Chegamos na metade da história! Mas ainda tem muita coisa para acontecer. ;)

Além disso, estava olhando pelos meus documentos e achei uma história (Shisaku, claramente) que comecei a escrever junto com Obscuridão, mas acabei esquecendo dela por algum motivo. Eu acho que tem potencial como uma longa one-shot, ou com alguns poucos capítulos, e estava pensando em terminar de escrevê-la (depois de escrever o capítulo dez de Obscuridão, é claro) e postá-la. O que acham? Vamos ver o que eu consigo criar.

Naruto não me pertence, mas essa história e seus personagens originais, sim!

Boa leitura!


Obscuridão

Capítulo 5: Sorriso Falso

Apenas a luz do luar iluminava o caminho do beco escuro e desabitado por onde Sakura andava, seus passos ecoando com o som que seus saltos faziam ao tocar o pavimento. De onde estava, conseguia enxergar o prédio de Kaito e a luz acesa na janela do apartamento. Eles haviam combinado de se encontrarem em cinco minutos; estava exatamente na hora.

Dias se passaram desde o momento no hospital (como se referia em sua mente). Apesar do tempo, seu cérebro continuava repassando toda a cena várias e várias vezes. Sakura havia dado um passo à frente, mas agora sentia como se tivesse retraído com dois; e parte disso era sua própria culpa.

Ela estava aliviada por ter esclarecido questões que, antes daquele dia, ainda estavam nubladas em sua mente; por outro lado, saber dos fatos não ajudou em nada com seus sentimentos. O buraco que havia se formado dentro de si quando descobriu tudo da boca de Tsunade estava mais profundo agora. Tudo havia se tornado mais complicado, em troca deixando-a confusa.

Shisui ainda precisava buscar a máscara ANBU com ela, algo que Sakura tinha certeza ser de extrema importância. A sensação de desinteresse que deixava transparecer com a falta da presença dele mostrava que Shisui não tinha missões previstas e isso, na verdade, a apavorava. Shisui em casa por muito tempo poderia significar más notícias em relação ao noivado.

Por hora, era claro que Shisui a evitava. Sakura não podia culpá-lo depois do que aconteceu–ou quase aconteceu–entre eles. Ela mesma, apesar de estar preocupada com o que a ausência dele poderia significar, não estava ansiosa para encontrá-lo. Sakura não sabia se sentia-se arrependida ou não pela decisão que tomou naquele momento.

Seus passos ficaram pesados, fazendo o som de seus sapatos ficar ainda mais alto. Ela atravessou a rua rapidamente, parando na entrada do apartamento em que Kaito e seus companheiros estavam hospedados.

Sakura nunca achou que fosse dizer isso, mas esses dias em que passou ocupada com Kaito realmente a ajudaram a distrair sua mente de tudo isso. Apesar de ainda estar presente nas profundezas de seus pensamentos e vez ou outra ressurgir, era bom dar um tempo. Essa noite não seria diferente, certamente.

A reunião entre os clãs de Konoha era algo que acontecia com uma certa frequência. Sakura se lembrava de quando tomou conhecimento desse evento, assim que começou seu treinamento com Tsunade. Ela achou que fosse algo estranho a se fazer e não via um propósito, a princípio; apenas uma ocasião para alguns anciãos de conselhos de clãs vangloriar-se para a Hokage e os outros. Mas então, com o passar dos anos e o conhecimento que foi adquirindo, Sakura conseguia entender onde Tsunade queria chegar.

Funcionava como uma forma de atualização, pois cada clã tinha uma responsabilidade em Konoha, como o clã Uchiha e a força policial. Também servia para Tsunade manter um olhar sobre cada clã, o que pretendiam realizar, suas políticas e tradições, ou uma possível mudança, e o quanto esses tópicos afetavam Konoha.

Em poucas palavras, Tsunade estava tentando mantê-los em uma rédea; tudo o que faziam devia passar por ela. Ou pelo menos esse era o seu entendimento.

Não era sempre que Sakura participava dessas reuniões e o motivo principal era porque não fazia parte de nenhum desses clãs em particular. Às vezes ia como suporte à Tsunade; sua mentora tinha muito com o que lidar sem contar com mais esse 'bônus'. Mesmo assim, geralmente quem a ajudava com assuntos relacionados a clãs e política era Shizune.

De um modo geral, essas reuniões eram limitadas apenas para os clãs envolvidos; dessa vez, no entanto, seria uma exceção–e tinha Kaito para culpar. Como havia ficado responsável por mostrar Konoha a ele, reuniões e festas mais formais faziam parte da missão. Sakura pensava que isso tinha mais a ver com a chance de conhecer moças integrantes desses clãs que poderiam estar presentes que qualquer outra coisa.

