Nota somente no final do capítulo. :)

Naruto não me pertence, mas essa história e seus personagens originais, sim!

Boa leitura!


Obscuridão

Capítulo 2: Próximo a Nada

Inspira. Segura. Expira.

Sakura tentou regular seus passos em um esforço para andar mais como uma pessoa normal e não apenas sair correndo pelas ruas. Algumas pessoas já a olhavam de maneira estranha. Tinha quase certeza que se não seguisse os exercícios respiratórios que Tsunade havia ensinado, fumaça estaria saindo de seus ouvidos.

Isso era pior que quando tinha treze e Sasuke deixou Konoha para treinar com Kakashi sem dizer uma palavra a ela e Naruto.

Inspira. Segura. Expira.

Era a mesma pontada de traição. Naquela ocasião, ela só podia imaginar como Naruto havia se sentido; Sakura aceitando ou não, Naruto era mais próximo de Sasuke. Agora era diferente. Será que Naruto sentiu essa mesma dor? Agora Sakura estava no lugar de Naruto e Shisui era Sasuke; o problema era que Sakura ainda sentia-se como uma intrusa na situação.

Eles se conheciam pessoalmente a pouco mais de dois meses. Será que já tinha o direito de sentir-se traída?

Shisui não era mais o cara atraente, ligeiramente irritante, que a seguia em qualquer lugar, contradizendo suas decisões. Sim, tinha sido apenas dois meses, mas ele já era mais do que isso agora. Então sim, ela concluiu; tinha o direito.

Sakura desviou do caminho de um grupo de senhoras, sorrindo nervosamente quando uma delas a reconheceu do hospital, pulso acelerado e cabeça girando com pensamentos sobre o que tinha acabado de descobrir. Shizune disse que Tsunade saberia explicar melhor a situação, deixando-a correr para fora do hospital sem tentar segui-la. Inteligente da parte dela.

Iria até sua shishou, sim, mas simplesmente nada do que ela pudesse dizer-lhe mudaria a conclusão que teve assim que ouviu de Shizune.

Shisui estava escondendo algo. E sabe lá por quanto tempo agindo por suas costas.

Ela subiu as escadas da torre furiosamente, ignorando o assentir nervoso de Ebisu na recepção. O local parecia movimentado e só confirmou esse pensamento quando tentou entrar na sala de Tsunade e Kotetsu esticou um braço em sua direção com um "ei", tentando impedir a sua entrada, mas já era tarde demais.

Soltando a maçaneta e deixando a porta bater atrás de si, Sakura tinha uma demanda indignada pronta na ponta da língua quando olhou em direção a mesa de Tsunade e encontrou três pares de olhos negros observando-a curiosamente. Imediatamente seus lábios se fecharam e seu instinto foi de arregalar os olhos em surpresa, mas ela conseguiu controlar-se a tempo. Em vez disso, olhou para Tsunade que, diferente dos outros ocupantes da sala, a olhava quase em preocupação, provavelmente por sua entrada repentina e indelicada.

Inspira. Segura. Expira.

Também parecia ser o que a Godaime queria transmitir a ela com aquele olhar.

"Ah, Haruno-san." Um dos ocupantes da sala se dirigiu a ela. Sakura o reconheceu como um dos anciãos do clã Uchiha, mas não só isso. Ele tinha olhos ligeiramente puxados nos cantos externos, com longos cílios e um pequeno brilho divertido, que a lembrava muito de alguém que estava furiosa agora. O avô de Shisui. Ela o reconheceu de um dos aniversários de Sasuke. Estava acompanhado por sua prima, que também fazia parte do conselho de anciãos e, para seu espanto e apreensão–Uchiha Mai.

Entendia os anciãos, pois faziam parte do conselho, agora o que ela estava fazendo ali era um mistério.

Após alguns segundos perplexos de sua parte, Sakura finalmente forçou-se a falar alguma coisa. Ainda mais depois de receber um sorriso arrogante da suposta prima de Sasuke que quase a fez estreitar os olhos. "Uchiha-san." Como todos ali faziam parte da mesma família, ela olhou cada um rapidamente, recebendo alguns acenos de cabeça de volta, logo voltando a Tsunade. "Desculpe a intrusão, Tsunade-sama. Eu volto mais tarde."

"Não há necessidade disso, criança," a velha senhora respondeu, abanando uma mão enrugada em sua direção e levantando-se com um pouco de dificuldade. "Já acabamos aqui."

"Estou ansioso para ouvir o que tem a nos dizer, Hokage-sama," o avô de Shisui disse, seguindo sua prima e assentindo para Tsunade, que permaneceu séria, mas rolou os olhos discretamente quando ele se virou para Mai.

