem era, quem...QUEM?!
Caiu de joelhos arfando, uma dor horrível atingindo seu crânio, como se este estivesse a ponto de rachar em dois.
Levou as mãos à cabeça quando tudo ao seu redor se tornou negro, Athena, Aquiles, e a jovem mulher desaparecendo completamente. Seu peito ainda ardendo em brasas, lágrimas escorrendo por seus olhos, lágrimas de sangue. Encurvou-se mais contra o próprio corpo, de modo que sua cabeça batia contra seus joelhos, a dor o consumindo ao ponto de querer gritar, mas era como se tivesse perdido a capacidade de falar.
Ou como se já tivesse gritado por muito tempo.*
De repente, em meio a escuridão que o sufocava, ouviu passos à sua frente.
"Meu senhor...O submundo está ruindo...Se continuar assim" – Uma forte voz feminina, porém abafada, proclamava. " Talvez o melhor seja esquecer"
Um intenso cosmo verde era emanado por ela, aos poucos envolvendo seu corpo.
- Esquecer...?
Tentou levantar o rosto, mas ele parecia pesar toneladas.
A imagem da mulher passou em sua mente, cada vez mais difusa, cada vez mais nebulosa.
-...Não... - Sussurrou, com a voz fraca, empenhando-se o máximo que podia para se reerguer - Ela morreu por mim...Quem é ela?! Eu preciso saber...
"Esqueça, meu senhor, esqueça" A aura verde se intensificou.
- Quem...Foi... - Sua consciência começava a se perder, sendo consumida aos poucos pelo negro.
"...Hades..." - Chamava alguém, em tom abafado e muito distante.
Não era mais capaz de recordar as roupas delas, o formato de seu corpo, à penas conseguia lembrar-se de que se tratava de alguém, talvez um espectro, sequer sabia mais se era um homem ou uma mulher.
"...Hades, por favor..."
Então a figura começou a se desmanchar em suas memórias, como se nunca tivesse existido. Aquiles, mesmo apesar de seu afã em atacar, apenas havia feito um arranhão na maçã de seu rosto? Suas memórias começaram a se embaralhar.
Mas havia alguém ali, não havia? Alguém despedaçou sua alma por ele, por que deveria esquecer-se de tal ato de sacrifício?!
"Esquecer é o melhor a ser feito"
- Não - Não podia, não queria mais ter que esquecer - ...Não...
"Meu senhor" A voz da mulher insistia.
"...Hades, por favor, acorde!..." - Já a distante soava como uma masculina.
Uma cosmo energia magenta escura começou a contornar o corpo do deus, afugentando aos poucos a aura esverdeada, as recordações pararam de se dissolver em sua mente, restando apenas a sombra de alguém recebendo um golpe mortal em seu lugar, para logo sua consciência ser abraçada pela escuridão total.
- Hades...?
Abriu os olhos devagar, sentindo-se cansado e abatido. Demorou alguns segundos para processar que alguém segurava seus ombros, e mais longos segundos para enfocar-se em quem se tratava.
"...Shun?..." Questionou numa voz ainda mais distante e ecoada do que o comum.
- Sim...- Respondeu em tom incerto, vendo o deus com singular preocupação - Você está bem...?
Não respondeu a princípio, levando uma das mãos à cabeça, no processo notou que lágrimas salgadas molhavam sua face, as secou com os dedos e as encarou.
"...O que aconteceu?..." – Questionou ainda confuso, tentando colocar sua mente em ordem.
- Eu não tenho certeza – Respondeu sua contraparte, soltando os ombros da divindade, que cambaleou um pouco, mas conseguiu manter-se sentada. – Cruzamos o umbral, então você pareceu entrar numa espécie de transe.
Hades voltou-se a Shun, que estava ajoelhado sobre as próprias pernas, olhando para o chão meditativamente.
- Eu tentei te despertar, mas você parecia incapaz de me ouvir...E então eu fui atingido.
"...Atingido?..." – Repetiu sem compreender. "...Aquele cavaleiro de peixes outra vez?..."
-...Não...Embora... – Colocou a mão no peito pensativo – Foi como se algo tivesse atravessado meu coração, mas sem ferir a minha carne...Uma sensação completamente diferente das rosas de Afrodite...Na verdade... – Hesitou- Parecia mais com a imagem de uma flecha.
"...Uma flecha..."- Analisou Hades - "...Como rosas representam Peixes, pode ser um movimento de seu subconsciente que remete a Pégaso, afinal, ele se tornou Sagitário, não?..."
- Pensei nisso também – Suspirou profundamente. – Pensei que estava sendo testado pelo meu subconsciente outra vez, e que dessa vez veria Seiya tentando me matar, depois de descobrir o que me tornei – Fechou os olhos com pesar.
"...O melhor é que deixe de pensar em Pégaso com tanto apreço, será menos doloroso para ti..." – Comentou simplesmente a divindade "...Por maior que tenha sido sua amizade, ou mesmo irmandade, sempre foi infrutífero quando a guerra santa culminava. Mesmo que nosso foco não seja Athena agora, seria inocência demais de sua parte esperar que Pégaso apoie suas decisões, ainda mais se souber que enganaste Athena para obter a espada, sem mencionar o plano envolvendo Astrapí. Sua mente sempre foi limitada, ele será incapaz de compreender..."
- Eu sei de tudo isso – Declarou em tom enérgico – Desde que decidi assumir o submundo, sou ciente que o dia que meus...Velhos amigos descobrirem tudo que fiz, provavelmente me terão aversão. Contudo, eu tenho a noção de que são coisas que precisam ser feitas. - Tornou a abrir os olhos encarando as safiras de Hades. - ...Mas apesar de tudo isso, e das dúvidas que mentiria se dissesse que não guardo em meu coração, eu não vi Seiya em minha visão, tudo que haviam eram árvores, numa das quais eu estava recostado.
