Olá!
Então, depois de um bom tempo, estou de volta aqui com a continuação de Percepção–Obscuridão. Muito obrigada por todo mundo que comentou, curtiu e seguiu Percepção! Me deixa muito feliz e definitivamente confiante e animada em escrever essa nova história. Vou deixar algumas observações abaixo, tirando qualquer dúvida que possa surgir.
1 - Nessa história, assim como em Percepção, o massacre do clã Uchiha nunca aconteceu, assim como todo aquele problema com o Danzō e o Obito. A Akatsuki não existe, os pais de Naruto estão mortos, mas Orochimaru fugiu de Konoha e posteriormente retornou para atacá-la, assim como acontece no mangá. Ele foi derrotado em algum momento.
2 - Essa história não está terminada ainda, mas eu já tenho uma boa ideia de como vai ser, o que significa que o restante do time 7 provavelmente não terá uma função significante como a maioria dos outros personagens presentes aqui. Podem aparecer uma hora ou outra na história, no entanto, mas não prometo nada… Minha ideia inicial era focar na amizade entre as meninas, coisas que não vemos tanto no mangá.
3 - Obscuridão, apesar de ainda ser romance, diferente de Percepção, é bem focada em drama também. Não é tão leve quanto Percepção, mas ainda tem foco em amizade e não é nada extremamente triste ou coisa assim. E tem um final feliz, então não se preocupem!
4 - Sobre a idade… eu não pensei muito nisso. São todos maiores de idade, é claro. Eu imagino a Sakura com uns 22, 23 anos. Enquanto Shisui… ele é alguns anos mais velho que o Itachi, e Itachi, se não estou enganada, é uns 5 anos mais velho que Sakura… então Shisui está por volta dos 30, talvez um ou dois anos a menos.
5 - Atualizações… semanalmente? Vai depender de como as coisas desenrolam com a escrita. Como eu disse, já tenho praticamente tudo planejado na minha cabeça, o problema é colocar em palavras. Mas a boa notícia é que já tenho uma boa parte pronta, só precisando de uma boa revisada. Essa história completa terá, mais ou menos, 10 capítulos. Mais longos que Percepção–4 a 6 mil palavras cada.
Naruto não me pertence, mas essa história e seus personagens originais, sim!
Boa leitura!
Obscuridão
Capítulo 1: Desejos Secretos
Sakura era, na maioria das vezes, e ninguém poderia negar isso, uma trabalhadora árdua; nada era demais para ela. Podia lidar com os mais obstinados pacientes, as mais insistentes toxinas e, inclusive, com constantes drenagens de chakra. Muito era necessário para fazê-la dar uma causa como perdida e declarar derrota.
Alguns anos de experiência fizeram Sakura decidir que nada, absolutamente nada, se comparava a Senju Tsunade em um humor particularmente vicioso.
O relógio em cima da porta na parede mais distante mostrava faltar quinze minutos para que seu dia de trabalho finalmente acabasse. Minutos que, na atual situação, se arrastariam. Tsunade parecia um pouco mais estressada que o normal naquele dia; murmurando coisas que soavam como velhos líderes de clãs e suas obsessões com velhas tradições. Sakura, inteligentemente, se manteve quieta, apenas permanecendo em sua mesa, olhando pastas e pastas de históricos médicos. Shizune geralmente lidava com essas coisas, mas ela estava atualmente em uma missão; o que significava muita papelada e uma Hokage com um particular desejo por álcool para Sakura.
Verdadeiramente, Sakura não entendia muito bem por que Tsunade estava importando-se tanto com assuntos de clãs agora; Shizune lidava melhor com esse tipo de política. Na maior parte do tempo Tsunade não suportava nem as esparsas reuniões com os líderes.
Sakura franziu o cenho em pensamento quando Tsunade resmungou baixo. Era algo que seria melhor deixar de lado; ela pediria ajuda se fosse necessário. Tonton grunhiu em seu colo, como se concordasse com sua conclusão. Sakura sorriu e acariciou a pequena porca, que se encolheu mais em resposta. Ela sabia que não deveria comentar algo e arriscar deixar sua shishou ainda mais raivosa; além disso, como precaução, teve a certeza de manter o formidável estoque pessoal de sake da Hokage bem escondido.
Outro motivo para ter um grande interesse na hora, naquela tarde em particular, era algo que estava roendo seu interior.
Depois de duas semanas fora, Shisui e sua equipe da ANBU estavam previstos para voltarem hoje. E, para a sua surpresa, estava ansiosa para vê-lo novamente.