"Hokage-sama." Mai se curvou. Então, na direção da porta, Mai a olhou de cima a baixo, lábios finos esticando-se em um sorriso arrogante, como parecia ser sua marca. "Haruno."

Sakura ignorou isso, nem ao menos perguntando-se como Mai a conhecia, e fez questão de fechar a porta atrás deles. Tsunade respirou profundamente.

"Preciso de sake."

"Não agora." Sakura interrompeu o movimento que sua shishou já fazia em busca de uma garrafa, em uma das gavetas da mesa.

Tsunade arqueou uma sobrancelha e a observou impassível. Sakura tinha seus braços cruzados firmemente em frente ao peito e uma expressão um tanto quanto calma; uma que ela esperava transmitir seriedade. Seu rosto, normalmente pálido, estava aquecido; provavelmente havia adquirido um tom avermelhado, um sinal claro de sua agitação mal escondida.

Se sua entrada repentina anteriormente não tivesse sido uma indicação, então sua postura seria.

Tsunade, como se já antecipasse algo ruim, suspirou mais uma vez e fechou os olhos, seus dedos indo em direção às têmporas em uma massagem.

"Shizune te contou, não foi?"

A kunoichi exalou abruptamente e sua expressão tornou-se uma de indignação. "Por que eu sou a última a saber disso?"

Tsunade gemeu. "Isso é um assunto confidencial."

Essa resposta só a deixou mais agitada e ela colocou as palmas em cima da mesa, inclinando-se sobre ela, sem importar-se de estar agindo de maneira desrespeitosa. Olhos esmeralda brilhavam em fúria. "Por que eu sou a última envolvida a saber?"

"Eu estava prestes a te contar, mas queria ter algo mais concreto antes disso."

"Mais concreto que o meu suposto namorado sendo noivo de outra pessoa?'' Sakura questionou com sarcasmo, sua expressão mal escondendo o nojo que sentia. "Estou vendo agora que se não fosse por Shizune, eu provavelmente não ficaria sabendo!" Sua voz aumentou em volume e seus braços se abriram, gesticulando ao redor.

"Não, Sakura," Tsunade começou, olhando-a em frustração ao mesmo tempo que parecia tentar controlar seu temperamento, provavelmente com a grande falta de respeito que estava presenciando. Seus punhos flexionaram momentaneamente e Sakura, por um segundo, temeu que tivesse empurrado sua shishou a esse ponto, mas logo a raiva e o sentimento de traição que sentia tomaram conta de seu julgamento e cautela novamente. "Eu não te disse porque isso tudo era apenas uma possível ideia, para começar. Não foi até pouco tempo atrás que fiquei sabendo da resposta definitiva."

Com isso, Sakura sentiu a tensão em seu corpo aliviar um pouco, seus ombros caíram e sua expressão suavizou. Ela olhou para baixo, franzindo o cenho em pensamento após ver olhos cor de mel preocupados; a parte de Tsunade, além da postura rígida, que mostrava o que realmente estava pensando.

Sua raiva não era direcionada a Tsunade. Não era justo apenas descontar em qualquer um no caminho, menos ainda em quem sempre procurou ajudá-la com o que precisasse, sem pedir nada em troca. Mas… além de tudo isso, além de ser sua shishou e além do apego e de ocupar a posição de uma figura responsável por ela e por Shizune, Tsunade era a Godaime Hokage em primeiro lugar. Sua responsabilidade era com Konoha inteira antes de tudo, e isso incluía os clãs... Se alguma informação tivesse que ser confidencial, então, pelo bem e segurança da aldeia, para evitar conflitos, seria assim. Não havia nada que pudesse fazer em relação a isso.

Agora, sobre Shizune saber… Ela era a responsável pela pesquisa envolvendo casamentos dentro de clãs e Tsunade pretendia usar isso como um impedimento. Não precisava ser inteligente para entender o que havia acontecido nesse caso.

"Então a senhora tentou usar a pesquisa de Shizune como um motivo para esse casamento e todos os outros seguintes não acontecerem?"

"Planejo usar." Quando Sakura ergueu uma sobrancelha em questionamento, ela continuou, "Como eu disse, eles estavam aqui para me deixar saber que a decisão era de fazer o casamento acontecer." Sakura sentiu seu corpo inteiro enrijecer, sua respiração presa na garganta. Os lábios avermelhados de Tsunade afinaram. "Eu não pude vir à tona com a pesquisa e minhas ideias proibindo essa prática porque não temos evidências suficiente ainda. Mas teremos uma reunião em breve e pretendo apresentá-la lá."