Seu olhar desviou para o imenso campo de flores onde os dois conversavam, o céu seguia límpido, mas podia notar que algumas quantas flores secavam ao horizonte. Se esse ambiente, tão parecido com o jardim da segunda prisão do submundo, representava a pureza de sua alma...Então essas plantas que pereciam simbolizavam que ela começava a se corromper?
- Eu me levantei dessa floresta e tentei procurar por ti, ou mesmo por quem me acertou, mas tudo que encontrei foi um imenso jardim de narcisos, e três figuras colhendo flores, embora nenhuma parecesse ser responsável pelo ataque.
Hades ouvia tudo com atenção, sentindo a mesma sensação de ansiedade que Shun tomando seu peito.
O antigo cavaleiro apertou sua toga branca na região do coração com força, perdido nas lembranças das sensações que sentiu.
-...Eram diferentes, mas reconheci duas delas pela presença... Uma era Arthemis, a deusa da lua, não me esqueceria de seu cosmo depois de ter-nos expulsado de seu templo quando eu e Saori fomos ao Monte Olimpo... A outra figura, era a própria Athena.
" ...E a terceira?..." – Questionou a divindade, sentindo um calor sufocante em seu tórax.
- Eu não sei... – Suspirou frustrado – Uma cosmo energia esverdeada me envolveu e tudo começou a escurecer, e então no meio de tudo isso, eu te vi de joelhos no chão, sendo envolvido pela mesma energia... Comecei a tentar te chamar, para que lutássemos juntos contra esta força que parecia querer nos fazer...
"...Esquecer..."- Completou Hades, caindo para trás. Shun se assustou a principio imaginando que algo havia acertado novamente algum deles, mas o antigo senhor da morte apenas suspirou cansado, para depois cobrir os olhos com os braços, evidenciando que havia se encostado no campo de flores por vontade própria.
Acabou repetindo os movimentos contrários, deitando sobre a folhagem e vendo o infinito céu de sua mente.
"...Antes de ser envolvido por essa cosmo energia..."- Começou a divindade, e foi a vez de Shun escutar com atenção, sem desviar seu olhar do azul celestial "...Eu revi cenas da primeira guerra santa, meu primeiro enfrentamento contra Athena, no momento em que Pégaso me feriu..."
- Foi depois disso que você decidiu começar a possuir o corpo de um mortal ao invés de usar o seu próprio, não é? – Completou o humano sem emoção.
"...Sim...Mas havia algo diferente na cena desta vez. Alguém entrou no caminho do golpe de Aquiles..."
- Aquiles? – O virginiano abriu os olhos surpreso, voltando a se sentar. – Você quer dizer...O Aquiles mitológico?!
"...Sim, o maldito traidor do próprio sangue, guerreiro de tornozelo frágil, esse nefasto ser foi a primeira vida de Pégaso..." – Impôs o deus com desgosto, sem descobrir sua face.
- Por que traidor do próprio sangue? – Questionou enquanto tentava repassar mentalmente alguns mitos que se tratavam de Aquiles, ainda impressionado com a descoberta.
"...Ele era neto de Aiacos, no entanto, quando este nasceu, Aiacos já me servia como juiz no submundo. Por isso Tétis foi autorizada a vir ao meu reino, mergulhar seu filho no rio Estige, o que o ungiu com sua irritante resistência. Ainda assim, o maldito foi capaz de trair seu sangue em nome de Athena..."
Shun não respondeu, claramente em choque, incapaz de assimilar todas essas informações. Um dos juízes do inferno era avô da primeira vida de Seiya e Tenma?! Aiacos era um homem que deixava claro seu desprezo pelas relações humanas, muito embora possuísse sentimentos distintos para com sua subordinada Violate. Era difícil imaginá-lo velando por alguém, mesmo que possuísse seu sangue.
Hades não parecia dar qualquer importância a surpresa de sua contraparte, seguindo com seu relato.
"...Aquiles tentou destruir minha alma e meu corpo, usando-se do báculo de Athena...O que é irônico agora que paro para pensar, no final, foi assim que Athena me destruiu e me transformou nisso..." - Um silêncio amargurado se seguiu, no qual Shun voltou a focar-se nas palavras do deus - "...Mas alguém recebeu o golpe em cheio no meu lugar...E agora, por mais que eu tente, não consigo recordar-me quem foi..."
- Provavelmente um dos espectros, não? – Tentou o humano.
"...Não... Eu penso que não..." –Hesitou - "...Era um deus, ou uma deusa...Alguém que também era importante para Athena...Mas essa energia esverdeada me fez esquecer quem era..." - Parou, finalmente descobrindo o rosto, uma expressão melancólica tomava sua face - "...A aura magenta que me impediu de esquecer tudo, mais uma vez...Era sua, não...?"
- Sim...-Respondeu Shun simplesmente olhando para suas mãos, manifestando um pouco de cosmo, que não possuía mais o brilho róseo de antes. Embora ainda fosse uma presença calma e melodiosa, era possível sentir algo escuro misturado com sua essência – Parece que aos poucos, a energia da morte está se fundindo com a minha.
"...É natural..."- Respondeu Hades sentando-se finalmente, o olhar ainda perdido - "...Pode levar até séculos, mas algum dia tua energia será completamente negra, como a minha. Será uma metamorfose lenta, tu dificilmente notará a diferença ao longo do processo..."
Fez menção de erguer-se, mostrando clara dificuldade em fazê-lo, ao notar isso, Shun levantou-se e estendeu a mão para a divindade.
- ...Eu não sei de quem era esse cosmo esverdeado, mas conseguimos nos livrar dele dessa vez. – Concluiu.
Hades encarou a mão estendida por alguns instantes, e soltando um suspiro aceitou o gesto, conseguindo assim se colocar de pé.
