Mais um capítulo! Espero que gostem; estou um pouco ansiosa com esse.
Como sempre, Naruto não me pertence.
Obscuridão
Capítulo 7: Domar o Fogo
Sakura ergueu a cabeça tão rápido de onde observava a composição de uma pasta curativa, em um dos microscópios livres, que sentiu seu pescoço estalar; olhos esmeralda se fixaram na porta do laboratório onde podia ouvir vozes abafadas vindo do outro lado. Uma delas ela conhecia muito bem.
Tenten.
Pensar nela a fez franzir o cenho. Já era a segunda vez que Tenten aparecia no hospital só essa semana, quando ela normalmente só apareceria para trazer Lee com algum ferimento ou realizar exames de rotina para atualizar a sua ficha.
No início da semana, Sakura estava bem ocupada, na verdade, examinando um aluno da academia que Iruka-sensei havia trazido. O menino havia caído de uma árvore e desmaiado após bater a cabeça. Ela estava usando chakra curativo na parte da cabeça onde ele indicou que doía quando Tenten invadiu sua sala, sem ar e com o rosto vermelho, como se tivesse percorrido o caminho de Suna a Konoha em um dia.
O menino, que estava deitado, pulou para uma posição sentada de repente, fazendo a mão com chakra de Sakura deslizar e bater na cama, os grandes olhos castanhos dele arregalados pelo susto que tomou. Então ele começou a encarar Tenten em irritação. Tenten olhou para os dois de forma apologética antes de começar a questionar Sakura ansiosamente.
"Você não saiu daqui, saiu?"
Sakura franziu o cenho. "Estou nessa mesma sala desde o início do turno."
Ela parecia relaxar um pouco. "Ninguém veio aqui, então?"
"Se você não contar ele," Sakura apontou para o aluno da academia, que ainda parecia irritado, "então não. Ninguém veio."
Tenten suspirou e fechou a porta atrás dela, murmurando baixo para si mesma, e ficou quase até o fim do turno de Sakura. Quando Sakura a questionou sobre o motivo para tudo aquilo, ela apenas negou que alguma coisa estivesse acontecendo. A kunoichi estava em tal humor que deixou passar sem insistência, algo que há um mês estaria questionando até receber uma resposta decente.
E agora estava de volta novamente, ao que parecia. Sakura levantou da mesa que atualmente trabalhava, indo para a porta. As vozes ficaram mais altas ao aproximar-se e, quando abriu, pararam abruptamente.
Tenten estava de pé do outro lado do corredor, com um shinobi ao seu lado; ele tinha um braço enfaixado e sendo suportado por uma tipóia ao redor do pescoço. O shinobi tinha cabelos castanhos claros, que rodeavam a nuca e o pescoço, olhos pálidos muito parecidos com os de Hinata e era quase da mesma altura de Shisui. A vestimenta dele consistia de um kimono em tons escuros, algo normalmente usado por integrantes do clã ao qual pertencia.
Os olhos castanhos de Tenten se arregalaram ao vê-la, suas bochechas ligeiramente mais rosadas, mas Hyuuga Kō continuou com a mesma expressão impassível. Sakura ergueu uma sobrancelha enquanto fechava a porta do laboratório. "Eu ouvi vozes. Está tudo bem por aqui?"
"É c-claro," Tenten respondeu alto e rápido demais para passar-se como casual. Ela olhou para os dois lados do corredor, sua franja balançando contra a testa, antes de voltar a atenção para Sakura, ainda aparentando estar agitada. "Esse é Kō, primo de Hinata. Kō, essa é Haruno Sakura, minha amiga. Ela é médica e trabalha aqui no hospital. Kō acabou de ser liberado."
Kō sorriu educadamente e estendeu sua mão boa para cumprimentar Sakura. "Eu já conheço Haruno-san, na verdade."
Sakura o observou, surpreendida.
"Sério?" Tenten questionou, também surpresa. Sua voz bem mais baixa agora.
"Sim," Kō disse. "Ela me ajudou a encontrar Hinata-sama no estádio onde a terceira fase do exame chūnin estava acontecendo, quando Orochimaru atacou."
"Oh!" Sakura exclamou, de repente lembrando-se do momento. Quase todos no estádio estavam sob o efeito de genjutsu e Kō tinha acabado de entrar ao ouvir sons de luta, procurando por Hinata desesperadamente. "É verdade, eu me lembro agora." Ela sorriu com sabedoria e olhou os dois curiosamente. Essa não tinha sido a única lembrança que havia passado por sua mente; Ino provocando Tenten por causa de Kō também estava presente. "E me chame de Sakura, Kō-san."