Sakura mordeu o lábio, passando os braços ao seu redor, sentindo-se exposta e indefesa. A todo o tempo negando-se de construir qualquer tipo de esperança. "Quais são as chances de ter sucesso?"

Foi uma das poucas vezes em que viu a Hokage hesitar. Ela usualmente tinha uma solução para qualquer problema que fosse apresentado. Mas agora, presencia-la assim… fez sua garganta fechar-se, como se alguém tivesse dado um nó bem apertado.

Tsunade balançou a cabeça lentamente, cansada. "É difícil dizer. Você sabe como a política de clãs tradicionais não costuma ser flexível. E chega a ser pior com o Uchiha…"

Não precisava ouvir mais nada.

Sakura finalmente se deixou cair na cadeira em sua frente. Seus olhos ardiam, mas se recusava a deixar as lágrimas caírem. Não aqui. Não na frente da mulher que a ensinou a ser forte, de quem passou por coisas mais cruéis que isso...

Uma mão quente e suave caiu sobre a sua, apertando levemente. Seu peso reconfortante era um lembrete de que ainda estava ali.

"Desculpe não poder ser de grande ajuda."

Sakura abaixou a cabeça e balançou de um lado para o outro, não querendo ouvir a nota de derrota na voz de sua mentora. Se não havia algo que Senju Tsunade pudesse fazer, quem diria ela?

"Você e Shizune não precisam se desculpar. Não é culpa de vocês."

Tsunade apertou sua mão mais uma vez, mas permaneceu em silêncio.

"Eu sou tão estúpida!" Sakura declarou em indignação, com raiva de si mesma. "Como eu não pude perceber que isso poderia acontecer? Ele faz parte de um clã, era óbvio."

Seus olhos se levantaram a tempo de ver Tsunade balançar a cabeça negativamente. "Porque a maioria dos clãs não seguem mais essa tradição. Não se culpe; isso não é de forma alguma sua culpa."

Ela respirou fundo e assentiu, aceitando as palavras de Tsunade. O que fazer agora? Precisava falar com Shisui… mesmo estando em uma estranha batalha interior entre querer confrontá-lo e apenas esconder-se do resto do mundo. Mas mesmo assim, sabia que era algo inevitável. Ele a procuraria mais cedo ou mais tarde e, vendo como já estava de volta a Konoha, provavelmente seria mais cedo. Não queria ser pega desprevenida, mas era algo que não podia evitar.

A não ser que–

"Você deveria ir para casa," Tsunade recomendou em uma voz suave, ainda tentando confortá-la. "Eu posso designar outro médico para tomar o seu lugar."

Do lado de fora da grande janela atrás da mesa, as estrelas piscavam para ela em um céu escuro e sem muitas nuvens. Em seu momento de nervosismo, esqueceu completamente que ainda estava em seu turno no hospital. Voltar para casa agora poderia significar encontrar Shisui mais cedo que desejava e, nesse estado, não era uma boa ideia; pelo menos não se não quisesse socá-lo para o outro lado do País do Fogo.

Se fosse para sua outra casa, seus pais obviamente a questionariam. Eles a conheciam bem demais para saber quando algo não estava certo, mesmo com ela tentando esconder. Com suas amigas seria a mesma situação...

O hospital era sua melhor opção.

Então, negando a sugestão, ela sorriu hesitante e se levantou, trazendo sua mão consigo quando o rosto de Tsunade se tornou preocupado. "Distrair meus pensamentos com a rotina do hospital é o melhor que eu posso fazer agora." Tsunade parecia querer protestar, mas Sakura balançou a cabeça novamente, dessa vez sem sorrir. "Eu ficarei bem."

Com isso, ela saiu pela porta, repetindo seu mantra em sua mente para manter o controle e não apenas desabar.


A noite toda foi um borrão de movimento. Todas as suas tarefas haviam sido feitas em um transe e, por um tempo, não tinha nada para ocupar sua mente, apenas seu trabalho. Não foi até parar e preparar-se para deixar o hospital que a situação em que estava a atingiu com toda a força pela primeira vez.

Sakura não era uma pessoa que gostava de esticar as coisas. Sabia que precisava conversar com Shisui; algumas questões ainda eram um mistério. Há quanto tempo ele tinha conhecimento disso? Por que não disse nada? Se sabia há muito tempo, por que se aproximou dela? Dois meses… todo esse tempo, era bom demais para ser verdade.

E em todo esse tempo pequenas coisas começavam a fazer sentido em sua mente confusa. A maneira hesitante e evasiva dele enquanto conversavam sobre o súbito interesse de Tsunade em políticas de casamento de clãs… a maneira como evitou olhá-la nos olhos antes de ir encontrar Uchiha Fugaku… seu desaparecimento de alguns dias quando normalmente estaria sempre ao redor dela depois de uma longa missão… o porquê sempre ficavam na casa dela e nunca na dele...