"...Tu conseguiste..." – Declarou com amargura o deus, sentindo seu orgulho já destroçado quebrando ainda mais.
- Nós – Reforçou Shun – Da mesma forma que você me ajudou a despertar contra Afrodite, e do mesmo modo que lidamos juntos com Poseidon. Agora, mais do que nunca, estamos juntos nessa.
Hades soltou uma risada irônica, e, no entanto, o sorriso que exibiu não aparentava qualquer deboche.
"...Os cavaleiros de Athena e seus discursos prontos sobre trabalho em equipe..."
- Eu não sou um cavaleiro, não mais – Impôs Shun com firmeza, o que surpreendeu um pouco o deus, principalmente pela ausência de tristeza em sua afirmação.- Mas trabalho em equipe é de fato muito importante, se tivesse usado isso com os espectros, quem sabe teriam conseguido derrotar Athena.
"...Oh claro, por que será que eu nunca pensei nisso antes?..." – Respondeu com sarcasmo "...Talvez seja porque os espectros, depois de milênios de convivência, em sua maioria, se detestam, o que poderia dar errado?..."
O clima ficou muito mais leve, embora as memórias das visões de cada um não haviam desaparecido.
-...Essa floresta em que eu acordei, e vi Athena e Arthemis – Shun foi o primeiro a voltar ao assunto – Você recorda dela? Porque claramente não era uma lembrança minha.
"...Não...Mas creio que a figura que tu viste com elas seja a mesma que me protegeu do golpe de Aquiles..."- Meditou Hades - "...E há uma mulher, uma deusa, ligado ao ciclo da vida e da morte, que deseja que eu esqueça sua identidade..."
- Uma mulher?
"...Eu não pude ver seu rosto, mas ouvi sua voz...E ela me chamava de "Meu senhor", apenas deuses ligados a este ciclo me chamam assim, a igual que meus espectros..." – analisou com calma.
- Não podia ser um espectro?
"...Nenhum deles seria capaz de alterar minha memória desse modo...Não...Apenas um deus poderia alterar a memória de outro, e ainda assim não seria uma tarefa fácil..."
- Você suspeita de alguém? – Questionou sério.
"...Existem mais deusas nesse ciclo do que tu possas imaginar, e eu não sou o tipo de divindade que toma conclusões precipitadas...Hécate, as Moiras, a própria Arthemis tem certo vinculo com o ciclo, minha irmã Deméter, entre outras..."- Suspirou - "...Mas de algo tenho certeza. Quero me lembrar, mais do que saber quem me fez isso e o porquê, eu quero recordar quem era a pessoa que se colocou na minha frente, suas razões... Eu preciso saber..."
- Eu te ajudarei nisso – Declarou Shun com convicção – Afinal, se estamos dividindo nossas memórias, isso também me incube.
O antigo senhor dos mortos dirigiu um mínimo sorriso a sua contraparte, antes de desviar seu olhar para o horizonte.
"...Mas teremos tempo para isso depois, já nos demoramos muito por aqui, sinto que algo importante está prestes a passar no Submundo, e precisamos estar lá quando acontecer..."
- Eu tenho a mesma sensação – Afirmou.
E assim ambos fecharam os olhos, combinando-se uma vez mais sob o uso da projeção astral.
-.-.-.-
Ikki estava sentado nas escadarias do trono, com os cotovelos apoiados nos joelhos e rosto sobre as mãos, perdido em seus pensamentos sobre o destino das almas dos cavaleiros de ouro, tinha certeza que Shun não aceitaria isso de boa maneira e faria o impossível para ajudar, mas depois de ter usado tanta energia para reconstruir o submundo, será que isso não seria arriscado demais?
E ainda havia a questão das constelações, como ultrapassar essa barreira, uma vez que as almas dos antigos guerreiros não pertenciam realmente ao submundo?
Soltou um bufo frustrado, buscando a presença de Daidalos. Após voltar de sua conversa com Astéria, deu uma explicação rápida ao antigo cavaleiro de prata sobre o que havia acontecido, uma vez que não estava a fim de recontar os acontecimentos da primeira guerra santa, sem mencionar que suas memórias ainda não estavam completas sobre ela.
O mestre mostrou uma expressão de imensa lastima pela alma dos cavaleiros caídos, mesmo para o gesto de escorpião, sem aparentemente se importar que fosse justamente a última reencarnação desse signo um dos responsáveis por sua morte.
Aparentemente Cefeu era um homem como Shun, incapaz de guardar mágoas. Não esperava menos do mestre de seu irmãozinho.
Depois dessas informações, o loiro perguntou se podia caminhar para espairecer, ao que Ikki simplesmente deu de ombros, o reino estava bem vazio no final das contas, contanto que o antigo guerreiro não se lançasse em um dos rios, não haveria qualquer problema. Ainda assim vigiava sua presença de tempos em tempos, contudo, o cavaleiro não havia se mexido muito além da entrada do palácio.
Porém sua atenção foi desviada completamente quando sentiu a presença de Shun voltando a si mesmo, já há um bom tempo teve a impressão de que seu irmão havia ido muito longe, superando as barreiras do próprio corpo, graças a ligação de alma que possuíam, era capaz até mesmo de dizer que sua consciência tinha perambulado por outro mundo, mas era algo tão difuso e distante que seu vinculo não era suficiente para saber com exatidão aonde ele estava.
Isso tinha o irritado ainda mais.
Contudo, agora, era claro que estava de volta e prestes a sair de seu corpo mais uma vez. Levantou-se, entre ansioso e preocupado, até que como esperado, uma forte luz foi emitida do peito do corpo sentado sobre o trono, a qual se encaminhou um pouco mais a frente, aos poucos assumindo uma forma quase física, de pé no começo da escada.
- Shun! – Exclamou subindo rapidamente a escadaria que os separavam, ficando frente à frente – Você simplesmente sumiu depois de reconstruir o submundo! O que houve? E ainda por cima senti que havia ido para algum mundo distante daqui.