"É claro, Sakura-san." Kō sorriu novamente, então se voltou para Tenten, que estava mordendo o lábio; seus olhos pálidos suavizaram ainda mais. "Eu vou indo, então." Ele ergueu uma sobrancelha. "Te vejo em breve?"
E com isso Tenten realmente corou–como Sakura nunca havia visto antes.
"S-sim. Em breve," Tenten replicou, assentindo hesitante.
Era uma cena tão doce, mas que Sakura só conseguia sentir amargura e inveja–e se odiava por isso. Não tinha nada a ver com sua amiga e o shinobi que gostava. Vê-los assim só a lembrava de uma época em que também estava corando como Tenten; com um homem olhando-a do mesmo jeito que Kō olhava Tenten. Só lembrou-se de Shisui beijando seus lábios e depois o dorso de sua mão em despedida...
Sakura assistiu com sua amiga em silêncio enquanto Kō andava calmamente pelo corredor, sem dúvidas para descer as escadas e encontrar a saída do hospital. Então olhou de soslaio para Tenten, que parecia acalmar-se progressivamente com quanto mais distância ele colocava entre elas.
Ela engoliu suas memórias agridoces.
Era engraçado vê-la sem sua forte personalidade, gaguejando e corando furiosamente por causa de alguém que era só um 'amigo'.
Não que Sakura fosse dizer algo sobre isso.
"Kō esteve na academia na mesma época que Uchiha Itachi." A voz de Tenten preencheu o silêncio entre elas tão repentinamente que Sakura quase pulou de susto. "Ele é quatro anos mais velho que eu. Dá para acreditar que aos cinco ele já estava recebendo treinamento particular para se tornar guarda costas de Hinata? Ela não tinha nem nascido ainda." Tenten informou em um tom incrédulo, sacudindo a cabeça.
Sakura assentiu. "Sim, na verdade. Kakashi-sensei se tornou chūnin aos seis anos."
"Só é estranho pensar que essa realidade não estava tão longe de nós."
Realmente era.
"O que veio fazer aqui?" Sakura questionou, curiosa novamente agora que Kō não estava mais presente. "Buscar Kō-san?"
Tenten franziu o cenho e voltou-se para Sakura. "É claro que não!" ela respondeu veementemente. "Eu vim encontrar Ino. Apenas… me distrai no caminho."
Sakura ergueu as sobrancelhas e recebeu um rolar de olhos como resposta. Sabia muito bem que tipo de distração…
"De qualquer maneira, temos uma missão." Com o olhar questionador de Sakura, Tenten explicou, "Eu e Ino, quis dizer. Eu vou ser capitã dessa vez!"
Sakura sorriu suavemente, mas não tão animadamente.
Ino fez a curva no corredor em que estavam naquele momento, e correu em direção a elas, seu longo cabelo loiro voava atrás dela.
"Estou atrasada, eu sei," ela disse ofegante. "Fiquei presa com algo… mas já está tudo pronto." Ela deu um tapinha na mochila que carregava e parecia mais confiante que o normal.
"Vocês vão ficar fora por muito tempo?" Sakura perguntou, olhando Ino cautelosamente. Logo algo passou por sua cabeça. "Você não estava no meio de um turno?"
Ino sacudiu a cabeça, seu rosto perfeitamente neutro. "Ordens de Tsunade-sama."
Estranho.
"E eu acredito que não," Tenten respondeu a sua primeira questão. "Menos de uma semana, provavelmente… só uma missão de escolta."
"Ah." Sakura assentiu, mas sua expressão continuou impassível. Estava sentindo-se triste, se fosse ser sincera. Parecia que todos a sua volta estavam saindo em missões. Depois de tudo que aconteceu e ainda não poder deixar Konoha quando mais sentia que precisava…
Mesmo uma missão de escolta nível D seria interessante.
Tenten e Ino se entreolharam discretamente, mas Sakura percebeu. Por algum motivo, uma sensação de apreensão fez seu estômago revirar. Aquele olhar a fez lembrar do que Tsunade e Shizune também haviam trocado em sua presença há algumas noites…
"Bem," Sakura disse, tentando repelir a repentina tensão no ar entre elas. "Divirtam-se então. Ou não, não sei." Ela deu uma risada seca e ganhou olhares preocupados de volta. Seu olhar endureceu e ela gesticulou para a porta do laboratório impacientemente. "Eu vou voltar ao serviço. Vou vê-las quando voltarem."