Ela não gostava da ideia de usar seu conhecimento e influência–que não sabia que exercia–para isso, mas era uma missão. Tsunade contava com ela.

Mas Kaito ainda tinha que tocar no assunto, o que só a deixava mais desconfiada. Isso só fazia uma das primeiras impressões que teve dele tornar-se mais provável de ser verdadeira. Talvez ele não estivesse realmente interessado nisso; talvez só estivesse em Konoha para satisfazer a vontade do pai. Se realmente fosse por esse caminho, só tornaria seu trabalho mais difícil. Era em tempos assim que se arrependia de ser uma pessoa tão próxima e de confiança da Hokage.

Sakura suspirou enquanto subia as escadas até o andar correto. Não tinha como voltar atrás agora. Mesmo assim, desejava que pudesse. Ter que fazer isso já era ruim o suficiente sem contar com a possibilidade de encontrar Shisui, especialmente depois do momento que tiveram há algumas noites, ela não podia deixar de lembrar amargamente.

Quando finalmente chegou no andar de Kaito, Sakura se deparou com o alto espelho pendurado na parede, no fim do corredor. Ela ficou ereta e avaliou sua aparência com pouco interesse. Vestido vermelho, modesto em suas mangas longas; fios rosados presos em um coque, com mechas emoldurando seu rosto; e simples saltos pretos. Arrumada, mas não tanto. Não costumava ir para eventos assim, envolvendo relações tradicionais, mas imaginou que o que estava usando seria adequado. Era apenas uma reunião, afinal.

Ela ignorou seu reflexo, assentiu para os guardas parados no corredor e bateu na porta, que foi aberta poucos momentos depois. O secretário do daimio, Ichiro-san, atendeu, inclinando a cabeça parcialmente grisalha em direção a ela em um cumprimento educado.

"Boa noite, Sakura-san. Pode apenas esperar um pouco aqui? Estaremos prontos para ir em um minuto."

"Certo." Sakura sorriu o mais graciosamente que podia.

O homem retornou o sorriso, o que fez com que seus olhos escuros, já pequenos, se fechassem ainda mais. Ele fechou a porta levemente, deixando-a plantada no corredor, e não pela primeira vez naquela noite, ela pensou que poderia estar fazendo algo melhor e mais produtivo com seu tempo.

Um suspiro. Só eu e minha sorte, que anda muito ruim ultimamente.

Minutos depois, quando finalmente chegaram ao local do evento, que seria ao ar livre, no topo da torre, Sakura estava um pouco surpresa. O lugar estava mais cheio que se lembrava de ser, com mesas de diversas comidas, lanternas acesas mais ao alto e, apesar de alguns membros mais velhos manterem a tradição e usarem kimonos, roupas elegantes e mais modernas. Do topo da escadaria onde estava, Sakura conseguia ver um grupo de pessoas que sabia ser do clã Yamanaka conversando bem ao lado; Tsunade próxima a uma das mesas, aparentemente em uma conversa séria com Hyuuga Hiashi; e Uchihas apoiando-se nos trilhos de ferro que rodeavam o terraço (ela desviou o olhar rapidamente ao vê-los).

Sakura olhou a si mesma. Mais cedo estava temerosa de sua vestimenta ser um pouco demais para apenas uma reunião e não ajudava que não tinha Ino para ajudá-la com essas coisas, pois a kunoichi loira tinha seus próprios problemas com isso. Mas, ao final de tudo, a reunião estava mais para uma festa e o que vestia era decente para essa ocasião–se não até um pouco simples.

Fazendo uma careta com o pensamento, Sakura ficou surpresa no segundo seguinte ao encontrar uma cabeça de cabelos loiros que conhecia muito bem. O lugar estava cheio e ela não tentou impedir os outros membros da caravana quando a maioria deles se distanciou de seu pequeno grupo. Ino acenou do outro lado do terraço, andando na direção deles em seguida. Quase tinha esquecido que Kaito, usando um kimono com a aparência mais cara que já havia visto, ainda estava ao seu lado até ele questioná-la, "Conhece aquela moça?"

"Sim." Ino se aproximava, vestida em um lindo vestido azul bebê que combinava com seus olhos, mas destacava a cor de seus cabelos, que continuavam amarrados no alto rabo de cavalo usual. "Ela é uma amiga minha. Do clã Yamanaka."

"Hmm," Kaito murmurou contemplativamente. Sakura aproveitou a proximidade para observá-lo criticamente pelo canto do olho. Ele ainda assistia Ino aproximando-se, o olhar também era crítico e ela percebeu que ele estava avaliando-a.

Como uma possível noiva.

Havia apenas esquecido de avisá-lo que Ino já era comprometida.