Poderia dizer que estavam namorando–pelo menos era o que parte de Konoha parecia comentar depois daquele dia, há dois meses, em que saíram do restaurante juntos. Desde então, Shisui havia se tornado uma constante em sua vida. Se antes sempre parecia ter uma desculpa para estar nos mesmos lugares que ela, agora ele nem sequer se incomodava, surpreendendo-a muitas vezes em qualquer lugar.
A ex aprendiz da Godaime Hokage e o herdeiro do clã Uchiha, dito como um dos melhores shinobis de Konoha atualmente. Claro que chamariam atenção. Um casal poderoso, como Tenten havia declarado… Sakura não conseguia acostumar-se a tanta atenção, entretanto.
Era bom estar em um relacionamento. Ótimo, na verdade. Sakura descobriu que seu novo namorado era mais intenso que podia imaginar, depois de apenas presencia-lo com seu jeito descontraído e sorridente. Agora era um novo mundo, com toques suaves em momentos inesperados, palavras sussurradas, beijos longos e lentos que a deixavam quase–
Quando ouviu um clique soar na sala silenciosa, Sakura percebeu que havia derrubado a caneta que segurava. Ela piscou e limpou a garganta, tentando fazer a imagem de uma lembrança em particular deixar a sua mente. Tsunade a olhou em questionamento de sua mesa em frente a janela, um brilho de conhecimento em olhos cor de mel.
Não precisava ser um gênio para saber que a Godaime não aprovava exatamente essa coisa acontecendo entre eles. Enquanto Shizune e suas amigas mostraram grande suporte e pareciam genuinamente felizes por ela, a expressão nas feições de Tsunade não era nada menos que severa; sobrancelhas franzidas e lábios formando uma linha dura, provavelmente de decepção. Nem mesmo seus pais tiveram uma reação tão negativa.
Ela achava Shisui uma distração.
E ela tem razão.
Sakura podia sentir seu rosto esquentando e logo abaixou para pegar a caneta que deixou cair, aproveitando para esconder a coloração avermelhada que certamente estaria manchando sua pele.
Mas Tsunade aprovando ou não, o fato era que Sakura já estava completamente enamorada. E como seria diferente? Shisui era, facilmente, um dos homens mais bonitos que já tinha visto. A facilidade com que se pegava pensando na aparência dele era ridícula. Seus olhos eram uma de suas melhores características; amendoados, profundos e intensos. Alto, amplo no peito e nos ombros, mandíbula definida, a maneira confiante como andava, cabelos encaracolados e agora um pouco mais longos, as pontas tocando mais do pescoço… O jeito como ele falava com ela, como ele a chamava com apelidos carinhosos, naquele tom de voz profundo...
Era aterrorizante.
Depois das ilusões e decepções que teve com Sasuke e finalmente conseguir aceitar que não tinha problema em seguir em frente, Sakura pensou que nunca mais fosse gostar de alguém do mesmo jeito. Parecia cliché, mas era a verdade. Não queria admitir e pensar muito sobre isso, mas Shisui estava derrubando essas barreiras, uma por uma. Em tão pouco tempo e já sentia aquele nervosismo só de pensar que estava prestes a vê-lo novamente.
Acho que preciso de férias.
Quando Tsunade finalmente a liberou, mais tarde naquele dia, Sakura só pensava em um longo banho quente. Talvez ler um livro depois? Shisui poderia estar chegando hoje, mas não havia nenhuma garantia de quando exatamente. Talvez ainda tivesse tempo?
Mas quando fechou a porta atrás de si e se virou de volta para o corredor, sua respiração ficou presa na garganta quando a sombra de algo piscou em sua frente, menos de um segundo antes do corpo inteiro dele fazer sua aparição.
Ele estava uma bagunça. Fios de cabelos, em uma estranha transição entre curto aceitável e longo para um homem, estavam grudados juntos em várias partes, provavelmente por causa do suor; o rosto dele estava corado, entretanto mais por consequência da viagem que pela presença de algum ferimento; o uniforme tinha uma aparência de úmido, o que provavelmente estava.
Depois de sua observação severa, os lábios de Shisui se esticaram em um sorriso charmoso–e um pouco perigoso. Olhos vermelhos se movimentaram por seu rosto enquanto a mão dele procurava a sua, entrelaçando os dedos nos seus. "Ei, linda," disse Shisui com uma piscadinha. Sakura corou com a palavra que, de certa forma, havia se tornado um apelido. Ele suspirou dramaticamente. "Não achou que eu me esqueceria de você, é claro."