Seu humor não melhorou muito com o passar do dia. Sakura permaneceu lamentando-se no laboratório por toda a tarde. Desde que foi nomeada por Tsunade como médica chefe de seu plantão, não fazia quase nada de trabalho manual. Seu dever agora era supervisionar as equipes e manter o hospital funcionando, até mesmo através da administração agora que Shizune estava tão ocupada com a pesquisa, que realmente realizar algum trabalho real; apesar de tentar dar muitas escapadas de sua sala durante os turnos. Casos mais graves ainda eram de sua responsabilidade, mas agora não era sempre que apareciam.
Quando abriu a porta de sua sala no início da noite, seus lábios formaram uma linha severa com quem encontrou esperando por ela.
Shisui estava encostado em sua mesa, de costas para a porta, com as pernas cruzadas nos tornozelos. O cabelo dele parecia um pouco mais longo de onde ela estava, escondendo toda a nuca. As roupas que usava eram as simples que favorecia quando não estava em missões. Sakura observou as costas dele, o emblema do clã Uchiha parecia zombar dela.
Shisui não se moveu, mas ela sabia que ele estava ciente de sua presença. Apesar de sentir-se um pouco melhor nesses últimos dias, depois da desastrosa reunião de clãs, vê-lo ali ainda trouxe à tona diversas emoções. Mágoa, ciúmes, culpa… e Sakura não sabia o que sentir com mais intensidade. Por fim, acabou decidindo por agir profissionalmente, como costumava fazer como um mecanismo de defesa.
Sakura fechou a porta atrás de si levemente, observando-o atentamente. Quando ele não se moveu, ela deu um passo em direção a mesa. "Vale a pena perguntar o que você faz aqui hoje?"
Por um momento, Shisui apenas virou a cabeça em direção a ela, olhando-a de canto de olho. Então ele levantou da mesa e a enfrentou. O rosto dele estava impassível e Sakura não conseguia dizer o que estava sentindo ou pensando. "Eu esqueci algo aqui," ele disse simplesmente, ignorando a questão.
Ah.
Sakura assentiu. "Certo." Ela andou até o arquivo que ficava no fundo da sala e selecionou uma pequena chave das três que mantinha consigo enquanto estava no hospital, o tempo inteiro podia sentir os olhos de Shisui seguindo-a. A máscara dele estava no pequeno espaço atrás da última pasta, na segunda gaveta do arquivo.
Ela devolveu para ele após trancar a gaveta novamente. "Não se preocupe; não vou dizer para ninguém quem é Águia."
Apesar das palavras serem provocativas, sua voz estava totalmente plana. Era uma estranha presença de espírito, mas foi o que sua mente encontrou para anestesiar as emoções ruins e opressoras que estavam começando a tomar conta de seu corpo e mente. Enquanto não era o melhor estado, não se comparava a opção.
Sakura se lembrou de como ficou nos primeiros dias após terminar o relacionamento; dormindo a maior parte do tempo quando não estava trabalhando e quando finalmente estava acordada, era para lembrar de tudo e chorar a cada dez minutos…
Ela limpou a garganta, balançando a cabeça mentalmente para não lembrar. Ele apenas observava a máscara em suas mãos, polegares traçando as marcas esculpidas no material.
Shisui olhou para ela então, olhos negros sem brilho. "Eu sei que não vai."
Eles se entreolharam por um longo tempo em silêncio.
"Está deixando o cabelo crescer?" Sakura questionou involuntariamente quando assistiu uma mecha cair na testa dele, cacheando levemente com o comprimento. Sua voz era suave na sala silenciosa; só o canto de cigarras do lado de fora podia ser ouvido.
Shisui alcançou uma mão e jogou os cabelos para trás, dando de ombros. "Provavelmente deveria cortar em breve. Está se tornando um incômodo."
Sakura assentiu e desviou o olhar; Shisui suspirou da forma mais cansada que já tinha ouvido. "Olha…" Ele parou quando ela olhou rapidamente de volta.
Ele limpou a garganta. "Sei que eu errei algumas vezes," olhos verdes o fitaram estreitamente, "mas eu acho que essas situações foram tiradas de contexto."
Ela ergueu uma sobrancelha descrente. "O que está tentando dizer?"