"Ei," Ino cumprimentou com um bonito sorriso, olhando entre eles com interesse. "Eu não sabia que você estaria aqui," ela comentou com Sakura, antes de dar sua inteira atenção ao jovem ao lado dela, um brilho curioso no olhar. "E quem é esse?"

"Não queria atrapalhar nada. Sei como essa reunião é meio que importante para vocês," Sakura explicou, vendo Ino erguer uma sobrancelha. Kaito erguia uma mão em direção a sua amiga para cumprimentá-la, como parecia ser um hábito dele. "Esse é Kaito, o filho do daimio. Kaito-san, essa é Ino; próxima na linha de líderes do clã Yamanaka."

Ele parecia impressionado com o pedaço de informação. Ino sorriu novamente, mas logo em seguida se desculpou ao ouvir seu nome sendo chamado.

Enquanto a kunoichi loira andava para longe deles, Sakura olhou de lado para Kaito novamente. "Ela já é comprometida."

"Oh. Eu suponho," ele respondeu, olhando para Ino, ainda sim sem parecer que estava realmente triste por causa disso. "É um desperdício, no entanto. Ela parece ser interessante. Quem é ele?"

Sakura sorriu suavemente. "Sai."

"Oh?" Kaito disse, olhos azuis alargando-se um pouco. "Seu companheiro de equipe?"

"Sim."

Depois disso, Kaito foi rápido em enturmar-se. Já tinha um copo na mão quando começou a andar ao redor, trocando assunto com alguns dos anciãos e líderes de clãs, ao mesmo tempo olhando para jovens com uma expressão não muito diferente da que possuía quando falou com Ino.

Sakura achou melhor manter sua distância. Não sabia exatamente por que Tsunade deu essa tarefa a ela, sendo que era visível que ele não precisava de nenhuma ajuda em conhecer mulheres.

Depois da apresentação inicial, Sakura o seguiu até a grande mesa no centro do local, guardando o banquete.

Alguns minutos depois e ela já estava quase completamente entediada.

Ele está levando a comida muito a sério.

Sakura tomou um gole de seu chá calmamente enquanto observava seu protegido. Não estava realmente com fome–ainda mais presenciando-o colocar um pouco de quase tudo no prato, como se não comesse há dias.

"Isso é muito bom," Kaito comentou, gesticulando com um palito de dangos pela metade na mão, em meio a uma boca cheia. Sakura franziu o nariz. Ele não era, supostamente, realeza? "Não fazem desse jeito em casa."

Ele então chamou seu cozinheiro particular, com o rosto franzido, e procedeu em detalhar o sabor avidamente, inclusive ofereceu um dos doces redondos para que ele pudesse provar, esperando que o pobre homem desvendasse os ingredientes usados. Vendo isso de soslaio, Sakura se afastou um pouco, olhando a decoração do terraço da torre. Periodicamente seus olhos se voltavam para Kaito e sua caravana, só para ter certeza de que estava tudo certo.

Um bom olhar em volta e Sakura viu Ino novamente, acenando do espaço em que estava com o grupo de Yamanakas que havia avistado mais cedo. Sakura olhou na mesma direção em que Ino acenava, do outro lado do local, e viu Hinata fazer o mesmo; um homem alto, de cabelos curtos e claros––exatamente ao lado dela, como Tenten havia mencionado, deu um assentir educado de volta. Mais perto da mesa estava Shizune, em uma conversa aparentemente séria com um ancião Hyuuga. No lado esquerdo, quase a sua frente, perto dos trilhos rodeando o local, Tsunade estava de pé, um copo de sake na mão, e tentando em vão dispersar o grupo que havia se formado ao redor dela.

Kaito encontrou seu olhar e sorriu astutamente. Sakura mal sentiu seus lábios se erguerem em resposta e distantemente ela percebeu um cenho marcando as feições dele.

"Ele ordena pessoas. Interessante."

A sentença que a tirou de seu devaneio havia sido dita em um tom baixo, entediado e definitivamente não impressionado. Desdenhoso. Aquela voz apenas a fez lembrar de momentos passados, mas ainda muito recentes, e Sakura sentiu um arrepio passar por sua pele.

Não podia negar que sua primeira reação foi de congelar no lugar. Por um breve momento de distração, tinha esquecido desse pequeno detalhe. Era uma reunião de clãs; claro que ele estaria aqui. Ela forçou a leve surpresa para longe, no entanto. Não daria demonstrar o que estava sentindo e o efeito que tinha nela. Já tinha feito muito disso.

Sakura sabia do que Shisui estava falando. Ou melhor, de quem. Kaito realmente estava dando ordens aos seus empregados, mas fazia da forma mais educada e respeitosa possível, como parecia seu normal. Nesses dias em que ficou responsável por mostrar todas as coisas boas que haviam em Konoha, Sakura teve a oportunidade de presenciar a personalidade de Kaito de perto; e rapidamente percebeu que ele era uma boa pessoa, mostrando-a que estava completamente errada com o que imaginou que ele seria. Mas claramente Shisui pretendia como um insulto.