Sakura quase rolou os olhos. Como poderia? Afinal, havia sido apenas duas semanas fora em uma missão. Mas ainda sim, seu coração se aqueceu em pensar que ele viria até ela primeiro. Shisui poderia estar a caminho da sala de Tsunade para reportar a missão, mas não achava que fosse o caso vendo que o restante da equipe ainda precisava chegar.
Eles estavam bem ao lado da porta que dava acesso ao escritório da Godaime–Sakura encostada na parede, lábios ligeiramente partidos ainda em choque pelo aparecimento inesperado. Sakura enrugou o nariz em uma expressão reprovadora. "Você não deveria aparecer assim."
Mas, mesmo um pouco irritada, ela apertou sua mão na dele–um gesto que esperava transmitir que havia sentido falta. Ela o olhou mais criticamente, procurando por algum ferimento, mas como parecia ser de costume, ele estava ileso. Talvez com cabelos mais bagunçados que o normal, mas ileso. Apesar de estar de uniforme completo, sua máscara estava fora de vista. Era provavelmente melhor. Agentes ANBU tinham uma certa obsessão com suas máscaras e ele não era diferente.
Shisui sorriu preguiçosamente, com olhos entreabertos. Inclinando-se lentamente em direção ela, ignorando totalmente sua repreensão anterior, ele sussurrou, "Sentiu saudade? Porque eu sim."
Seus rostos estavam próximos, os olhos dele fechando-se lentamente, e Sakura podia quase sentir o jeito como a respiração dele–
Sakura pulou quando ouviu passos aproximando-se no início do corredor, uma mão indo de encontro ao peito em uma tentativa de acalmar seus batimentos acelerados. Shisui se afastou um pouco, seu sorriso alargando-se enquanto seus olhos mudavam para negros. Ele estava aproveitando seu estado nervoso.
"Eu tenho que relatar a missão para Tsunade-sama. Vou vê-la mais tarde?" ele perguntou, olhando na direção que os passos vinham. Parecia ser seus companheiros de equipe.
"Sim," ela suspirou. Então, um pouco hesitante, perguntou, "Jantar?"
Shisui sorriu gentilmente e acariciou seu rosto com os nós dos dedos. Seu pulso aumentou novamente. "Eu levo."
A kunoichi estava prestes a sugerir a casa dele essa noite já que, depois de dois meses juntos, ainda não tinha conseguido conhecê-la. Podia até dizer que não tiveram oportunidades, mas a verdade era que Shisui não parecia muito inclinado em levá-la lá, o que achava muito estranho. Ao mesmo tempo, não queria impor nada. Talvez estivesse esperando por uma ocasião especial?
Mas sua chance passou quando ele se virou para a porta ao ver que seus companheiros os alcançavam. Ao contrário do capitão, todos os outros ainda usavam suas máscaras e Sakura se sentiu um pouco fora de lugar no meio deles. Decidindo que era melhor ir, ela assentiu educadamente para as pessoas ao redor dela, pronta para fazer sua retirada, quando a voz de seu namorado a fez corar.
"Te vejo mais tarde."
Ela não se virou, apenas acelerou o passo pelo corredor, cabeça inclinada para baixo para esconder seu rosto avermelhado. Certamente estavam todos encarando-a com sobrancelhas erguidas, podia quase senti-los.
Estúpido.
Sakura balançou a cabeça, mas sorriu do mesmo jeito. Era bom tê-lo de volta em casa.
Não demorou muito. Sakura estava saindo do banheiro, uma toalha em mãos para secar melhor seu cabelo úmido, olhando em volta pelo seu apartamento. Estava arrumado na medida do possível, com o tempo que tinha disponível naquela manhã, antes de ir para a torre. Ela fazia seu caminho até a cozinha quando Shisui apareceu de repente perto da janela, duas bolsas de papel em mãos e sorriso travesso no rosto.
Sakura fez o possível para não pular de susto, preferindo estreitar olhos verde esmeralda em desaprovação. Shisui apenas retornou com um olhar divertido, mostrando que sabia o que teria acontecido, mas logo levantou as mãos em defesa. Cabelos negros, assim como os dela, estavam molhados e vários fios caiam em seu rosto. Shisui usava roupas mais casuais; sua usual camiseta com o emblema do clã Uchiha nas costas e calças escuras. Nada fora do normal, mas tinha algo sobre essa simplicidade que fez algo em seu estômago dar pequenos saltos. "Eu trouxe tempura," ele quase ronronou, sorriso alargando-se lentamente. "E anmitsu."
...A rapidez com que podia sentir a tensão deixando seus músculos era ridícula. Realmente sabia como satisfazer uma garota. Sakura imediatamente franziu o cenho com esse pensamento. Não uma garota, ela pensou, estranhamente possessiva. Apenas eu.