Saindo para o sol da manhã, Sakura bocejou e tentou manter os olhos abertos. A caminhada do hospital até sua casa não era grande; pulando pelos telhados levaria menos de dez minutos. Essa manhã, porém, ela preferiu uma caminhada. Sentia-se tão sem energia que temia comprometer o controle de seu chakra se fosse da maneira ninja.

Após chegar em casa, sua prioridade era forçar-se a comer algo sólido. Não tinha vontade nenhuma de comer, mas sabia o quanto era necessário. Depois de alimentada, ela caiu na cama e olhou o teto de seu quarto, imóvel. Estava adormecida apenas segundos depois.

Não imaginava que horas seriam quando uma brisa mais fria passou pela janela do quarto, fazendo seus olhos piscarem hesitantes. Do lado de fora, o sol parecia mais fraco, como se estivesse perto de se pôr. Sakura levantou da cama em um pulo, espantada. Não podia ser. Não havia dormido tanto assim, havia?

Quando seu estômago roncou, longo e alto, sabia que tinha conseguido sua resposta.

Sakura limpou o vapor do espelho do banheiro minutos depois, escrutinando criticamente seu rosto. Pele sem cor alguma, olhos verdes opacos, sem o brilho que normalmente possuíam, círculos escuros forçando-se ao redor de seus olhos pela noite não dormida…

Ela suspirou e se afastou do espelho. Sentia uma estranha sensação dormente em seu peito. Era como se as últimas vinte e quatro horas não haviam acontecido, como se tivesse dormido durante dois dias e tido um sonho de muito mau gosto. Embora sua aparência mais cansada que o normal mostrava que seu problema não era apenas a falta de sono de um turno.

Pegando uma maçã em seu caminho para fora da cozinha, Sakura começou a arrumar objetos aleatórios em diferentes cômodos. Seu quarto, em particular, estava uma bagunça de quando saiu no dia anterior. A sensação desacreditada não a deixou mesmo quando estava calmamente arrumando a cama e juntando algumas roupas perdidas ao redor do quarto. Não encontrando mais nada para fazer em seu quarto, Sakura andou em direção a porta, pensando em cozinhar algo para o jantar, quando três batidas abafadas soaram na porta de entrada do apartamento.

Sakura congelou com a mão na maçaneta. Não estava esperando ninguém. Tinha quase certeza que não havia feito nenhum plano com Ino, Tenten e Hinata. As pessoas que importavam conheciam o cronograma de seus turnos no hospital e dificilmente alguma delas aparecia em sua casa logo após sair de um. Podia ser Shisui… e seu coração acelerou em ansiedade só de pensar. Shisui nunca batia. Nesses dois meses, ela não lembrava de já ter aberto a porta para ele. Geralmente ele se transportava dentro com o sharingan–motivo de muita repreensão por parte de Sakura pelo desperdício desnecessário de chakra e de seus olhos–com ocasionais entradas por alguma janela aberta.

Quem quer que fosse estava rapidamente ficando impaciente, pois as mesmas três batidas soaram novamente–um pouco mais altas dessa vez. Sakura fez uma careta em aborrecimento, mas andou em direção a sala de estar, ainda arrumando pequenas coisas no caminho. Quando abriu a porta, entretanto, seu aborrecimento foi substituído por um sentimento obscuro.

Shisui estava de pé no corredor, mãos nos bolsos e um ombro apoiado na moldura da porta. Sua expressão era tranquila, se não um pouco preguiçosa, como se não desconfiasse de nada acontecendo. Sakura apertou os dentes contra seu pulso acelerando de forma ridícula, inspirando profundamente. Não ajudou muito contra os horríveis sentimentos crescendo em seu peito com a visão de Shisui sorrindo como se tudo fosse lindo no mundo. Em vez de nada, agora estavam raiva, tristeza, traição…

Sakura apertou a maçaneta até ouvir um rangir baixo. Shisui ficou devidamente de pé e observou suas feições atentamente. "Pensei que ficaria mais surpresa por eu usar a porta pela primeira vez." Com seu silêncio contínuo, o sorriso nos lábios dele sumiu aos poucos enquanto uma sobrancelha negra se erguia, e ela deduziu que Shisui havia finalmente percebido que algo estava errado. Ele franziu o cenho. "Não vai me convidar para entrar?"

Ela automaticamente abriu mais a porta enquanto saia do caminho.

Shisui deu passos lentos para dentro, como se estivesse andando para a sua própria morte. Sakura fechou a porta silenciosamente.