Shun inclinou a sobrancelha impressionado, mas logo sorriu, mesmo sendo uma viagem no subconsciente, num plano diferente, seu irmão era capaz de saber parte de seus movimentos. A ligação que possuía realmente nunca deixaria de impressionar.
- Me perdoe Ikki - Disse em seu tom suave – Reconstruir o submundo foi muito desgastante, eu precisei me recolher, mas tu estás certo, eu não estava mais neste mundo, usei meu próprio inconsciente para ir ao mundo dos sonhos. Lá me encontrei com Poseidon.
- Poseidon?! – Exclamou espantado o mais velho – O que você foi tratar com aquele desgraçado?!
- Acalme-se, está tudo bem. – Tranquilizou o outro, cujo cosmo já começava a queimar – Enfrentar Chronos será uma tarefa muito árdua, e mesmo trazendo os espectros de volta, eles estarão muito enfraquecidos, uma vez que eu não conseguirei fornecer a energia necessária através das sobrepelizes. Por isso, o melhor é conseguirmos fortes aliados para esta guerra.
- E você acha que esse deus, que começou as guerras santas em primeiro lugar, é alguém confiável?! – Questionou Benu descrente.
- Ele definitivamente é bastante instável em relação ao seu humor – Seu sorriso aumentou – Nisso, me lembra bastante a ti.
Ikki bufou, desviando o olhar, contrariado.
- Mas ainda assim ele é bastante leal a sua palavra. Consegui convencê-lo a não tornar a atacar Athena, e nos ajudar com Chronos. – Isso surpreendeu o espectro, que voltou sua vista ao seu senhor surpreso. – Ele impôs uma condição, é claro, mas esta dependerá das ações de Athena, e como ela gerenciará a terra nesse período de paz.
Não prosseguiu, contudo, ao sentir outra presença fraca entrar no palácio, um cosmo tão suave que havia sido facilmente ocultado pelo flamejante de Ikki. Ainda assim sua expressão abriu em choque ao ver um rosto tão familiar o encarando do último degrau da escada.
-...Mestre...Mestre Daidalos... – Declarou num fio de voz, no que Benu deu um passo para o lado, dando espaço para o reencontro dos dois.
- Olá Shun – Anunciou com um misto de tristeza e melancolia – Então é mesmo você...
O novo senhor dos mortos olhou seu antigo mentor de cima a baixo, como se tentando gravar a fogo sua imagem em suas memórias, ao tempo que Daidalos subia lentamente os degraus que os separavam.
Um soluço escapou da garganta do virginiano, que logo tampou seus lábios com uma das mãos, ainda assim, foi incapaz de conter as lágrimas que começaram a correr por seu rosto.
-...Mestre...Por favor, me perdoe...
- Do que você está falando? – Disse em tom suave, esticando a mão para tentar tocar seu antigo discípulo, mas como imaginava pelas explicações de Ikki, apenas o atravessou. Afinal, não passava de uma ilusão de sua imagem.
-...Se eu estivesse lá...Se tivesse voltado para a ilha de Andrômeda... O senhor... – Outro soluço o impediu de continuar, fechando seus olhos com tristeza - ... Não estaria morto.
- Não diga besteira Shun! – Colocou com firmeza, ainda assim, sem perder sua suavidade – Simplesmente era para acontecer, e você estava ocupado, cumprindo sua missão ao lado de Athena... Eu soube tudo que você fez desde minha morte por seu irmão. – O jovem imperador lançou um olhar choroso ao mais velho, que apenas sorriu com carinho, antes de voltar sua vista aos brilhantes olhos azuis de seu mentor - ...Como você lutou nas doze casas, contra Poseidon, e mesmo sua batalha contra Hades...- Sua expressão entristeceu – E as decisões que você tomou, que o fizeram estar onde está agora...
- Mestre... Mesmo que você não me culpe por sua morte – Inclinou o tronco, em noventa graus, como era o costume japonês para agradecer ou pedir desculpas, o qual Daidalos já conhecia de tantas outras vezes que seu pequeno discípulo pediu seu perdão por menores que fossem suas ações. - ... Eu...Ainda assim... Não pude me manter fiel ao meu juramento de proteger Athena... Eu traí minha armadura, eu... Me tornei aquilo que os cavaleiros da esperança juraram destruir. Eu o envergonhei, mestre, arruinei a confiança que tu tinhas em mim. Eu não peço teu perdão, porque sei que o que fiz não possui justificativas válidas, meus pecados estão se acumulando em meus ombros...Mas gostaria que tentasse entender... Eu precisei fazer todas essas coisas, eu preciso seguir por este caminho.
-Shun...! – Exclamou Ikki com desgosto, vendo o quanto o menor se recriminava por suas ações, as quais claramente o deixaram com poucas escolhas.
Foi a vez de Daidalos ser incapaz de conter suas lágrimas, vendo o novo senhor dos mortos inclinado em seu respeito, ao contrário de quando era apenas uma criança, não estava pedindo mais absolvição por seus atos que acreditavam serem errados, e sim pedindo compreensão. Era ciente do caminho que trilhou, mas mantinha-se firme mostrando que eram ações necessárias, mesmo que pudessem ser dolorosas. Já não era seu pequeno aprendiz que estava na sua frente, não. Era um homem, um homem ciente de que cruzou todas as linhas da humanidade, mas seguia firme em sua resolução, sem se deixar perder pelos novos rumos, mantendo seu respeito pelo passado, e por aqueles que lhe foram importantes.
- Você cresceu tanto Shun... – Fungou enquanto sua visão se embaçava graças ao liquido salgado que escorria por sua face – Se tornou um homem, forte e integro como sempre acreditei que se tornaria.
-...Mestre... – Chamou o virginiano, levantando seus olhos avermelhados.