"Que nós devíamos conversar," ele disse lentamente.
"De novo?" Sakura perguntou, ficando cada vez mais incerta com a presença dele. "Nós conversamos quando você esteve aqui da última vez."
"Não sobre isso." E agora Shisui parecia hesitante. "Sobre o que aconteceu na reunião."
Ah, isso. Agora Sakura estava prontamente confusa. Logicamente, eles não precisavam. Não tinham mais nada. Shisui estava prestes a casar. Sakura… ainda estava miserável.
"Você sabe que tecnicamente não precisamos mais fazer isso, certo?" Ele franziu o cenho, colocando a máscara em cima da mesa, exatamente onde havia esquecido da última vez, e cruzou os braços. "Quero dizer, você vai casar–"
"E você parece gostar de me lembrar disso–"
"E é completamente normal beijar sua noiva, eu suponho," Sakura continuou, falando por cima do tom sarcástico dele. Apesar de sua expressão séria, ela não podia negar seu coração palpitando. "Assim como é completamente normal eu beijar outras pessoas, vendo que não estou compromissada agora."
Um músculo saltou na mandíbula dele e Shisui encarou a janela como se tivesse feito uma ofensa grave contra ele. Sakura o deixou pensar por um momento. O que eles teriam para falar? Ela não via como algo de bom sairia disso. Não saiu da última vez; Shisui acabou tendo uma crise de ciúmes e eles terminaram em um desentendimento na casa dela.
Ele voltou-se para ela novamente, dessa vez pegando a máscara e ficando devidamente de pé. Retirando um pergaminho do bolso, ele abriu e selou a máscara dentro rapidamente. "Eu preciso ir agora. Pense nisso. Se decidir por algo, eu vou estar no campo de treinamento onze, amanhã a noite."
Shisui assentiu seriamente e saiu pela porta. Sakura pensou sobre o que ele disse e sua saída repentina. Amanhã não tinha turno no hospital, apesar de já ter marcado de andar por Konoha novamente com Kaito e os outros…
O mais importante a se pensar era: queria mesmo ter essa conversa com ele? Era uma boa ideia ficar tão perto de Shisui assim, tão cedo? Certamente o clã poderia estar vigiando os passos dele, pelo jeito que Fugaku interrompeu a conversa deles antes…
Sakura respirou fundo e voltou para a sua mesa.
O dia seguinte amanheceu ensolarado, apesar do frio da noite persistindo dentro do seu apartamento. Sakura pensou que era uma zombaria, por ter acordado com o sentimento de ter uma decisão desagradável para fazer; mas também porque era como se sentia nesses dias–uma expressão alegre por fora e uma frieza por dentro, infiltrando-se lentamente através das rachaduras.
Kaito também não ajudava. Seus olhos azuis, normalmente brilhantes com divertimento, estavam mais sérios. Mesmo assim, Sakura não achava que fosse por sua causa, entretanto. Ele parecia mais retraído, como se estivesse pensando muito em algo. Conforme se aproximavam da parte mais movimentada de Konoha, Kaito aos poucos ficava mais animado, sorrindo e acenando para os vendedores e civis que o reconheciam.
Com essa mudança, ele voltou a conversar e fazer perguntas–como era o seu normal. Isso distraiu Sakura de pensar em qual decisão tomar em relação a proposta de Shisui. Ela realmente não sabia o que fazer sobre isso. Uma parte dela, a parte lógica, dizia não ter por que encontrá-lo; não existia mais nada entre eles e insistir nisso, em tirar satisfações sobre o que um ou outro fez, só traria mais mágoa entre eles. Por outro lado, a garotinha romântica de doze anos, tão suprimida, mas ainda existente dentro de si, gritava com ela para ir encontrar-se com ele, que talvez ainda tinham uma chance…
Shisui era só expressões extremamente sérias, olhos frios rodeados por olheiras, postura rígida… E Sakura estava em um limbo que não parecia ter fim, apenas intercalando entre amargura e dormência.
Ela fechou os olhos e suspirou, tentando encontrar a disposição para parecer um pouco mais alegre ao redor do grupo. Enquanto se aproximavam do Ichiraku–o ponto turístico de hoje desde que Naruto estava sempre dizendo a todos que visitavam Konoha que não podiam ir embora sem antes comer o ramen do Ichiraku–Sakura notou uma cabeleira loira familiar já sentada dentro da pequena loja.