"Então," ele começou cuidadosamente, virando-se para enfrentá-la. Sakura andou para perto do sofá, no centro da sala, mas continuou de pé. "Como foi sua noite no hospital?"

Seu olho esquerdo tremeu. Não pretendia ter essa conversa tão cedo. Sabia que voltar para casa daria chances para isso acontecer. Poderia tentar fingir que estava tudo bem, mas vendo seu atual humor… duvidava que conseguiria. A memória de Shizune enquanto contava sobre Shisui e seu futuro casamento repetia claramente inúmeras vezes em sua mente.

Sakura engoliu em seco. "Interessante." Nem reconhecia sua voz; baixa e rouca, como se outra pessoa falasse por si e ela apenas assistia a cena a uma distância. Ela cruzou os braços para esconder o tremor agora em suas mãos. "Eu descobri que você está noivo." Sua voz tremeu.

Quando essas palavras deixaram seus lábios, a realização da situação em que estava desabou sobre ela pela segunda vez. Shisui enrijeceu no lugar, um lampejo de surpresa passando por seus olhos. Seu rosto estava de repente mais sério e Sakura sentiu uma desagradável sensação em seu estômago quando ele não negou imediatamente.

Ele franziu o cenho. Ela mordeu o lábio em antecipação. "Quem te disse isso?"

Era provavelmente a pior coisa que ele poderia dizer quando sentiu raiva nublar seus olhos. "E isso importa?" Sakura perguntou, sentindo-se mais ela mesma, voz um pouco mais alta e clara. "Você vai explicar por que não me disse? Como tive que saber através de outras pessoas?"

Ela não conseguia acreditar que Shisui pretendia deixá-la no escuro por mais tempo…

Olhos negros a observaram por longos minutos e Sakura sentiu-se como um dos inimigos dele… era como se estivesse analisando o que ela faria quando recebesse uma resposta, e o que ele deveria falar ou não falar para evitar o pior.

Isso apenas a deixou mais irritada.

Shisui passou uma mão nos cabelos e suspirou. "Estou trabalhando nisso," ele disse misteriosamente.

Ela duvidava muito, pelo que Tsunade havia informado. Não existia nada para que ele pudesse trabalhar contra; o conselho já havia decidido. Sakura balançou a cabeça. "Só? E eu, Shisui? Eu realmente pensei que pudesse confiar em você."

"Só?" Shisui repetiu, sua voz incrédula. Ele se virou para a janela, mas então a olhou de soslaio, através de olhos estreitos. "Eu nunca disse que não poderia."

"Você demonstrou que não quando escondeu isso de mim," Sakura replicou amargamente, inconscientemente dando um passo em direção a ele. "Eu não tinha certeza sobre isso." Ela gesticulou entre eles e Shisui se virou por completo, olhando-a atentamente novamente. "Eu ouvi muitas coisas boas sobre você, e também ouvi algumas ruins. Algumas pessoas me disseram que eu deveria esquecer porque isso nunca daria certo. Agora você está me fazendo pensar que estavam certas."

Sua voz vacilou no final, com a sensação familiar de ardência em sua garganta. Isso não podia estar acontecendo.

Mas os olhos dele apenas endureceram. "O que você quer que eu diga?" Shisui questionou, sua voz nem um pouco mais suave. "Estou bem ciente do que algumas pessoas pensam de mim, posso te garantir, mas isso é diferente. É política, Sakura; eu ando em uma linha estreita e você sabe disso." Ele respirou fundo, passando uma mão agitada em fios negros. "Você não tem permissão para saber da maioria das coisas que acontecem dentro do clã. E eu não posso fazer muito em relação a isso."

Toda essa explicação não deixou a situação menos ruim, apenas deixou claro que tudo o que ouviu era realmente verdade… Sakura não sabia o que esperava. Tsunade havia acabado de acertar tudo com os anciãos, sem dúvida porque não tinha nenhum motivo para negar ainda, e aqui estava ela, tentando arrancar algo de Shisui que não existia…

Shisui não fazia esforço nenhum em esclarecer, o que só piorava tudo. Era política do clã, mas ela estava envolvida nisso; ao seu ver, merecia saber. E nada do que Shisui pudesse dizer agora mudaria o fato de que tudo isso poderia ter sido evitado se ele tivesse apenas revelado para ela.

"E o que você planejava fazer?" Sakura questionou incrédula. "Quando iria me dizer? Quando já estivesse casado?" Olhos esmeralda estreitaram. "Por que você não me contou? Por que não terminou?"