Sakura olhou por cima do ombro. Shisui estava logo atrás dela, mostrando um grande interesse na comida, mas desinteressado para todo o resto que poderia estar acontecendo ao redor dele. Ele não estava fazendo isso para ela, no entanto, mas sim para todos ao redor pensarem isso.

Não podia nem ser visto perto dela.

Aquilo doía. Ela voltou a observar Kaito e o restante da caravana, engolindo em seco e sentindo a necessidade de defendê-lo, pois sabia que não era o que parecia.

"Ele não é desse jeito," ela sussurrou de volta, sabendo que estava certa, mas ao mesmo tempo pensando que isso poderia ser transmitido de maneira errada. "Na verdade é bem gentil."

"Faz parte de uma família poderosa do País do Fogo…" ele continuou ditando características, como se não tivesse ouvido nada do que ela havia falado. Sakura o olhou de lado. Shisui estava usando uma camisa preta com mangas compridas, abotoada na frente. Seus cabelos, normalmente com aparência de que não se importava o bastante para arrumá-los, estavam alinhados para trás, como se tivesse penteado. Ele ainda não olhava na direção de Kaito, como se não valesse a pena. "Não parece muito o seu tipo."

Sakura franziu o cenho e se virou para ele, colocando sua xícara de chá na mesa. Shisui continuou com a atenção focada na comida, no entanto, uma mecha ondulada caindo em seu rosto impassível. "E ele não é. Onde você quer chegar com isso?" Ela lambeu os lábios e cruzou os braços, inclinando-se para frente para ser melhor ouvida através de sua voz sussurrada. "Isso é sobre a outra noite? Você quer se vingar de mim ou algo assim?"

Olhos negros estreitaram. Quando finalmente olhou para ela, Shisui parecia desacreditado que estava recebendo esse tipo de pergunta. "Eu nunca faria isso com você. Agora, eu não tenho certeza se o sentimento é recíproco."

O quê? "O que você está insinuando?"

A expressão dele era severa e pensativa ao mesmo tempo, mas ele ainda escolheu por não responder. Sakura estava confusa, se fosse ser sincera. Onde exatamente Shisui queria chegar, dizendo aquelas coisas sobre Kaito e questionando-a sobre seus sentimentos? Certamente não queria dizer…

"Shisui." A voz profunda de Uchiha Fugaku a tirou de seus pensamentos e Shisui perdeu o interesse nela em favor de dar atenção a seu tio. Entretanto nenhum deles disse algo a mais; apenas se entreolharam até os olhos frios de Fugaku caírem sobre ela, lábios inclinados para baixo, e Sakura teve a estranha sensação de estar sendo avaliada criticamente. Pelo que, ela não tinha a mínima ideia.

Shisui continuava a ignorá-la, com seu rosto direcionado a frente determinadamente, onde seu tio estava. Quando o silêncio se estendeu vergonhosamente, Sakura pegou a deixa e se removeu da presença deles. Não precisava necessariamente estar ao redor de Kaito o tempo inteiro, especialmente hoje, nessa confraternização. Ela não tinha certeza se havia avistado Ino novamente ou se era apenas uma de suas primas, mas agora não conseguia ver ninguém conhecido. Então decidiu aproveitar o momento sozinha e dar uma volta ao redor.


"O que há com você e esse sorriso falso de hoje?"

A voz de Kaito quase a fez pular de susto, mas ela segurou com mais firmeza o trilho de ferro que rodeava todo o lugar. Nem dez minutos haviam se passado desde que saiu da presença de Shisui e Fugaku. Parecia que não conseguiria um tempo sozinha essa noite. Não que esperasse conseguir, de qualquer maneira. Sabia muito bem que tinha uma tarefa em mãos.

Kaito era curiosamente perceptivo, principalmente para alguém que Sakura ouviu tantas coisas peculiares sobre. E ela, de certa forma, sabia que seria assim desde a primeira vez que se viram; olhos azuis tinham uma aparência astuta, quase como se já tivessem visto demais e nada os surpreendia; quase como se soubessem todos os seus segredos, mesmo nunca te conhecendo antes.

Aquele rosto angelical podia ser muito enganador.

Sakura o olhou de soslaio quando ele se apoiou no mesmo trilho, observando o céu ao seu lado, e suspirou de maneira cansada. Não adiantaria tentar esconder algo dele, mas ao mesmo tempo não precisava revelar o verdadeiro motivo. "Toda essa movimentação dos últimos dias está começando a me deixar um pouco cansada. Não faço a mínima ideia de como você lida com essas coisas, com pessoas ao seu redor constantemente."