Ela balançou a cabeça, esquecendo esses pensamentos ridículos, e se aproximou, pegando a mão livre de Shisui e guiando-o para a sala. "Vamos comer, então," Sakura disse, sentindo o delicioso aroma fazer com que seu estômago vibrasse em antecipação.
Momentos depois, se encontravam deitados no sofá preguiçosamente, fome saciada. O jantar foi tranquilo. Enquanto comiam os pratos favoritos de Sakura, Shisui contava sobre sua missão–o que podia contar, pelo menos. Basicamente sobre a viagem e o local onde haviam ficado. Ele também confirmou que não havia ferimentos mais uma vez.
"Você parecia frustrada mais cedo," Shisui comentou enquanto entrelaçava seus dedos junto aos dela e erguia as duas mãos em direção a seus olhos para observá-las criticamente, como se estivesse julgando como pareciam juntas.
Sakura corou–notando que estava fazendo muito isso ultimamente, mas se aproximou mais, descansando a cabeça no peito dele. Seu coração batia em um ritmo firme, mas lento; podia cair no sono só de ouvir. "Aquilo não era nada," ela respondeu em um sussurro, fechando os olhos. "Você devia ver Tsunade-sama."
Shisui cantarolou, concordando, fazendo-a sentir as vibrações através de seu peito. Uma das mãos dele, a que não segurava a sua, se enterrou nos cabelos dela. "Eu notei isso. Parecia mais irritável que o normal." Ele então virou seus pulsos para que pudesse beijar o dorso de sua mão antes de soltá-la para passar o braço ao redor de sua cintura em um abraço. "Me fale sobre."
Sakura suspirou enquanto o abraçava de volta, tocando seu rosto ao pescoço dele. "Ela andou pesquisando sobre clãs que realizam casamentos entre seus familiares. Sabe, entre primos?" Depois de certa hesitação, Shisui assentiu levemente no topo de sua cabeça. Sakura franziu o cenho e continuou, "Parece meio obcecada com isso, na verdade."
Shisui permaneceu em silêncio por um momento, absorvendo o que ela havia acabado de fornecer e perdido em pensamentos próprios. A mão em seus cabelos desceu lentamente, parando em sua nuca para traçar pequenos movimentos de cima para baixo. Sakura exalou profundamente. "Você não sabe sobre o que é tudo isso?" ele questionou baixo.
Era uma boa pergunta. A verdade era que não tinha parado para pensar no motivo, apenas que era muito estranho para sua mentora estar envolvendo-se em assuntos de clãs–coisa que Tsunade sempre detestou. Eram muito problemáticos politicamente, com todas as regras e tradições, ela dizia. Para estar preocupada com algo assim agora parecia contrariar tudo isso.
Ela balançou a cabeça em negativo. "Assuntos médicos, talvez?"
Mas Shisui não parecia tão interessado em descobrir e essa suspeita foi confirmada quando segurou seu queixo e inclinou seu rosto para cima, fazendo-a encontrar com aquele mesmo sorriso que fazia sua garganta secar: levemente esticado em um só canto, com olhos entreabertos.
"Então Tsunade-sama tem te deixado tensa," ele sussurrou antes de beijar um canto de sua boca. Sakura sentiu seus batimentos acelerarem e fechou os olhos. Sabia exatamente o que estava por vir. "Eu posso ajudar com isso."
Sakura só teve tempo de murmurar seu consentimento quando lábios quentes e macios encontraram os seus em um beijo lânguido e profundo, com línguas e mordidas. O ângulo era estranho e fazia seu pescoço doer, então ela virou entre os braços ao seu redor e posicionou uma mão na bochecha dele, a outra suportando um pouco de seu peso para que não forçasse no corpo embaixo do seu.
Mas então, mostrando que não se importava com o peso extra, ele a puxou para mais perto, o que a fez encostar seu peito completamente com o dele, pegando-a de surpresa. Sakura interrompeu o beijo para encará-lo de forma reprovadora, mas, como sempre, ele só pareceu achar engraçado. Antes que pudesse repreendê-lo, no entanto, Shisui direcionou seu rosto de encontro com o dele novamente.
Dessa vez o beijo aumentou em intensidade, como sempre parecia acontecer. Mãos pequenas e delicadas traçaram seus caminhos para cabelos negros levemente encaracolados, massageando e puxando os fios levemente. Ele rosnou e apertou mais ainda o abraço, as mãos em suas costas seguindo com toques de cima para baixo e para cima novamente.