Uma das questões fez com que um músculo saltasse na mandíbula dele. Sakura o viu desviar os olhos dos seus discretamente, como se estivesse pensando em algo. Depois de vários momentos, Shisui se encostou na parede atrás dele exalando longamente, levando uma mão a nuca enquanto olhava para o teto, finalmente respondendo, "Eu pensei que pudesse dar um jeito. Nunca imaginei que fossem fundo com isso."

Vendo-o assim, aparentemente cansado, sem o usual brilho no olhar, a fazia pensar no quanto essa situação era séria. Mesmo assim, por mais que tentasse, não conseguia parar de pensar em como ele escondeu a verdade dela, fazendo-a parecer uma pobre garotinha inocente para quem sabia o que realmente estava acontecendo.

Ela engoliu, sentindo sua garganta seca arder ainda mais. Conhecia muito bem essa sensação. Estava prestes a chorar. Mais uma vez. Chorar por alguém que não merecia.

Não tinha dúvidas em sua mente do que deveria ser feito agora. Como poderia ter? Shisui iria casar. Casar. Onde estava com a cabeça quando achou que isso seria uma boa ideia? A dor presente em seu peito a fazia lembrar exatamente por que não queria envolver-se em primeiro lugar. Agora era tarde demais para arrepender-se.

Sakura respirou fundo e olhou para a face pálida de Shisui, seu coração batendo tão forte que parecia que estava prestes a deixar seu peito. "Claramente não funcionou do jeito que você esperava," ela respondeu baixo, dando as costas para ele e forçando suas unhas na palma da mão para focar na dor e não nas lágrimas embaçando seus olhos, esperando para cair. "Vá embora."

O silêncio tenso que se prosseguiu era ensurdecedor. Shisui não havia se movido de sua posição encostada na parede, mas a realização das palavras ainda pairava no ar. Era apenas uma questão de tempo.

Então um leve som de roupas mexendo atrás dela.

"É isso?" O som rouco da voz dele estava mais perto que antes. Sakura se recusava a olhar naqueles olhos. "Eu venho aqui, ouço o que você tem a dizer, mas quando é minha vez de tentar esclarecer tudo você me manda embora?" Shisui argumentou furiosamente, sua voz atingindo alguns níveis mais altos na agitação.

Sakura se virou para encará-lo–mais por uma reação de espanto pelo tom. Sua expressão era impassível, mas seus olhos brilhavam com irritação. A única vez que viu Shisui próximo a isso foi quando Sai, em meio a uma de suas questões impertinentes, a chamou de feiosa–seu antigo 'apelido'. Naquela ocasião, Shisui ainda não conhecia os maneirismos de Sai e ficou pessoalmente ofendido. Além disso, nunca o viu tão irritado; principalmente com ela como motivo.

"É o que precisa ser feito, Shisui. V-você... você estará casado em breve..." A voz dela tremeu e Shisui estreitou os olhos perigosamente, ativando seu sharingan como consequência do que estava sentindo. Sakura franziu o cenho, sentindo sua cabeça progressivamente voltar a doer, e desviou o olhar. "E você não esclareceu nada! Até agora eu estou esperando respostas e você só continua dizendo que eu não deveria saber de nada…" ela parou abruptamente, respirando de forma trêmula. "Eu não consigo esquecer como você mentiu para mim."

Todo o corpo de Shisui tencionou e suas mãos se fecharam em punhos; no entanto, ele não se moveu. Mesmo assim Sakura tinha certeza de que a aura dele podia ser sentida a todo o caminho até a sala de Tsunade.

Perto, mas não tão perto que poderia tocá-lo se quisesse. Essa distância falava volumes.

"Então você quer terminar comigo? ele questionou duramente, sem olhá-la. "E pensa que está tudo bem por mim?"

"Não importa se está ou não porque é o que eu quero." Sakura teve a certeza de que sua voz soaria alta, mas, apesar de ter soado dura como a dele, parecia faltar convicção. Shisui não parecia ter notado. "Você deveria ter pensado nisso quando decidiu esconder tudo de mim. Se não está pronto para realmente esclarecer as coisas, então você nem deveria estar aqui."

Sakura estava um pouco chocada com o que havia acabado de dizer, mas o efeito foi imediato. Ele se afastou dela ainda mais, quase rodeando a pequena sala para sair pela porta, extremamente sério, com fios de cabelo caindo em sua testa. Olhos sharingan eram intensos e não abandonaram os dela até passar por ela e sair, batendo a porta com força no caminho.

Sakura engoliu em seco, sentindo seus lábios tremerem. Ainda estava plantada no mesmo lugar minutos depois de Shisui ter partido e só percebeu que as lágrimas finalmente caiam de seus olhos quando uma delas atingiu seu pé descalço.