-...Eu não sinto nada além de orgulho de você Shun, que independente das dificuldades que enfrentou, ainda assim manteve sua integridade e índole, jamais pense que alguma vez me envergonhou, pois quando eu olho para você, eu vejo apenas um homem que sempre viveu em função dos outros, sacrificando-se incontáveis vezes, e ainda assim acreditando que o que fazia nunca era o suficiente. Que Athena me perdoe por minhas palavras, mas eu agora tenho certeza de que o submundo não poderia pedir melhor regente para o futuro que se aproxima.
- Mestre Daidalos... – Mas sua voz era entrecortada e vacilante, fruto dos soluços incessantes de seu pranto - ... Desculpe, eu sei que deveria parar de chorar, mas estou tão feliz em poder vê-lo mais uma vez! Feliz por suas palavras...Nem que sejam nessa situação.
- "Até o homem mais forte desse mundo choraria se estivesse tão feliz como eu" – Recitou Ikki chamando a atenção dos outros dois, eram as mesmas palavras que Shun havia lhe dito quando finalmente se reencontraram, quatro anos atrás, após todos pensarem que tinha morrido depois da luta contra os cavaleiros negros. –Mas do que nunca eu entendo essas palavras agora meu irmão.
O menor sorriu, um sorriso verdadeiro que não tocava seus lábios há muito tempo, mesmo Benu sorria, como era capaz apenas de fazer estando ao lado de seu irmão nesta vida. Daidalos observou a cena com apreço, uma nova resolução se formando em seu peito.
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- Eri... – Astéria estava sentada no chão, com a alma de aquário ainda guardada em suas mãos, pressionada contra seu peito, pela parte partida de sua máscara, lágrimas escorriam e transpassavam o fogo fátuo -...Eu me lembro quando nos conhecemos... Eu estava ferida, suja e cansada, fugindo da vista dos homens e dos deuses...Estava exausta de sempre ser perseguida, mesmo após resolver nascer como mortal... – Fechou seu olho, mordendo o lábio inferior com força - ... Mas tu não quisestes saber de onde eu vim, ou quem eu era...Tu me estendeste a mão, me ajudaste, me deste um lar, me mostraste que existe o amor sem pretensão, sem ser escravo dos desejos sujos da carne... – Abriu seus olhos brilhantes lentamente – Eu agradeço ter abandonado a forma divina na qual nasci, porque ser humana me permitiu poder conhecer-te...M-mas... Se eu ao menos ainda possuísse uma centelha divina, eu seria capaz de me opor à vontade de Zeus, e arrancar a essência de tua alma de tua constelação, te permitir viver tua própria vida pelo menos uma vez, morrer tua própria morte... Mas eu não tenho mais poder sobre as estrelas, somente de Antares...
Ela lançou um olhar triste para todas as almas ao seu redor.
-...Todos aqui possuíam algo de divino, filhos, netos ou bisnetos de deuses... Mas todos abandonaram isso para servir ao lado de Athena, sem temer a vida mortal. Deram para sempre as costas ao Olimpo. Todos possuíam motivações dignas e honradas... Mas eu...Eu apenas queria me esconder. Tornei-me uma Codorniz, uma ilha, e mesmo assim era perseguida pelo desejo sujo dos deuses... – Sua expressão azedou-se, mostrando a repulsa que sentia por esses seres – Resolvi reencarnar como humana para escapar, mas acabei nascendo como uma das Danaides*...- Riu com ironia – Eu nunca tive sorte em minha existência como mulher. Matei meu suposto marido antes que me violasse e desapareci, decidi tornar-me uma amazona, lutar pelo meu próprio destino... Mas novamente minha vida foi desgraçada, dessa vez por Heracles, quando em um de seus doze trabalhos, ele executou a rainha Hipólita, a qual eu deveria proteger, em busca de seu cinto. Eu mal tinha quinze anos e encarei a morte de frente ao desafiá-lo, finalmente pensei que fosse meu fim, era o que eu acreditava, o que eu realmente desejava...Não temia as condenações do submundo, não eram nada comparado a vida que eu levava... Até ser encontrada na costa por ti, Eri...
Finalmente um sorriso tornou a sua face, fazendo reluzir sua verdadeira beleza.
- Tu eras ainda mais novo do que eu, mas me ensinou tanto... Eu resolvi servir Athena ao teu lado, procurando uma forma de um dia pagar a divida de gratidão que possuía contigo... – Suas lágrimas se intensificaram – Mas apesar do meu sacrifício, tu morreste pouco depois, não é? O rio de chamas tornou-se vermelho pelo meu sangue, mas o rio Cócitos congelou-se por teu lamento. - Ela começou a abaixar sua cabeça, até chegar a altura do chão, soluçando em meio a sua dor - ... M-me perdoe Eri, eu sempre f-fui uma egoísta, não pensei em teus sentimentos quando deixei meu corpo morrer para ti salvar... Foi doloroso, não é? Tu te culpaste? Teus sentimentos, tua dor, te consumiram a tal ponto que abandonaste tua própria vida, s-sendo castigado por isso... Tuas s-seguintes reencarnações des-desde então nunca mais se deixaram guiar pelas emoções...E-e é tudo minha culpa...Me perdoe Eri, me perdoe...
Seu pranto tomava todo o salão, e as dez chamas que acompanhavam a cena bruxuleavam com tristeza, como se capazes de ouvir essa última confissão.