Havia uma pequena voz em sua cabeça que não a deixava esquecer que estava mentindo descaradamente.

Kaito sorriu largamente e deu de ombros. "Tenho feito isso desde que nasci praticamente." Ele parou para olhá-la enquanto erguia as sobrancelhas, ganhando um rolar de olhos em resposta ao exagero. Ele riu. "Estou acostumado."

Um silêncio confortável caiu sobre eles. Vozes soavam ao redor enquanto convidados socializavam, bebiam e comiam. Ao alto, as estrelas brilhavam para eles, deixando o céu mais bonito. Ela ignorou tudo ao seu redor e fechou os olhos, sentindo a leve brisa fria em sua pele e aproveitando o momento de calma.

"Sakura-san," Kaito disse lentamente, quase incerto, limpando a garganta em seguida, o que fez Sakura abrir os olhos para estreitá-los em desconfiança. "Não me leve a mal; não quero parecer rude, mas…"

Com apenas isso, Sakura sentiu seus músculos enrijecerem. Já havia acontecido no passado e ela sabia exatamente onde isso ia dar. Kaito a observava, momentos atrás, quando...

"... Já aconteceu algo entre você e–"

"Então parece que você já arrumou outro amigo, Sakura."

E ela nunca quis agradecer tanto aos céus por uma das irritantes interrupções de Mai.

Uchiha Mai em um kimono apertado, cinza com pequenos detalhes em azul marinho, e cabelos curtos soltos ao redor do rosto. Sua expressão estava definida em um sorriso triunfante, por algum motivo.

Kaito a olhou com uma sobrancelha erguida, tendo problemas em assimilar o que tinha acabado de acontecer. Então ele saudou Mai com um aceno de cabeça e uma mão erguida em um convite para um aperto. "Você é a futura noiva do clã Uchiha, eu vejo."

Quando Mai sorriu quase muito amigável para ser aceitável e encontrou sua mão com a dele, ele continuou: "Meu nome é Kaito, Uchiha-san. Meu pai é o daimio do País do Fogo," Kaito disse, surpreendendo as duas ao levar a mão de Mai até os lábios. Sakura estreitou os olhos.

"O-oh!" Mai exclamou, um pouco trêmula, um pouco incerta, com o que Kaito havia acabado de fazer, mas parecia recuperar-se rapidamente. "Que boa surpresa!" Sakura fez uma careta, colocando uma mão em frente aos lábios para não bufar com uma risada descrente. Desde quando aquela kunoichi era tão agradável assim? "E me chame de Mai, Kaito-kun."

"Sim, claro, Mai-san." Seu sorriso era largo e brilhante, um que lembrava os que Naruto costumava dar.

"Então," Mai começou, sua expressão corporal relaxando e mostrando seu conforto ao redor deles. Ela olhou Sakura pelo canto do olho. "O que está achando de nossa aldeia?"

Sakura quase podia sentir o desprezo emanando da outra kunoichi, como se questionasse o que ela estava fazendo com um membro de uma importante família do País do Fogo. O sentimento deixou um gosto ruim em sua boca e fez seu estômago revirar; sem traços de humor restantes. De repente o aroma de diferentes tipos de alimentos no ar já não era tão satisfatório.

Kaito sorriu gentilmente, colocando as mãos nos bolsos e esbarrando o braço no ombro de Sakura levemente, como se já fossem velhos amigos. Ela vagamente se lembrava de já ter feito o mesmo com ele em algum momento. Os olhos de Mai olhavam entre eles com interesse. "Sakura-san tem me ajudado a conhecer um pouco de tudo em Konoha a cada dia. Tem sido uma temporada muito interessante, eu devo dizer. O seu povo é muito acolhedor. Sem falar da comida." Ele terminou com uma risada.

"Oh," Mai disse com um pesado tom de sarcasmo, expressão curiosa. "Ela tem te ajudado, não é mesmo. Isso é bom." Ela a olhou novamente, olhos estreitando momentânea antes de voltar para Kaito, falando como se Sakura não estivesse ali. "Excelente até." Exceto que não parecia nada excelente para Mai. "Mas você pode ter companhia melhor. Alguém que possa te mostrar coisas mais interessantes que temos ao redor de Konoha. Coisas que Sakura não teria acesso."

Sakura ergueu as sobrancelhas em perplexidade. O sorriso de Mai era largo, quase maldoso, mas suas palavras foram o que fizeram os dois congelarem. Era impressão sua, ou Mai tentava flertar com Kaito? As coisas que disse por último e a maneira como disse…

Não podia ser… Mai era definitivamente uma valentona. A fazia lembrar de Ami na academia. Sakura não pensou nisso a princípio, mas não achou que ela seria assim inclusive na frente de outras pessoas. Especialmente não na frente do filho do daimio. Por outro lado, considerando as muitas faces de Kaito, ela podia quase apostar que algo assim não o incomodaria. E não deveria incomodá-la também. Já havia passado por isso algumas vezes e sabia que era algo que não valia a pena.