Suas mãos tremiam ao trazê-las ao seu rosto. Realmente havia feito isso? Parecia inacreditável. Nada do que aconteceu parecia real… era como um sonho particularmente ruim, um que não tinha nenhuma esperança de que acordaria. O rosto incrédulo e furioso de Shisui era a única imagem fixada em sua mente.

Acabou.

Ela sentou no chão, ainda cobrindo o rosto quando começou a soluçar.

Estava acabado.


Dormir era a única coisa que queria fazer. Só assim, pelo menos, não precisaria pensar.

O hospital estava com o mesmo movimento tranquilo e por isso ela estava agradecida. Desse jeito não precisaria sair de sua sala e olhar para as pessoas com o rosto inchado de chorar, ainda mais quando seus olhos ainda pareciam vermelhos.

Um suspiro trêmulo deixou seus lábios pela centésima vez naquela manhã–uma tentativa falha de controlar-se e focar no que estava fazendo. Por mais que tentasse, o rosto dele e toda a conversa que tiveram há duas noites ainda apareciam vividamente em seus pensamentos.

Não acredito que está acontecendo de novo.

Primeiro Sasuke, agora Shisui. Quão irônico. Ambos da mesma família.

Com Sasuke sabia que a única a culpar era ela mesma, pois ele nunca havia dado esperança. Era apenas um sonho seu, uma fantasia criada por sua imaginação; com a realidade sendo bem diferente. Com Shisui também, de um certo modo, se fosse honesta consigo mesma. Ele mentiu para ela, sim, mas nada disso teria acontecido se tivesse evitado as investidas dele como pretendia fazer desde o início.

Isso é o que acontece quando você abaixa a guarda…

Batidas soaram na porta e Sakura xingou mentalmente a hora ruim. Esfregando o rosto com o dorso da mão para ter certeza que não havia nenhuma lágrima perdida, ela levantou e andou até a porta.

Do outro lado, Uchiha Mai esperava, sorrindo de uma forma estranhamente doce. Um sorriso que parecia forçado. Suas roupas estavam impecáveis, sem nenhum vinco à vista; sua pele clara e suave, como se tivesse tido todo o sono do mundo sem ser perturbada; e a parte frontal de seu cabelo presa para trás em duas tranças. Sakura olhou para si mesma discretamente. Jaleco fechado na frente para esconder que havia dormido com as mesmas roupas que usava no dia anterior e não teve tempo de trocar porque acordou atrasada; olheiras, apesar do quanto havia dormido; e cabelos embaraçados, presos em um rabo de cavalo na nuca, com um elástico...

"Sim?" Sakura tentou manter seu tom e expressão neutros e profissionais. Não a conhecia direito, mas havia escolhido aceitar a palavra de Ino sobre ela, sabendo que sua amiga estava sempre certa em seu julgamento das pessoas.

...quase sempre.

Mai ergueu uma sobrancelha e Sakura escolheu ignorar o rápido movimento que olhos negros fizeram, analisando sua aparência. "Shizune-san disse que você poderia fazer a atualização da minha ficha médica." Sua mão pálida erguia alguns papéis.

Era só o que faltava. Ela queria gemer. "Tudo bem. Entre, por favor."

Mai escolheu um assento do outro lado da mesa enquanto Sakura andou até o arquivo, torcendo para que a ficha realmente estivesse arquivada ali. Quando seus dedos a encontraram, a kunoichi voltou para a mesa, caneta preparada na mão enquanto olhava sua companhia de maneira expectante.

"Seu rosto está um pouco diferente hoje," Mai comentou suavemente ao entregar os papéis em sua mão. Quando Sakura poupou um olhar para cima, ela inspecionava suas unhas, como se não se importasse com a resposta.

Sakura evitou de virar os olhos e voltou aos papéis. "Não dormi bem." De certa forma.

"Hmm," Mai respondeu e permaneceu quieta por vários momentos, apenas o som dos golpes de caneta contra a ficha preenchia o silêncio.

Sakura fazia seu trabalho instintivamente. Desse jeito era melhor. Não só ignorava a pessoa em sua frente e suas atitudes estranhas e rudes sem motivo aparente, mas como também não pensava em seus próprios problemas.

Infelizmente não pôde permanecer assim por muito tempo.

"Sabe, é engraçado," Mai começou falando novamente, apoiando um braço na mesa enquanto o outro segurava seu queixo. "Eu ouvi um rumor ridículo ao redor da aldeia." Ela riu e Sakura sentiu seus ombros enrijecerem, torcendo para que não fosse o que estava pensando. Por favor, tudo menos isso. "Algumas pessoas realmente parecem ter a impressão de que você e Shisui-kun estão juntos!"