Em uma dessas descidas, Sakura sentiu aquelas furtivas mãos descerem demais, mas antes que pudesse quebrar o contato e repreendê-lo por tocá-la em lugares inapropriados–já estava corando só com o pensamento. Reservada demais?–elas deslizaram para suas pernas e Shisui girou os dois para que ele pudesse pairar em cima dela.
Sakura engasgou em surpresa com a mudança súbita, mas estreitou os olhos para ele do mesmo jeito. "Você–"
Não deixando-a terminar, os lábios dele se moldaram com os dela novamente–dessa vez em um beijo ainda mais quente, longo, profundo e estavam muito próximos agora, intimamente próximos, mãos masculinas e calejadas tocando seu abdômen, quadril e descendo para uma perna, dedos passando por seus cabelos e inclinando seu rosto para conseguir um melhor acesso, e ela não conseguia nem pensar em corar, nem quando começou a sentir–
"Quer continuar ou...?" Shisui questionou em sua voz profunda e um pouco rouca, sem fôlego, levantando um pouco para que pudesse enxergá-la melhor. Seus olhos negros estavam nublados e os lábios vermelhos e inchados, cabelos encaracolados bagunçados completavam suas feições. Ele era algo para admirar-se.
Mas a questão a fez parar para pensar. Queria continuar?
Sim, uma voz dentro de si respondeu sem hesitar. Definitivamente sim. Mas queria tão rápido assim? Outra parte dela, mais insegura e duvidosa, questionou.
Sakura mordeu o lábio e desviou o olhar. Não era grande coisa. Era algo natural que já esperava que acontecesse em algum momento. O corpo humano possuía necessidades e essa era uma delas, afinal. Enquanto achava Shisui muito–às vezes muito–atraente, não conseguia parar de pensar que estavam indo meio rápido demais.
Ino prontamente discordou quando a ouviu falar isso. Dois meses já era tempo suficiente para acabar com essas dúvidas, ela havia dito. Shisui-san era muito gato para ainda estar tentando decidir algo assim, Ino também disse. Mas não importava o que diriam; se ainda achasse que não era a hora, então não tinha que acontecer, Shizune a aconselhou, junto com Hinata e Tenten.
Então Sakura suspirou e se preparou para dizer a mesma resposta que já havia dado uma vez antes, em um outro cenário muito parecido com esse.
Antes que pudesse, no entanto, Shisui se levantou por completo, olhos negros arregalando-se levemente, parecendo lembrar de algo importante.
Sakura franziu o cenho e levantou junto. "O que foi?"
Shisui passava as mãos pelos cabelos, tentando arrumá-los. "Fugaku-oji disse que queria falar comigo quando eu voltasse da missão. Era importante e eu deveria encontrar com ele assim que chegasse."
Sakura observou enquanto ele se apressava para colocar suas sandálias novamente, xingando baixo quando olhou para o relógio na estante de livros na outra extremidade da sala. Tudo isso a fez erguer uma sobrancelha para o namorado. Ele não era de esquecer coisas que julgava importantes, então...
Pelo menos me livrou do constrangimento de dizer alguma coisa.
Sim, mas por outro lado, teria que interromper seu encontro, tristemente. Algo dentro de si estremeceu em decepção. Ele parecia estar evitando seus olhos agora; provavelmente por sentir-se culpado de estar indo tão precocemente depois de dias fora… Sakura se sentiu um pouco pior. Para Shisui, ela limpou a garganta e disse, enquanto o acompanhava até a entrada da casa, tentando esconder o tremor em sua voz, "Então… te vejo outro dia?"
Ele a beijou rapidamente nos lábios antes de olhá-la com astúcia, como se soubesse exatamente o que aconteceria se inconscientemente não tivesse dado uma brecha a ela–o que deixou Sakura sentindo-se um tanto quanto nervosa e estúpida, porque é claro que ele saberia de suas inseguranças.
O humor dele parecia ter virado do avesso.
"Definitivamente, linda." Ele sorriu suavemente e beijou as articulações dos dedos dela, pairando um pouco contra eles. "Durma bem."
Depois disso e uma piscadela, Shisui, literalmente, piscou fora de vista.
Sakura fechou a porta e se encostou nela, pensando que, por mais charmoso e carinhoso que ele tenha sido, isso não conseguia mudar o fato de que tinha algo estranho naquele olhar, quando disse que precisava encontrar o pai de Sasuke. Quase como se tentasse esconder alguma coisa dela.
"Talvez você esteja trabalhando demais," Ino declarou, examinando um pedaço de vegetal grelhado entre seus hashis antes de comê-lo; suas sobrancelhas loiras franzidas em uma expressão pensativa enquanto experimentava o alimento.