Mesmo assim, ouvindo-a falar desse jeito…

Movimento ao seu lado fez com que Sakura saísse de seus pensamentos.

"Eu gosto de Sakura-san," Kaito declarou inesperadamente, olhando-a brevemente antes de voltar sua atenção para Mai com um pequeno sorriso nada convidativo, seu rosto suave desenhado em uma expressão perfeitamente educada, treinada, fria. "Ela é gentil e bondosa e está rapidamente se tornando uma amiga, na verdade." Então o sorriso se desmanchou, dando passagem a uma expressão crítica e severa. "Você é bonita e parece ter muito potencial, como parece ser normal do clã ao qual você pertence. O problema é que nada disso importa quando se tem uma atitude dessas; o que, me deixe dizer, também parece ser um problema muito comum em Uchihas."

Mai tinha uma expressão levemente confusa, como se não soubesse dizer se Kaito tinha acabado de elogiá-la ou insultá-la. Para Sakura, o silêncio que reinou entre os três era extremamente embaraçoso–mesmo que a maior parte do que havia sido dito não tivesse sido remetida a ela. Ao redor deles, pessoas iam e vinham, algumas conversando suavemente enquanto outras riam e falavam mais alto; ninguém prestando atenção ao que estava acontecendo no pequeno grupo.

Kaito olhou em volta rapidamente e limpou a garganta educadamente quando não parecia que Mai faria qualquer outra coisa a não ser abrir e fechar a boca, como se estivesse procurando algo para dizer e falhando em encontrar. "Você não tem algum outro lugar para estar agora? Certamente seu noivo deve estar a sua procura."

A menção de Shisui, Mai piscou, saindo de seu transe. Sakura sentiu seu peito torcer com uma sensação familiar que estava presente sempre que o nome de seu ex-namorado era mencionado em qualquer assunto. Estava ficando um pouco melhor, mas ainda doía.

Antes de sair, Mai virou-se para Kaito seriamente, ignorando Sakura completamente. "O convite ainda está de pé. Mantenha em mente."

Eles se entreolharam por um momento em que Sakura sentiu-se inteiramente excluída. Kaito não respondeu e eventualmente Mai os deixou, provavelmente indo a procura de Shisui, Sakura supôs, olhos estreitos enquanto observava a forma escura de Mai desaparecer. Ainda não conseguia assimilar que Mai faria algo assim; não quando sentiu na pele o que ela era capaz para mantê-la afastada de Shisui.

"Você não precisava ter feito isso."

O filho do daimio a olhou, um pouco confuso, um pouco descrente. "Eu tenho observado aquela moça há pouco tempo, mas já posso dizer que ela é arrogante e desrespeitosa e precisava ser colocada em seu lugar."

Ela suspirou, querendo apenas acabar com tudo isso e ir para casa. Uma noite não tão boa havia se transformado em um desastre. "Não é tão simples assim. Você deveria ficar fora disso."

Ele parecia querer responder, mas acabou escolhendo por ficar quieto. Nada que Kaito pudesse dizer mudaria essa situação, de um jeito ou de outro.

Mas ela conhecia aquele brilho curioso no olhar.

Sakura começou a andar, uma estratégia para evitar as questões que seriam expostas em breve. "Nós deveríamos pegar algo para comer." Então, lembrando-se de antes, olhou para a mesa com alimentos, tendo certeza de que uma certa pessoa não estaria lá antes de aproximar-se. Que noite. "Agora estou com fome."


Ino não havia imaginado que uma pequena confraternização entre clãs seria algo para animar-se

Normalmente era apenas uma grande reunião para ter certeza de que tudo estava do jeito que deveria ser dentro das obrigações que os clãs tinham com Konoha. Devia ser muito exaustivo para Tsunade, além de cuidar da aldeia em todos os aspectos e ter certeza de que tudo estava correndo nos conformes, ter que participar de reuniões com um bando de velhos homens de clãs e alguns de seus membros vez ou outra.

Ela franziu os lábios enquanto brincava com a mecha que permanecia solta de seu rabo de cavalo, sua outra mão segurando um pequeno copo de sake. Era bom passar um tempo com seus familiares e ver amigos de fora, como Hinata, por exemplo, mas ela não precisava sair do distrito Yamanaka para isso, muito menos estar presente em uma festinha com todos aqueles anciãos. Sem falar que sentia-se quase obrigada a participar vendo que seu pai era chefe do clã. Sai estava certo; ela era a próxima na linha de líderes. Em breve seria sua obrigação e não tinha como livrar-se disso.