- ...Porém, por mais que me odeie por isso, eu não posso simplesmente assistir enquanto tu desapareces... Não a ti, que deu razão a minha existência... – Começou a levantar-se, mostrando que em sua face começavam a aparecer rachaduras - ...Eu decidi sempre reencarnar ao teu lado, não como a mulher que se escondia do mundo por trás de uma máscara, mas como um homem que tu poderia chamar de teu melhor amigo, pensei que assim seria mais útil a ti... Mas tu és como a água que tento levar dentro de um vaso para um tonel cheio de furos* - A rachadura intensificava ainda mais, como uma superfície de gelo que se rachava a um suave toque - ...Eri, viva, cresça, envelheça, sorria, chore, ria, sobreviva, este é meu último pedido, meu único desejo...- Sua voz começava a se romper também, enrouquecendo e esvaindo – É que tu sejas feliz, ao menos em uma vida...Por favor...
Como numa implosão, seu corpo e sua armadura se estilhaçaram em mil pedaços, os quais pegaram fogo um a um. As chamas resultantes envolveram a alma de Aquário, que não passava mais de uma simples faísca, tornando a fazê-la queimar, condenando escorpião, que se tornou uma faísca em seu lugar.
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A explosão de energia foi sentida no salão do trono. Após o emotivo reencontro, Ikki se pôs a explicar o que era o cosmo que invadiu o submundo e o pedido da primeira amazona de escorpião.
- Esta é ela, imagino – Comentou Shun com tristeza, compreendendo o ato da escorpiana mesmo não estando presente.
- Sim, definitivamente é ela – Bufou Ikki, também capaz de compreender seu sacrifício – Ela é realmente teimosa. Sempre foi.
- Shun... – Interveio Daidalos pesaroso – Nada realmente pode ser feito?
-...Eu posso ressuscitá-los por doze horas, o que seria suficiente apenas para que pudessem se despedir de Athena, Seiya e os demais - Analisou, colocando a mão em seu queixo – Ressuscitá-los por mais tempo consumiria mais energia do que eu possuo no momento, afinal, eles não são almas comuns...Se eles aceitassem ser espectros, eu poderia fazer algo definitivo, mas depois dessa guerra santa, mesmo se tratando de mim, eu duvido que qualquer um deles aceitaria isso.
Shun fechou os olhos, evidente preocupação, enquanto tentava formular algum plano.
-...Eles farão muita falta numa guerra contra Chronos, e eu tampouco quero que suas almas desapareçam, mas não faça nada sacrificial Shun! – Impôs Benu com firmeza –Você já está muito debilitado, e se por causa disso o submundo se instabilizar, voltaremos a etapa zero!
- Mas eu tampouco posso deixá-los desaparecer sem fazer nada – Insistiu o imperador – Eles se sacrificaram para abrir o muro das lamentações para que nós pudéssemos passar Ikki... Eles são valiosos guerreiros, que vem lutando a gerações, que tipo de senhor das almas eu seria se fosse incapaz de impedir catorze almas de se consumirem e se apagarem da existência?!
- Não seria culpa sua! – Seguiu fervoroso a antiga Fênix.
- Mas é claro que seria Ikki, eles estão sob minha responsabilidade estando aqui - Insistiu com teimosia.
- Discutir isso não vai levar a lugar nenhum! – Interrompeu Daidalos com solidez, surpreendendo os outros dois – Devemos buscar uma solução que traga menos estragos para ambos os lados. Shun, você tem razão, são almas deverás importantes e Athena enfrentaria um grave problema sem sua principal linha de frente, porém, seu irmão também está certo, agora o submundo depende de ti para existir, não pode tratar sua vida e vitalidade de forma tão leviana, pois as consequências disso serão muito severas.
O cavaleiro de prata notou a surpresa de ambos, e começou a se perguntar se havia ido longe demais, afinal, por mais que tivesse intimidade com Shun por tê-lo treinado por anos, agora ele era uma figura importante que demandava certo respeito, o mesmo, provavelmente se referia a Ikki.
-...Interessante... – Shun seguiu, num tom um tanto diferente, podia jurar que seus olhos até mesmo brilharam rapidamente em amarelo - ...Tu tens alguma sugestão...Mestre?
Benu também pareceu notar a mudança de atitude, mas preferiu não comentar no momento.
- Bem...- Hesitou a princípio , mas resolveu prosseguir - Não existe uma divindade que possa ajudá-lo nesse labor? Refiro-me a desfazer o selo imposto por Zeus a essas almas, que as uniu às suas constelações.
- Zeus não era o deus mais forte do Olimpo – Colocou Hades sem hesitar – Sua posição era algo muito mais política, porém, não são muitos os deuses dispostos, mesmo nos tempos de hoje, a contrariar suas antigas decisões ou imposições. Além do mais, desde que deixou de existir uma deusa das estrelas, os poderes referentes aos céus se limitaram a Zeus, pois era considerado seu reino. Fora disso, existiriam os Primordiais, mas nenhum estaria disposto a ajudar outros deuses, ainda mais sem receber nada pontualmente. Precisaríamos de uma oferenda digna, ou algo que verdadeiramente chamasse sua atenção.
Ele parou por alguns instantes, olhando para trás, como se tivesse sentido alguma coisa.
- Ikki.
- O que foi? – respondeu ainda perturbado com a atitude mais séria de seu irmão, precisavam conversar sobre isso mais tarde.
- Tu sentiste algo diferente enquanto falava com Astéria...?
- Diferente? – Repetiu sem compreender.
-...Como a sensação de estar sendo observado. – Completou.
- Isso é natural, não? – Seguiu sem entender - Além de nós dois, havia ainda os demais cavaleiros.
- Não é sobre isso a que me refiro... – Virou-se completamente para o salão aonde estavam as almas – Parece que existe sim alguém disposto a ajudar, no final das contas, ou estará aqui apenas pela curiosidade?
Começou a caminhar em direção ao local, Daidalos e Ikki se entreolharam sem compreender, mas trocaram acenos de cabeça e concordaram em segui-lo.
Ao chegarem ao salão, efetivamente os fogos fátuos se mantinham firmes, Aquário havia recobrado seu brilho como os demais, contudo, agora Escorpião era apenas uma diminuta faísca, que ainda assim, mantinha-se teimosamente acesa.