Sakura suspirou, descansado seu rosto na palma da mão. Já havia pensado nisso. Talvez estivesse cansada demais e estava começando a enxergar coisas que não eram reais. Fazia sentido.
A verdade era que o comportamento anormal de Shisui ainda estava incomodando-a mesmo dois dias depois. Ele não apareceu nesse tempo, o que era mais estranho ainda. Havia voltado de uma missão recentemente; segundo as regulações que Tsunade fez questão de implantar, agentes ANBU teriam alguns dias de descanso antes de voltar ao serviço, a não ser em caso de extrema emergência. Konoha não estava em tal estado, no entanto.
O que estava acontecendo com Shisui?
"Você pode perguntar. Não é nada demais," Tenten disse, dando de ombros. Hinata assentiu, enquanto tomava um gole de seu chá ainda quente.
O segundo conselho era muito melhor, na verdade. Sakura sorriu. Ela usualmente tinha a tendência de concordar com Tenten em suas opiniões. "Acho que você tem razão. Se estiver tudo bem, não tem problema perguntar."
A mesa em que estavam ficou em silêncio por um momento, cada uma ocupada com seu próprio almoço. Estavam no estabelecimento de churrasco que Ino sempre parecia favorecer. Do lado de fora, algumas folhas secas voavam com a brisa levemente fria, uma indicação de que o verão tinha finalmente acabado.
Mas não demorou muito até que a paz fosse quebrada.
"Ou," Ino disse, muito animadamente para o gosto de Sakura, que tinha a ligeira impressão que Tenten e Hinata haviam tido o mesmo pensamento. Principalmente com aquele sorriso astuto presente, que só significava problemas. Sakura gemeu mentalmente. Lá vem. "Você," ela apontou com seu par de hashis para Sakura, suas sobrancelhas erguidas, "pode descobrir."
Antes que Sakura pudesse negar a sugestão, Tenten falou, sobrancelhas alinhando-se juntas, mostrando sua confusão, "E como ela faria isso?"
Ino deu de ombros, deixando seu longo rabo de cavalo cair de cima do ombro com o movimento. "Seguindo ele, é claro," ela respondeu indiferente, como se fosse óbvio.
Sakura franziu o cenho, sentindo um pouco satisfeita que sua reprovação dessa nova ideia parecia ser compartilhada entre Tenten e Hinata. Em que isso iria ajudar… provavelmente em nada. Mesmo ela, com quase nada de experiência em relacionamentos, sabia que nada de bom poderia vir de seguir seu namorado de dois meses.
"Eu não acho que seria uma boa decisão, Ino-chan," Hinata disse, surpreendendo Sakura. Tenten e Ino, com seus olhos arregalados, pareciam no mesmo predicamento. "Quer dizer, eles estão juntos a tão pouco tempo…" ela terminou suavemente, suas bochechas ganhando cor com a atenção.
"Só estou dizendo que seria divertido. Mas já que quer tanto, pode apenas perguntar." Ino rolou seus olhos azuis com uma carranca formando-se em suas suaves feições. Claramente não aprovava a segunda sugestão.
Sakura franziu o cenho mais profundamente dessa vez. Iria acabar formando rugas prematuras assim; Shisui estava sempre dizendo isso pelo menos. Mas não tinha controle sobre isso, entretanto; não com esses problemas ridículos. Por que iria seguir Shisui se, aparentemente, não tinha nada com que se preocupar, como Ino havia sugerido anteriormente? Não fazia sentido.
"–estou dizendo. Talvez, se tivéssemos sorte, podíamos até pegar aquele seu namorado gostoso em meio a um treinamento, sem camisa–"
"Ino!" A voz de Sakura ecoou em uníssono com a de Tenten e Hinata–que estava corando violentamente, enquanto Ino não parecia afetada. Três pares de olhos arregalados observavam Ino, irritação, reprovação e vergonha passando por suas faces respectivamente. Depois olharam ao redor, mortificadas ao descobrirem que algumas pessoas as olhavam com sobrancelhas erguidas.
"Eu pensei que você fosse comprometida?" Tenten questionou em um duro sussurro, balançando a cabeça com severidade, apesar de suas bochechas também estarem avermelhadas.
"Bem, sim, mas eu tenho olhos. Não vejo problema nenhum em observar."
"Não o meu namorado, porca." Sakura lembrou, fazendo questão de dar ênfase na palavra 'meu' em um novo súbito acesso de possessividade.
"Vocês não têm graça nenhuma." Ino apenas voltou sua atenção ao prato depois de receber suspiros cansados como resposta.