Naruto havia acabado de voltar de sua última missão no País da Pedra, mas ele não diria sobre o que era mesmo quando Kaito os deixou sozinhos no balcão para ir ao banheiro. Ela não ficou surpresa quando Naruto e Kaito se deram bem desde as primeiras palavras que trocaram–depois de certa hesitação do filho do daimio em relação a kyuubi. Kaito achava Naruto a pessoa mais engraçada que havia conhecido em Konoha, se as altas gargalhadas que dava para praticamente tudo que seu amigo loiro dizia fosse uma indicação.
Mais tarde, quando o acompanhava de volta para o conjunto de apartamentos em que estavam habitando, Kaito não conseguia parar de falar em Naruto e no ramen que comeram. O cozinheiro dele não parecia mais ouvi-lo, apenas assentindo distraidamente vez ou outra. Sakura não podia culpá-lo; ela mesma já estava com a cabeça em outro lugar, agora precisando ser distraída da sua conversa incessante, uma que não tinha interesse algum em saber.
Talvez ela pudesse deixá-lo com Naruto.
Sakura sorriu com o pensamento, mas logo franziu o cenho. Campo de treinamento onze, a noite. Ela olhou para o céu e viu o sol brilhando ainda alto. Por noite, talvez depois das seis. Pensar em ir a um campo de treinamento, a noite, sozinha com Shisui, não parecia a ideia mais inteligente, mas estava ficando cada vez mais curiosa com o que ele tinha a dizer…
Quando finalmente chegaram no prédio em que Kaito e seus companheiros estavam ficando, Kaito não entrou imediatamente. Em vez disso, engajou Sakura em uma conversa mais uma vez.
"Eu gostei desse seu amigo–Naruto-kun."
Sakura escondeu uma risada com o dorso da mão. "Eu percebi."
"Mas sério," ele continuou, sobrancelhas alinhando-se juntas. "É bom ter pessoas da minha idade para conversar. Meus irmãos e irmã se preocupam muito com política, terras e finanças, assim como meu pai, para prestarem atenção no irmãozinho deles." Ele franziu o nariz.
Sakura o olhou curiosamente, considerando o que havia acabado de ouvir. Interessante. "Então, você é o mais novo. Eu nem sabia que você tinha irmãos."
Kaito encolheu os ombros. "São todos mais velhos e interessados em coisas diferentes, mesmo."
"E nós não temos a mesma idade," ela comentou.
Kaito riu. "Sou apenas um ano mais velho." Após um momento em silêncio, ele continuou, em um tom de voz leve e sonhador, "Eu gostaria de ficar em Konoha. O seu povo é tão acolhedor, a comida é ótima… e agora tenho amigos aqui! Naruto-kun, você é claro," ele adicionou acentuadamente quando Sakura estreitou os olhos ao ouvir o nome de Naruto primeiro, "e agora também tenho um–"
Sakura franziu o cenho com a interrupção repentina e observou Kaito de perto. Ele parecia curiosamente nervoso, como se estivesse prestes a dizer algo que não deveria. Ele riu de forma trêmula ao ver o olhar suspeito em seu rosto, então abanou uma mão. "Você deveria ir, Sakura-san. Não quero tomar o seu tempo e eu posso cuidar de mim mesmo aqui." Ele gesticulou para a entrada do prédio.
"Oh." Foi tudo o que Sakura disse enquanto pensava se queria mesmo questioná-lo. Por fim, ela deixou o momento passar e deu adeus a ele, fazendo o caminho de volta ao seu apartamento.
Uma vez em casa, Sakura logo procurou ocupar o seu tempo livre antes que pudesse voltar a debater sobre o que fazer. Ela leu um pouco e terminou de trabalhar em dois pergaminhos para o hospital, fez um lanche horas depois e tomou um banho por último. Quando saiu do chuveiro, seus olhos foram parar imediatamente no relógio. Estava quase marcando seis.
Ela mordeu o lábio e debateu por uma última vez. Não era como se fossem resolver seu relacionamento terminado. Sakura já havia deixado claro para Tsunade e Shizune que não deveriam mencionar o fato de Shisui estar prestes a casar quando Tsunade fizesse a apelação para acabar com casamentos dentro de clãs. Estavam fazendo isso pelas crianças afetadas, não por ela.
Um suspiro cansado escapou seus lábios. Não adiantava. Shisui a tinha tão fixada nele que se estalasse os dedos nesse momento, ela estaria indo atrás. Convencer-se a não ir era inútil.