Shun, contudo, continuou a caminhar até parar de frente com a oitava chama, agachando-se frente a ela e analisando o chão.
- Ela chorou aqui – Declarou, avaliando as gotas reluzentes ao compasso das figuras bruxuleantes – Não são lágrimas quaisqueres, representam o pranto de uma alma condenada. Uma alma condenada pela fortuna, pelo destino, e pela fatalidade da sorte. Esses são os atributos de uma divindade em particular, e eu sou capaz de sentir um suave resquício de um cosmo nessas lágrimas.
"Muito bem"
Uma voz profunda e imponente surgiu ecoante na sala, surpreendendo os outros dois, Hades por sua vez se manteve impassível.
"Estou impressionado, notaste minha presença com tão pouco"
- Por favor – Shun declarou levantando-se e afastando-se um pouco de onde estava o liquido da miséria de escorpião – Peço que não me subestime...Senhor Moros.
Na lágrima, refletiu-se a figura de um homem de cabelos cacheados até os ombros e barba farta. Uma faixa sobre seus olhos tampava sua visão. Uma luz prateada emergiu do chão ao teto, imponente e intensa, como se fosse uma espécie de portal, a mesma figura refletida saiu lentamente do feixe brilhante, primeiro enormes mãos agarraram suas beiradas, ambas facilmente maiores do que os três presentes, seu tronco começou a sair da fenda em seguida, era tão alto que sua cabeça facilmente encostava no teto de mármore negro, sua pele era caucasiana e trajava uma túnica tradicionalmente grega de cor negra. Ao tocar o solo do submundo com seus gigantes pés, o chão tremeu com intensidade, tanto Daidalos como Ikki, mesmo contra a vontade, caíram de joelhos pela onda de energia, o corpo astral de Shun, no entanto, não foi capaz de receber qualquer impacto, devido a ausência de solidez.
A enorme divindade ajoelhou-se sobre o joelho esquerdo e pé direito, claramente não em respeito propriamente dito, e sim apenas para igualar minimamente sua altura com a do senhor do submundo, que possuía apenas um metro e sessenta e cinco centímetros.
- Esse...Maldito! – Tentava dizer Ikki, lutando contra a força que o oprimia, decidido a voltar a estar de pé, e assim o fez. – Como se atreve!
Daidalos por sua vez, estava sem fôlego, mas reuniu todas as suas forças, e embora tenha mostrado mais dificuldade que seu acompanhante, também se reergueu.
- Realmente, impressionante. – Seguiu o primordial, sem demonstrar, porém, qualquer emoção.
O senhor do submundo, por sua vez, lançou uma rajada de seu próprio cosmo magenta escuro em direção aos outros dois, dissipando assim a força que os oprimia, em seguida direcionou um olhar azedo ao enorme ser.
- É extremamente descortês e desrespeitoso para com o Hospitium* que chegue a minha morada e deliberadamente prejudique qualquer alma que se encontre sobre estas terras, todas presentes aqui são minhas hóspedes, sem exceção. – Colocou Shun com firmeza, ainda em tom polido. – Mesmo que estejas acima das leis divinas de Zeus Senhor. Moros, peço-te que recordes que no submundo, eu sou a autoridade suprema, desse modo, mesmo tu não estás acima das leis deste reino. Atacar meus companheiros deliberadamente em minha presença, definitivamente, não é algo permitido aqui.
Um sorriso surgiu finalmente na face da divindade, ao tempo que Daidalos e Ikki assistiam entre surpresos e chocados a atitude de Shun.
- Claro, estás em tua perfeita razão. Lamento minha falta de tato – Sua figura foi envolta por uma cosmo energia prateada, até que seu corpo começou a diminuir, ficando pouco maior do que o do senhor da morte, agora estando de pé – Entre os diferentes caminhos que apontava teu destino ao deparar-se com minha presença. Seguiste o mais interessante, eu diria. É difícil prever tuas ações, mesmo para mim que sou o deus do destino absoluto. Com razão minhas filhas estão fascinadas em trabalhar ao teu lado.
- As moiras foram, e ainda serão de muita ajuda, não tenho quaisquer dúvidas sobre isto – Hades seguiu, em seu tom firme e controlado - Mesmo que não possa eu mesmo ver o livro que dita o destino da humanidade e dos deuses*, é algo que tenho convicção. No entanto, me pergunto se tua presença tem algo haver com elas, ou com a própria alma de Astéria.
- Não sou um homem de lados Hades. Eu apenas trabalho para garantir a fatalidade e inevitabilidade do destino. – Colocou com imponência, seu sorriso dando lugar a sua expressão neutral - Algo que saía das linhas possíveis na vida de um homem ou deus, pode desorganizar todo o fluxo do universo, minhas leis quanto ao destino são supremas, seja no submundo, no mar, ou no corpo celeste.
- Sou ciente disso. – Declarou com simpleza.
- Chronos também deveria ser, e ainda assim, atacaste a covardia teu reino em tua ausência, liberaste centenas de almas sobre os mortais, algumas das quais, os próprios deuses encarceraram. Ele planejas destruir-te definitivamente, para que possa controlar a própria morte. Um ataque direto dele a ti sob este desejo, é um ataque indireto a mim, e a minha filha Átropos que também regula a morte. Algo que certamente vai contra o fluxo natural do universo, e por consequência, contra minha vontade, que também possuo poder sobre o fim da existência.
-...Ainda não consigo compreender o que Chronos quer com tudo isso. – Declarou com desgosto, agora que lhe era explanado parte das intenções do deus.