Sakura mordeu o lábio, brincando com a comida distraidamente. Estavam almoçando antes de ela e Ino irem para o próximo turno no hospital, onde encontraria Shizune, que acabara de retornar de sua missão. Sakura ainda pensava no estranho momento de ontem, mas reconhecia que não desconfiaria de nada se não fosse pelo olhar que Shisui lhe deu antes de ir embora.
Podia não ser nada e esse pensamento se repetiu várias vezes em sua mente durante todo o dia, como se assim fosse virar realidade. Ela considerou as sugestões das amigas. Conversar ainda era a melhor opção, mas ao mesmo tempo não queria ter que perguntar. Certamente Shisui falaria se ela tivesse necessidade de saber, certo? Desse jeito, pareceria muito desesperada…
Sakura suspirou e tirou uma mecha de cabelo rosa que caia no rosto, colocando-a atrás da orelha. Não tinha jeito. Era perguntar e ficar sabendo ou simplesmente deixar para lá. Quem diria que relacionamentos assim seriam tão complicados?
Depois de pagarem pelo almoço, elas seguiram para o hospital, dando adeus para Tenten e Hinata–a última havia acabado de sair de seu próprio turno. Fizeram check-in na recepção e estavam prontas para seguir seus caminhos diferentes quando o som de saltos contra o piso ecoou pelo corredor quase vazio, chegando até elas.
Sakura olhou para cima a tempo de ver Ino estreitar os olhos a frente. Andando em direção a elas, uma mulher que parecia ser uns três anos mais velha, no máximo. Cabelos negros curvando-se levemente abaixo do queixo, mais curtos que os de Sakura. Olhos igualmente escuros as observavam com interesse mal disfarçado. A mulher era um pouco mais alta que as duas, provavelmente por causa dos saltos e, quando passou por elas, parecia olhá-las de cima, em desdém. Sua vestimenta toda escura era uma visão chamativa contra todo o branco do hospital.
"Yamanaka-san," ela cumprimentou Ino friamente ao passar, que ergueu o queixo em uma expressão séria. Sakura não perdeu a maneira como os olhos da mulher mudaram para a sua direção brevemente, ganhando um brilho diferente, e teve a impressão de que os lábios dela se ergueram um pouco nas laterais, no que parecia um sorriso arrogante.
"Uchiha-san." A voz de Ino alcançou seus ouvidos, educada, mas com uma nota condescendente, e Sakura sentiu seus olhos arregalarem um pouco. Uchiha? Engraçado como nunca havia visto essa pessoa antes, levando em conta que conhecia muitos Uchihas.
Quando já estava longe, ela se virou para a kunoichi ao seu lado. "Quem é aquela?"
Ino fez uma careta, guiando Sakura pelo braço até chegarem a uma porta familiar. "Uchiha Mai. Uma das primas de Sasuke-kun."
Sakura piscou, realmente surpresa de não conhecê-la nem de vista. Ela abriu a porta de sua sala, deixando aberta atrás dela para Ino entrar. "Como eu nunca ouvi falar dela antes? Ela parece próxima da nossa idade."
A kunoichi loira deu de ombros, mas sua expressão ainda era dura, como se o encontro tivesse sido indesejado. "Fique feliz, então. Eu sei que Uchihas geralmente são arrogantes e não amigáveis, mas aquela garota não é flor que se cheire."
Sakura assentiu, mas escolheu por não prolongar a conversa. Sua amiga parecia genuinamente chateada e quase irritável, o que era estranho. Havia sido apenas um cumprimento. Não teve nada demais. Quer dizer, se você escolhesse ignorar aquele olhar… o que Sakura prontamente fez. Mesmo assim, foi um olhar direcionado para ela e não para Ino.
Uchihas e suas manias.
Mais tarde, quando Shizune pediu sua ajuda com os mesmos históricos de clãs que havia examinado no dia do retorno de Shisui a Konoha, Sakura começou a desconfiar que algo de muito estranho estava acontecendo.
"O que exatamente Tsunade-sama pretende encontrar nisso?"
Sua senpai olhou para cima, longe da pilha de pastas na mesa em frente, uma expressão pensativa em seu rosto. "Ela deseja encontrar evidências suficiente de que a tradição de casar dentro do clã não possa mais ser válida."
A carranca em seu rosto se aprofundou enquanto olhava entre os papéis atualmente em suas mãos. "Que tipo de evidências ela quer que encontremos?"