Então ela percorreu todo o caminho de seu apartamento até encontrar a fronteira onde a floresta que rodeava Konoha começava. Campo de treinamento onze era um pouco mais distante que o qual time sete costumava usar. Quando finalmente chegou, ela o encontrou vazio.
O sol estava totalmente posto, mas ainda havia um pouco de luz ao redor. Campo de treinamento onze tinha mais manequins de treino espaçados e Sakura tinha certeza de que era aqui que Tenten costumava treinar, principalmente quando queria treinar seu alvo.
Sakura andou para o centro do terreno. "Shisui?" ela chamou, um pouco baixo demais para seus ouvidos. E se ele não estivesse aqui? E se outra pessoa estivesse? E se alguém descobrisse que estavam encontrando-se sozinhos, a noite, quando ele estava noivo? Não queria ter que lidar com mais rumores.
Quando estava prestes a chamá-lo novamente, mais alto dessa vez, um som de folhas mexendo chegou a seus ouvidos antes de uma shuriken fixar-se ao chão bem próxima aos seus pés. Sua cabeça levantou rapidamente, olhando a linha de árvores a frente, de onde a shuriken veio. Shisui estava abaixado em um tronco espesso, observando-a curiosamente, mas atentamente mesmo assim. Ele não fez nenhum movimento para descer.
O codenome Águia lhe veio à cabeça.
Mas o que Shisui queria não seria possível. Sakura olhou para seu estado. Sem sua bolsa de armas… e usando apenas saia. Ela franziu o cenho para ele.
"Você não vai descer?" Sakura questionou, estreitando o olhos. "Achei que quisesse conversar?"
Shisui não se moveu. "Quando foi a última vez que foi em uma missão?"
"Você sabe que tem um tempo," Sakura replicou, suas sobrancelhas erguendo-se. "E agora não posso deixar Konoha por causa de Kaito…"
Ela parou de falar aos poucos quando a expressão de Shisui se fechou progressivamente. Um arrepio passou por sua espinha; ela tinha que mencionar Kaito depois do que aconteceu...
Shisui passou uma mão em seus cabelos ligeiramente mais longos que costumava usar, colocando-os para trás. Mesmo com a distância Sakura conseguia enxergá-lo desviando o olhar e mordendo o lábio. Seu coração acelerou. Não podia deixar de achá-lo atraente. Era em momentos assim que se perguntava o que ele viu nela.
Sakura deu passos hesitantes em direção a árvore em que ele estava mesmo não estando segura de si mesma. Havia algo que podia fazer para tentar reparar a situação. "Você quer treinar?"
Shisui olhou para baixo, estudando-a. Ele inclinou a cabeça em resposta e no momento seguinte, quando Sakura piscou, ele desapareceu.
Com olhos verdes arregalados, Sakura deu mais alguns passos a frente. Ele queria que ela fosse atrás dele? No escuro?
Seus passos pararam e ela olhou em volta, considerando. O campo ainda estava vazio por estar longe da parte central da aldeia e fora do horário mais comum de treinamento, e só o som de grilos podia ser ouvido. Sakura esperou um momento, e outro, mas nada aconteceu. Ela olhou incrédula de volta para a linha de árvores a frente; tudo estava imóvel no escuro.
Sakura suspirou e resignou-se a andar até a floresta. Ela não tinha certeza do que esperava realizar, ou o que Shisui esperava que ela fizesse, considerando a escuridão ao redor. Sakura usou o tronco da árvore em que ele estava anteriormente como apoio e fez o mesmo com as outras que podia encontrar, frequentemente olhando em volta de si, esperando pegar um sinal de Shisui.
O ar mudou atrás dela e Sakura virou abruptamente, punho levantado e movimentando-se para atingir algo, como de costume. Sua mão atingiu o ar, no entanto. No momento seguinte sentiu algo colidir com suas pernas, fazendo-a cair para trás com um engasgar surpreso, suas costas atingindo o chão duro da floresta.
Mas assim que tocou o chão, Sakura viu uma silhueta alta em sua frente e não perdeu tempo em levantar, devolvendo o ataque. Shisui não parecia usar chakra, mas mesmo assim ele ainda era muito rápido. Ele também não a atingia com toda a sua força. Sakura fez o mesmo, mas, como não conseguia corresponder a velocidade dele, ela compensou com toda a sua força sem usar chakra.