- Chronos é uma figura etérea, cujo destino não é certo. Porque és o próprio tempo, assim em parte também rege o destino das coisas. Prever seus movimentos pelo tear do destino é como cortar uma cabeça da Hidra de Lerna, outros fios sempre surgirão, gerando um enredo infinito de possibilidades. Mas tu, Hades, como representas o "após o tempo", o final da ampulheta, e o recomeçar a cair de suas areias, tampouco é alguém fácil de prever para mim ou minhas filhas e impossível para ele. Uma vez que a morte representa o momento em que o tempo se acaba.
- Ou seja – Completou Shun analítico – Se vós tentásseis enfrentá-lo, poderiam gerar um paradoxo no destino, eu, contudo, não teria tal impedimento...Porém, soa como se vocês quisessem que eu me livrasse definitivamente dele.
- O tempo não pode ficar sem um representante, isto é vital, mas sobre isso, creio que já pensaste a respeito. – Declarou Moros em tom misterioso – E saberá usar isto a nosso favor no momento oportuno.
- Sim...Eu já cogitei isso... – Finalizou Hades – Mas não muda o fato de que vós estais jogando tudo nas minhas costas, como se eu tivesse que resolver este problema sozinho. Não é uma perspectiva muito agradável, sob o tamanho de suas expectativas para comigo.- Seguiu Shun - Isso me leva a outro fator que me incomoda, se a existência do senhor do submundo é tão importante e crucial assim, não deveriam ter agido quando houve a luta nos Campos Elísios que levou o destino do submundo a essas mãos humanas?
Moros tornou a sorrir.
- A chegada da era dos humanos é inevitável, só precisávamos saber de quem seriam as mãos que levantariam a espada. Sei que compreendes a que me refiro. – Mais uma vez impôs misterioso. – De todo o modo, não planejo deixar-te este encargo sem qualquer resguardo. Por isso vim, através da fatalidade desta jovem. As almas desses cavaleiros são importantes demais para o destino para que sejam consumidas pelo nada. Eu tenho em minhas mãos as estrelas, e aos meus pés a terra. Sou capaz de desvincular definitivamente as almas presas ao firmamento, e dá-las às tuas mãos. As doze constelações devem voltar a vida, enquanto o resto do exército de Athena terá tempo de reencarnar.
- E como poderei me garantir, que trazê-los de volta a vida não culminará em meu próprio fim? Uma vez que estou enfraquecido – Questionou Hades – Mesmo que me digas que isso não acontecerá, acabaste de afirmar que meu destino é difícil de traçar, ou seja, tu podes equivocar-te.
- Tens razão. Mas sou ciente que sabes que essas almas precisam voltar a terra, também sei que este é igualmente teu desejo, contudo, compreendo teu receio. Então digas, qual és tua condição para que te sintas seguro, e assim possamos, com os nossos poderes, fazer as constelações deixarem as estrelas e voltem a caminhar pela terra.
Daidalos e Ikki prendiam a respiração, olhando de um para o outro, sem saber o que esperar de tudo isso, ou o que pensar das ações calculadas e calmas de Shun, mesmo frente a uma divindade tão imponente quanto Moros.
Shun esticou os dedos das mãos e dos pés, sem desviar o olhar do rosto contrário.
- Eu quero ter em meus dedos o final da linha da vida que cabe a Átropos, tanto dos catorze cavaleiros aqui presentes, como dos servos de Poseidon que também pretendo reviver. Não terei poder sobre seus destinos ou suas escolhas, não cobiço ser eu a puxar a linha do tear no lugar de Láquesis, contudo, eu saberei quando suas linhas estiverem no final, como também poderei ser eu a cortá-las e levá-las a morte, no caso de que qualquer um dos vinte que pretendo trazer de volta a vida, acabem voltando seus punhos contra mim. Esta é minha condição final.
*Essa reação de dor de Hades, se notarem, é a mesma cena que Shun presencia no capítulo VII - Era mitológica.
* Shun e Hades tem a posse dos livros do destino, o livro da vida das pessoas, mas mesmo através deles não é possível ver o destino, apenas o passado dos mortos, no máximo, probabilidades de morte que cercam as almas.
*Os Danaides são 50 irmãs, filhas de Danaus , rei de Argos. Egyptos, rei do Egito, seu tio, tinha cinquenta filhos (os egípcios), desejava casá-los com seus filhos, que eram seus primos, as Danaides recusaram o casamento. Egyptos enviou seus filhos para Argos à frente de um poderoso exército, para obrigá-las. Danaos, muito fraco para resistir, concordou com o casamento, mas planejou secretamente com as Danaides que matassem seus maridos na primeira noite do casamento. Quarenta e nove filhas fizeram isso.
Sobre o destino delas depois disso há duas versões, uma que conta que elas foram condenadas a encher um tonel furado com vasos de água no Tartáro, e só seriam livres o dia que preenchessem o Tonel, o que é impossível.
Outra diz que por ordem de Zeus , as Danaides foram purificados por Hermes e Athena do assassinato que haviam cometido.
*A expressão "tonel das Danaides" passou a significar, figuradamente, o esforço infindável porque nunca termina; o trabalho feito repetidamente sem que nunca apresente um resultado proveitoso. Assim são as manias, obsessões patológicas que causam sofrimento e significativa queda no rendimento pessoal e perda de tempo.
*Hospitium - Nos tempos homéricos, todos os estrangeiros, sem exceção, foram considerados como estando sob proteção do Zeus, o deus do desconhecido e dos suplicantes, e tinham o direito da hospitalidade. Imediatamente após sua chegada, o desconhecido era convidado a se hospedar, sem nenhuma investigação a ser feita a respeito de seu nome ou de sua antecedência até que os deveres do hóspede estivessem cumpridos. Um dos epítetos de Hades, por sua vez, era "Aquele que recebe vários", algo como o "O Grande anfitrião", deste modo todos os mortos são hospedes do imperador do submundo, protegidos pelo conceito de Hospitium.
Quem será a tal deusa que fez isso a Hades? E o que vocês acharam da condição de Shun?