Shizune lambeu os lábios e novamente focou olhos negros na médica mais nova. "Você sabe que quando falamos em casar dentro do clã significa preservar o kekkei-genkai puro." Sakura assentiu. Aquilo era um fato muito conhecido, mas não tão praticado, exceto por clãs mais tradicionais. Significava também casamento arranjado, mas não achava que isso vinha ao caso. "Mas o problema com essa prática é que os membros a se casarem são geralmente primos. Isso não é só estranho de ouvir, mas também significa que a criança dessa união tem grandes chances de nascer com complicações em nível genético, como tem acontecido em alguns casos mais recentes. O ponto é que esse número tem aumentado e Tsunade-sama acredita ser um enorme sacrifício em nome de uma tradição egoísta."
E realmente era. Preservar o kekkei-genkai puro quando, em qualquer união, as chances de crianças nascerem portando um byakugan ou sharingan, por exemplo, já eram imensas, era apenas um mero capricho, ao seu ver. Tsunade devia estar pensando nas mesmas linhas.
Infelizmente, passar essa linha de raciocínio para os líderes e também ao conselho de cada clã e fazê-los aceitar e mudar isso não parecia ser tão fácil, vendo que ainda estavam atrás de evidências.
Era por esse e outros motivos que assuntos políticos podiam ser muito delicados.
"Então, nós precisamos encontrar registros de recém-nascidos que foram comprometidos por essas uniões," Sakura concluiu baixo, quase falando para si mesma, enquanto redobrava seu vigor em encontrar algo. A maioria dos clãs eram muito cuidadosos em questão de deixar informações de seus membros–o que, algumas vezes, poderiam levar a suas habilidades–em lugares como o hospital, por exemplo. Mas mesmo assim era protocolo. Enquanto o paciente estivesse internado, ele era responsabilidade dos funcionários e da própria Hokage, e as condições de todos que entravam e saiam precisavam ser registradas.
"Aa," Shizune respondeu suavemente. "Com todas as avaliações que recém-nascidos são submetidos atualmente, é provável que exista algo registrado."
Depois de uma hora procurando e conseguindo menos do que imaginavam, Sakura alongou o pescoço, considerando algo que havia pensado há dois dias, mas que ainda não conseguira descobrir.
"O que levou Tsunade-sama a finalmente tentar resolver essa questão? É algo que vem acontecendo há algum tempo, afinal."
Shizune abaixou a cabeça até que fios negros encobrissem seu rosto e deu de ombros.
Imediatamente Sakura estreitou os olhos em suspeita. Isso era estranho. Shizune não só sabia de muitas, senão todas, as decisões que Tsunade tomava, como também não era de manter segredo com ela se não fosse algo que deveria ser secreto.
E isso claramente não era ou a Hokage nem tocaria no assunto em sua frente. E Shizune não pediria sua ajuda.
Então…
"O que está acontecendo aqui?" Sakura questionou em seu tom mais sério, enquanto levantava da mesa e se aproximava de Shizune, que hesitou em passar para a próxima página de uma pasta.
Algo passou por sua mente naquele momento. Ela olhou para a pasta atualmente na mesa de Shizune, então para a maioria em sua própria mesa, todas já examinadas. Todas elas tinham algo em comum que não havia percebido até aquele momento, quando viu um rosto infantil vagamente familiar na página aberta a sua frente.
Sakura franziu a testa. "Uchiha?"
Shizune levantou a cabeça tão rápido que de onde estava conseguiu ouvir o estalo. Olhos negros arregalados a olhavam em aflição.
"Tsunade-sama deve falar com você sobre isso," Shizune murmurou e prontamente voltou para sua tarefa, nervosamente virando a página.
"Por que tenho a sensação de que estamos apenas olhando registros de crianças Uchiha quando há outros clãs em Konoha que utilizam essa tradição?" Sakura demandou, tom de voz pesado com desconfiança.
Olhos verdes observaram olhos negros examinarem os documentos, mas pareciam nublados, como se não estivessem realmente lendo.
"Shizune?" ela chamou novamente, tentando manter a calma. "O que estão escondendo de mim? O que Tsunade-sama deveria me contar?"
Shizune finalmente a olhou nos olhos lentamente, mas diferente de antes estavam… tristes? Shizune parecia cansada, derrotada até, se seus ombros caídos e o canto dos lábios virados levemente para baixo fossem uma indicação. Isso só fez com que Sakura ficasse ainda mais preocupada.
Ela exalou e Sakura segurou a respiração.
"O conselho ancião do clã Uchiha acha que Shisui-san deve se casar. Eles já estão planejando isso." Shizune parou um pouco e olhou a expressão perplexa de Sakura, antes de balançar a cabeça tristemente e continuar, "Eu sinto muito, querida. Tsunade-sama está tentando fazer algo em relação a isso antes que tenham a chance." Ela apontou para as pastas ao redor delas em vão, pois a atenção de Sakura já estava em outro lugar.