Mas isso não foi o suficiente. Como Shisui era muito rápido, Sakura quase não o tocava; ele, por outro lado, a atingiu várias vezes em diferentes partes. Mesmo Sakura desviando com o melhor de suas habilidades, ele era tão rápido que não importava; antes que pudesse executar a ação que seu cérebro comandava, a mão dele já havia conectado. Sakura sabia que não era ela; Shisui era excepcionalmente bom. Isso, no entanto, não a impediu de começar a irritar-se.
Seus movimentos ficaram desleixados com a raiva que sentia correr por suas veias, mas parecia que era tudo que precisava. Com um soco mal direcionado que Shisui não estava esperando, Sakura o atingiu na bochecha esquerda, imediatamente fazendo o rosto dele virar na direção oposta. Eles pararam então e o silêncio que se seguiu era opressivo. Sua respiração era alta, mas quando ele virou lentamente para olhá-la, ficou totalmente presa na garganta. Shisui alcançou uma mão ao rosto, tocando levemente com as pontas dos dedos, a expressão no rosto dele uma de…
Afeição?
Ele a olhou um pouco pasmo, um pouco encantado; como se nunca tivesse visto algo como ela antes. Sakura engoliu em seco, surpresa. Não estava esperando que isso fosse acontecer e sentiu culpa por tê-lo acertado tão forte quando ele segurava sua própria força para não machucá-la.
Vendo a expressão no rosto dela, Shisui riu ligeiramente, ainda parecendo espantado. "Eu acho que mereci esse, meu amor."
Sakura arregalou os olhos e deu um passo para trás. "Me descul–"
Mas os ataques dele voltaram antes mesmo que pudesse terminar de desculpar-se. Ele estava fazendo-a recuar mais para dentro da floresta agora, disparando golpes e avançando quando ela levantava os braços para bloquear. Em uma dessas vezes Shisui novamente se abaixou e no próximo momento, Sakura já estava caída no chão. Antes que pudesse ter a chance de levantar, no entanto, Shisui estava em cima dela, forçando seu peso para que Sakura não tivesse chance de contorcer seu corpo. As mãos dele prenderam seus pulsos ao chão e o rosto dele aproximou-se do seu.
Sakura tentou recuperar o fôlego, mas se provava cada vez mais difícil com ele sentado em seu quadril. Olhos negros brilhavam na escuridão enquanto observavam seu rosto. Shisui moveu para seu pescoço e Sakura respirou fundo quando ele fez o mesmo, os lábios dele tocando a pele sensível exatamente onde seu pulso acelerava.
Por mais que dissesse para si mesma que isso era errado, Sakura não conseguia convencer-se; e isso porque não sentia que era errado. Shisui pertencia a ela, mesmo que não pudessem ficar juntos. O que era errado era ele ter que ficar com outra pessoa para agradar o clã.
Os mesmos lábios em seu pescoço se posicionaram no lóbulo da orelha, onde ele mordeu levemente. Sakura segurou um gemido de escapar, mas não conseguiu esconder a maneira como sua respiração engatou ou como suas costas arquearam embaixo dele.
Conseguia sentir o sorriso dele contra a sua pele. Ele a beijou com a boca aberta atrás da orelha. "Você é minha."
Sakura não disse nada, mas encostou-se mais nele sem nem perceber. A respiração dele estava quente onde tocava seu pescoço e ela fechou os olhos, esquecendo-se de tudo que acontecia por fora daquela floresta.
"Você sabe disso?" ele sussurrou, beijando um centímetro mais embaixo. "Eu não vou deixar ninguém ter você."
Dessa vez não conseguiu controlar o gemido que saiu de seus lábios e Shisui riu suavemente, traçando a extensão de seu pescoço com beijos de lábios abertos e pequenas mordidas.
"Eu quero você," ele disse entre beijos, sua voz um pouco rouca. "Eu preciso de você," Sakura estremeceu com a veemência em sua voz, "e eu terei você pelo tempo que você me quiser. Não importa quem esteja no caminho."
"Shisui…" Sakura não conseguia reconhecer a própria voz manchada com necessidade. Seu quadril pressionou-se mais ao dele quando arqueou suas costas novamente. Ele pressionou de volta.
Shisui xingou baixo. "Você me quer, meu amor?" Uma mordiscada na pele perto de seu pulso mais uma vez. "Me diga."
E ela queria dizer, queria fazê-lo sentir as mesmas coisas que ela estava sentindo no momento; tudo o que ele a fazia sentir. Mas palavras a faltaram. Era como se nenhuma célula em seu cérebro funcionasse.