Entretanto, tirando toda a conversa fiada, hoje essa confraternização estava bem interessante. Olhos azuis observaram, por entre os cílios, a pequena interação a sua frente com interesse. Sakura estava presente hoje, o que a surpreendeu. Só depois de ver aquele jovem filho do daimio–Kaito, se não estava enganada–aproximar-se dela foi que percebeu exatamente o porquê.

Ino havia ouvido falar sobre o interesse dele de procurar uma noiva em Konoha e Sakura tinha a missão de ajudar. Isso explicava melhor ainda o porquê de estarem aqui. Tinha que admitir que estava sendo engraçado ver sua amiga andando ao redor, tentando bancar o cupido, com essa tarefa em mãos. Pelo menos parecia tirar a cabeça dela de outros problemas. Kami sabe que Sakura, com toda a tendência que tinha de pensar demais e culpar-se por tudo de ruim que acontecia ao redor dela, precisava disso.

Depois de algum tempo, quando já tinham saído, Ino olhou em volta, querendo saber se alguém mais havia presenciado a cena, para ser pega de surpresa ao ver Shisui do outro lado do terraço, olhando para a mesma direção. Ele estava quase escondido por completo atrás de uma pilastra e tinha certeza de que de onde Sakura e os outros dois estavam, seria difícil enxergá-lo ali.

As mãos dele estavam nos bolsos da calça, mas mesmo assim podia dizer que estavam apertadas em punhos. Depois de alguns momentos, Shisui também deixou a área, andando na mesma direção de Sakura e Kaito.

Ela sorriu, deslizando a ponta da língua pelos dentes, sua mente já trabalhando com possibilidades.


Sakura quase não conseguia acreditar no que estava vendo.

Ela não perde tempo, não é mesmo?

Ela saiu apenas por um minuto, desculpando-se com Kaito pois precisava usar o banheiro, deixando-o com o que pensava ser a segurança dos serventes dele, para voltar e dar de cara com aquela cena. Mai já conversando com ele, como se fossem amigos próximos; como se ele não tivesse dito aquelas coisas para ela nem mesmo uma hora antes.

Ela deu um passo à frente, pronta para interromper a reunião (estavam aproximando-se demais e Mai já havia se mostrado uma péssima influência por diversas vezes) mas se segurou, pensando melhor. Já havia passado por situações desagradáveis por causa dela, e ele também, mas nada disso dava-lhe o direito de decidir com quem Kaito poderia relacionar-se ou não. Só porque Mai a tratava cruelmente por algum motivo desconhecido–provavelmente inexistente–não significava que ela seria assim com todos.

Fazendo sua cabeça, Sakura sentou em uma das cadeiras ao redor do terraço, com a bebida que havia pegado após sair do banheiro.

Depois de um certo tempo, Mai se afastou com um sorriso aparentemente amigável. Kaito usava o mesmo sorriso, até mesmo parecendo satisfeito por algo. Sakura voltou a observar Mai discretamente enquanto ela fazia seu caminho para o lado oposto, passando por um grupo de Naras prestes a deixar a reunião, até aproximar-se da pessoa que Sakura torcia para não rever durante a noite.

Shisui.

Ele parecia tenso de início, ombros largos enrijecendo com a proximidade de sua futura noiva. Mas então, Mai se aproximou e disse algo em seu ouvido. Sakura apertou o copo em sua mão enquanto observava a troca, sua mandíbula começando a doer de apertar os dentes, pensando em dar as costas e achar Kaito. Estava na hora de ir.

Sakura deixou seu copo na cadeira vazia ao lado, antes que pudesse acabar estraçalhando-o, e levantou prontamente, olhando mais uma vez naquela direção.

E esse foi seu erro.

Mai estava com os braços ao redor do pescoço dele, arqueando seu corpo para a frente até que não restava nada entre eles. Antes que Shisui pudesse reagir, antes que Sakura pudesse virar as costas daquela cena revoltante, Mai segurou o rosto dele com as duas mãos e o beijou nos lábios.

O tempo parecia diminuir. Tudo a sua volta se silenciou, deixando apenas o som de seus batimentos acelerados em seus ouvidos. Seu corpo foi tomado por uma vontade quase incontrolável de vomitar; sua visão girava, a respiração presa em seu peito a fez ter a sensação de que poderia desmaiar a qualquer momento.

E mesmo assim, podia sentir seus olhos ardendo com lágrimas prestes a cair.

Shisui havia mentido para ela.

Ele disse que não era dessa maneira.

Assim, sentindo todos esses sentimentos ruins, a única coisa que Sakura fez foi olhar para o chão e tentar recompor-se.

Quando tinha certeza de que tempo demais já havia se passado e se não se movesse agora alguém perceberia, uma mão tocou seu ombro, interrompendo seu momento de fraqueza.