Sakura parou de escrever nesse momento, a única indicação de que prestava a atenção na conversa. O que deveria fazer agora? Esse rumor foi verdade por um tempo, mesmo que eles não tenham deixado nada oficial. Apenas sabiam que estavam juntos, como um acordo não dito. O que as outras pessoas pensavam ou comentavam não era importante.

Mas agora não estavam mais. E o que faria? Diria que era verdade? Que estavam, mas já haviam terminado?

Ela respondeu sem pensar muito, sorrindo levemente, com um ar que tinha esperanças de que fosse sem preocupação–provavelmente terminou parecendo vazio. Completou o ato rolando os olhos, a mentira deslizando facilmente por seus lábios. "Sério? Shisui-san e eu? Algumas pessoas têm muita imaginação."

Mai a observava fixamente e Sakura não sabia dizer se havia acreditado ou não.

"Foi o que eu pensei inicialmente, mas agora," seu rosto ficou mais sério enquanto inclinava a cabeça, fazendo-a parecer mais velha que realmente era, "acho que não."

O tom de voz descontraído sumiu inteiramente, dando lugar a um som mais frio, mais perverso–mais Uchiha. Sakura estreitou os olhos, a verdadeira situação clicando em sua mente. Ela se esticou por completo em seu assento, enfrentando a kunoichi a sua frente, seus ombros agora retos e tensos. "Shizune não te mandou, não foi?" Sakura questionou, sua expressão voltando a neutralidade de antes. O que essa mulher realmente queria aqui?

Mai não confirmou nem negou. "Qualquer tipo de relacionamento insignificante que existia entre vocês acaba aqui." Ela inclinou a cabeça novamente, fazendo seus curtos fios negros tocarem o ombro. Então sorriu arrogante, com um pouco dos dentes aparecendo. "Eu não sei se você ouviu, mas eu sou a noiva de Shisui."

O tempo parecia parar por um momento enquanto prendia sua respiração. A voz de Mai ecoava em sua mente, repetindo a mesma frase várias vezes. No fundo de sua consciência, Sakura sabia que deveria responder; ela está esperando, a pequena voz dizia, não a deixe se livrar assim.

Mas por mais que tentasse, nada vinha à memória. Seu coração batia desesperadamente em seu peito. Não era grande coisa. Ela sabia que Shisui já estava comprometido. Mas, por algum motivo, conhecer essa pessoa fazia tudo ficar muito pior–mais real.

É claro. Era por isso que Mai estava na sala de Tsunade com os anciãos do clã Uchiha. Era algo tão óbvio, mas que Sakura falhou em conectar os pontos em seu estado agitado.

Olhos esmeralda desfocados pegaram o vislumbre do reflexo da hitai-ate presa ao pescoço da outra mulher em sua sala, fazendo-a soltar sua respiração em um suspiro longo e trêmulo. Mai fingiu uma expressão triste, com uma mão tocando o peito.

"Não fique tão pálida, pequena Sakura. É claro que você não acreditava que Shisui ficaria com alguém como você, não é?" Sua voz era um tom tão doce e falso ao mesmo tempo que Sakura sentiu que poderia vomitar.

Alguém como você. Alguém de um clã insignificante. Alguém sem algum talento natural, kekkei-genkai ou até mesmo uma besta com cauda selada em seu corpo. Isso costumava importar muito quando eram crianças, mas o tempo passou e fez com que ela começasse a enxergar, afinal, existiam tantos excelentes shinobis e kunoichis que não tinham nada de especial além de sua própria força de vontade.

Rock Lee, Tenten, ela própria.

Essa mulher era absolutamente má.

Sakura levantou da cadeira abruptamente, o que pareceu assustar Mai por um segundo, mas ela conseguiu encobrir a tempo, erguendo uma sobrancelha em zombaria. Deixando os papéis em cima da mesa, sabendo que eles não importavam de qualquer jeito, ela andou até a porta e a abriu por completo, parando ao lado com o queixo erguido.

"Eu tenho coisas mais importantes a fazer que isso, então, se não for muito incômodo," ela disse calmamente. Uma mão gesticulou para o corredor ao lado de fora.

Sakura ouviu o som de saltos aproximando-se. Quando Mai passou pela entrada, ela seguiu, puxando a porta atrás de si.

"A propósito," Sakura disse firmemente, ganhando a atenção de Mai, que se virou com uma carranca marcando seu rosto. "Parabéns pelo noivado." Seu tom era frio e Mai sorriu em escárnio. Antes que pudesse ouvir uma resposta, Sakura fechou a porta prontamente, sentindo sua cabeça girar, como se estivesse prestes a realmente vomitar dessa vez.

Esse dia não poderia ficar pior.


Por favor, não me matem! hahaha