Sakura exalou longamente, seus lábios partindo-se enquanto uma mão se encontrava com fios negros. "Shisui…"
"Hmm?"
"E… e Mai?"
"Eu não ligo," Shisui rosnou, congelando em cima dela. A raiva na voz dele a deixou mais atenta. "Você acha que eu gosto de ficar perto dela, com tudo o que ela faz você passar?"
Olhos verdes arregalaram em surpresa. Sakura empurrou o peito dele levemente para que pudesse olhá-lo nos olhos. A mandíbula dele estava tensionada e seu rosto completamente sério.
"Eu não me importo com o que o clã quer," ele continuou dizendo, sua voz firme. "Eu não me importo com ela. Ela me pegou de surpresa naquela reunião, foi só por isso que conseguiu me beijar." Sakura enrijeceu e os olhos dele suavizaram. Shisui pegou uma de suas mãos na dele e plantou um beijo na palma. "Caso contrário nunca teria acontecido."
"E você sabe por que, não sabe?" A mão de Shisui foi até o seu rosto, traçando seus lábios. O rosto dele se aproximou. "Porque eu quero você," ele murmurou, olhos negros brilhando mais uma vez. "Como eu nunca quis alguém antes."
Sakura respirou fundo, sentindo-se mais leve desde o dia em que descobriu que Shisui estava noivo. Sua mão, ainda no peito dele, subiu até os cabelos e o trouxe para mais perto. Entretanto, antes que pudesse beijá-lo, ele parou e a olhou seriamente.
"Você me quer?" Shisui questionou mais uma vez, olhando seus olhos intensamente.
Sakura acariciou o rosto dele, notando o modo como ele inclinou a cabeça para mais perto de sua mão. "Você sabe que sim."
Um breve sorriso apareceu naqueles lábios antes dele beijá-la desesperadamente, como se ela fosse sumir a qualquer momento. Sakura retornou com a mesma intensidade, trazendo-o para perto com a esperança de que pudesse fundir-se a ele, porque nada era perto o suficiente. Seu coração explodiu em seu peito quando o braço de Shisui circulou sua cintura para trazê-la mais perto, como se ele também pensasse em fazer o mesmo.
Nenhum dos dois se importou de estarem em uma área aberta, no chão de uma floresta, onde qualquer um passando poderia ver–mentes consumidas com pensamentos envolvendo um ao outro. Shisui agarrou seu quadril e apertou, fazendo-a friccionar contra a pélvis dele e não havia engano nenhum o que ela sentiu.
Shisui gemeu roucamente contra seus lábios e foi então que aconteceu. Sua mente voltou ao presente, a exatamente o que estava acontecendo, e Sakura se afastou um pouco quando Shisui tentou beijá-la novamente. A sensação de que faziam algo errado agora era muito real.
Ele sorriu com bom humor, observando-a com as sobrancelhas erguidas. "Volta aqui, linda."
"Shi, eu–" Sakura se interrompeu quando o rosto dele, aceso com felicidade, se fechou aos poucos, realização do que ela estava prestes a dizer com certeza tendo um efeito em seu humor. Sakura suspirou, cansada, e fechou os olhos brevemente. "Não acho que devemos continuar com isso."
Shisui engoliu, mas levantou-se de cima dela imediatamente, sentando no chão e passando uma mão em seus cabelos bagunçados. Ele olhava para o nada agora, sem dúvida pensando sobre o que quase aconteceu.
"Não podemos fazer isso funcionar assim, você sabe disso," Sakura disse suavemente, tentando não chateá-lo ainda mais. Seu peito apertou com a tristeza que sabia que viria. Não queria nada mais que passar seus braços ao redor dele e mantê-lo para sempre consigo, mas tinha que fazer isso da maneira correta. Nesse momento Shisui estava noivo. Não importava se era arranjado e contra a vontade dele; o fato era que estava.
Sakura se sentou, franzindo o cenho e olhando para ele. Suas costas estavam rígidas, suas mãos apoiadas nos joelhos, em punhos. Ela suspirou e estendeu uma mão para tocá-lo no ombro. Antes que pudesse tocá-lo, Shisui se voltou a ela.
As pontas dos dedos dele tocaram um lado de seu rosto, na bochecha, levemente. Ele a olhou seriamente nos olhos. "Em breve."
E então estava sozinha novamente na floresta.