Sakura virou precipitadamente, pronta para pedir para deixá-la em paz, quando grandes e preocupados olhos azuis profundos foi o que encontrou esperando por ela.

"Ei… você está bem?" Kaito questionou, sério e hesitante, observando todo o seu rosto. Foi então que Sakura percebeu que estava chorando.

Droga.

Ela engoliu em seco, forçosamente passando os dorsos das mãos nos olhos, tentando secar os vestígios de sua angústia.

"Estou bem," ela respondeu baixo, limpando a garganta em sequência para aliviar a pequena rouquidão em sua voz. "Podemos ir?"

Kaito não parecia satisfeito com a resposta e segurou um dos braços dela, trazendo-a para um canto mais próximo da mesa de comida que estavam mais cedo. Era a área mais isolada que conseguiriam no lado externo.

"O que aconteceu? Por que estava chorando, Sakura-san?"

O rosto dele estava franzido e ele parecia tão genuinamente preocupado que Sakura considerou falar sobre. Ela abriu a boca, procurando por palavras para explicar… mas nada saiu. A imagem de Shisui e Mai juntos passou em sua mente, involuntariamente fazendo mais lágrimas começarem a cair, e já sentia sua cabeça começar a doer. Ela precisava sair dali.

Então Kaito se aproximou–bem similar a como Mai havia feito–e ergueu as mãos para o seu rosto, pegando lágrimas com os polegares suavemente.

Com ternura em sua expressão, ele começou a falar palavras de tranquilidade, tentando acalmá-la. Uma brisa fria passou entre eles, tocando seu rosto úmido e fazendo-a fechar os olhos por um tempo, enquanto ouvia a voz dele. Voltando a si novamente, ela aproveitou a proximidade para realmente olhá-lo.

"...vai ficar tudo bem, Sakura–"

Sakura não sabia dizer exatamente o que era; seu rosto sereno, seus olhos azuis brilhantes e bondosos ou suas mãos, secando lágrimas e tirando fios de cabelo rosa do rosto dela. Talvez fosse apenas sua cabeça confusa e seu coração ferido, mas algo a obrigou a acabar com o espaço entre eles e tocar seus lábios com os dele.

Mal poderia chamar aquilo de beijo; acabou tão rápido quanto havia começado. Mas mesmo assim uma onda de perplexidade tomou conta de si imediatamente. Seus olhos se arregalaram quando percebeu exatamente o que havia acabado de fazer.

Kaito a olhava em meio a um cenho, mas ao mesmo tempo com uma expressão confusa. Antes que ele ao menos pudesse falar algo, ela o venceu nisso.

"Eu preciso ir ao banheiro."

Tão rápido quanto havia pronunciado a frase, Sakura desviou dele e foi na direção que havia saído há pouco tempo, alcançando-o rapidamente com seus passos apressados. O banheiro ficava no interior da torre, em um dos corredores com várias salas, próximo ao escritório da Hokage. Ao chegar lá, por ser um banheiro geral, com vários cubículos, Sakura teve certeza de que estava sozinha antes de trancar a porta. Então prontamente apoiou seus braços na pia para esconder o rosto nas palmas das mãos, resistindo a vontade de rosnar em frustração. Essa era a coisa mais estúpida que fez em toda a sua vida. E isso dizia muita coisa.

Por que ela tinha que beijá-lo?

E em um lugar público. E como se não bastasse, em uma reunião de clãs!

Sakura gemeu em suas mãos, resistindo a vontade mais forte de bater a cabeça na pia repetidamente. Olhando seu reflexo no espelho, ela estreitou seus olhos vermelhos, encarando-se por um momento, realmente julgando-se. Uma voz fina e sarcástica em sua cabeça dizia quem você pensa que é várias vezes, soando muito similar a voz de Uchiha Mai. Sakura prontamente abaixou a cabeça.

E se alguém viu? Vão pensar que ela estava tirando proveito do pobre filho do daimio que veio a Konoha em busca de uma noiva. Então toda a aldeia ficaria sabendo sobre como ela saiu de um herdeiro de um clã prestigioso para atirar-se ao herdeiro ao trono da "realeza" do País do Fogo.

Ela gemeu novamente. Quando teria um tempo de notícias ruins, coração partido e más decisões?

Más? Péssimas.

Sakura esfregou os olhos, levantando para esticar as costas e sair dali o mais rápido possível, Kaito e sua escolta que se virem–

Para congelar no lugar quando olhos negros a encararam de volta pelo espelho.

Com olhos arregalados e coração acelerado, ela virou para o outro nada satisfeito ocupante do banheiro. "O que est–"

Mas a pergunta morreu em seus lábios quando escuridão tomou conta de seus arredores e sentidos.